domingo, 14 de dezembro de 2025

A semente mágica - capítulo 9

 


Então, a Rosa me disse que queria conversar comigo amanhã — Abner disse sorridente ao provar mais um aipim frito que Marcos fizera.

Marcos, que estava lavando a louça, sorriu e terminou de lavar dois copos, pondo-os sobre a pia.

— Então, ela se rendeu ao seu cheiro? — Ele provocou o amigo.

— Nada — Abner respondeu ainda sorrindo. — Se fosse por causa do meu cheiro de peão suado, ela correria para longe.
Marcos sorriu e levou dois copos mais a cerveja para o chão onde estava o prato cheio de aipins fritos e amanteigados. Era algo simples, mas um ótimo momento que estava passando à primeira vez depois de alguns meses desde que se conheceram e firmaram uma sólida amizade.

Ele também sentou-se no chão e puxou o cabelo enxuto para trás.

— Então, quer dizer que mesmo depois de tanta persistência, Rosa aceitou ficar com você? — Marcos perguntou ao abrir a tampa da garrafa de cerveja.

Abner ergueu os dois braços, como que se rendendo.

— Opa, opa. Calma — ele falou bem-humorado. — Ela ainda não aceitou nada, só disse que queria conversar comigo amanhã.

— Bem, não custa nada ter esperança, não é? — Marcos disse ao encher os dois copos. — Pega. — Ele indicou um dos copos com um aceno de cabeça.

Os dois encostaram os dois copos de vidro em um brinde e Abner olhou atentamente para Marcos após dar um gole na cerveja.

— Marcos, você está gostando da Júlia? — Abner indagou.
Marcos engasgou, deixando cair um pouco de cerveja em sua blusa e no chão. Ele torciu um pouco e encarou o amigo. Ah, não... Júlia novamente. Quantas vezes só o nome da dondoca sendo mencionado — ou pensado — estragaria o seu dia?

— Por que essa pergunta assim, tão de repente? — Marcos questionou ao levantar-se para pegar um pano seco ao lado da pia.

Abner deu de ombros.

— É que você me contou sobre o incidente que teve com ela na cachoeira. E lá na casa do patrão, você não tirava os olhos dela... Aí eu logo pensei que você está gostando dela.

O contentamento e satisfação de Marcos já tinham ido embora só de ouvir o nome dela. Perfeito, ele pensou irritado enquanto limpava a mancha em sua blusa e depois o líquido derramado no chão.

— Não — respondeu com rispidez. — Por que eu haveria e gostar de uma dondoca metida e arrogante igual aquela?

Abner serviu-se de mais um aipim frito.

— Só foi uma pergunta — disse. — Mas, de qualquer forma, fique esperto, pois a senhorita Júlia é uma pessoa bem complicada. O resto dos peões nem mexem com ela, pois sabem que ela tem um gênio ruim.

Marcos pareceu indiferente ao aviso. Voltou a se levantar, lavou o pano sujo e as mãos lambuzadas pela cerveja, e voltou para o seu lugar, também servindo-se do delicioso aipim.

— Não sou os outros peões — Ele disse ao fitar o amigo. — E não tenho medo dos chiliques daquela dondoca. Se ela tem um gênio ruim, eu também tenho.

Por um momento, Marcos achou graça do que havia dito sobre "gênio ruim", pois logo lembrou-se da criatura estranha que o havia visitado.

— Ela é a filha do patrão, Marcos — Abner ressaltou. — Seja cuidadoso em seus modos quando estiver perto dela.

Não teria como Marcos ignorar ao pedido de Abner. Ele era um dos peões mais antigos da fazenda e havia adquirido vasta experiência até ali. O jovem pescador era novo no lugar e não poderia fazer as coisas como bem preferisse, assim garantindo a desaprovação de Abner e de Antônio. Além disso, a dondoca arrogante não poderia ser o pivô de sua demissão da fazenda após ele ter conquistado um trabalho e uma casa. Não iria jogar fora o que tinha por causa dela.

— Não se preocupe — Marcos assegurou. — Nada me interessa naquela garota, nem mesmo brigar. Não vou arriscar meu emprego aqui por tão pouco.

Abner assentiu.

— Está bem.

— Agora, por favor, vamos mudar de assunto — Marcos pediu ao dar mais outro gole na cerveja.


