domingo, 14 de dezembro de 2025

A semente mágica - capítulo 8

 


Juliana adentrou o quarto logo à frente de Julieta e aliviou-se por Júlia não estar ali. As duas sentaram-se na cama de Juliana.

— Desembucha — Julieta adiantou.

Juliana suspirou derrotada.

— Ok, vou falar. Mas não conte nada disso para a Júlia, por favor — pediu.

Julieta a fitou sem entender.

— Por quê? — a caçula questionou.

Juliana olhou para os seus dedos entrelaçados por um breve momento.

— É porque ela está envolvida no assunto — respondeu.
Julieta continuou sem entender.

— Não consigo entender até onde você quer chegar, Juliana. Que assunto? — indagou confusa.

Juliana olhou para a irmã mais nova e decidiu abrir seus sentimentos para ela. Não era o momento de ficar fazendo drama, e talvez estivesse exagerando um pouco as coisas.

— Bem, é por causa do Paulo, o amigo do seu noivo — Juliana disse finalmente.

Julieta continuou fitando-a, ainda sem entender.

— E o que Paulo tem a ver com isso? — a caçula perguntou.
Juliana pensou no que poderia responder. Dizer que estava apaixonada por um rapaz que havia acabado de conhecer seria um grande exagero.

— Não sei se você percebeu, mas ele não parava de olhar para mim, desde a hora do chá até o momento de virmos embora — Juliana disse.

— E qual seria o problema? — Julieta deu de ombros. — Isso significa que ele gostou de você.

— Mas é aí que está o problema — Juliana continuou. — Júlia também parece ter gostado dele.

Julieta arqueou as sobrancelhas em surpresa.

— Você acha?

— Julieta, você só não percebeu, pois não conseguia tirar os olhos de seu noivo, mas Júlia parecia querer devorar Paulo com os olhos — Juliana respondeu. — De início, eu até correspondi aos olhares dele, mas logo depois me senti desconfortável.

— Por causa de Júlia? — indagou Julieta.

— Mas é claro — Juliana respondeu um tanto incomodada. — E parece que ela notou que eu também estava olhando para ele, pois ficou com uma cara de poucos amigos.

— Júlia sempre tem cara de poucos amigos — Julieta disse fazendo ambas sorrirem. — Mas e você, gosta dele?

Juliana assentiu, um pouco sem jeito. Jamais havia sentido-se tão acanhada.

— Acho que é um pouco cedo para dizer isso, mas, sim — respondeu.

Julieta sorriu.

— Amor à primeira vista — Julieta falou sonhadora. — O mesmo aconteceu entre Romeu e eu.

— Não é amor — Juliana contradisse.

— Você pode achar que não é agora, mas aos poucos perceberá — Julieta insistiu. — E você se deu bem, pois ele parece sentir o mesmo.

— Foi só uma mútua atração, Julieta — Juliana disse. — Pare de exagerar.

— Você só diz isso porque escreve histórias de drama e tragédia, enquanto eu leio apenas livros de romance — Julieta brincou.

Juliana sorriu achando graça.

— Meus livros não são sobre tragédia — defendeu-se de brincadeira, mas logo voltou a ficar séria e pensativa. — E como eu já disse antes, Júlia está no caminho.

— Não seria algo de sua cabeça? — Julieta perguntou. — Talvez, ela não queira nada com ele.

— Acabei de te dizer que ela não parava de olhar para ele — Juliana repetiu um pouco impaciente. — Ela gostou dele.

Julieta a encarou em descrença.

— Ah, não. Nem venha me dizer que está desistindo de Paulo por causa de Júlia.

— E o que você quer que eu faça? Que eu dispute o coração dele com a minha irmã? — Juliana contestou.

Julieta olhou rapidamente para a pequena brecha da porta do quarto.

— Mas a Júlia não gosta do Paulo, ela gosta do Marcos, o pescador — Julieta insistiu, agora com o Tom de voz um pouco mais baixo. — Você não percebeu como ela ficou toda vermelha perto dele?

Juliana assentiu.

— Sim, eu percebi — respondeu. — Mas Júlia é do tipo muito ambicioso, e aquele pescador mal tem onde cair morto, coitado. Você acha mesmo que ela iria trocar um homem rico como Paulo pelo Marcos?

Julieta pensou por um momento, já sabendo a resposta.

