quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

A noiva do Drácula (nova versão) - capítulo 8




Luana estava apavorada. Depois de ter sido abordada por David para poder sair com ele, ter revelado que tinha compromisso com outra pessoa e vê-lo daquela maneira, como se quisesse matar alguém, ela nem ao menos conseguia pensar direito.

Faltavam apenas meia hora para poder ir embora, mas Luana sentia que as cinco horas de trabalho foram cinco anos. David todo o tempo olhava para ela com a cara fechada e ela sentia que a amizade de anos dos dois estava prestes a ser rompida. David era um dos seus melhores amigos, o primeiro que ela havia conhecido, mas ele era intenso demais, sinistro demais. Ela já não conseguia se dar bem com ele como fazia antes, nem ao menos conseguia falar com ele sem gaguejar.

Jéssica andou furtivamente até sua mesa. Durante todas as horas de trabalho, sua amiga tentara arrancar informações sobre o que tinha acontecido na noite anterior, mas Luana sempre buscava mudar de assunto. Obviamente que não iria contar aos amigos. Eles nunca iriam acreditar nela. Pelo contrário; iriam rir.

— Luana, me fala de vez, por favor. O que houve ontem?

Luana engoliu em seco e fitou a amiga que estava sentada em cima de sua mesa, ainda com aquele sorriso na cara.

— Não houve nada, Jéssica — Luana respondeu de modo enfático, mesmo sem sucesso.

— Eu te conheço, Luana. E sei muito bem quando você está mentindo. — Jéssica insistiu.

Luana continuou a fitar a amiga que ainda olhava atentamente para ela, procurando uma resposta. Como poderia fugir daquela conversa que, por sinal, já estava ficando inevitável? O jeito era mudar de assunto.

— E David? O que houve quando eu saí?

Jéssica esboçou um sorriso travesso.

— Luana... o homem estava com uma cara... Parecia que queria estrangular alguém.

— Ah... sei. — Luana engoliu em seco ao se lembrar da cara de poucos amigos de David quando ela se negou a sair com ele na noite passada. — E aí? Realmente, havia uma máquina?

— Sim. Daquelas bem grandonas — Jéssica respondeu. — Para consertar aquilo foi um inferno. Saímos daqui bem tarde. E olha que foram apenas David e Fred quem consertaram, Nina e eu apenas auxiliamos em pequenas coisas. 

— Ah.

— E David é bem forte, viu? — Jéssica disse admirada, mas franziu o cenho em estranheza. — Ele carregava coisas que nem mesmo Fred aguentava.

Luana também franziu o cenho sem entender.

— Como assim?

— Caixas de livros cheias, peças mais pesadas da máquina... — Jéssica explicou. — Enquanto Fred carregava objetos mais pesados com muito esforço, David os carregava como se não fossem nada demais.

Luana esboçou um sorriso em descrença.

— Não exagere, por favor. Não é só porque David é um cara estranho que você tem que alterar ainda mais a fama dele.

— Estou falando sério. Pergunte à Nina. — Jéssica parecia bem convicta.

Como se ouvisse o seu nome ser mencionado, Nina atravessou o grande escritório até a mesa onde estavam Luana e Jéssica e sorriu em comprimento para as duas.

— Olá, meninas. Sobre o que estão conversando?

— Foi bom você ter vindo — Jéssica se dirigiu a Nina. — Não é verdade que David estava carregando coisas mais pesadas do que Fred?

Luana as encarou em confusão. Aonde elas queriam chegar com aquela conversa?

— Isso é porque você só viu a parte menos esquisita — Nina respondeu Jéssica, mas também olhou para Luana. — Sabe a hora em que você foi ao banheiro?

— O que tem? — perguntou Jéssica.

— Eu posso jurar que vi David carregando aquela máquina para outro lugar, depois de terem consertado. Sozinho. E a máquina é enorme, maior do que esta mesa.

Jéssica e Luana olharam com descrença e estranheza para Nina.

— Você está... ficando maluca? — Luana perguntou.

— Não, Luana, eu juro — Nina disse com convicção e olhou para trás para verificar se alguém mais ouvia. — Fred antes tentou arrastar a máquina, mas David simplesmente a carregou como se segurasse um cachorro de porte médio.