Marcos terminou de secar o prato e os copos que havia lavado e os guardou num pequeno armário acima da pia. Apesar de já estar um pouco tarde e estar um pouco cansado, sentia-se bem e satisfeito por ter passado um fim de tarde com o único amigo que tinha na fazenda. Antônio também era uma pessoa especial, mas era somente com Abner que Marcos tinha uma relação mais achegada. É claro que o breve assunto sobre a filha do patrão o havia deixado irritado, mas nada que fosse estragar a pequena confraternização.

Marcos secou suas mãos no pano de prato e olhou para o pequeno hack na parede oposta.

— Só falta eu ajuntar um pouquinho mais e comprar uma TV — disse consigo mesmo. — Se tivesse um futebol para ver, Abner e eu poderíamos nos divertir mais.

— Concordo, apesar de eu achar este lugar um tédio do mesmo jeito — disse uma voz estranha e já conhecida.

Marcos fitou com surpresa e espanto o Gênio encostado perto da janela, olhando de volta para ele.

— Meu Deus, você é mesmo real — Marcos disse sem ainda querer acreditar que uma criatura sobrenatural estava novamente em sua casa. — E eu que pensei que aquilo pudesse ser um sonho estranho...

O Gênio continuou a fitá-lo.

— Ouvi a sua conversa com o seu amigo.

Marcos o encarou com desconfiança.

— Qual delas? — indagou.

— Sobre a mulher que persegue os seus pensamentos — o Gênio respondeu, percebendo que a expressão de Marcos havia tornado-se mais séria. — Parece que você quer evitar falar dela.

— Sim, quero — Marcos respondeu sem rodeios. — Aquela mulher é igual às outras dondocas da cidade grande, e ainda por cima, é filha do dono da fazenda. Não há porquê falar dela.

— Parece que a pergunta de seu amigo não foi respondida — O Gênio continuou, pouco importando-se com a expressão irritada do jovem pescador. — Você gosta dela?

Marcos contraiu a mandíbula, irritado, e jogou o pano de prato em cima do fogão.

Pronto. Mais um para apurrinhar a sua mente com as lembranças da dondoca arrogante.

— Você não é um "gênio sobrenatural"? Acho que deveria saber as respostas — Marcos rosnou.

O Gênio sorriu. Pessoas temperamentais eram, de fato, um prato cheio.

— Sim, eu sei a resposta — respondeu bem-humorado. — Mas quero saber por você.

Marcos suspirou agitado.

Não havia como fugir daquele assunto ou sequer colocar aquela criatura para fora de sua casa, pois aquilo não era um ser humano comum. Por que sentiam tanta vontade de tirar a sua paciência, falando sobre uma mulher que nem mesmo o suportava?

— E isso vai fazer alguma diferença na minha vida? — Marcos rebateu. — Ela não me suporta e nem eu a suporto. Fim de papo.

— Fim? — O Gênio mexeu a cabeça em negativo. — Parece que esse é o começo do que virá entre vocês.

— Não virá nada, está bem? — Marcos andou na direção da janela para ver o céu estrelado, sentindo-se ser observado. — Olhe, eu sei que você pode saber de muitas coisas envolvendo o meu passado, mas meu futuro quem faz sou eu. Ainda porque eu só a conheci ontem, e posso dizer com toda a certeza que foi um desprazer voltar a vê-la.

O Gênio deu alguns passos à frente e também apoiou-se na janela, ao lado do jovem pescador. Marcos o fitou desconfiado.

— Sei que você mesmo é quem fará o seu próprio futuro, meu jovem. Você deve seguir o que o seu coração e sua mente disser. — O Gênio disse. — Mas eu já disse antes que estou aqui para aconselhá-lo e guiá-lo no caminho certo, não foi?

Marcos continuou a fitá-lo, mas logo desviou o olhar para o céu estrelado.

— Sim, entendo — o pescador respondeu um pouco mais calmo que antes. — Mas assim como eu já disse para Antônio que o trabalho na cidade grande não era para um homem como eu, volto a dizer o mesmo quando trata-se da filha dele. — Marcos esboçou um leve sorriso amarelo. — A diferença entre ela e o lugar onde trabalhei, é que com ela darei um basta antes mesmo de começar algo.

— Sim — A voz temerosa do Gênio voltou a surgir após um momento de silêncio. — Mas fico me perguntando se essa é a sua mente ou o seu coração falando.

Marcos desviou os olhos do campo aberto para seu quarto escuro. O Gênio não estava mais lá, havia desaparecido após lhe dizer algo confuso.

