— Aqui. — Abner pôs a garrafa e os copos no chão e sentou-se perto da cerca pronta.
Marcos ergueu o chapéu e enxugou o suor da testa.
— Obrigado — disse e encheu um copo de água para si. Abner fez o mesmo. — Já cansou?
Abner sorriu e bebeu um gole generoso de água, jogando fora um pequeno gole que havia restado.
— Um pouco — respondeu ofegante e ajeitou o chapéu sobre a fronte. — De manhã cedo e o sol ardendo desse jeito. Está de matar!
Marcos sorriu.
— Isso é porque você só ficou dentro de casa ontem — disse. — O calor estava ainda mais forte e insuportável.
Marcos apoiou o copo no chão e voltou ao trabalho.
— Toquinho disse que o patrão vai pagar nosso salário hoje — Abner falou.
— Acho que sim — Marcos concordou. — Mal posso esperar para comprar uma TV.
— TV? Mas não é mais fácil você comprar um ventilador por conta desse calor todo?
Marcos parou e tomou um pouco de fôlego.
— É, pode ser. Apesar de eu não ter muito o que fazer aqui.
— Vou aparecer lá na sua casa para a gente jogar baralho, então — disse Abner apoiando-se nos braços ao sentir o vento correr.
Marcos sorriu para o amigo.
— Claro. Está convidado.
Abner tornou-se o primeiro amigo de Marcos desde que o jovem pescador havia entrado naquelas terras pela primeira vez. Teve alguns outros peões que ele também havia feito amizade, outros nem tanto, mas Abner sempre fora um bom companheiro. Ele tinha a pele castanha por conta do sol e o rosto um pouco mais envelhecido para sua idade, que era de quarenta e três anos. Abner teria, mais ou menos, a mesma idade de seu pai e também se assemelhava muito a ele no modo de ser, o que fazia Marcos se afeiçoar ainda mais a ele. Abner também era um dos peões de maior confiança de Antônio, pois havia sido um dos primeiros a trabalhar na fazenda, assim ensinando o jovem pescador e novo peão a realizar os trabalhos com precisão. Não importava quanto tempo durasse seu trabalho naquela fazenda, Marcos nunca seria suficientemente grato a Antônio e a Abner pelo que eles fizeram.
— Também vou levar algumas cervejas para a gente — disse Abner com o seu sotaque caipira. — Você bebe, não é?
— Um pouco — Marcos respondeu cravando o madeiro no chão.
— Você faz os petiscos para nós — Abner continuou. — Eu gosto de aipim frito.
Marcos parou e apoiou o pé acima da ponta do madeiro para novamente tomar fôlego. Ser um peão não era nem um pouco fácil. Como Abner e os outros aguentavam?, perguntou-se cansado.
— Ainda vou plantar algumas coisas no quintal lá de casa — Marcos disse. — Mas vou ver onde acho mandiocas por aqui.
Abner ajeitou o chapéu e levantou-se.
— Você só vai achar na quitanda da dona Maria, que fica umas duas ruas depois da fazenda.
Marcos olhou para o outro lado da fazenda. Aquela rancho era tão grande que ficava cansativo andar por ali, quanto mais para outros lugares. Mas não haveria de reclamar agora. Conhecera Abner há um certo tempo e essa seria a primeira vez que eles iriam confraternizar.
— Entendo — o pescador disse por fim. — Que dia, então?
— Depois que a agente receber o pagamento do patrão — Abner respondeu.
— Tudo bem. — Marcos voltou a concentrar-se no trabalho.
Abner pegou o outro porrete do chão e apressou-se em ajudar o jovem rapaz.
— Depois que a gente acabar isso aqui, vamos pra uma cachoeira próxima — Abner comentou.
Marcos desatou a rir. Abner franziu o cenho não entendendo nada.
— O que foi? — o peão mais experiente perguntou confuso.
— Se eu fosse você, nem chegaria perto daquela cachoeira — Marcos disse ainda rindo. — Eu te conto o porquê.
♧
Antônio e suas filhas tiveram uma ótima manhã e tarde na casa de Romeu. Eles almoçaram ao meio-dia e o banquete havia sido simples, do jeito que ele gostava. Mesmo conhecendo pessoas com muito dinheiro ao longo de sua vida, Antônio gostava demais da simplicidade do campo e não de toda a dificuldade das pessoas metropolitanas, o que certamente incluía uma fileira de talheres "comer-se de fora para dentro" que ele ainda nada entendia.
Julieta não conseguia parar de suspirar de amor por seu noivo amado. Romeu não era somente um cavalheiro, como também sempre fazia questão de demonstrar para a família dela o quanto a amava. Ele havia sido tão gentil do começo ao fim da visita deles à mansão. Na hora do chá, havia sido mais sutil em questão ao relacionamento deles, mas foi soltando-se cada vez mais no almoço, até mesmo mencionando a quantidade de filhos que queria ter com ela. Julieta sabia que o seu noivo acanhava-se um pouco com a presença de seu pai, mas, ainda assim, ele esqueceu-se da timidez para enfatizar o amor que sentia e o futuro que queria ter junto dela.
