domingo, 14 de dezembro de 2025

A semente mágica - capítulo 7

 


Ah, não... Aquilo só podia ser um pesadelo, Júlia pensou frustrada. Não que ela já não soubesse que o pescador fedido trabalhava para seu pai, mas também não esperava voltar a ver o rosto daquele sujeito arrogante tão cedo. Decidira descansar quando chegasse em casa e colocar os pensamentos em ordem, mas sabia que agora seria praticamente impossível. O infeliz estava lá, fitando-a com um sorriso provocativo emoldurando os lábios carnudos e belos. O vira saudá-la com um aceno do chapéu, como se estivesse satisfeito em vê-la, o que não era bom. Júlia não queria que ninguém, além de suas irmãs, soubesse o que havia ocorrido na cachoeira — e não era por ele, mas porque não queria lembrar daquela cena completamente humilhante. Antônio avistou Marcos e sorriu satisfeito em vê-lo. — Darei o pagamento a todos, mas peço para que você me espere um pouco — disse Antônio. — Quero conversar com você. — Sim, senhor — Marcos respondeu de imediato, desviando seu olhar da filha do patrão. Marcos concordou com um aceno de cabeça, mas com certa desconfiança. O que Antônio queria a sós com ele? Que não fosse pela filha ter revelado o que havia ocorrido na cachoeira um dia antes, pois não podia perder o emprego; não ainda. Marcos voltou a fitar a bela moça de olhos esverdeados. Ela parecia estar irritada com algo, contudo, seus olhos revelavam surpresa e espanto ao notar a sua presença. Marcos desceu mais um pouco o olhar e finalmente notou a presença e mais duas jovens que com certeza deviam ser suas irmãs, pois eram parecidas. Uma tinha o cabelo da mesma cor que o cabelo do pai e a outra tinha a cor do cabelo num tom até mais claro que a cor do cabelo da dondoca da cachoeira. Parecia ser engraçado, mas as duas estavam olhando para ele e sorrindo. Diferente das moças da cidade, aquelas duas pareciam sorrir com acanhamento, e não com deboche. Marcos sorriu para elas. Eram tão lindas quanto a irmã. Júlia olhou para o pai e afastou-se, não para dentro de casa, mas em direção ao degrau da escada onde suas irmãs estavam sentadas e animadinhas demais para o seu gosto. — Ele é lindo — cochichou Julieta para Juliana, que também sorria com um misto de timidez com atrevimento. Júlia desviou seu olhar do pescador que olhava em sua direção, ainda com o mesmo sorriso insolente, e encarou as irmãs. — Do que é que vocês estão rindo e cochichando? — indagou amuada. Ambas olharam ao mesmo tempo para ela. — É ele, Júlia? — Juliana perguntou sorridente. — O "pescador fedido"? Júlia engoliu em seco e esforçou-se para não encarar o idiota. — Sim, é ele — respondeu de modo seco. Julieta deu mais uma olhada para o pescador enquanto Antônio distribuía o pagamento do mês aos funcionários. Marcos sorriu de volta, e rapidamente Julieta desviou o olhar para a irmã mais velha. — Ele é lindo! — Julieta disse tão sorridente quanto Juliana. Júlia estreitou o olhar para irmã caçula. Uma parte de si não havia gostado do elogio repentino. — Achei que você só tinha olhos para o seu noivo — Júlia lembrou de modo ríspido. — E tenho — disse Julieta. — Mas estou dizendo a verdade, ele é muito lindo. — Verdade, Júlia — Juliana concordou. — Como você pode chamar um homem desse de "pescador fedido"? — Porque é isso o que ele é, oras. — Júlia deu de ombros. — Vá você mesma perguntar e ele responderá que é um pescador. E, por favor, parem de rir e cochichar desse jeito. Estão parecendo duas crianças. — Você é muito irritadiça, Júlia — Juliana reclamou e voltou a sua atenção para o jovem pescador. — Ei, você — ela o chamou, despertando a sua atenção. — Pode vir aqui, por favor? Abner olhou para Marcos. — O que será que elas querem contigo? Marcos deu de ombros, sem entender. — Não sei. Vou ver — respondeu e deu alguns passos à frente. As sobrancelhas de Júlia se arquearam em surpresa e ela encarou as duas irmãs. — O que você está fazendo? — Júlia perguntou a Juliana. Juliana deu de ombros, indiferente. — Ora, você