Não, não trocaria. Apesar da nítida atração que Júlia sentia pelo pescador, seu foco de vida era ter alguém muito endinheirado ao lado e que pudesse enchê-la de mimos, e Marcos não tinha aquilo.

A vida pode ser muito ruim às vezes, pensou Julieta. Por que calhou das duas gostarem do mesmo homem?

Julieta suspirou derrotada ao olhar para a irmã mais velha que continuava a olhar para seus dedos entrelaçados acima do colo. Com certeza, não devia estar sendo fácil para Juliana.

— E agora? — Julieta perguntou numa última esperança de tentar resolver aquela questão.

Juliana deu de ombros, ainda olhando para os dedos entrelaçados. Encarar Julieta ou quem quer que fosse naquele momento não adiantaria nada, pois estava sentindo uma terrível vontade de chorar.

— Eu não sei — respondeu com a voz fraca.

— Oh, maninha...

Julieta apiedou-se de sua irmã e acariciou-lhe o cabelo castanho.

Ela não queria ver Juliana tão triste e também não queria estar no lugar dela, pois jamais imaginaria desistir de Romeu por qualquer outra mulher; o amava muito. Mas quem sabe, lá na frente, houvesse um ponto de esperança para Juliana e Paulo?

Julieta suspirou frustrada.

Se Júlia não fosse tão ambiciosa, as coisas poderiam fluir de modo natural e que não machucasse os sentimentos de ninguém. Contudo, como sabia que a sua querida irmã metropolitana dava tanto valor às coisas materiais, seria bem capaz de Juliana e Marcos ficarem a ver navios.


Marcos ergueu um pouco o chapéu e enxugou o suor da testa. Outrora, o tempo estava bem fresco e ameno, mas naquele momento, seu corpo implorava por um banho urgente após longas horas de trabalho.

Ele cravou a enxada no chão e apoiou-se no cabo para ver o pôr-do-sol no horizonte. Marcos sorriu. Quase não se via um pôr-do-sol como aquele, mesmo depois de poucos meses trabalhando na fazenda, apenas no vilarejo praiano que tivera morada com o pai. Era bom ter aquelas boas lembranças. Foram tempos felizes que viveu ao lado de seu pai e de outros amigos aldeões, tempos esses que talvez não voltariam mais.

O vento correu pelo enorme milharal e tocou em sua face suada e exausta. Marcos agradeceu por ter um pequeno alívio como o vento para refrescá-lo por um instante.

Admirar o pôr-do-sol não somente lhe trazia alívio ou lembranças do passado, mas também pensamentos um tanto incômodos. Marcos não conseguia para de pensar no que Antônio dissera e na filhinha metida dele.

Antônio era como um tio para ele e o mais próximo de um pai naqueles tempos atuais na fazenda, e o respeitava muito. Mas Marcos não lhe daria mais ouvido se o assunto do trabalho na cidade grande ocorresse novamente. Ele sabia que o patrão queria o seu bem, mas havia sido tratado com preconceito apenas por seu um aldeão de beira de praia, mesmo após anos de estudo, esforço e cooperação no trabalho. Aquelas pessoas não quiseram ver o seu potencial, apenas o trataram como um imbecil, mesmo após o terem escravizado, praticamente. Não que Marcos fosse do tipo que desistisse fácil de seus sonhos e objetivos de vida, pelo contrário. Mas para tudo havia um limite e não aceitaria mais ser feito de bobo por ninguém.

E por falar em bobo, Marcos pensou amargamente ao lembrar-se da dondoca mais velha. Júlia era o nome dela.

A conhecia há tão pouco tempo e já não sabia se gostava dela ou a odiava. Desprezava profundamente a maioria das pessoas ricas e bem nascidas, pois elas sempre achavam ser tão superiores ao ponto de interiorizar e humilhar pessoas mais pobres em vez de ajudá-las ou tratá-las como iguais. Infelizmente, muitas pessoas no mundo deixariam o valor de suas contas bancárias influenciar em suas personalidades. Antônio era uma das raras exceções, assim como as suas duas filhas mais novas também pareciam ser, exceto a que mais havia mexido consigo.

Um tanto irritado, Marcos desenterrou a enxada e continuou a cavar, embora seu expediente já tivesse terminado. Mas seria melhor fazer algo para tentar tirar a dondoca arrogante da cabeça.



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