Natália se despediu do marido e se arrumou para ir à casa de Ana. Talvez Lola estivesse lá. Seria um dia tranquilo com a família, algo que não tivera por um bom tempo.
Ela estava contente que Miguel havia saído animado para o trabalho, mas ainda um pouco preocupada com ele. Natália sabia muito bem que os superiores do instituto de pesquisa haviam arranjado algum tipo de implicância com seu marido, mas até o momento, não entendia a causa. Estaria Miguel escondendo algo dela?
Natália respirou fundo e sacudiu a cabeça. Miguel não era assim.
Ela sabia que era o porto seguro dele, e todos os segredos e melancolia que ele tinha, sempre contava a ela. Não teria porque se preocupar tanto.
Ela respirou fundo mais uma vez e, em frente ao portão de entrada, tocou a campainha. Três minutos depois, Ana lhe atendeu, sorridente e bem humorada como ela sempre foi.
Ana era a pessoa mais alegre e gentil da família. Em questão de aparência, ela era uma mulher muito bonita; seus cabelos cacheados num tom castanho-avermelhado estavam presos num rabo-de-cavalo alto e com algumas mechas caindo sobre seu rosto, tinha olhos verdes-escuros cintilantes e uma saudável cor bronzeada.
Assim como Natália, ela também nunca fora uma mulher de se envaidecer demais; gostava de ser simples e espontânea. A única coisa que lhe poderia ser considerada "ruim" era o seu falatório, é claro. Ana era uma mulher de classe média alta, muito bem casada, e mãe de duas lindas meninas.
Ana abriu um dos portões pesados da linda mansão e correu para abraçar Natália, não fazendo nenhuma questão de esconder sua felicidade ao ver a prima. Natália fez o mesmo. Era bom vê-la.
— Natália, sua boba, você sumiu!
Natália encolheu os ombros num gesto de desculpas, embora soubesse que a culpa não era dela.
— Tive que me dedicar a minha casa nesses dois anos.
— Ah, sim. — Ana tocou a mão de Natália num gesto cúmplice e amigável. — Deveres como esposa.
As duas sorriram.
Ana falava como uma mulher experiente, e de fato ela era. Havia conhecido seu marido aos vinte anos de idade, casou-se com vinte e dois e tornou-se mãe da primeira filha aos vinte e três. As meninas tinham dois anos de diferença e mesmo depois de sete anos, Ana parecia a mesma. Havia mudado um pouco, sim, como todo mundo, mas para melhor. Natália admirava isso nela e esperava ser uma esposa quase tão perfeita, embora jamais pudesse ser mãe.
— Vamos, entre — Ana fez um gesto para dentro para que Natália pudesse entrar primeiro. — Hoje o dia será ótimo, você vai ver. Nos divertiremos muito! — ela disse contente.
Era algo novo, e, ao mesmo tempo, muito estranho voltar a ter um contato tão afetuoso com a sua família, depois de algumas turbulências do passado. Mas também era bom, pois ela não mais queria deixar as mágoas tomarem conta de seu coração.
Natália tratou de afastar os maus pensamentos e apressou-se em entrar.
♤
Miguel havia acabado de se trocar para começar o trabalho quando ouviu um dos superiores conversando com outro funcionário no corredor principal.
— Compre um bom terno, Astolfo. Você não vai querer fazer feio na festa de premiação.
Miguel olhou para os dois. Álvaro sabia muito bem que Astolfo, um homem com um pouco mais de cinquenta anos, era pobre e não tinha muitos recursos para comprar um bom terno. Era uma das maneiras de Álvaro tentar mostrar sua superioridade, como sempre.
— Não, senhor. — Astolfo esboçou um pequeno sorriso acanhado. — Tenho algumas economias guardadas e talvez dê para eu comprar um terno adequado.
Álvaro assentiu.
— Bom.
Ambos tinham praticamente a mesma idade, porém Álvaro era forte e mais alto, também tinha cabelos grisalhos, enquanto Astolfo era mais magro, baixo e tinha curtos cabelos negros.
Álvaro sorriu e apertou o ombro de Astolfo num gesto amigável.
— Então, nos veremos lá.