mesma disse para eu perguntar se ele é ou não um pescador — defendeu-se. — Ele é. Ponto — Júlia respondeu de imediato. O que a louca da sua irmã estava pensando? — Tarde demais — Julieta falou apontando à frente. Júlia olhou para a mesma direção e notou que Marcos já estava à frente dos degraus da escadaria de entrada da casa. Inferno. Por que o destino teve que juntar, mais uma vez, ela e aquele traste?, pensou irritada. Ela desviou o olhar para a entrada da casa, mas desistiu. Não fugiria somente por causa e um pescador imundo e arrogante. — Chamou, senhorita? — Marcos perguntou, olhando mais para a dondoca do que para as outras duas. Ela certamente estava irritada com algo. Seria com ele? — Sim, sim. — Juliana sorriu. — Venha aqui, por favor. Marcos sorriu e assentiu, subindo mais três degraus da escada. Júlia mais uma vez encarou as duas irmãs. O que elas queriam com aquilo? Aliás, por que estava se importando tanto? Marcos parou dois degraus abaixo, as duas irmãs mais novas tentaram disfarçar o sorriso. — O que as senhoritas desejam? — Marcos perguntou às duas jovens, mas seu olhar não conseguia desviar da que mais ignorava a sua presença. — Primeiramente, vamos nos apresentar: meu nome é Juliana. — Meu nome é Julieta — disse a caçula. — Oh, Julieta? — Marcos perguntou surpreso. — Como "Romeu e Julieta"? Julieta assentiu. — O noivo dela chama-se Romeu — disse Juliana. Marcos sorriu. — Que coincidência. — Coincidência é um mero peão saber o que é "Romeu e Julieta" — Júlia disse secamente. Marcos olhou para a fonte de seu mais recente desejo. Mesmo irritada, ela continuava linda. — E o nome da senhorita é...? — Não lhe interessa — Júlia disparou. — Júlia, não seja tão grosseira! — disse Julieta para a irmã mais velha. Júlia a ignorou. Não deixaria ser repreendida pela irmã caçula. Marcos sorriu. — "Júlia"... — ele repetiu assentindo. — Lindo nome. Meu nome é Marcos. — Júlia disse que você é pescador — Juliana adiantou-se. — É verdade? O sorriso de Marcos tornou-se maior. — Só "pescador"? — ele interrogou olhando de soslaio para Júlia, que mal o encarava. Júlia não havia deixado de notar o tom sarcástico dele. Pelo visto, o pescador fedido queria que as pessoas soubessem do incidente na cachoeira. As duas irmãs mais novas olharam na mesma direção do olhar de Marcos. — Bem, ela disse que você é um pescador fedido — Juliana respondeu achando graça. — Mas você não parece feder. Marcos deu de ombros. — Talvez a irmã de vocês tenha se enganado — disse ele. Júlia voltou sua atenção para eles. — Querem parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui? — Mas foi você quem escolheu não falar nada, Júlia — Juliana disse à irmã mais velha. Marcos apoiou o braço forte em uma das pernas, dando uma maior visão para o peitoral forte e bronzeado. Algo dentro de Júlia havia apreciado a cena. — Como a sua presença poderia ser ignorada, senhorita? Júlia fitou o pescador insolente. Mesmo conversando com Juliana e Julieta, ele mantinha os olhos praticamente fixos nela. Júlia não sabia exatamente se gostava, ou não, de ter a atenção de um homem tão belo fixada nela. Contudo, para a sua infelicidade, o rapaz em questão não passava de um pobretão impertinente, bem diferente de Paulo. Mas por que ela estava pensando naquilo? Até parece que estava atraída por um pescador fedido daquele. — Não sei. Mas a sua, sim — ela respondeu com certa audácia e rapidamente correu em direção à casa. Não havia nada para fazer ali. O olhar de Marcos acompanhou os passos de Júlia, até perceber que as outras duas senhoritas o observavam com atenção. — Você gosta dela, não é? — indagou Juliana que sorria. Marcos também sorriu, mas um tanto nervoso. Por que aquela pergunta de repente? Era óbvio que ele não gostava de uma dondoca como Júlia. Há pouco, ele havia percebido que ela era igual às dondocas da cidade, e daquele tipo de gente ele queria distância. — Não, senhorita Juliana — Marcos respondeu, ainda que algo dentro dele dissesse o