domingo, 22 de setembro de 2024

A semente mágica - capítulo 4

 



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Júlia estava debruçada numa das janelas do quarto que dividia com suas irmãs, observando a bela paisagem do campo. Por mais que gostasse da agitação da cidade, tinha de reconhecer que aquele lugar era lindo.

A maçaneta da porta retorceu e suas irmãs entraram no quarto. Por um momento, Júlia achou estranho, mas lembrou-se de que elas também dormiam ali. Por maior que o quarto fosse, sentia que era estranho continuar dividindo o quarto com elas quando a casa era bem grande e tinha vários outros quartos. Era como se estivessem invadindo a sua privacidade.

Juliana pôs o seu trabalho terminado em cima da cama enquanto Julieta guardava seu livro na estante abarrotada de exemplares parecidos.

— Terminei — Juliana disse satisfeita, olhando para o tecido esticado na cama.

Júlia não sabia ao certo quando Juliana havia começado a tricotar aquela roupa, mas notou que a irmã mais nova estava ficando cada vez melhor nos crochês que fazia. O trabalho da vez tinha sido um vestido amarelo de mangas curtas, todo rendado. Não combinava em nada com ela, nem mesmo com Juliana, mas era a cara e Julieta.

— Parabéns — Julieta congratulou, sentando-se na beirada da cama da irmã.

— Obrigada — Juliana agradeceu sorrindo. — Este vestido é a sua cara, Julieta.

— Jura? — Julieta arqueou as sobrancelhas em surpresa.

Júlia sorriu.

— Era exatamente isso em que eu estava pensando agora há pouco — disse a mais velha afastando-se da janela e sentando-se em sua cama.

— Viu? — Juliana concordou com Júlia e fitou a irmã mais nova. — Você quer, Julieta?

Julieta sorriu agradecida e pegou o vestido.

— Bem, obrigada — a caçula agradeceu e encaixou o vestido no contorno de seu corpo, admirando o trabalho feito por Juliana.

Juliana olhou para a irmã mais velha.

— Também farei um para você, Júlia.

Júlia torceu o nariz.

— Não me leve a mal, flor, mas não gosto de roupas de tricô ou crochê. Acho bonitas, claro, mas não é o meu estilo.

— Bem, é você quem sabe. — Juliana deu de ombros.

Julieta riu.

— A Júlia só gosta de roupas finas da cidade para sentir-se madame — disse a caçula brincando.

Júlia sorriu e fez pose.

— Mas é claro — disse entrando na brincadeira. — Somente seda, veludo, cetim, camurça e lantejoulas.

As três riram descontraídas.

— Mas, e então, Júlia — Juliana falou mudando de assunto enquanto Julieta colocava o seu mais novo vestido num dos guarda-roupas do quarto. — Qual foi o verdadeiro motivo de você ter ficado tão irritada?

O sorriso de Júlia esmoreceu e ela franziu o cenho, fazendo-se de desentendida.

— Hã? Do que você está falando?

— Não minta para nós, Júlia — disse Julieta sentando-se no chão do quarto em frente às irmãs. — Papai pode ter caído em sua conversa, mas nós, não. Anda, desembucha.

Júlia revirou os olhos. Mentir ou omitir sobre algo de suas irmãs era perda de tempo. Mas também não queria ter de se aborrecer lembrando do pescador fedido.

— Ah, não, por favor — Júlia queixou-se. — Quero manter meu recente bom humor.

— Por favor, Júlia — Julieta insistiu.

— O motivo... — Juliana continuou. — é um homem que você conheceu, não é? — indagou sorrindo.

Júlia olhou assustada para a irmã. Juliana não era uma pessoa normal, ela sempre parecia saber de quase tudo o que acontecia.

— Como você sabe? — Júlia perguntou surpresa.

Juliana deu de ombros.

— Bem, como nessa fazenda há mais homens do que outra coisa, além de você ter voltado nervosa e corada, pude perceber.

A ênfase na palavra "corada" não havia passado despercebido por Júlia.

— Corada?

Suas irmãs assentiram.

— Eu também percebi — concordou Julieta. — Mas achei que fosse por causa do calor.

— Mas teria ela corado por raiva ou por outra coisa? — Juliana perguntou a irmã mais nova.

Julieta sorriu.

— Talvez pelos dois, quem sabe?

— Vocês duas, querem parar de falar como se eu não estivesse aqui? — Júlia reclamou irritada. — Não teve nada de "outra coisa", pois ele era um mal educado e arrogante!

— Ah, então era, de fato, um homem... — Julieta sorriu para Juliana que retribuiu.

— Sim, era — Júlia confessou irritada. — O desgraçado me viu nua lá na cachoeira.

As expressões provocativas de Juliana e Julieta logo mudaram para espanto.

— O que?

— Como?

— Fui tomar banho para me refrescar, mas, quando voltei do mergulho, lá estava o imbecil segurando as minhas peças de roupa — Júlia lembrou com desgosto e vergonha.