— Olha... — Jéssica assobiou em surpresa e admiração. — E você achando que eu estava exagerando, hein, Luana.

Luana fitou o nada, tentando pensar em algo. Infelizmente, nada lhe vinha à cabeça. Mas pensar naquilo era loucura, talvez Jéssica e Nina estivessem exagerando. E mesmo se não estivessem, já não era um bom momento para ela pensar em David.

— Não acham estranho? — Nina comentou. — Fred sempre pareceu ser mais forte, enquanto David sempre pareceu ter um corpo mais esguio.

— Nem sempre as coisas são o que elas aparentam ser — Luana disse tentando acabar com aquele assunto sem sentido. — Agora, por favor, vamos falar de outra coisa ou cada uma volta pra sua própria mesa.

— Nada disso, mocinha — Jéssica foi mais rápida. — Não volto para minha mesa até você me contar o que aconteceu ontem.

— Houve alguma coisa? — Nina indagou curiosa.

— Sim. Mas a Luana não quer dizer — Jéssica respondeu. — Eu vi um lindo anel no dedo dela e parecia ser de noivado. Aliás, onde ele está?

Luana tentou ocultar sua mão direita e percebeu Nina fitá-la com um sorriso bobo no rosto.

— Ah, jura? — Nina indagou com um largo e ansioso sorriso.

— E nos conte tudo, também — Jéssica completou.

Luana se remexeu de modo desconfortável sobre a cadeira.

Aquelas duas estavam parecendo Shartene e Miranda com sua curiosidade aguçada, embora Shartene e Miranda soubessem o que era limite, pois eram apenas duas criadas.

O que Luana faria? Não tinha como ela contar tudo nos mínimos detalhes para as duas amigas. Drácula não exigira sigilo, mas como ela tocaria naquele assunto sem parecer que estava louca? Ninguém acreditaria nela.

Luana ignorou as duas mulheres à sua frente e olhou na direção da mesa de David, constatando que ele também a olhava de volta com aqueles olhos azuis ardentes. Como ela contaria a ele?

Porque ela havia se questionado como contar a ele?, perguntou-se em pensamento. David era apenas seu amigo, ela não devia nenhuma satisfação a ele ou a quem quer que fosse. Ainda mais a ele que ela tanto queria evitar com todas as suas forças, Luana pensou exasperada e louca para poder ir embora dali o quanto antes.

— Meninas, esqueçam isso, por favor. — Luana tentou se concentrar em arrumar a papelada sobre sua mesa numa tentativa vã de se distrair, mas Jéssica e Nina ainda atrapalhavam.

— De jeito nenhum! — Jéssica respondeu com a mesma insistência. — Eu só vou sair daqui quando você nos contar.

— Jéssica, deixe-a em paz — Nina disse puxando suavemente o braço da amiga. Ela notou que Luana não parecia muito confortável.

— Eu não vou contar a vocês aqui e agora — Luana disse entre os dentes, já impaciente com a insistência inoportuna de Jéssica. — E vocês terão que voltar ao trabalho de qualquer modo, pois daqui a pouco o chefe vai aparecer e exigirá o relatório.

Jéssica a encarou de cara fechada. O que havia acontecido com Luana para agir de modo tão reticente como agora?

— Um anel de compromisso, não é, amiga? — Nina indagou ao esboçar o conhecido sorriso de romântica incurável que ela sempre fora. Ela suspirou pensativa. — Droga. Só eu que não tenho namorado...

— Ora. Fique com o David — Jéssica sugeriu.

Por algum motivo que não soube decifrar, Luana sentiu seu coração parar de bater por um ínfimo instante.

— Por quê o David? — Ela não pôde evitar um certo desconforto ao fazer tal pergunta.

— Por quê não? — Jéssica sorri. — Eu estou com o Fred, parece que você está com uma pessoa. David é solteiro e Nina também.

— Mas, tem que ser o David? — Luana tentou parecer o mais natural possível. — Ele é estranho, vocês sabem.

— Sim, ele é realmente muito estranho... — Jéssica olhou de soslaio para a direção de onde David estava, mas não de um modo que ele percebesse. — Mas também é muito lindo.

