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Aquilo devia ser loucura. Como um homem havia entrado em sua casa em forma de pássaro? Aliás, um homem bem estranho, por sinal. Sua blusa e calça largas com um colete colorido por cima claramente indicavam que ele era da Índia ou do Oriente Médio. Mas por que ele estava ali?
O Gênio sorriu. Marcos parecia ser um jovem interessante; ele era capaz de mostrar medo, mas coragem ao mesmo tempo, o que também poderia indicar uma confusão de mais sentimentos que guardava. Mesmo sendo tão jovem, era perceptível que ele já havia passado por muita coisa e enfrentado muitos problemas tão precocemente. Sim, aquele rapaz era perfeito para o início de sua mais nova ação.
— Desculpe-me se o assustei. — O Gênio fez uma pequena reverência. — Sou o Gênio das criaturas infelizes e vim para salvá-lo, Marcos.
Marcos franziu o cenho, confuso.
— Me salvar? Me salvar de que? — Perguntou assustado e perturbado com aquela desconfortável situação. — E como você sabe o meu nome?
O Gênio deu um pequeno passo à frente e surpreendeu-se por Marcos não ter recuado.
— Vamos por partes. Não sou um humano, animal, vegetal ou qualquer coisa do tipo. Sou um ser que vaga de lugar em lugar ao redor do mundo em busca de pessoas que aparentem ser infelizes, e então, eu as curo — O Gênio respondeu. — Não fico por muito tempo com essas pessoas, pois meu tempo é limitado, então tenho um intervalo de sete anos para descansar.
Marcos continuou sem entender nada. Aquilo era uma loucura.
— E o que isso tem a ver comigo?
— Acalme-se, meu jovem — O Gênio falou de modo afável. — Respondendo primeiro à sua última pergunta, não há nada que eu não saiba sobre as pessoas assim que chego no local onde elas vivem. A mesma coisa ocorre com você. Eu cheguei ainda hoje aqui, quando você estava indo pescar no lugar de sempre e veio-me memórias e lembranças de sua vida. E respondendo à sua primeira pergunta, quero lhe salvar de todos os problemas, de todas as tristezas que você guarda em seu coração — como a morte de seu pai e o preconceito que sofreu na cidade grande, por exemplo.
Marcos o encarou fixamente. Aquele homem não era normal. Aliás, nem um homem de verdade ele era, visto que outrora havia sido um pássaro! E ele parecia saber mesmo de coisas relacionadas à sua vida, Marcos pensou engolindo em seco.
De fato, ainda sentia muita falta de seu velho e amado pai e também guardava um pouco de rancor das pessoas da cidade, pois eles o trataram como lixo por ser apenas um pescador pobre. Havia tentado terminar seus estudos e ter um trabalho digno, mas o máximo que conseguira foi ser peão de uma fazenda.
— Você... é o diabo?
O Gênio sorriu mais uma vez. Aquele rapaz era mesmo interessante.
— Não, Marcos, não sou — respondeu. — Sou um ser sobrenatural, mas nada que tenha a ver entre o céu ou o inferno.
— E por que você quer me ajudar? Eu já superei essas coisas.
— Não, não superou — pelo menos, não de forma completa. Você é um homem que gosta de uma vida simples, visto que foi criado em beira de praia. Mas você não gosta de lembrar que tinha o sonho de ser um secretário e morar numa boa casa para, no final, ter que largar tudo e trabalhar como peão debaixo de um sol quente e morar numa casa minúscula. — O Gênio olhou ao redor. — Estou errado?
O Gênio constatou que não pelo silêncio de Marcos.
— Era um desejo de seu pai que você se tornasse um secretário e talvez um grande empresário no futuro, mas as pessoas da cidade o reprimiram, não é mesmo?
O Gênio deu mais dois passos à frente, deliciando-se ao perceber que Marcos estava cedendo.
— Viu a pessoa que mais amava morrer de cólera e percebeu que estava sozinho — O Gênio continuou. — Seu pai foi a pessoa que mais o amou no mundo e assumiu verdadeiramente o papel de pai e mãe, pois a sua mãe havia morrido quando você tinha apenas dois anos de idade. Antônio, o seu patrão e dono dessas terras, teve pena de você, ainda porque havia sido amigo de seu pai, e o deixou morar nesse casebre deprimente onde mal há lugar para três pessoas.
Marcos novamente engoliu em seco. Como poderia contradizê-lo?
— E se já não bastasse os problemas do passado, eis que surge uma mulher que está mexendo com o seu presente e talvez o seu futuro — O Gênio disse e sorriu satisfeito ao notar Marcos arquear os olhos em surpresa. — Você gostou dela, não foi?