— E o que aconteceu? — Julieta perguntou preocupada. — Ele fez algo a você?

— Não, fingiu estar paralisado ao me ver naquele estado — Júlia respondeu. — Exigi que virasse o rosto para que não me visse colocando as roupas. E depois, claro, dei-lhe um belo esporro.

— E o que ele foi fazer lá? — Juliana perguntou em tom de preocupação.

— Não sei. — Júlia suspirou irritada. — O maldito disse que tinha ido pescar, mas tenho quase certeza de que ele foi me espionar.

— Bem, também depende — Julieta disse olhando para as irmãs.

— Depende do que? — Júlia perguntou sem entender.

— Primeiro, quase ninguém sabe que você vai às vezes banhar-se na cachoeira — a caçula respondeu. — E se ele realmente tinha uma vara de pescar na mão, então...

— Faz sentido — Juliana concordou.

— Bem, pode ser que ele não sabia e, de fato, ele estava com uma vara de pescar — Júlia admitiu com raiva. — Do mesmo modo, eu disse que não o queria lá e ponto.

— Então, ele não foi para lá te espionar — Juliana disse.

Júlia desviou o olhar, suspirando profundamente, detestando estar sendo colocada como errada.

— Isso não importa — ela disse voltando a atenção para as irmãs. — De qualquer modo, espero que ele tenha entendido o recado.

— Mas por que você foi nadar nua? — Julieta interrogou.

— Eu não tinha toalha e não podia molhar a minha roupa — Júlia defendeu-se. — Além disso, tomo banho desse jeito desde quando eu era uma criança. E não tentem pôr a culpa em mim.

— Claro que não, Júlia — a caçula argumentou. — Mas seria bom se você evitasse situações como essa porque mesmo que você não o encontre novamente, talvez outra pessoa acabe fazendo o mesmo.

— Não, não vai — Júlia disse de imediato. — Se aquele pescador fedido atrever-se a fazer aquilo novamente, ou qualquer outro homem entrar naquela cachoeira enquanto eu estiver lá, peço para papai demitir o indivíduo no mesmo instante.

As duas assentiram, desistindo de continuarem discutindo com a irmã mais velha. Quando Júlia colocava algo na cabeça, ninguém conseguia convencê-la do contrário.

— E... ele era bonito? — Juliana perguntou curiosa.

Júlia encarou a irmã mais nova, embasbacada.

— Acabei de contar sobre o meu incidente com aquele sujeitinho arrogante e você vem me perguntar se ele era bonito?

— Calma, Júlia — Juliana defendeu-se. — Só foi uma pergunta.

— Bem, se quiser saber a resposta, saiba que ele era um pescadorzinho imundo e fedido! — As narinas de Júlia dilataram de pura raiva.

— Mas você não respondeu se ele era bonito ou não — Julieta insistiu, achando graça da expressão de raiva da irmã mais velha.

— Deixem-me em paz! — Júlia ralhou, sentando-se perto da janela, tentando ignorar suas irmãs que riam às suas custas. — Eu sabia que iria me aborrecer contando isso. Me deixem!

Júlia apoiou o seu rosto nos braços cruzados sobre a janela, sabendo que Juliana e Julieta estavam se segurando para não continuarem a rir.

Como ele era?, Júlia bufou irritada com a pergunta inconveniente. Aquele pescador não era bonito, mas horrivelmente lindo.


O tempo havia passado rápido e o dia estava acabando.

Júlia olhou para o relógio no criado-mudo: iam dar onze horas da noite. Juliana e Julieta já estava dormindo em suas respectivas camas e seu pai tinha sido o primeiro a dormir por ser um homem do campo. Pessoas do campo dormiam muito cedo, ela pensou. Era tudo tão diferente da vida na cidade em que à noite tudo começava indo até mesmo ao dia seguinte. Mesmo assim, Júlia estava com sono, pois o campo era tedioso demais e mal havia algo para fazer.

A camisola de Júlia balançou por conta do vento que havia passado pelas grandes janelas do quarto. Estava ventando gostoso naquela noite e eles não tinham qualquer preocupação em manter portas encostadas e janelas abertas naquela casa, pois lá tudo era sossegado e seguro. O resto do dia tinha sido quase o mesmo de sempre e havia feito as pazes com as suas irmãs mais novas. Aliás, como não voltaria a falar com elas? Apesar das duas a irritarem às vezes, as amava muito. Não tanto quanto deveria, disse seu pensamento traidor. Mas Júlia não se importava com essa voz interior, pois já fazia parte do passado.

Ela puxou o lençol e deitou-se na cama, beijando um porta-retrato de sua mãe que estava em seu criado mudo. Não importava quanto tempo passasse, sempre sentiria a falta dela.

Júlia pôs o retrato no lugar em que se encontrava e suspirou fundo, fechando os olhos para dormir. Fazia tempo que não sonhava, mas logo veria a imagem de sua amada mãe. Contudo, depois de um longo tempo de sono, tudo o que conseguiu ver foi a imagem de um belo pescador sorrindo para ela. 


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