terça-feira, 11 de janeiro de 2022

AOP (parte 1) - capítulo 2




Miguel e Natália haviam terminado de fazer amor e ela se adiantou para esquentar a janta para ambos. Já vestidos e postos à mesa, eles continuaram a comer e conversar sobre coisas banais. 

Miguel olhou para sua esposa com apreciação. 

Ela estava ainda mais linda vestindo um casaco que era dele, estando bem largo nela, e com a longa cabeleira escura solta. Mesmo não sendo mais virgem, Natália ainda tinha uma aura inocente. Ainda se lembrava bem do dia em que a salvou de um homem tirano que a forçava a fazer trabalho escravo. Naquele dia, ele não só se sentiu melhor por ter salvado alguém, mas também havia se apaixonado completamente por ela. Não tinha como não se apaixonar quando enxergou gratidão, e o mesmo sentimento que sentira por ela, no fundo daqueles olhos castanhos. Natália era ainda mais inocente e alheia às maldades do mundo. E a partir daquele momento, ele decidiu que a protegeria com a própria vida e lhe daria o mundo. Isso estava um pouco difícil de realizar, ele sabia. Os superiores da corporação não lhe deixavam progredir e, por isso, ele não podia oferecer a ela uma vida bem melhor. 

Miguel olhou em volta da casa. 

O espaço era pequeno, os móveis velhos e surrados, tinham apenas poucas coisas novas, que ele conseguira com muito esforço, pois o salário que recebia era limitado. Ele olhou para a esposa que o encarou de volta, preocupada. Natália merecia mais; fazer o cabelo no salão de beleza com freqüência, fazer mais as unhas, vestir roupas novas, andar com jóias e todas as outras coisas de uma mulher de classe. Claro que ela não sabia se comportar como uma mulher da alta sociedade, pois era uma menina xucra quando a conheceu. Mas realmente gostaria de dar tudo a ela, mimá-la. Não só a ela, mas também aos filhos que ainda não conseguiam ter, por conta dela não conseguir engravidar, mesmo após dois anos juntos. 

Miguel respirou profundamente. Estava quase tudo dando errado. 

— Miguel? 

Ele ergueu a cabeça e fitou a esposa que o encarava, confusa. 

— O que foi? 

— O que está acontecendo? — ela perguntou com um tom de preocupação na voz. — Você mal tocou na comida. 

Miguel olhou para o prato quase cheio. 

— Perdão. Eu estava pensando em algumas coisas — ele respondeu vagamente. — Não estou com tanta fome. 

Natália suspirou. 

— Eu pensei que você estivesse com fome depois de um longo dia de trabalho. 

— Eu também — Miguel concordou. — Mas consegui me saciar com você. — Ele sorriu de modo malicioso para ela. 

O rosto de Natália ficou corado de vergonha. Mesmo sendo casada com ele e já sendo bem íntima, ela ainda ficava acanhada quando seu marido bancava o pervertido. 

— Miguel, pare com isso — ela disse sem jeito, mal o encarando. 

Miguel achou graça da reação dela. 

— Me desculpe, meu amor. Realmente, não estou com fome. 

Ela suspirou derrotada. 

— Tudo bem. Mas, para compensar, amanhã você levará bastante comida na marmita. — Ela disse e recolheu os pratos e os copos, pondo-os sobre a pia. 

Miguel se inclinou para trás e tentou relaxar na cadeira, observando o teto rachado. 

Mais uma vez, a sala estaria com uma grande poça de água, quando chovesse. Ele já estava cansado daquela vida miserável. 

Natália guardou o restante da comida num recipiente de plástico e o pôs na geladeira junto de outros recipientes, que ainda tinha o resto da janta. Ela atravessou a cozinha americana e olhou atentamente para o marido relaxado na cadeira. Mas o rosto dele não estava relaxado; Miguel parecia estar incomodado com algo. 

— Miguel? — Natália o chamou. 

Miguel olhou para ela e sorriu. 

— Venha — ele bateu de leve em uma das pernas, chamando-a para sentar-se em seu colo. 

Natália foi de imediato, ela adorava estar aconchegada a ele. Miguel ajeitou-se na cadeira de um modo mais confortável e a apertou ainda mais ao seu corpo. 

— Me diga o que está acontecendo — ela se adiantou, visto que ele estava muito calado. 

Miguel suspirou profundamente e olhou para a esposa. 

— Me sinto um inútil. 

— Por quê? — Ela franziu o cenho, confusa. 

— Estamos casados há quase dois anos e até hoje não te dei a vida que você merece ter. 

Natália sorriu com descrença. 

— Miguel, a vida que eu mereço ter é do seu lado, para sempre. Por que acha que eu preciso ter uma mansão enorme para ser feliz? Algumas mulheres podem desejar isso, mas eu não. Contanto que você sempre fique comigo, estarei muito bem. 