Não, Marcos não sabia qual lado estava falando, nem mesmo sabia qual seria o correto a seguir. Mas, infelizmente, sabia que o seu coração não podia ser entregue a uma garota tão complicada como Júlia ou acabaria sendo tarde demais.



A semente mágica - capítulo 8

 


Juliana adentrou o quarto logo à frente de Julieta e aliviou-se por Júlia não estar ali. As duas sentaram-se na cama de Juliana.

— Desembucha — Julieta adiantou.

Juliana suspirou derrotada.

— Ok, vou falar. Mas não conte nada disso para a Júlia, por favor — pediu.

Julieta a fitou sem entender.

— Por quê? — a caçula questionou.

Juliana olhou para os seus dedos entrelaçados por um breve momento.

— É porque ela está envolvida no assunto — respondeu.
Julieta continuou sem entender.

— Não consigo entender até onde você quer chegar, Juliana. Que assunto? — indagou confusa.

Juliana olhou para a irmã mais nova e decidiu abrir seus sentimentos para ela. Não era o momento de ficar fazendo drama, e talvez estivesse exagerando um pouco as coisas.

— Bem, é por causa do Paulo, o amigo do seu noivo — Juliana disse finalmente.

Julieta continuou fitando-a, ainda sem entender.

— E o que Paulo tem a ver com isso? — a caçula perguntou.
Juliana pensou no que poderia responder. Dizer que estava apaixonada por um rapaz que havia acabado de conhecer seria um grande exagero.

— Não sei se você percebeu, mas ele não parava de olhar para mim, desde a hora do chá até o momento de virmos embora — Juliana disse.

— E qual seria o problema? — Julieta deu de ombros. — Isso significa que ele gostou de você.

— Mas é aí que está o problema — Juliana continuou. — Júlia também parece ter gostado dele.

Julieta arqueou as sobrancelhas em surpresa.

— Você acha?

— Julieta, você só não percebeu, pois não conseguia tirar os olhos de seu noivo, mas Júlia parecia querer devorar Paulo com os olhos — Juliana respondeu. — De início, eu até correspondi aos olhares dele, mas logo depois me senti desconfortável.

— Por causa de Júlia? — indagou Julieta.

— Mas é claro — Juliana respondeu um tanto incomodada. — E parece que ela notou que eu também estava olhando para ele, pois ficou com uma cara de poucos amigos.

— Júlia sempre tem cara de poucos amigos — Julieta disse fazendo ambas sorrirem. — Mas e você, gosta dele?

Juliana assentiu, um pouco sem jeito. Jamais havia sentido-se tão acanhada.

— Acho que é um pouco cedo para dizer isso, mas, sim — respondeu.

Julieta sorriu.

— Amor à primeira vista — Julieta falou sonhadora. — O mesmo aconteceu entre Romeu e eu.

— Não é amor — Juliana contradisse.

— Você pode achar que não é agora, mas aos poucos perceberá — Julieta insistiu. — E você se deu bem, pois ele parece sentir o mesmo.

— Foi só uma mútua atração, Julieta — Juliana disse. — Pare de exagerar.

— Você só diz isso porque escreve histórias de drama e tragédia, enquanto eu leio apenas livros de romance — Julieta brincou.

Juliana sorriu achando graça.

— Meus livros não são sobre tragédia — defendeu-se de brincadeira, mas logo voltou a ficar séria e pensativa. — E como eu já disse antes, Júlia está no caminho.

— Não seria algo de sua cabeça? — Julieta perguntou. — Talvez, ela não queira nada com ele.

— Acabei de te dizer que ela não parava de olhar para ele — Juliana repetiu um pouco impaciente. — Ela gostou dele.

Julieta a encarou em descrença.

— Ah, não. Nem venha me dizer que está desistindo de Paulo por causa de Júlia.

— E o que você quer que eu faça? Que eu dispute o coração dele com a minha irmã? — Juliana contestou.

Julieta olhou rapidamente para a pequena brecha da porta do quarto.

— Mas a Júlia não gosta do Paulo, ela gosta do Marcos, o pescador — Julieta insistiu, agora com o Tom de voz um pouco mais baixo. — Você não percebeu como ela ficou toda vermelha perto dele?

Juliana assentiu.

— Sim, eu percebi — respondeu. — Mas Júlia é do tipo muito ambicioso, e aquele pescador mal tem onde cair morto, coitado. Você acha mesmo que ela iria trocar um homem rico como Paulo pelo Marcos?

