quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

AOP (parte 1) - capítulo 4



Natália apertou um pouco mais a gravata borboleta do paletó que Miguel estava usando para ir à premiação do Instituto de Ciência. Miguel estava se sentindo um idiota com aquela gravata borboleta cafona, mas não resistiu ao presente dado pela esposa. O que Natália quisesse, ele faria de prontidão, e aquela situação não era diferente.

— Pronto. — Ela sorriu orgulhosa de seu trabalho e olhou para o marido; Miguel estava lindo vestido com o paletó e o cabelo penteado para trás, bastante formal. — Você será o mais lindo da festa.

Miguel deu-lhe um pequeno sorriso.

— Bem, se minha linda esposa diz, eu acredito. Mas não será uma festa, apenas um coquetel — ele disse e olhou atentamente para ela. — Tem certeza de que não quer ir?

— Tenho. Minha cabeça está doendo um pouco — ela respondeu pondo a mão sobre a têmpora. — Também fui convidada por minha prima Ana a passar o dia na casa dela. Mas, infelizmente, telefonarei para ela e dizer que não poderei ir.

O semblante de Miguel ficou mais sério.

— Sua prima, hein? Agora sua família tem mais contato com você?

Natália pensou um pouco antes de responder.

Por mais que tentasse, Miguel não conseguia gostar da família dela. Não que fosse algo injusto, pois ele ainda guardava mágoa da família de Natália, diferentemente dela, que procurava não pensar muito nas inconveniências do passado. Contudo, conforme o passar do tempo, mesmo que não fosse tão fácil, Natália havia deixado as mágoas para trás e se juntado mais as suas primas. Ela sabia que a persistência do marido em ter sentimentos negativos em relação à sua família ainda duraria bastante tempo, por isso evitava falar da família para ele, apesar de ansiar por uma união.

— Sim — Ela disse hesitante em fitá-lo.

— Entendo — foi o que Miguel limitou-se a dizer.

Apesar de ter ficado um tanto aborrecido, Miguel respirou fundo tentando não repreendê-la. Essa era uma das coisas que ele mais amava em Natália; ela era gentil e benevolente, e também não guardava mágoa das pessoas. Aquilo podia até parecer um defeito para ele, mas sabia que ela era uma boa pessoa, e por isso a amava tanto. Não que ele tivesse alguma moral para perdoar alguém, pois já tinha feito coisas de que não se orgulhava nem um pouco.

— Você vai agora? — Natália perguntou mudando de assunto.

Miguel consultou o relógio de pulso.

— Ainda não. Falta meia hora — ele respondeu dando um sorriso libidinoso e puxando-a para si. — E você sabe o que pode ser feito em meia hora?

Natália sorriu. Adorava mais que tudo aquele jeito galanteador do marido, a maneira como ele sussurrava com desejo para ela.

— Sei, sim. Mas se fizermos o que eu estou pensando, você não sairá hoje daqui. E você precisa estar na premiação, certo?

Miguel sorriu resignado. Natália parecia ingênua, mas sempre tinha respostas rápidas para quase tudo — mais um dos vários motivos por amá-la tanto.

— Você tem razão — Ele disse ainda segurando-a. — Apesar de alguns tentarem me fazer acreditar que minha presença não é tão importante — disse com amargura.

— Deixe eles para lá — Natália o aconselhou mais séria, aconchegando-se ao marido. Por que, afinal, implicavam tanto com o Miguel? — O que eles pensam não importa, e algum dia verão você se tornar um famoso e respeitado cientista.

Miguel sorriu e beijou o topo da cabeça da esposa.

— Deus te ouça, meu amor.

Miguel remexeu-se desconfortavelmente na cadeira. O coquetel estava indo bem, com músicas elegantes tocando ao fundo, mas tudo estava mortalmente entediante. Após uma hora em pé andando de um lado para o outro do salão e puxando conversa amigável com as pessoas mais cínicas e hipócritas que mais tivera o desgosto de conhecer, os organizadores do evento reuniram alguns dos que trabalhavam em demais institutos para darem depoimentos nada interessantes sobre suas vidas e trabalho.

Ele deu mais um gole de champanhe na taça.

O depoimento da vez estava sendo feito por uma mulher magra, não muito atraente, de cabelo cacheado, parte dele preso num coque.

Ela se vangloriava pelas pesquisas científicas que havia feito ao longo de sua carreira e fingindo emocionar-se com alguns colegas de trabalho, fazendo algumas piadas toscas de vez em quando para arrancar risadas da plateia tão sem graça quanto ela.

Miguel pigarreou tentando ocultar sua irritação.