Miguel mexeu a cabeça, discordando. 

— Não. Mesmo você sendo estéril, eu tenho esperança de que você engravide — Ele olhou para ela, que engoliu em seco. Ainda se lembrava do dia em que Natália descobriu que não podia ter filhos. Ela tinha ficado inconsolável. — E eu quero dar tudo o que eles quiserem, meu amor. Você sabe como são as crianças, elas pedem tudo, elas querem tudo. Eu não vou criar meus filhos, se a gente conseguir ter, de modo que eles fiquem tristes ao ver os amiguinhos tendo tudo, e eles, nada. — Ele a ajeitou um pouco mais em seu colo e acariciou por dentro do casaco. Natália conteve um leve gemido. — Não quero que você seja narizinho empinado ou esnobe, como muitas dessas mulheres de alta classe, como sua prima. 

Natália riu. Ela sabia muito bem a quem ele estava se referindo. Mas, mesmo seu marido se referindo a uma de suas primas daquela maneira, Natália ainda tinha algum resquício de ciúme quando ele falava dela. Não só quando falava, é claro. 

— Mas eu ainda vejo você andando com roupas mais bonitas, se cuidando mais e gastando nosso dinheiro no que você quiser. Além do mais... — Ele sorriu e Natália corou. Novamente aquele sorriso malicioso. — Sonho em fazer amor com você, com você usando nada mais do que um lindo e sofisticado sapato de grife e um colar de jóias preciosas — de preferência rubis, pois combina mais com você. 

Natália conteve um riso. 

— Mas que sonho é esse? — Ela indagou achando graça.

— Um sonho bom e erótico — Miguel respondeu beijando o pescoço dela, enquanto acariciava mais para cima, por dentro do casaco. — Acho que todo homem sonha em fazer amor com suas mulheres assim.

Natália sorriu e se aconchegou ainda mais ao marido. Era bom tê-lo assim. Sabia que ele estava cansado por conta do trabalho e se sentindo deprimido; também sabia que ele estava escondendo algo. Contudo, não exigiria uma resposta agora, ainda mais sabendo que Miguel não gostava muito de ser interrogado. Trataria apenas de tentar fazer seu papel como esposa, o alegrando e fazendo-o sentir-se bem e relaxado, o que não acontecia no trabalho. 

— Amanhã visitarei Ana – Natália comentou, mudando de assunto. — Você estará de folga? 

Miguel ficou mais sério e meneou a cabeça. 

— Não — ele respondeu. — Terei de trabalhar. 

Natália suspirou com pesar. O trabalho tomava muito do tempo dele. 

— Eu estava pensando em sair um pouco, espairecer a mente enquanto você estiver trabalhando... Eu queria voltar a vê-las. — Natália disse com certo receio, pois ela sabia que Miguel não gostava muito de suas parentes.

Miguel a fitou seriamente por um tempo considerável e suspirou, derrotado.

— Se é isso o que você quer, então faça — Ele disse mesmo que à contragosto. — Quero que você saia mais e se divirta... mesmo que isso inclua a sua "família". — O desgosto e amargura eram percetíveis em sua voz.

— Você é minha família — Natália disse de imediato para ele. 

E era verdade. Natália amava as primas, mas somente seu marido era a sua verdadeira família, o seu conforto, ela tinha de reconhecer. "Família" era uma palavra muito forte e bela para ser dada a pessoas que nunca fizeram questão de sua existência há mais de dois anos, enquanto que um mero estranho não havia pensado duas vezes em salvá-la daquele inferno na época. Não que Natália ainda tivesse mágoa ou rancor dos outros parentes, ou das primas, que não tinham culpa, mas Miguel foi o seu verdadeiro anjo e salvador. Ela tinha total conhecimento do desgosto que Miguel sentia pelos seus parentes, mas não o julgava, pois ainda era compreensível.

— Eu sei, meu amor. Mas eu quero que você saia mais ao invés de ficar somente dentro de casa esse tempo todo — Miguel disse olhando fixamente para ela. — Mesmo que não seja comigo. Tudo bem? 

Natália sorriu para ele e assentiu. 

— Sim, tudo bem. Também espero que você tenha um bom dia de trabalho — Natália disse com aquele jeito encantador e inocente que só ela tinha.

Miguel assentiu, mesmo sabendo que não tinha um bom dia de trabalho há muito tempo. 

— Tudo bem — ele concordou. 

— E... – Ela lhe acariciou a face. – Quero que você faça mais amor comigo, para compensar o dia de amanhã. 

Miguel sorriu, achando lindo o rubor na face dela. Era um pouco difícil vê-la tomar a iniciativa quando se tratava de sexo. Ele a apertou ainda mais ao seu corpo, levantando-se da cadeira e indo em direção ao quarto com ela em seu colo. 

– Com todo o prazer — Ele disse e a beijou com ardor.

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