Já era hora de se levantar. Não conseguira dormir bem por ter sonhado com ela — novamente. Ou seria porque estava, gradativamente, se tornando um vampiro? Ele nem mais sabia se era aquilo que queria ser ou, de alguma forma, continuar em sua condição de humano. O que ele realmente mais almejava era que Luana o aceitasse ou morreria.
David sentou na cama e fitou o relógio pendurado na parede: já era quase uma hora da tarde. David se levantou ainda despido, depois das proezas da noite anterior, e cambaleou até o enorme guarda-roupa. Ele escolheu uma blusa e uma calça de tecido não muito fino, mas confortável.
Pouco tempo depois, David desceu até a sala de estar, percebendo que os seus tios estavam no recinto e sendo servidos pelas duas criadas.
— Shartene, Miranda — David cumprimentou e olhou delas para os tios, o semblante confuso. — O que vocês estão fazendo acordados a essa hora?
— O “Drácula” não conseguiu dormir e quis conversar — Ivan respondeu com certo tom de ironia.
Alan olhou de cara feia para o irmão.
— Você quer parar de ficar enfatizando meu nome com essa ironia?
— Não é o seu nome e você sabe disso — Ivan rebateu no mesmo instante.
— Apenas finja que sim quando Bela Lua vir nos visitar, por favor — Alan disse sem deixar se abalar.
Ivan continuou a fitar o irmão.
— Você vai mesmo levar essa relação a sério? — perguntou.
— Eu já disse que sim — Alan respondeu simplesmente tentando ignorar o olhar questionador do irmão sobre si.
Era estranho. Ainda que estivesse com sua família, David sempre sentia-se deslocado perto deles, independentemente do lugar.
— Dormiu bem, David? — Ivan perguntou ao sobrinho.
— Dormi — David respondeu e também se sentou. — Só não entendo por que vocês estão acordados tão cedo. O mestiço aqui sou eu.
— Nós sabemos, meu caro — Alan respondeu e sorriu pela ingenuidade do sobrinho. — Apenas queríamos conversar.
— Não, você que queria conversar — Ivan refutou.
Alan encarou de modo rude o irmão mais velho e voltou a sua atenção para David.
— Então, como eu estava dizendo, estávamos conversando, mas logo irei me recolher, pois estou um pouco cansado. — Alan olhou para o sobrinho e percebeu a confusão brilhar em seu olhar. Ele achou graça. — David, não são somente humanos que trocam a noite pelo dia. Nós também podemos trocar o dia pela noite uma ou outra vez.
— Entendo — David refletiu e olhou para as criadas que ainda estavam no recinto, esperando pelas próximas ordens. — Vocês também?
— Seus tios que pediram — elas responderam juntas, como sempre faziam.
David encarou os tios.
— Vocês não as deixaram dormir?
— Correção — Ivan se defendeu. — Alan. Ele não me deixou dormir e nem a elas.
— Você também — Alan rebateu o irmão mais velho.
David assentiu pensativo. Talvez Alan estivesse agindo daquela maneira tão estranha por causa da mulher humana que ele havia conhecido.
Sim, era uma atitude estranha por conta de sua condição como vampiro, mas tão conhecida para David ao mesmo tempo. David sabia, por experiência própria, o quão enfeitiçado um homem poderia ficar sob o encanto de uma mulher.
— Ok. Shartene, Miranda, me sirvam um café, vou precisar. Um bem forte.
— Ouí, milorde.
Milorde.
Só mesmo Shartene e Miranda para dar-lhe um tratamento como aquele. Em nenhum momento, de todos os anos de sua vida, David fora tratado com cortesia por parte da Elite. Apenas pelas simpáticas e alegres criadas.
Ivan levantou-se de sua poltrona favorita.
— Vou me recolher.
— Vai descansar? — David perguntou observando o tio cruzar o recinto.
— Sim, vou — Ivan respondeu e sorriu para ele. — Já era hora.
David observou atentamente, em meio a todo aquele tédio, Ivan subir a escadaria com todo aquele porte alto e elegante que ele tinha.
David foi servido por Shartene e Miranda e ele pediu para que as duas se retirassem.
— Obrigado. Agora vão, podem descansar. Meus tios não irão mais incomodá-las, por ora.
— Obrigada, milorde — ambas agradeceram e olharam brevemente na direção de Alan antes de se retirarem.