contrário. — É impressão sua. — Não precisa nos tratar como "senhorita" — Julieta falou. — Apesar de ser um dos peões do nosso pai, você não é muito diferente de nós. Marcos sorriu agradecido. Aquelas duas eram bem diferentes da irmã. Quem dera Júlia fosse tão simpática quanto elas. — Tudo bem, Juliana e Julieta — Marcos concordou com o humor um pouco melhor. — Vocês são as irmãs mais novas, não é? — Sim — Juliana respondeu. — Júlia é a mais velha, eu sou a irmã do meio e Julieta é a mais nova — disse ela apontando para a irmã caçula que assentiu. Antônio havia terminado de dar o pagamento de Abner quando olhou para Marcos conversando com duas de suas filhas. Por um momento, perguntou-se o que ele estava fazendo ali, mas também achou ótimo que eles estivessem se conhecendo. — Marcos! Marcos olhou à sua esquerda e notou que o patrão o chamava. — Perdão, senhoritas, mas terei de rir — disse para as duas jovens. — Foi um prazer conhecê-las. — Também foi um prazer — Juliana disse encantada. — E nada de "senhoritas" — Julieta lembrou-lhe. Marcos esboçou um pequeno sorriso e acenou com o chapéu antes de se retirar. As duas irmãs olharam o belo pescador ir na direção do pai delas e ser seguido por Abner. — Júlia foi muito severa com ele — Disse Juliana. — Ele disse que não, mas aposto que gosta dela. Julieta assentiu. — Também acho — concordou. — Aliás, quero que você me conte o que te deixou tão calada — Julieta lembrou, deixando Juliana um tanto incomodada.
O físico do jovem peão estava mais forte e mais alto do que o de José na idade dele. Havia se passado dez anos e Marcos tinha tornado-se um homem tão honesto e bondoso quanto seu pai, mas com uma leve tristeza em seu interior, o que era quase um contraste do menino alegre e sorridente que conhecera anteriormente.

— Acho que a gente pode fazer hoje o que tínhamos em mente — Abner comentou a Marcos. — O que você acha? Marcos assentiu. — Sim, claro — respondeu. Abner olhou rapidamente para trás e chegou mais perto do amigo. — Foi uma daquelas garotas? Marcos o fitou, confuso. — O que? — O "incidente" — Abner o lembrou. — Ah, entendo — Marcos respondeu ao lembrar de ter comentado sobre o episódio na cachoeira. — Foi a mais velha. — A Júlia? — Abner parecia surpreso e um pouco assustado. — Aquela é a pior. — Ah, é. Mas nada que me assuste — Marcos disse indiferente. — Seu Antônio — Abner cumprimentou o patrão com um aceno do chapéu. Voltou a atenção para o mancebo. — Marcos, vou me adiantando. Logo mais nos encontramos. Marcos assentiu e sorriu para o amigo. — Tudo bem, até mais tarde. — Marcos voltou sua atenção para Antônio quando Abner se retirou. — Seu Antônio. Precisava falar comigo? O patrão assentiu. — Sim — Antônio respondeu e olhou para os degraus da escada, notando que as filhas já não estavam mais ali. Olhou para Marcos. — Quero saber se você está gostando do trabalho, se precisa de algo. Marcos sorriu agradecido. Diferente de outras pessoas para quem já havia trabalhado, Antônio era gentil e preocupado com seus funcionários. Claramente, Juliana e Julieta haviam herdado a gentileza do pai. — Não, senhor — o pescador respondeu. — Agradeço por se importar, mas está indo tudo muito bem. Só falta eu comprar uma TV quando eu receber meu pagamento. Mas, tirando isso, não falta mais nada. — Pretende comprar uma TV? — Antônio perguntou enquanto tirava um bolo de dinheiro do bolso e contou nota por nota. — Sim, senhor — Marcos respondeu. — Ainda não estou acostumado com esse silêncio todo e pretendo comprar uma TV barata para eu me entreter um pouco. — Sim, claro. — Antônio assentiu e entregou o pagamento a Marcos. — Obrigado, senhor — Marcos agradeceu. Antônio quase tinha dito que lhe daria uma TV nova que ainda tinha em casa e que raramente era usada, mas sabia que Marcos não aceitaria o presente. Orgulhoso como era, igual ao pai, não aceitaria mais uma regalia do patrão além da casa que recebera dentro das terras da fazenda. Às vezes, Marcos mais parecia ser uma versão