Julieta pensou por um momento, já sabendo a resposta.

Não, não trocaria. Apesar da nítida atração que Júlia sentia pelo pescador, seu foco de vida era ter alguém muito endinheirado ao lado e que pudesse enchê-la de mimos, e Marcos não tinha aquilo.

A vida pode ser muito ruim às vezes, pensou Julieta. Por que calhou das duas gostarem do mesmo homem?

Julieta suspirou derrotada ao olhar para a irmã mais velha que continuava a olhar para seus dedos entrelaçados acima do colo. Com certeza, não devia estar sendo fácil para Juliana.

— E agora? — Julieta perguntou numa última esperança de tentar resolver aquela questão.

Juliana deu de ombros, ainda olhando para os dedos entrelaçados. Encarar Julieta ou quem quer que fosse naquele momento não adiantaria nada, pois estava sentindo uma terrível vontade de chorar.

— Eu não sei — respondeu com a voz fraca.

— Oh, maninha...

Julieta apiedou-se de sua irmã e acariciou-lhe o cabelo castanho.

Ela não queria ver Juliana tão triste e também não queria estar no lugar dela, pois jamais imaginaria desistir de Romeu por qualquer outra mulher; o amava muito. Mas quem sabe, lá na frente, houvesse um ponto de esperança para Juliana e Paulo?

Julieta suspirou frustrada.

Se Júlia não fosse tão ambiciosa, as coisas poderiam fluir de modo natural e que não machucasse os sentimentos de ninguém. Contudo, como sabia que a sua querida irmã metropolitana dava tanto valor às coisas materiais, seria bem capaz de Juliana e Marcos ficarem a ver navios.


Marcos ergueu um pouco o chapéu e enxugou o suor da testa. Outrora, o tempo estava bem fresco e ameno, mas naquele momento, seu corpo implorava por um banho urgente após longas horas de trabalho.

Ele cravou a enxada no chão e apoiou-se no cabo para ver o pôr-do-sol no horizonte. Marcos sorriu. Quase não se via um pôr-do-sol como aquele, mesmo depois de poucos meses trabalhando na fazenda, apenas no vilarejo praiano que tivera morada com o pai. Era bom ter aquelas boas lembranças. Foram tempos felizes que viveu ao lado de seu pai e de outros amigos aldeões, tempos esses que talvez não voltariam mais.

O vento correu pelo enorme milharal e tocou em sua face suada e exausta. Marcos agradeceu por ter um pequeno alívio como o vento para refrescá-lo por um instante.

Admirar o pôr-do-sol não somente lhe trazia alívio ou lembranças do passado, mas também pensamentos um tanto incômodos. Marcos não conseguia para de pensar no que Antônio dissera e na filhinha metida dele.

Antônio era como um tio para ele e o mais próximo de um pai naqueles tempos atuais na fazenda, e o respeitava muito. Mas Marcos não lhe daria mais ouvido se o assunto do trabalho na cidade grande ocorresse novamente. Ele sabia que o patrão queria o seu bem, mas havia sido tratado com preconceito apenas por seu um aldeão de beira de praia, mesmo após anos de estudo, esforço e cooperação no trabalho. Aquelas pessoas não quiseram ver o seu potencial, apenas o trataram como um imbecil, mesmo após o terem escravizado, praticamente. Não que Marcos fosse do tipo que desistisse fácil de seus sonhos e objetivos de vida, pelo contrário. Mas para tudo havia um limite e não aceitaria mais ser feito de bobo por ninguém.

E por falar em bobo, Marcos pensou amargamente ao lembrar-se da dondoca mais velha. Júlia era o nome dela.

A conhecia há tão pouco tempo e já não sabia se gostava dela ou a odiava. Desprezava profundamente a maioria das pessoas ricas e bem nascidas, pois elas sempre achavam ser tão superiores ao ponto de interiorizar e humilhar pessoas mais pobres em vez de ajudá-las ou tratá-las como iguais. Infelizmente, muitas pessoas no mundo deixariam o valor de suas contas bancárias influenciar em suas personalidades. Antônio era uma das raras exceções, assim como as suas duas filhas mais novas também pareciam ser, exceto a que mais havia mexido consigo.

Um tanto irritado, Marcos desenterrou a enxada e continuou a cavar, embora seu expediente já tivesse terminado. Mas seria melhor fazer algo para tentar tirar a dondoca arrogante da cabeça.