David tomou um gole do café e olhou para a única pessoa que ainda lhe fazia companhia. Alan ainda estava sentado, as mãos sutilmente esparramadas no encosto de sofá, talvez pensando em algo.
— E você?
Alan voltou para a realidade e fitou o sobrinho.
— Eu? — indagou sem entender.
— Sim — David respondeu achando graça da expressão boba que jamais havia visto no rosto de seu tio. — Está tão pensativo.
— Acho que estou apaixonado, meu sobrinho — Alan disse com um pequeno sorriso formado no canto dos lábios.
David engasgou e tomou o devido cuidado para não derrubar o café.
Ele encarou o tio com estranheza e descrença.
— Você, apaixonado? Pela Lua Bonita?
— Não é "Lua Bonita", é Bela Lua — Alan corrigiu com um ótimo humor.
David sorriu.
— Ah, sei. — Assentiu atentamente. — Parece que ela te fisgou, não é?
— Pode-se dizer que sim — Alan respondeu. — Eu até a pedi em casamento.
David encarou o tio. Alan estava ficando louco?
— Casamento? Mas, dizendo Ivan, você a conheceu ontem.
Alan sorriu confiante e olhou para o sobrinho.
— Você já ouviu falar em "amor à primeira vista"?
O breve silêncio caiu sobre o recinto.
Vampiros realmente sabiam o que era o amor?
É claro que David já ouvira falar, talvez por uma fábula ou um conto infantil. Melhor ainda, ele havia sentido na pele desde o primeiro momento em que conheceu Luana. Desde que a vira pela primeira vez, a sua mente girou a um ponto que era difícil explicar. Ela virara seu mundo de cabeça para baixo com aquele olhar juvenil e aquele sorriso ingênuo e sincero. Há seis anos, ela se tornara sua vida, embora ele não houvesse se tornado o mesmo para ela.
David não soube se era mais estranho ter que responder aquela pergunta e tocar num assunto íntimo ou imaginar que um vampiro podia ter esse tipo de sentimento.
— Sim, já — ele respondeu sério quase perdido em pensamentos. Não queria focar aquele assunto sobre si.— Mas creio que você não, pois "amor" é uma palavra, e um sentimento, que vampiros não conhecem.
Alan continuou a olhar para o sobrinho e percebeu que David o encarava atentamente.
— Tudo bem, talvez eu tenha me equivocado na escolha das palavras. Eu diria, então, que estou completamente encantado por ela — Alan reformulou o seu comentário.
— Então, ela é sua noiva?
— Sim. Hoje nos encontraremos — Alan respondeu.
David encostou no sofá e tomou mais um gole de café.
— Que bom. Desejo-lhe sorte.
Alan sorriu.
— Sorte é para fracos — disse confiante.
Ele levantou-se e andou até a escadaria. Então parou e olhou para David.
— Está na hora de você arranjar uma namorada também, meu sobrinho.
Dizendo isso, Alan subiu a escada rumo a seu quarto, deixando David pensativo e com a xícara pausada no ar.
Alan não tinha idéia do quão louco David era por uma garota. O quanto ficava ansioso e excitado só em pensar nela. Mas as coisas seriam diferentes naquele dia; ele iria chegar junto, fazê-la não resistir mais.
David sorriu maliciosamente com o pensamento, engolindo de vez o último gole que havia restado do café. Mal podia esperar.
°•♤•°
Faltavam poucos minutos para as duas da tarde e David não queria se atrasar.
Ele olhou para o andar de cima. E pensar que seus tios estavam tramando por suas costas. Mas já era de se esperar. Afinal, ele era apenas um mestiço imundo que precisava ser controlado para que não pudesse atingir o ego da Elite.
Ele suspirou pesadamente e tornou a consultar o relógio. Era melhor ir logo.
David fechou a grande porta dupla da sala e andou até o seu Camaro preto.
Hoje nada daria errado. Ele falaria com Luana e não teria nenhuma Jéssica intrometida para estragar o momento.
Ainda se lembrava. Teve que consertar uma maldita máquina quase caindo aos pedaços sozinho com Fred até tarde da noite depois de Luana ter lhe escapado novamente com a ajuda da amiga. Só de lembrar naquilo, a raiva lhe subia a mente.
Ele entrou no carro e acelerou com tudo até estar fora dos jardins da mansão.