Astolfo assentiu e apressou-se em voltar ao trabalho. Álvaro deu um passo para o lado oposto do corredor e surpreendeu-se ao ver Miguel ali. Ele levantou o canto dos lábios num sorriso falso.
— Olá, Miguel. Bom dia.
Miguel nunca fora com a cara dele, mas sabia jogar o mesmo jogo. Ele também esboçou um sorriso falso.
— Bom dia, Dr. Álvaro.
— Estava aí há muito tempo?
— Acabei de voltar do vestuário — Miguel respondeu.
Álvaro assentiu.
— Eu estava falando da cerimônia de premiação com o Astolfo. Se você quiser, pode ir.
Álvaro ergueu a cabeça e andou na direção de Miguel.
— "Se quiser, pode ir"? — Miguel perguntou antes de Álvaro passar por ele. — Pode me explicar isso, por favor?
Álvaro parou e o fitou.
— Há algo que você não entendeu?
— Sim, há algo que eu não entendi — Miguel o encarou firmemente. — Por que quando foi com os outros funcionários, apenas a vestimenta deles foi discutida, mas quando foi comigo, disse que eu poderia ir se eu quisesse? Não sei para o senhor, mas para mim pareceu que minha presença nesse evento é insignificante.
Álvaro sorriu.
— Talvez isso seja coisa da sua cabeça, meu jovem — ele disse em tom afável. — Relaxe, foi apenas uma forma de dizer. Você não quer arranjar problema por uma coisa boba, não é?
Miguel estreitou os olhos. Por que sentia um tom de ameaça vindo dele?
Ele tratou de se recompor.
— Não, senhor. Claro que não.
O sorriso de Álvaro se alargou.
— Ótimo. Apenas vamos esquecer esse constrangimento e começarmos a trabalhar. Sua presença será muito importante para nós, Miguel. Acredite.
Dito isso, Álvaro passou por Miguel rumo ao seu escritório.
Miguel permaneceu no mesmo lugar, sem olhar para trás. Ele sabia que Álvaro era um verdadeiro babaca, mas talvez aquilo fosse coisa de sua cabeça. Deixaria os problemas para depois e se concentraria no trabalho.
♤
Ana guiou Natália pelos jardins da casa até chegarem num lindo pátio florido onde estavam Sérgio, o marido de Ana, sentado em frente a Lola, ambos tomando chá e as duas crianças brincando. A mesa e as cadeiras eram de ferro branco e de decoração clássica, assim como a casa. Ana era romântica e sonhadora, e mostrava muito de si na arquitetura e na decoração da casa. Já Lola era uma mulher mais moderna e sóbria, o que também refletia em seus gostos.
Natália olhou para a prima Lola. Sempre que a via, sentia um nó no estômago.
Soubera um ano e meio atrás que a prima havia perdido o marido que amava e até aquele momento, Natália sentia-se mal e constrangida em encará-la, pois não pôde lhe desejar suas condolências por causa do maldito ciúme que sentia.
Lola era cinco anos mais nova que Ana e era uma mulher madura demais para sua idade, mas era muito bonita; alguns até mesmo diziam que ela parecia ser a mais velha e não Ana. Tinha olhos castanhos e curtos cabelos tingidos de loiro platinado, mas que na verdade eram castanhos-claros. Ela sempre tivera um ar mais sério que as primas, mas sempre sorria. Contudo, desde que seu marido falecera, Lola parecia ter perdido o gosto pela vida.
Natália olhou para ela e esboçou um sorriso acanhado.
— Olá, Lola.
Lola tomou um gole de chá e devolveu o mesmo sorriso para Natália.
— Bom dia, Natália. Como você está?
Natália suspirou. Ela sabia que aquela era mais uma pergunta por educação do que por interesse.
— Estou bem — Natália respondeu. — E você?
Lola desviou o olhar por um breve momento e tentou ao máximo sorrir.
— Indo como posso — respondeu.
Natália assentiu, abaixando a cabeça. Lola não superaria tão cedo a morte de Claus, mas pelo menos ela estava tentando.
Sérgio levantou-se da cadeira e foi até Natália a fim de cumprimentá-la.
— Olá, querida! — Ele a abraçou. Era tão gentil e enérgico quanto Ana, embora fosse um pouco mais reservado. — Seu marido está trabalhando hoje?
