Era um belo dia. Natália mexeu a carne na panela e levou a colher de pau até a mão, pondo um pouco do molho quente e provou rapidamente depois de assoprar; estava delicioso.
Miguel logo voltaria do trabalho, ele sempre voltava mais cedo, apesar de já ter passado da hora.
Natália sorriu.
Sempre era bom fazer qualquer coisa por ele e para ele. Sempre fora um ótimo marido, bem atencioso, e se esforçava ao máximo para que nada faltasse em casa. Contudo, ela sentia que ele estava tentando se esforçar demais, às vezes se trancando no porão para fazer algumas de suas pesquisas, e ser reconhecido no trabalho por isso. Tirá-lo de lá era quase impossível, e sempre tratou de ser uma boa esposa e não irritá-lo.
Natália suspirou.
Seu amado marido trabalhava no campo científico há um pouco mais de dois anos, e nunca tinha sido premiado, ou reconhecido por algumas de suas pesquisas. Infelizmente, ela desconfiava que alguns superiores de lá não gostavam muito dele, ou até mesmo tinham implicância. Ela sabia que esse seria um pensamento um tanto infantil, mas não tinha como pensar outra coisa quando seu marido se esforçava ao máximo para ser reconhecido pelos trabalhos que fazia durante um pouco mais de dois anos e o nome dele nem ao menos estar na lista dos convidados para o baile de premiação.
Natália fechou a panela e deixou a carne ferver. Trataria de fazer um casaco de crochê para seu amado. Ela tirou o avental e o pendurou no gancho. Afinal, ele merecia.
¤
Miguel suspirou de raiva.
Novamente os desgraçados da empresa tinham prolongado seu horário de serviço, fazendo com que chegasse tarde em casa. Não que estivesse com pressa, mas a melhor coisa do mundo era chegar em casa e ser abraçado por sua mulher louca de saudades, como se tivessem ficado uma semana sem se ver. Era bem gratificante.
Ele sorriu, apesar da raiva que estava sentindo.
— Boa tarde.
Um dos funcionários entrou no vestuário e sorriu levemente para o Miguel. Miguel o cumprimentou com um movimento de cabeça.
Luís era um dos poucos funcionários que ele se dava bem naquele lugar. Também era casado, e mesmo com sua simplicidade, era um dos melhores pesquisadores científicos do Instituto. Na verdade, ele também era. Mas alguns de seus superiores duvidavam de sua capacidade de desenvolvimento e crescimento; outros pareciam desconfiar de algo. Mas, o que eles tinham para desconfiar? Não sabiam nada de sua vida.
Miguel levantou-se e segurou sua mochila de um só lado das alças.
— Boa tarde, Luís — Ele respondeu. — Pensava que só eu tinha sido deixado para trabalhar até mais tarde.
Luís se sentou no banco grande e sem encosto e tirou os sapatos.
— Fui promovido, você sabe — explicou. — Além do mais, estou trabalhando em algo. Por isso, fico uma hora a mais todos os dias.
Miguel balançou a cabeça, assentindo.
— E no que você está trabalhando? — perguntou curioso.
— Cura para o câncer — disse orgulhoso. — Sei que é um projeto desafiador, mas estou dando o melhor de mim. — Tirou as meias e as pôs dentro dos sapatos. — Apenas estou tomando o devido cuidado para não perder minha mulher por causa disso. — Sorriu.
Miguel também sorriu, apesar do incômodo crescendo em seu peito.
— Também devo tomar o mesmo cuidado. — Ele consultou o relógio de pulso. — Era para eu estar em casa a essa hora. Minha esposa é bem paciente, mas tudo tem sua primeira vez.
— Entendo — Luís disse, o fitando. — Mas, e você? Se também está trabalhando até tarde, é porque também está trabalhando num projeto.
Miguel respirou fundo antes de falar.
— Eu sempre trabalhei em algum projeto, acredite. E trabalho até hoje — Ele pausou por um breve momento. — Mas parece que nossos superiores não se interessaram por nenhum deles.
Luís assentiu.
— É assim mesmo. Por mais que um projeto pareça ser bom para nós, os mais críticos sempre vão ver de outro modo. Por exemplo, eu não espero ter meu projeto aceito pela maioria deles. Sei que é difícil.
Miguel se limitou a sorrir.
— Na verdade, eu quem deveria dizer isso. Estou aqui há mais tempo que você.
— Ah, é. Verdade... — Luís levantou as sobrancelhas em surpresa, logo depois franzindo o cenho. — Mas, mesmo sendo mais velho que eu no Instituto, por que você nunca foi promovido?
Miguel respirou entre os dentes. Só de pensar em toda a perseguição que seus superiores tinham em relação a ele, o fazia sentir-se ainda mais furioso. Seria melhor esquecer aquilo, por ora.
Ele engoliu em seco e olhou para Luís.
— Eu não sei — Disse, apesar de que realmente não sabia. — Eu realmente não sei.
¤
Já iam dar sete horas da noite quando Miguel chegou em casa e logo sentiu o doce aroma no ar: a deliciosa comida que Natália fazia.
Quando a conhecera, ela não sabia fazer muita coisa, mas sabia fazer uma comida mais deliciosa que a outra. Conforme o passar de dois anos juntos, ela mesma se esforçava para fazer o melhor na casa e começou ela mesma a aprender a fazer e a criar as coisas sozinha – além de ser incrível na cama. Natália Franco era do tipo de mulher que todo marido se apaixonaria todos os dias.
Antes mesmo que ele pudesse abrir a porta de entrada da sala, ela correu para atendê-lo, saudosa como sempre.
— Miguel — Ela pulou em cima dele, toda sorridente. Ele a abraçou. — Bem vindo. — Natália beijou a bochecha dele, ainda com os braços enganchados no pescoço do marido. — Chegou um pouco tarde...
Miguel sorriu, achando graça do beicinho infantil que ela fazia de vez em quando.
— Sentiu saudades, é? — Ele perguntou insinuante, apertando-a ainda mais em seus braços.
Natália suspirou ao olhar fixamente para ele com os olhos escurecendo de desejo. Adorava isso. Um toque a mais que ele desse nela, Natália já suspirava de desejo e já estava pronta para se entregar a ele. E, o melhor de tudo, ele sempre estava pronto para possuí-la.
— Sim — Ela respondeu num fio de voz, ainda o olhando com paixão.
Miguel sorriu mais uma vez, mas dessa vez fechando a porta atrás de si. Não queria assustar a vizinhança com o que pretendia fazer com ela. Ele tocou os lábios dela com os seus e aprofundou ainda mais o beijo, sufocando os gemidos que ela emitia. Que se danem os problemas do trabalho ou até mesmo o cheiro delicioso da comida e a fome que sentia. Naquele exato momento, ele só queria ter o corpo nu e suado de Natália debaixo do seu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário