quarta-feira, 9 de outubro de 2024

A semente mágica - capítulo 5

 


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Antônio e suas três filhas chegaram à casa de Romeu. Não era uma fazenda, mas um pequeno rancho no campo, poucos quilômetros de distância da fazenda de Antônio. O lugar era belo, desde a grande portaria dupla de entrada, que logo apresentavam lindas e imponentes palmeiras enfileiradas à frente, até a enorme casa mais moderna que a casa da fazenda, porém, um pouco menor.

Romeu era um rapaz suburbano, mas havia se interessado rapidamente em comprar uma casa pelas redondezas quando soubera que Julieta morava na fazenda. Ele havia estudado próximo a Julieta na cidade e, desde então, apaixonou-se por ela.

A governanta da casa andou pela comprida passarela de concreto abaixo dos grandes coqueiros, onde a família se encontrava, e os saudou educadamente.

— Sejam bem-vindos. O senhor Romeu os espera.

Júlia olhou ao redor daquele lindo lugar mais uma vez, como fazia nas poucas vezes em que ía para lá, e suspirou frustrada em saber que a maior oportunidade de sua vida havia sido jogada fora.

Antônio e as meninas seguiram a governanta e adentraram a suntuosa casa. Na sala, Romeu já estava de pé conversando com um convidado que parecia ser o tal amigo que Julieta havia mencionado anteriormente. 

Desde a primeira vez em que Julieta e sua família íam até o pequeno rancho de seu noivo, ele mal sabia disfarçar a ansiedade que tinha em ver a sua amada, sempre parado em frente à janela ou andando de um lado para o outro.

Antônio não tinha nada a reclamar do genro. Romeu havia sido respeitoso e cavalheiro com Julieta desde o momento em que a conhecera e também havia feito loucuras para provar o quanto a amava, como vender parte dos negócios de sua companhia para morar o mais próximo possível dela. Além disso, ele era um bom rapaz e tratava seus funcionários muito bem, e a Antônio e as meninas como se fossem sua família. Apesar de, mesmo não sabendo a razão, sentia uma enorme tensão entre o genro e a filha mais velha, por melhor que eles se tratassem. 

Romeu os viu entrar e abriu um enorme sorriso.

— Com licença — Romeu pediu ao convidado que assentiu e também levantou-se.

— Que bom vê-los aqui — Romeu falou alegremente cumprimentando primeiramente o sogro para logo após cumprimentar suas duas cunhadas. — Espero que não estejam muito cansados.

— Quer que eu traga um pequeno lanche para eles, senhor? — Perguntou a governanta.

— Já tomamos café da manhã — disse Antônio. — Mas eu aceitaria uma xícara de café.

— E eu vou querer um chá — Julieta pediu.

— Eu também — Juliana também pediu.

— É... eu também. Um chá — Júlia pediu tentando ao máximo tirar seus olhos do amigo de Romeu. Então era ele...

A governanta assentiu e retirou-se.

Romeu deu um passo à frente em direção à sua noiva e afastou uma mecha de seu cabelo claro, sorrindo para ela.

— Olá — Ele a cumprimentou em tom amável.

— Olá — Julieta respondeu do mesmo modo.

Se o casal estivesse a sós, Romeu logo a beijaria com paixão para compensar a saudade de duas semanas sem se verem. Mas, como o sogro, as cunhadas e o amigo estavam presentes, teria que deixar os beijos para uma outra ocasião, o que claramente demoraria, pensou frustrado. Ele mal esperava para torná-la sua esposa.

O outro rapaz pigarreou discretamente do outro canto da sala. Romeu quase havia se esquecido de seu amigo.

— Perdoem meu esquecimento. Seu Antônio, meninas, este é o meu amigo, Paulo — Romeu indicou o rapaz que já andava na direção deles.

— Prazer em conhecê-los — O rapaz os cumprimentou cordialmente.

Os olhos de Júlia já não eram os de uma mulher, mas de uma predadora voraz atrás de uma caça. De uma poderosa e deliciosa caça.

Paulo tinha cabelo castanho não muito curto e profundos olhos também castanhos. A cor de sua pele era acastanhada e ele realmente parecia ser um homem da cidade vestindo um suéter bege com óculos escuros pendurados na gola, uma calça jeans um pouco larga, mas alinhada, e um cinto de couro de uma loja de grife que ela conhecia. Olhando um pouco mais abaixo, Júlia constatou que o sapato também era da mesma loja e que Paulo também usava um relógio banhado a ouro. Aquele, certamente, era um bom partido, ela pensou um tanto satisfeita.