°•♤•°
Lá estava ela — toda linda, como sempre, usando uma saia lápis preta que acentuava o quadril e as nádegas firmes e empinadas, a blusa branca de manga longa que deixava à mostra aos olhos mais atentos um pequeno tecido de cor bege que estava por dentro e que parecia ser muito curto para ser uma blusa, mas muito grande para ser um sutiã. Os cabelos levemente cacheados estavam relativamente soltos, acariciando os seios fartos.
David suspirou extasiado.
Seria melhor ele ir ao banheiro ou poderia assustá-la.
°•♤•°
Um pouco depois das coisas se acalmarem, David olhou-se no espelho acima da pia e encarou o seu reflexo com um pequeno sorriso crescendo nos lábios.
A vontade que ele tinha era de agarrá-la, mas sabia que não era bem desse jeito que as coisas funcionavam. O que realmente deveria fazer era tentar se controlar perto dela e convidá-la para sair. Mas, diferentemente das outras vezes, não iria intimidá-la. Dessa vez, a sua abordagem seria diferente.
David saiu do banheiro e andou até onde Luana estava. Ela já está sentada em sua mesa, conversando com Jéssica.
— Depois você me conta — Ele ouviu Jéssica falar para Luana.
Contar o quê?
Luana notou a sua presença e paralisou por um momento.
David exasperou irritado. Até quando Luana agiria daquela maneira sempre que o via?
— Oi, Luana.
Ela engoliu em seco.
— Oi, David — gaguejou.
David esboçou um pequeno sorriso para ela.
— Tudo bem? Eu senti a sua falta.
Luana o encarou por um breve momento e depois desviou o olhar, um pouco nervosa por tê-lo tão perto de sua mesa.
— Ah? Jura? — Ela perguntou de volta, procurando algo que pudesse ocupar a sua atenção.
O sorriso de David se ampliou e ele chegou ainda mais perto.
— Juro — ele disse numa pequena distância que poderia fazer os seus lábios tocarem no lóbulo da orelha dela.
Era impressão dele ou ela estava ficando arrepiada?
David apreciou a situação e aproximou-se mais.
— Juro que senti, Luana. — David sabia que a sua voz e sua respiração a estavam fazendo se arrepiar ainda mais. Como uma forma de estimular ainda mais o início de um contato maior entre os dois, ele pôs gentilmente o cabelo dela para trás da orelha. — Você não sabe o quanto.
Luana, completamente nervosa, levantou-se num ímpeto e andou para o outro lado da mesa para ficar distante dele.
David a fitou atentamente.
Ela estava respirando alto. Era bom o efeito que causava nela. O efeito positivo, claro.
— Nossa — Luana gaguejou, olhando para tudo ao redor, menos para ele. — Que bom, David.
Ele sorriu.
Era bom ouvir o seu nome ser mencionado por ela. Era uma mistura de inocência, elegância e sensualidade que só ela tinha. Céus, como a queria!
Mas ele deveria parar com aquela encenação — por melhor que fosse — e ir direto ao ponto.
— Luana, quero te pedir uma coisa — Ele disse sem deixar se abalar pela distância que ela havia colocado entre ambos.
— Sim? — Ela pareceu assumir uma postura mais formal.
— Quer sair comigo hoje?
O rosto de Luana ficou pálido. Era completamente irritante quando ela agia daquela forma, mas ele não deixaria se abalar por algo tão banal.
— Sair com você? — Luana perguntou hesitante.
— Sim — ele respondeu e notou que ela escondia algo na mão direita. O que era?
— É que eu — Luana se contorceu, incomodada com algo.
David podia sentir os olhares irritantes de Nina e Jéssica sobre eles, mas tratou de continuar a ignorá-las.
— Que dia? — Luana perguntou, embora não parecesse nem um pouco interessada.
— Hoje. Ou você vai dizer que também tem que fazer algo para a sua madrinha? — ele disse irritado.
Acalme-se, David. Não estrague tudo.
— Não, eu... — Por um pequeno descuido, Luana deixou a mão direita mais aparente e David percebeu.
O que era aquilo?, ele pensou. Um anel?
— Eu tenho um encontro hoje à noite.
"Encontro" fora a palavra que mais fez ênfase na mente de David. Em outros tempos não muito distantes, ele também havia ouvido a mesma palavra vinda da boca dela, o que sempre odiou com todas as forças.