O nome da mulher era Luísa Pasquim e, até onde ele se lembrava, ela havia trabalhado em um curto período no Instituto da cidade. Era muito "amiga" de Álvaro e por isso havia conseguido uma vaga no trabalho, praticamente não tendo feito nenhum projeto em todo o período que trabalhou lá, a não ser amante de um dos mais conceituados cientistas da área. Após enjoar-se dela, Álvaro a enviou para o exterior, onde a carreira dela havia decolado — ou era isso que parecia.

Miguel observou Álvaro subir ao palco, saldar a amiga e devolver os agradecimentos, falando como se fosse o dono do mundo. Bebeu o último gole de champanhe, sentindo-se enojado com aquela cena. Não conseguia gostar daquele homem de forma alguma, e sabia que a falta de sentimento era recíproca.

Ele consultou o relógio de pulso: fazia mais de uma hora e meia que estava lá, e aquela droga de coquetel parecia não ter fim. Infelizmente, teria que esperar mais um pouco até chegar o momento das premiações aos melhores pesquisadores do Instituto de Ciência, mas algo lhe dizia que ele não estava na lista.

Miguel bufou, não conseguindo mais ocultar sua crescente irritação com toda aquela baboseira, e levantou-se para andar um pouco. Ele pegou sua taça vazia e trocou por outra cheia quando o garçom passou servindo outras taças numa bandeja.

Miguel bebeu outro gole de champanhe, olhando para fora onde só tinha natureza e o ar era mais puro. Aquela seria sua última taça da noite, pois Natália não gostava que ele bebesse muito, pensou sorrindo ao lembrar-se dela.

Quando ele era mais novo, fizera um voto de alcançar três metas de vida: ter uma linda esposa, ter um herdeiro com ela e ser um cientista renomado. Até aquele momento, só conseguira obter uma linda esposa, mas que infelizmente não podia lhe dar filhos.

Miguel contraiu o maxilar.

Tirando o fato de ter uma esposa maravilhosa a seu lado, quase nada estava dando certo para ele, e aquilo o irritava profundamente. Natália não podia engravidar, ambos moravam numa pequena casa e ele ainda era menosprezado no ambiente de trabalho. Ele sabia que teria de manter a compostura e continuar lutando pelo seu futuro e o de sua esposa, mas também sabia que estava prestes a enlouquecer.

Natália já havia terminado de fazer o jantar, mas não comeria nada ainda, pois esperaria pelo seu amado.

Ela olhou para o relógio de parede e ficou surpresa ao ver que já eram dez horas da noite.

Remexeu-se desconfortável na cadeira, não conseguindo ocultar sua preocupação. Já estava tarde, e tinha medo por Miguel voltar sozinho para casa. Miguel era um homem de vinte e quatro anos e sabia se virar sozinho, mas ainda assim ela não conseguia ocultar sua preocupação.

Natália retirou-se da mesa e já iria se deitar na cama, mas foi impedida pelo toque do telefone. Ela quase correu para atender. Devia ser Miguel para avisar que já estaria prestes a chegar.

— Alô?

— Alô. Sou eu, Natália.

Não era Miguel, e a voz era de sua prima Lola.

Antes de Natália se perguntar por que a prima estava ligando, ela lembrou-se de Lola dizer que manteria contato.

— Ah, sim. — Natália sorriu. — Como vai, Lola?

Sabia que havia feito uma pergunta idiota dado o estado de depressão que Lola começou a ter depois da morte de Claus.

Natália apertou os olhos ao ouvir Lola suspirar profundamente ao telefone.

— Bem, obrigada — Lola respondeu por educação. — E você, como vai?

— Vou bem também — Natália respondeu. — Só um pouco preocupada por conta do horário.

Natália olhou mais uma vez para o relógio, percebendo que já havia passado cinco minutos.

— Você está sozinha?

— Sim — Natália respondeu. — Miguel foi para uma cerimônia da empresa em que ele trabalha.

— Ah, sim — Lola disse pensativa e pareceu devanear um pouco antes de prosseguir. — Natália, serei breve. Quero que você venha à minha casa depois de amanhã. Tenho que te mostrar algo muito importante. Por favor, venha. Estarei te esperando.

Dizendo isso, Lola desligou, deixando Natália encarando o telefone, confusa. Ela pôs o telefone de volta no gancho. O que seria de tanta importância para Lola lhe mostrar dali a dois dias?

Natália adentrou o quarto e sentou na beirada da cama, ainda pensativa.

Por mais que ainda pudesse ser coisa de sua cabeça, pôde sentir Lola ficar mais aliviada ao saber que Miguel não estava lá. Fazia tempo desde que Miguel e Lola terminaram seu antigo relacionamento, mas Natália ainda sentia um pouco de ciúme dos dois.

Natália suspirou, afastando os maus pensamentos.

Lola não tinha mais nada a ver com Miguel, assim como aquele assunto do qual ela iria lhe contar. Confiava em seu marido mais do que tudo, e não deixaria sua mente fértil lhe pregar peças.

Ela deitou-se e abraçou o travesseiro de Miguel. Logo ele voltaria.

— Miguel!

Miguel olhou para trás e viu Márcio, seu colega de trabalho. Ele vestia um terno comum escuro e parecia contente com uma elegante mulher ao lado. Miguel abriu um sorriso.

— Márcio. Como vai? — Miguel apertou-lhe a mão em cumprimento.

— Bem, obrigado. — Márcio acenou para a mulher ao seu lado. — Esta é Raquel, minha esposa.

— Encantada — Raquel cumprimentou-lhe.

— Prazer, Raquel.

Ela parecia ser uma mulher sofisticada demais para ser esposa de Márcio, e também mais velha. Certamente, Márcio havia conhecido uma mulher mais velha e rica, mas queria trabalhar por conta própria. Por um lado, o invejava, mas por outro, sentia-se muito bem com a vida que escolhera. Aquela mulher podia ser bonita e bastante notável, mas não chegava aos pés de Natália.

— E a sua esposa? — Márcio perguntou.

— Não pôde vir — Miguel respondeu. — Estava com dor de cabeça.

— Entendo. Dr. Álvaro me disse que está muito contente em vê-lo aqui.

Miguel franziu o cenho.

— Quem? Eu?

— Sim — Márcio respondeu. — Ele pensou que você não viria.

— Ah. — Miguel ergueu as sobrancelhas em surpresa.

Álvaro contente em vê-lo no coquetel? Ele sempre fora a pessoa mais hostil no ambiente de trabalho e quase nunca disfarçava isso.

Miguel estreitou os olhos.

Aquele imbecil devia estar aprontando algo, mas não era o momento adequado de se aborrecer pensando naquilo.

Ele olhou para Márcio e sorriu educadamente.

— Sente-se confiante hoje à noite? — Perguntou.

Márcio ponderou.

— Bem, um pouco — respondeu sorrindo. — Quero ser reconhecido pelo meu trabalho, mas não vou ver como o fim do mundo a possibilidade de eu não ganhar um prêmio hoje à noite.

Miguel o encarou por um momento enquanto Raquel bebia champanhe olhando em volta do salão.

Aquele homem não parecia ser ambicioso o suficiente. Miguel, por outro lado, queria poder ganhar todos os prêmios possíveis ao longo de sua carreira para mostrar a sua linda esposa o quão reconhecido era por seu trabalho, além de poder esfregar nas caras de todos os idiotas que o subestimavam.

— Eu estou, e muito — Miguel disse sério. — Tenho certeza de que faço um bom trabalho e quero ser reconhecido por isso. Não aceito qualquer tipo de derrota.

— Você é igual ao meu irmão — Raquel disse entrando na conversa. — Desde pequeno, ele não aceitava ganhar uma nota abaixo de nove. — Ela sorriu. — Talvez, você seja como ele.

— Não, Raquel — Miguel respondeu. — Sou ainda mais radical — disse e ergueu a taça num brinde solo antes de beber a maior parte do champanhe.

O restante da noite foi um pouco menos entediante. Miguel pôde distrair-se um pouco conversando com Márcio e Raquel, e também alguns outros que vinham cumprimentá-los. Algumas vezes, sentia alguns olhares diferentes de Raquel sobre si, mas fez questão de ignorar. Luísa e Álvaro também foram cumprimentá-los e Miguel conseguiu ser educado, até mais do que pensou que poderia. Poucos minutos depois, o momento das premiações havia chegado, ocorrendo quase o mesmo que na cerimônia de recepção: as pessoas premiadas subiam ao palco, agradeciam e faziam um mini discurso sobre suas vidas e trabalho. Miguel já estava farto daquilo tudo e mais uma vez se contorceu de ansiedade sobre a cadeira para que chegasse logo a sua vez.

Ele consultou o relógio de pulso mais uma vez e notou que já havia passado de onze horas da noite.

Natália devia estar morrendo de preocupação ou já devia ter dormido com fome, pois ela sempre o esperava. Só o pensamento o deixou ainda mais ansioso para que toda aquela embromação acabasse logo.

E dando mais um suspiro exasperado, observou com surpresa Márcio ser chamado ao palco e ser premiado por uma pesquisa que, na verdade, era sua.

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