Marcos tratou de desviar o olhar. Aquela coisa não era humana e sabia demais a seu respeito.
— Não diga tolices — rebateu. — Acabei de conhecê-la e ela não é muito diferente das dondocas arrogantes da cidade grande.
— Não foi isso o que você pensou lá na cachoeira ou aqui mesmo depois de ter voltado — O Gênio o contradisse.
Marcos o fitou, assustado. Como pôde se esquecer que o tal Gênio também lia pensamentos?
— Você não a achou tão parecida com as dondocas da cidade, pois ela é uma mulher muito sensual. Ou estou errado?
Marcos mais uma vez desviou o olhar do "homem" à sua frente e suspirou, derrotado.
— Ela não é para mim. Por que ela veria algo num peão como eu? Ou num "pescador fedido", como ela disse. — Marcos não conseguiu evitar sorrir com a lembrança e sentiu-se incomodado ao ver o Gênio o fitando, pensativo. — O que foi?
— Ah, sim... — O Gênio assentiu ponderando. — Entendo. Você mal a conheceu e já está apaixonado por ela, não é?
Marcos o encarou em descrença e sorriu com indiferença. Aquele Gênio podia ter conhecimento de várias coisas, mas não sobre tudo.
— Está enganado — Marcos respondeu andando em direção à antiga cama enferrujada de solteiro. — Como posso ter me apaixonado por uma pessoa que acabei de conhecer?
O Gênio continuou a fitá-lo atentamente.
— Eu que lhe pergunto, Marcos. Como pode ter se apaixonado por uma dondoca arrogante no mesmo dia em que a conheceu? — devolveu-lhe a pergunta.
Marcos sentou-se na cama e o encarou firmemente.
— Não estou apaixonado por ela.
— Será mesmo?
Marcos suspirou profundamente. Não queria ter que continuar discutindo com um ser estranho sobre seus sentimentos, pois sabia que não poderia. Mas, apaixonado ou não, um lado seu queria distância daquela garota orgulhosa, enquanto um outro lado mal podia esperar para tornar a vê-la. Droga, o que estava acontecendo com ele?
— O que você pretende? — Marcos perguntou tentando mudar de assunto. — Como planeja me ajudar?
— Você quer ser ajudado? — O Gênio interrogou.
— E tenho escolha? — Marcos perguntou de volta, dando de ombros.
— Sim, meu jovem, você tem. — O sorriu e parou à poucos centímetros do jovem pescador. — Mas como você já pode ter visto, não sou um ser humano imperfeito incapaz de lhe ajudar. Posso trazer de volta toda a felicidade que você tinha quando morava naquele vilarejo praiano. Deixe-me ajudá-lo.
Marcos olhou em dúvida para a criatura à sua frente.
O Gênio sabia demais sobre ele e parecia querer ajudá-lo. Ele havia deixado claro que Antônio o deixou viver em suas terras por pena e também por consideração a seu pai. Contudo, diferente de Antônio ou qualquer outra pessoa, aquele ser queria ajudá-lo, não por pena, mas porque tinha poderes para tal. Marcos ainda estava assustado e não sabia o que iria acontecer dali para frente, mas tinha medo que mais algo de mal acontecesse em sua vida. Aquele ser era poderoso e estava interessado nele; por que não confiar?
Marcos respirou fundo, ponderando por um breve momento.
— Sim, Gênio — Ele respondeu finalmente. — Deixarei que me ajude.
O Gênio sorriu vitorioso. Marcos seria mais uma das milhares de vítimas que havia feito ao longo de tantos e tantos anos.
— Muito bem — Ele disse com plena satisfação. — Fico muito feliz que tenha considerado.
Marcos assentiu ainda em dúvida.
— Sim — respondeu vagamente.
O Gênio estendeu a mão em cumprimento.
— Não se preocupe, Marcos. Em mim, você terá um amigo e um ótimo conselheiro.
Marcos também estendeu a sua mão e apertou a dele em um cumprimento firme.
— Sim — Marcos concordou, embora tudo ainda estivesse muito confuso. — Obrigado.
Após agradecê-lo, Marcos viu assustado o Gênio desaparecer.
Não importava quantas vezes o visse, sempre teria a mesma reação, pois jamais imaginou que houvesse algo parecido no mundo. O Gênio havia ido embora, mas logo ele iria voltar, Marcos achava. Ainda não sabia ter feito a coisa certa, mas não custava nada tentar. Afinal, o que poderia perder?
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