O seu olhar pairou um pouco mais abaixo.
Era um anel. O anel era prateado em toda a extensão do arco e o centro era adornado com pequenos diamantes envoltos de um solitário rubi. Luana não tinha uma boa situação financeira para adquirir um adorno como aquele. Ademais, aquele objeto mais parecia ser uma aliança. E quem tinha sido o maldito que havia dado aquilo para ela?
— Este anel — A voz grave e nada paciente de David disse ao continuar encarando o pequeno objeto. — quem te deu?
Luana olhou rapidamente para o anel em seu anelar direito e tornou olhar para David que já não tinha a expressão vívida e bem humorada de antes.
— Ah... É que eu...
— Quem te deu este anel? — A voz de David estava mais alta e menos paciente que antes. Ele estava ficando irritado. E se fosse o que ele estava pensando, explodiria ali mesmo e que fosse para o inferno todos que estivessem presenciando.
— Este anel? — Luana desviou o olhar de David mais uma vez e olhou novamente para o anel. Por que sentia-se tão apreensiva e hesitante? — Eu comprei.
David continuou a encará-la fixamente e depois fitou o anel.
Alguém o deu para ela, era um fato. Mesmo que Luana juntasse toda a sua economia, não seria possível conprar uma jóia como aquela, ainda porque ela gastava a maior parte do salário com as contas de casa e com os remédios que a madrinha precisava. Aquele anel mais parecia ser de compromisso, mas agora de alguém importante, não de alguns vagabundos imbecis que ela havia se relacionado antes. Inferno! Ela estava comprometida novamente. Não era à toa que ela sempre parecia esconder algo dele e até mesmo fugia em todas as vezes que ele tentava se aproximar.
— Comprou, é? — David repetiu com os dentes cerrados, a raiva correndo por todo o seu corpo; não só por saber que havia outro homem, mas também por ela mentir. — Ou alguém te deu?
Luana desviou o olhar, nervosa.
Ela não poderia continuar perdendo tempo em omitir a verdade de David — ainda porque não fazia sentido em não dizer a verdade a ele. Eles tinham que trabalhar ou alguém poderia notar o visível desconforto.
Luana andou um pouco apressada e sem jeito até a sua mesa, percebendo alguns olhares não tão discretos de Nina sobre ela e David. A tensão entre os dois podia ser sentida de longe.
— Sabe o que é, David? Eu...
Pronto. Ela não precisava falar mais nada. A merda do anel avia sido dado por um novo namorado, um desgraçado de um novo namorado. David queria saber quem era o infeliz. Com a raiva que estava, poderia matá-lo.
David fechou brevemente os olhos e tentou pensar em outras coisas ou até mesmo fazer uma contagem imaginária no intuito de se acalmar, mas falhou miseravelmente. Ele a encarou com uma raiva mal contida. Ou melhor, o seu olhar emitia puro ódio.
— Não. Fala. Nada — ele disse em staccato com a voz rouca, tentando colocar as emoções em controle.
A vontade que ele tinha — uma de várias delas — era deixar que a loucura o dominasse de vez e levar Luana para uma ilha deserta, ou qualquer outro lugar isolado, e trancá-la numa torre para fazê-la entender de uma vez por todas que ela era dele, e só dele. Ódio era pouco para definir o que ele estava sentindo naquele momento.
Contudo, como uma única gota que restara de um balde d'água, David conseguiu se apegar a uma ínfima porcentagem de controle que ainda lhe restara e esboçou um falso sorriso para ela.
— Tudo bem, Luana. Se é assim que você quer jogar, — Ele debruçou um pouco sobre a mesa e aproximou-se dela, fitando aqueles doces e assutados olhos castanhos claros. — é assim que vou jogar também.
David endireitou-se e continuou a encará-la de modo intimidante e desafiador antes de retirar-se em direção à sua mesa.
David queria socar algo. Queria declarar guerra ao mundo. Mas deveria procurar se acalmar, por ora. Tudo daria certo mais para frente, afinal, ele já havia passado por situações parecidas como aquela. Ele faria as coisas pouco a pouco, por etapa, sem deixar se desesperar. E a primeira coisa que ele faria seria caçar o desgraçado que havia ousado se intrometer entre ele e a mulher que amava.

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