Antônio percebeu que alguns de seus funcionários estavam por perto e lembrou-se que aquele era o dia do pagamento.
— Boa tarde — Ele cumprimentou aos funcionários que o cumprimentaram de volta. Olhou para as filhas logo atrás. — Vocês vão entrar ou ficar aqui?
— Vamos ficar aqui um pouco — Juliana respondeu com o braço dado com Julieta e sentou-se com ela num dos degraus da escada. — Está ventando mais aqui fora.
— Eu também — Júlia respondeu um tanto amuada.
Antônio assentiu e adentrou a casa para pegar o pagamento.
— O que houve? — Julieta perguntou a Juliana que estava pensativa.
Juliana esboçou um sorriso amarelo.
— Nada — respondeu evasiva.
Antes fosse nada, pensou confusa. Havia se interessado por alguns rapazes do colegial enquanto ainda estudava na cidade, mas nunca tivera um relacionamento sério com qualquer um deles. Ainda estava nova, vinte anos, mas algumas vezes achava que ficaria para "titia", pois jamais havia beijado um homem, diferente de suas irmãs, além de quase nunca ter tempo para qualquer coisa que não fosse seus crochês, suas histórias que escrevia e também sua família. As pessoas costumavam dizer-lhe que seria uma excelente pedagoga por sua paciência com crianças e a facilidade que tinha para ensinar. Juliana já estava começando a acreditar nesse sonho não muito distante, o que dificultaria ainda mais alguma vida amorosa que talvez chegasse a ter. E, infelizmente, havia se interessado pelo amigo de Romeu e ela sabia que ele também havia se interessado, pois não conseguia tirar os olhos dela na hora do almoço. Mas o pior de tudo é que ela sabia que Júlia também havia mostrado interesse nele.
Júlia apoiou-se na sacada da espaçosa varanda, o vento do dia soprando-lhe os cabelos soltos. Mesmo com o tempo dando uma folga do calor insuportável, nada poderia alegrá-la naquele momento.
Desde o instante em que soubera da existência de Paulo, uma pequena chama de esperança acendeu-se no fundo de sua alma para um futuro digno e luxuoso que ela merecia e que logicamente seus filhos também teriam. Ele era bonito, educado, elegante e não teria nenhuma dificuldade em relacionar-se intimamente com ele, apesar de estar quase apelando por um casamento com um senhor de idade rico, mas jamais deixando que ele a tocasse.
Certa vez, uma mulher a havia acusado de ser interesseira. Júlia não negava nem um pouco; ela era, sim. Era melhor ser interesseira e pensar no futuro do que parar como boa parte das mulheres hipócritas que jogavam suas vidas fora para perder tempo com algum miserável que mal tinha onde cair morto. Não era o caso de sua mãe, ela sabia. Gisela havia deixado o seu trabalho como artesã para casar-se com Antônio, mas seu pai nunca fora um pobretão, pelo contrário. Ainda assim, Júlia teve de dividir várias coisas com as suas irmãs mais novas, pois sua família não era tão rica e ela queria dar um basta naquilo.
Entretanto, por mais que tivesse se aprontado para ir no almoço e por mais poses ou charmes que fizesse, o maldito mal havia notado a sua presença, às vezes até esquecendo que havia mais pessoas ali além dele e de Juliana.
O mundo era injusto. Júlia sempre havia sonhado com luxos, riquezas e por uma vida melhor, mas nunca dava sorte, enquanto as suas irmãs que nem mesmo faziam questão de um estilo de vida mais elevado, tinham dois milionários à seus pés.
Júlia suspirou de raiva e olhou de soslaio para as duas irmãs sentadas em um dos degraus da escada.
Ela havia desistido de um futuro maravilhoso por causa de Julieta e agora a irmã caçula estava noiva. Mas não desistiria de Paulo por causa de Juliana, de modo algum. Aproveitaria enquanto era tempo para fisgar de vez Paulo para si enquanto ele não tentasse algo com a sua irmã. Amava Juliana, mas não desistiria de seu futuro por causa dela. Não cometeria o mesmo erro novamente.
— Marcos, Abner. Que bom vê-los — A voz de Antônio surgiu na varanda.
Júlia ergueu a cabeça e notou a presença de seu pai a poucos centímetros da sacada. Não o havia visto chegar, mas aquele não era o momento de continuar ali. Ela havia tomado ar o suficiente e tentaria descansar um pouco. Não perderia seu precioso tempo vendo o pai dar o pagamento do dia à plebe.
— Bom vê-lo, seu Antônio.
Júlia deteu o passo e rapidamente voltou o seu olhar alarmado para o campo.
Ela conhecia aquela voz perfeitamente, mas não sabia que o veria tão cedo. O pescador fedido estava lá parado ao lado de Abner, as roupas bem parecidas com as anteriores. A camisa estava igualmente aberta nos primeiros botões, mostrando um pouco do peito sarado e suado e ele estava sorrindo para ela enquanto levantava o chapéu numa saudação.
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