masculina de sua filha mais velha, porém menos irritadiço e desumilde, Antônio pensou. — Está tudo bem lá na casinha? — Antônio perguntou quando Marcos guardou o monte de dinheiro num dos bolsos. Marcos assentiu. — Sim, senhor. A casinha é jeitosa e boa pra morar — respondeu. — Eu gostaria de perguntar ao senhor se tenho permissão para plantar algumas coisas lá por perto. — Que coisas? — Algumas frutas, legumes, verduras — Marcos respondeu. — Não posso me dar ao luxo de gastar muito. — Mas você mora sozinho e com certeza não deve gastar muito — Antônio contestou. — Além disso, você pode pegar o necessário nas plantações da fazenda. Marcos não achou que aquela fosse uma boa ideia. Antônio tratava bem a todos os funcionários, mas podia sentir que o patrão lhe dava um tratamento um pouco mais especial. Havia uma quitanda fora das terras da fazenda que vendia produtos da terra e outros industrializados, e todos compravam lá. Marcos não queria ser tratado melhor que qualquer outra pessoa apenas por ser o filho do amigo de infância do patrão, pois já lhe bastava a casinha, por pouco tempo. — Senhor, os produtos da fazenda são para vender para outras empresas país afora — Marcos disse após uma breve pausa. — Mas se o senhor não me permitir, eu entenderei. O senhor já faz muito por mim. Antônio olhou para o rapaz mais alto. Por um breve momento, perguntou-se se algum filho homem que talvez pudesse ter com Gisela seria como Marcos. Ele amava muito as três filhas, mas houve um tempo em que queria muito ser pai de um menino, principalmente para poder cuidar melhor de suas três lindas preciosidades. Havia conhecido Marcos quando o mesmo tinha apenas doze anos de idade. Ele era uma criança bem feliz pelo pai que tinha e também por conta do lugar paradisíaco onde morava. Desde então, o menino ocupara um lugar em seu coração, como se fosse um filho que jamais tivera. Antônio assentiu. — Tudo bem, você pode fazer uma pequena plantação por perto da casa — concordou por fim. Marcos esboçou um pequeno sorriso de agradecimento. — Muito obrigado, senhor. Será de grande valia. — Mas plantar não é fácil, Marcos — Antônio aconselhou. — Você deverá ter um pouco de paciência. Marcos assentiu, considerando as palavras daquele homem que era tão experiente naquela área. Antônio havia iniciado o seu império cuidando sozinho das terras, enquanto Marcos só sabia montar e concertar. E, ainda assim, não muito bem quanto os outros peões, pois cresceu como um pescador e há pouco tempo estudara para ser um secretário, apesar de ter dado tudo errado. — Claro, senhor — Marcos respondeu. — Mais alguma coisa? Antônio fez que sim. — Te chamei, principalmente, para perguntar algo: você irá mesmo desistir do seu sonho de se tornar um secretário? Por um momento, Marcos pareceu incomodado com a pergunta. — Não era bem um sonho, senhor — respondeu. — Era apenas um desejo de meu pai para eu iniciar a minha carreira profissional. Mas não deu certo. — E você vai desistir? — Antônio inquiriu. Marcos suspirou profundamente. — Aquilo não era para mim, senhor — o rapaz respondeu à contragosto e deu-lhe um sorriso amarelo. — Vou ir agora. Antônio assentiu, entendendo perfeitamente que Marcos não queria voltar a falar naquele assunto. Pessoas esnobes e arrogantes haviam puxado seu tapete e o deixado pensar que era incapaz, desistindo de um desejo de seu pai para seu futuro. Como o via como um filho, e havia sido melhor amigo de José, Antônio faria o possível para que Marcos continuasse a lutar por uma vida melhor, o que não incluía vê-lo trabalhar como um peão para sempre. Contudo, não diria mais nada naquele momento, pois sabia que o jovem rapaz estava ligeiramente incomodado com o assunto. — Tudo bem, Marcos — Antônio disse por fim. — Pode ir, e cuide-se. Marcos assentiu e deu um leve aceno de cabeça para o patrão. — Até mais, seu Antônio — Marcos se despediu e retirou-se. Antônio observou Marcos partir dali.


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