— Sim, está — respondeu Natália. — Ele só tem folga aos sábados e aos domingos.
Poderia ser mais uma de suas imaginações, mas Natália notou a expressão de Lola mudar no momento em que Sérgio mencionou Miguel. Por que não conseguia controlar o maldito ciúme?
— Ah, sim. Sente-se. — Sérgio indicou uma das cadeiras.
— Obrigada — Natália sorriu agradecida e sentou-se pondo a bolsa sobre o colo.
— Meninas, essa é minha outra prima, Natália Franco — Ana disse às duas garotinhas que pararam de correr para olhar Natália com curiosidade.
— Olá, tudo bem? — Natália sorriu para elas.
As duas também sorriram e ficaram em frente a Natália em modo educado.
— Meu nome é Paulina — Disse a menina de cabelos lisos e claros.
— E meu nome é Alessandra — Disse a mais velha de cabelos ondulados e castanhos como os do pai.
Natália sorriu encantada com a educação daquelas duas crianças. Se pudesse ser mãe, iria querer lindas meninas como elas.
— Muito prazer, Paulina e Alessandra.
As meninas sorriram para ela, mas ainda demonstrando desconfiança e curiosidade como qualquer outra criança, e voltaram a brincar pelos jardins.
Natália suspirou de contentamento. Era uma casa perfeita e uma família perfeita. Não que ela não soubesse o que era a verdadeira felicidade ao lado de seu amado esposo, mas sentia que faltava mais.
Ana também se sentou ao lado das primas e do marido em volta da mesa.
— Que bom que estamos todos juntos aqui — Ana disse sorridente.
— Nem todos — Lola disse e tomou mais um gole de chá.
Natália fitou Lola. Ela não sabia se a prima estava se referindo a Miguel ou a seu falecido marido.
— Verdade — Sérgio concordou. — Miguel está trabalhando e você também não trouxe seu filho, Lola. Com quem o deixou?
— Deixei-o com a babá — Lola respondeu. — Ele estava com muito sono e achei que seria melhor eu vir sozinha.
Um filho?
Natália fitou Lola com surpresa.
— Você tem um filho?
Lola a fitou um pouco mais séria.
— Seu marido não te contou?
Natália franziu o cenho, confusa. O que Lola queria dizer com aquilo?
Deixe seu ciúme de lado, Natália.
— Por que ele me contaria? Vocês andaram se encontrando? — Natália fez as duas perguntas de modo apressado sem se dar tempo de pensar.
— Sim — respondeu Lola sem titubear. — Há dois anos.
Natália engoliu em seco. Como Miguel havia voltado a ver Lola mas não havia lhe contado nada?
Uma pequena voz em sua cabeça estava lhe dizendo que Miguel poderia não ser tão sincero quanto ela pensava, mas tratou rapidamente de afastar o pensamento inoportuno. Miguel era tudo em sua vida e a pessoa mais confiável que já conhecera.
— Não, ele não me contou — Natália disse com mais seriedade do que pretendia.
Lola a fitou por um momento.
— Lamento — ela disse.
Natália continuou encarando a prima sem entender. Podia sentir algo a mais naquela palavra dita por Lola. Mas tratou de se recompor, pois estava num dia em família. Ainda mais porque podia ver o semblante de sua prima tomado pela tristeza. Mesmo sorrindo, Lola parecia estar muito infeliz. Não era justo continuar sua cisma com ela. Não depois de mais de dois anos.
Ana olhou para Natália e sorriu como que tentando aliviar o clima tenso.
— E você, Natália — Ana começou. — O que fica fazendo em casa?
As bochechas de Natália ficaram levemente coradas. As únicas coisas que ela fazia era cuidar da casa, aprender receitas em programas de TV, e claro, fazer amor incansavelmente com Miguel a noite inteira.
Ela sorriu acanhada.
— Cuido da casa e aprendo receitas em alguns programas de TV — respondeu ocultando a última coisa.
— Você gosta de aprender receitas? — perguntou Sérgio.
Natália assentiu.
— Pode parecer bobeira, mas é um de meus passatempos favoritos.
— E você pratica as receitas?
Natália fez que sim.
— Sim, algumas — ela respondeu. — Mas não tanto quanto eu gostaria, pois não temos tantos recursos.