Sim, ele era lindo e completamente atraente. Sim, ele era solteiro e desimpedido. Mas era a ela quem ele amava, não a Nina.

Luana franziu a testa em confusão e repulsa por seus pensamentos. Mas por quê ela estava se preocupando com aquilo, por quê parecia estar tão incomodada? Ela agora pertencia à outro homem — por mais estranho que isso ainda pudesse parecer — e que com certeza era ainda mais estranho que David, embora fosse encantador.

— Verdade — Luana respondeu sentindo o estômago embrulhar. Ela não pôde evitar fitar Nina seriamente. — Você gosta dele, Nina?

Nina sorriu. Por algum estranho motivo, Luana odiou aquele simples gesto.

— Sabe, meninas... Eu também acho David muito estranho e indecifrável na maior parte das vezes, mas... — Os olhos de Nina se voltaram rapidamente para trás em receio dele talvez ouvir. — Mas eu sempre achei que ele é apenas um cara incompreendido que precisa de alguém para apoiá-lo. Eu acho. — Nina deu de ombros sem saber mais o que dizer, o rubor de suas bochechas se destacando juntamente com o sorriso tímido.

Luana queria muito brincar com Nina sobre sua timidez e até lhe dizer palavras de incentivo, mas não sentiu vontade de fazer nada disso naquele momento.

— Me parece que você realmente gosta dele — Luana disse com secura na voz, mas tentou ao máximo não deixar transparecer.

O sorriso de Nina pareceu aumentar.

— David é um cara legal, pelo menos é o que me parece. Como amigos, deveríamos nos unir mais a ele — Nina disse para as duas, mas sua atenção se fixou em Luana. — Principalmente você, Luana, que é a melhor amiga dele e o conhece há mais tempo do que nós.

O que diabos Nina sabia sobre sua amizade com David? David e ela não eram mais próximos como antes, era verdade, mas Luana não tinha culpa se David havia mudado para pior. Ele queria que ela se aproximasse, mas cada vez mais a afastava com seus modos completamente intimidantes.

Luana exasperou incomodada — não somente com a intrusão de Jéssica, como também pelo achismo repentino de Nina. Ela gostava tanto das únicas amigas que tinha, mas talvez não tanto quanto naquele momento.

— Ele continua sendo meu amigo, Nina — Luana disse de modo quase automático.

— Mas você vive evitando ele.

Sim, ela o evitava. Mas não era como se ela tivesse muita escolha.

— Ela me disse que tem medo dele — Jéssica disse à Nina.

Os olhos de Luana se arquearam em surpresa pela terrível indiscrição de Jéssica.

Nina fitou Luana como se ela fosse louca.

— Você tem medo dele? Por quê?

Luana não podia mais esconder. Nina também era sua amiga, embora conhecesse Jéssica primeiro; não era como se ela pudesse fazer distinção das duas àquela altura do campeonato. Aliás, se dependesse de Jéssica, o mundo todo saberia de seus segredos.

— É que... — Luana engoliu em seco procurando alguma forma menos imbecil de contar parte de suas angústias. — Eu sempre achei ele muito intenso.

Luana olhou rapidamente para David, constatando que ele parecia distraído com o trabalho, e desviou o olhar. A vontade que sentia era de enfiar a cabeça sob a terra e somente tirar quando ninguém estivesse mais por perto.

— Intenso? — Nina achou graça juntamente com Jéssica. Luana já estava farta daqueles sorrisinhos. Ela só queria toda a sua mesa de volta, a sua paz de volta. — Realmente, ele realmente é muito intenso. — Nina olhou de soslaio mais uma vez para trás e logo percebeu um olhar de desafio por parte de Jéssica. — Bem, pelo menos é o que parece.

— E você e o Fred, Jéssica? — Luana falou mudando de assunto após um pigarreio.

Jéssica praticamente se derreteu.

— Ah... Agora a gente está se acertando.

Nina olhou para Jéssica.

— Vocês estão namorando para valer agora?

— Mais ou menos. A gente está se acertando — Jéssica respondeu demonstrando uma timidez que certamente não combinava com ela.

Jéssica sentiu ser puxada de modo firme e suave contra alguém e o cabelo curto e claro de um homem apareceu ao lado de seu pescoço após depositar um beijo naquele mesmo lugar.