— Prazer — Antônio o cumprimentou e apertou a mão do rapaz.

Júlia tentou disfarçar seu contentamento por Paulo. Ele e Romeu eram igualmente belos, com exceção de alguns detalhes: Paulo era moreno e tinha cabelo e olhos castanhos, enquanto Romeu parecia ser uma versão masculina de Julieta com seu cabelo e olhos claros. Contudo, ela pensou quando seu leve sorriso se esvaiu, nenhum daqueles dois homens se comparava ao pescador fedido. Aquele homem era irritante e um tanto atrevido, mas tinha de admitir que jamais conhecera alguém tão belo quanto ele.

As três irmãs o cumprimentaram timidamente e Paulo deu um passo atrás.

— Paulo e eu nos conhecemos quando fui com meus pais num clube de tênis e ele também foi com a família dele — Romeu disse olhando para o amigo. — Por favor, sentem-se.

As meninas sentaram-se num elegante sofá cor bege e pés altos enquanto Antônio sentou-se numa das poltronas macias do mesmo modelo, assim como Romeu e Paulo.

Romeu teve de se contentar por Julieta não estar perto, mas ele teria de dar uma boa impressão ao sogro.

— Logo nos tornamos amigos e fomos estudar juntos — Romeu continuou. — Hoje temos sociedade em dois negócios, não é? — perguntou ao amigo.

— Três — Paulo corrigiu. — E, por favor, veja se não os vende também — disse em tom de brincadeira.

Romeu riu.

— Paulo acha que vou vender todos os negócios da empresa da minha família.

— Foi o que eu também pensei de início — Antônio comentou. — Foi uma bela demonstração de amor da parte dele vender parte dos negócios apenas para ficar perto de Julieta.

O casal fitou um ao outro por um momento, uma troca intensa e amorosa de olhares, e então sorriram sem jeito.

A governanta voltou à sala e serviu chá para as irmãs e café para Antônio. Eles agradeceram.

— Com licença — a senhora disse educadamente, e então retirou-se do recinto.

— É verdade isso? — Paulo sorriu ao perguntar.

— Sim, é — Romeu respondeu mal conseguindo desviar os olhos de sua linda noiva. — Desde o início, a minha intenção era me casar com Julieta.

Antônio observou a filha caçula corar e ficar ainda mais sem jeito. Não tinha errado em noivá-los. Certamente, eles eram um belo casal e até mesmo lembravam a si mesmo com Gisela.

Júlia apertou a alça da xícara, quase derrubando o chá em sua roupa. 

Já havia passado um certo tempo, mas ouvir de Romeu que a sua intenção desde o início foi casar-se com Julieta havia sido o cúmulo. Como ele podia ser tão cínico?, ela pensou contrariada. Mas trataria de deixar aquilo de lado; ela estava na frente da família e agora tinha um novo alvo.

— Romeu e Julieta, hein? — Paulo comentou sorrindo. — Parece que vocês ficarem juntos foi mesmo obra do destino.

Eles sorriram.

— Acredite se quiser, mas isso foi uma grande coincidência — Julieta disse um tanto envergonhada, mas ainda sorrindo. — Além do fato de eu amar a história.

— Você gosta? — Juliana perguntou à irmã mais nova. — Eu não gosto.

— Você não gosta da história de "Romeu e Julieta"? — Julieta indagou surpresa.

Juliana fez que não.

— Nem um pouco — respondeu. — É uma história muito triste.

— Tenha calma, cunhada, pois o Romeu e a Julieta da vida real não terão um final triste, mas feliz — Romeu disse em tom de brincadeira.

— Melhor assim — Juliana assentiu e bebeu outro gole de chá.

Júlia suspirou entediada e olhou para o relógio de pulso de Paulo, constatando que logo seriam onze horas da manhã, mesmo os números estando de ponta-cabeça. Geralmente, o tempo passava bem devagar na casa de Romeu, pois não havia quase nada de interessante assim como na casa da fazenda.

Como podia passar pela cabeça de um empresário vender negócios de sua empresa apenas para morar naquele fim de mundo, por mais apaixonado que ele estivesse? Romeu não era certo de suas faculdades mentais e aquilo ela já havia percebido desde o tempo em que ele resolvera investir em sua irmã caçula. 

Júlia olhou para Paulo.

Aquele era diferente. Ele não disfarçava que era da cidade e que gostava das coisas da cidade. Júlia queria um homem assim desde o início, mas havia se enganado por um belo mentiroso.


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