Sérgio assentiu.
— Então, venha pelo menos duas vezes por semana aqui em casa e poderemos fazer as receitas — Ana disse empolgada. — Você sabe que eu adoro cozinhar. Comeremos um pouco aqui e a outra parte você leva para comer em casa, que tal? Você fica sozinha em casa até o Miguel chegar mesmo.
Natália assentiu timidamente.
— Tudo bem. Você marca o dia, então.
— Sim! — O sorriso de Ana se ampliou. — Que tal sexta-feira que vem? — Ela olhou para o marido. — Está bom para você, Sérgio?
Sérgio esboçou um pequeno sorriso em concordância e assentiu antes de tomar outro gole de chá. Ana voltou-se para as primas.
— Então, combinado! Lola, venha também. Aproveite e traga o Nicollas.
Nicollas… Era um nome bonito.
Lola suspirou e assentiu.
— Tudo bem — ela disse e virou-se para Natália. — Natália, também quero que você vá à minha casa. Tenho que te mostrar algo muito importante.
Algo muito importante? O que seria?
Ana e Sérgio olharam para as duas com curiosidade e Lola desviou seu olhar para a mesa. Natália sentiu-se confusa e curiosa por conta das palavras da prima. Pelo modo como havia dito, parecia ser algo sério. Estaria isso também relacionado à sua crescente mudança de comportamento?
Natália engoliu em seco. Que Miguel não estivesse envolvido em nada relacionado a ela.
— Tudo bem… — Natália gaguejou e engoliu em seco. — Que dia poderei ir?
Lola olhou para ela, ignorando os olhares confusos de Ana e Sérgio.
— Depois pedirei seu telefone e marcamos o dia.
Natália franziu o cenho, confusa, tentando entender o que Lola queria com ela e por que.
— Tudo bem — concordou num fio de voz.
Afinal, que coisa importante seria essa que Lola queria lhe mostrar?
♤
Lola havia chegado mais cedo em casa. Almoçou junto à família, mas foi embora mais cedo. Por mais que Ana tivesse insistido para ela permanecer, seu amor e proteção pelo filho falavam mais alto. Lola sorriu consigo mesma. Sabia que se tornaria uma mãe super protetora. Amava muito seu menininho de apenas dois anos, sempre o amaria, apesar de tudo. Nick não tinha culpa do que havia acontecido, ela jamais descontaria uma de suas maiores desgraças no filho.
Ela adentrou a casa de modo apressado mas sem perder a elegância de sempre, e foi direto para o quarto do filho. A babá, que estava dando mamadeira para o menino que estava em seu colo, abriu um sorriso ao ver Lola. Samantha amava estar com Nick, mas jovem e agitada como era, amava ainda mais quando ía embora encontrar-se com o namorado. Sua semelhança com Natália era quase assustadora. Elas se pareciam muito, embora Samantha tivesse dezessete anos, dois a menos que Natália.
— Oh, dona Lola. Que bom vê-la. Nick chorou a maior parte do tempo quando a senhora foi embora — Disse a jovem.
Lola esboçou um sorriso triste e estendeu os braços para que Samantha lhe entregasse o menino.
— Já pode ir, Samantha — Lola disse aninhando o menino em seus braços. — Vou depositar o seu pagamento em sua conta nesse sábado.
— Sim, senhora — Samantha abaixou-se para beijar o rosto de Nick. — Tchauzinho, coisa fofa.
Samantha saiu do quarto fechando a porta atrás de si, e Lola olhou amavelmente para o filho. Nick tinha os mesmos cabelos dourados e olhos verdes dele.
Ela engoliu em seco e seu sorriso esmoreceu.
Por que o destino teve de ser tão cruel e fazer aquilo com a sua família? Por que logo com ela?
Nick tocou o rosto tristonho de sua mãe e sorriu, como se dissesse que tudo ficaria bem. Lola deu-lhe um sorriso triste em troca.
— Ela saberá, meu amor. Eu contarei tudo a ela.
O menino continuou a sorrir alheio a expressão tensa de sua mãe. Lola olhou para os traços do menino e lembrou a si mesma que seu filho não tinha culpa. Mas a cada momento em que crescia, mais Nick ficava idêntico a Miguel.
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