— Falando de mim? — Ele indagou se divertindo com a surpresa refletida nos olhos da "namorada", ou o que quer que ela fosse para ele.

Fred realmente era muito bonito, mas não se comparava à David, nem à Drácula — se aquele realmente fosse o nome dele. Fred e Drácula também tinham o charme ao seu favor, coisa que David parecia não conhecer. Luana acreditava que o único "charme" ao qual David conhecia era a intimidação e imposição, o que só a fez se afastar cada vez mais, e que com certeza também afastaria outras pessoas ao seu redor.

Luana queria tanto que alguém fizesse o mesmo com ela, sentir-se arrepiar ao toque de alguém como Jéssica se sentiu ao toque de Fred. Fazia tanto tempo que ela não se sentia realmente desejada por um homem, principalmente porque todos eles sempre inventavam um subterfúgio completamente banal para irem embora e nunca mais voltar. Ela se contorceu na cadeira, sentindo-se tímida com aquela cena mais íntima do casal logo à frente. Naquele mesmo dia ela veria Drácula. Ele era o seu noivo e ela mal podia esperar para ficar daquele mesmo jeito com ele.

— Sim. — Jéssica respondeu a Fred, quase insinuante.

— Eu falei para o fortão ficar aqui com a gente, mas parece que ele está ocupado. — Fred olhou de David trabalhando para as meninas. — Ele é bem forte, hein, Luana. David parece ser mais fraco que eu, mas me superou ontem.

Luana esboçou um pequeno sorriso.

— Elas já me contaram — Luana disse para o amigo e olhou mais uma vez para David; ele estava editando alguns manuscritos no computador, parecia absorto em seu trabalho.

Por conta de cenas mais calmas como aquela por parte de David, que Luana às vezes esquecia o quão difícil era estar perto dele.

— Enquanto eu estive trabalhando com David ontem, percebi que a gente não tem passado muito tempo juntos além daqui na editora, então tive a ideia de fazermos isso — Fred disse. — O que vocês acham?

— E o que você sugere? — Jéssica indagou ainda agarrada a ele.

— Eu pensei em irmos à uma boate, dançar, nos divertir e conversar um pouco. E, talvez, pegar uma praia depois.

— E quando seria? — Nina indagou interessada.

— Esta semana. Talvez sexta, quando sairmos do trabalho — Fred respondeu.

— Acho bem improvável sair cansada do trabalho e ir direto para uma boate — Nina contrapôs. — Ninguém aqui aguentaria.

— Eu aguentaria — Jéssica disse com um sorriso faceiro.

— Acho que Nina tem razão — Luana concordou com a amiga. — Eu também não me sentiria muito bem saindo do trabalho cansada e ir direto dançar.

— Não precisamos dançar, é só ficarmos bebendo numa mesa — Jéssica insistiu.

— Sim, Jéssica, vamos para uma boate ficar sentados — Nina ironizou em tom de brincadeira. — Como não pensamos nisso antes?

— OK. Sábado, então? — Jéssica se deu por vencida, embora antes não estivesse falando muito sério. — E marcamos de nos encontrar. Que tal?

— Melhor assim. Para todo mundo — Fred concordou. — Sobre a praia, decidimos depois.

— Concordo — Disse Nina. — Respondo também por David que ainda está trabalhando e por Luana que parece estar no mundo da lua.

Luana piscou rapidamente.

— Ah, me desculpe.

— Então sábado será o “Projeto David”, Nina. — Jéssica disse olhando para a amiga que a fitou com um olhar surpreso. — Aproveite que estaremos numa balada e dê o melhor de si.

Jéssica, de fato, era uma pessoa irritantemente insistente, Luana pensou ao fitar as duas de modo mais sério e logo desviar o olhar para outro canto, já que eles a impediam de trabalhar e pareciam só querer falar de coisas banais enquanto o chefe não aparecia.

Outrora, Luana teve dúvidas se iria junto com eles — não somente por conta de seu noivo, mas principalmente por causa da madrinha que ainda era dependente dela —, mas a partir daquele instante ela sentiu uma enorme vontade de ir também e ver com seus próprios olhos até onde aquela idiotice poderia ir.

Ela só não sabia se ficaria satisfeita com o resultado.


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