sábado, 19 de fevereiro de 2022

AOP (parte 1) - capítulo 5



Mas que merda foi aquela?, Miguel pensou olhando confuso, surpreso e muito irritado em torno do salão, principalmente na direção de Márcio e Álvaro que estavam sorridentes em cima do palco.

Márcio tinha sido premiado por uma pesquisa que Miguel havia criado e não havia recebido qualquer crédito por isso.

Álvaro, Miguel pensou contrariado, pegando outra taça de champanhe e engolindo o líquido de uma só vez. Com toda a certeza, aquele maldito estava metido naquilo.

Miguel não perdeu mais tempo. Ainda em meio aos aplausos, ele atravessou o salão fixando o olhar raivoso nos dois pontos principais por sua humilhação.

Álvaro o viu chegar, mas ainda tinha o maldito sorriso cínico estampado no rosto.

— Olá, Miguel.

Miguel não cairia no jogo dele.

— Quero falar com você e Márcio agora. — Ele viu com ainda mais raiva Márcio agradecer os outros organizadores e segurar o prêmio que era para ter sido seu. Voltou sua atenção a Álvaro. — Se vocês não vierem agora mesmo para um lugar onde ninguém possa nos ouvir, juro que farei um escândalo aqui mesmo.

Álvaro assentiu cautelosamente. O desgraçado sabia o que estava fazendo.

— Tudo bem. Espere aqui. — Ele atravessou o palco e cochichou rapidamente algo para Márcio que entendeu e o acompanhou até os degraus da escada. — Vamos? — Álvaro indagou com o mesmo sorriso cínico e a postura arrogante.

Miguel deu lugar para ambos passarem, louco para socar a cara do doutor imbecil e também arrancar o prêmio que lhe pertencia das mãos de Márcio.

Ao chegarem num local mais apropriado, Álvaro falou primeiro:

— E então? O que deseja, Miguel?

Miguel respirou profundamente. Estava se segurando para não ter que fazer qualquer besteira.

— O que eu desejo é que vocês corrijam a besteira que fizeram e digam a todos os presentes que a pesquisa é uma criação minha, não do Márcio — Ele disse com mais raiva do que pretendia.

Álvaro deu-lhe um olhar confuso.

— Do que você está falando, Miguel? Esta pesquisa é do Márcio e eu o vi criá-la, em todos os dias de trabalho. — Álvaro olhou para o homem com o prêmio em mãos. — Não é mesmo?

Miguel fixou o seu olhar em Márcio e percebeu que ele parecia titubear.

Desde que o conhecera, Miguel pensou que poderia ter um amigo num ambiente de trabalho tão disputado e tão desagradável como o Instituto de Ciência. Márcio não poderia estar envolvido nas malcaratisses de Álvaro. Ele, não.

Márcio assentiu, olhando de modo firme para ambos.

— Sim, Miguel — Ele respondeu, a voz um pouco rouca. — Fui eu que desenvolvi essa pesquisa e o que está acontecendo aqui deve ser um engano.

Filho da mãe. Miguel o encarou confuso. O maldito estava do lado de Álvaro todo aquele tempo enquanto fingia ser seu amigo.

— Não… — Miguel iria dizer algo, mas deteve-se no momento.

Ou será que não?, perguntou-se algo em sua mente.

Miguel havia desenvolvido a pesquisa mas não havia contado à ninguém, nem mesmo a Márcio. Não teria como alguém descobrir, ou teria?

— Ou talvez trata-se de uma grande coincidência — Álvaro apressou-se em dizer, visto que Miguel parecia confuso entre pensamentos. — Em momento algum você nos apresentou sua pesquisa, Miguel. Se você teve a mesma ideia que Márcio, como saberíamos?

Miguel não queria ter que concordar. Maldição, ele odiou a ideia de ter que concordar concordar com aqueles dois!

Havia desenvolvido a pesquisa sim, mas como não havia mostrado a nenhum de seus superiores, Márcio teve a mesma ideia que ele. A mesma ideia que Miguel havia trabalhado minuciosamente para desenvolver. Perdera noites de sono e de prazer com a esposa por pensar em cada detalhe, para dessa vez ver todo seu esforço ser jogado fora.

— Não — Miguel repetiu sem conseguir encará-los, pois no fundo uma voz lhe dizia que algo não estava certo. Algo em que o maldito doutor parecia estar envolvido.

— Acho que já pudemos resolver o mal entendido — Álvaro disse e olhou para Márcio. — Nos desculpe por ter que fazê-lo passar por esta situação. Isso não ocorrerá novamente.

Márcio assentiu e fitou Miguel perdido em pensamentos antes de se retirar rapidamente dali sem dizer nada. Ótimo. Miguel não queria ter que falar mais nada com aquele homem.

Álvaro voltou-se na direção de Miguel, andando a passos curtos até parar ao seu lado. Como Álvaro era mais alto, teve que abaixar um pouco a cabeça para falar com ele em voz baixa.

— Foi apenas um engano, Miguel. Aceite isso. E da próxima vez, não faça mais as coisas às escondidas. Não queremos segredos no ambiente de trabalho.

Miguel ergueu a cabeça e olhou furiosamente para o sujeito arrogante que ía cumprimentar os outros convidados com um sorriso deslumbrante no rosto. Entre eles estava Astolfo, o senhor de cinquenta e dois anos de idade que havia encontrado no corredor do Instituto há alguns dias. Ele também não havia recebido prêmio algum assim como alguns outros, mas o caso de Miguel era diferente. Ele havia elaborado um projeto e posto em prática, quase esquecendo de tudo para que a pesquisa desse certo. E agora, lá estava ele em pé no meio do salão sem saber o que fazer, com Álvaro e Márcio rindo às suas custas.

"Segredos", o maldito havia enfatizado — como se ele soubesse de algo, Miguel ironizou. Era um homem de segredos, sim; inúmeros, para ser exato. Mas a última pessoa que entrou em seu caminho havia pagado caro e a situação poderia se repetir com aquele mal caráter disfarçado de doutor e com qualquer outro que ousasse fazer o mesmo.

Natália acordou assustada com um barulho. O que havia acontecido?

Ela levantou-se da cama e abriu a porta do quarto, percebendo que era Miguel parado, mas cambaleante, segurando a porta de entrada.

Ele estava bêbado, foi o que ela pensou. Miguel não se embebedava. Algo havia acontecido para que ele ficasse daquele jeito.

Natália rapidamente atravessou a sala e foi até onde estava o marido.

— Miguel?

Ele olhou torto para ela por causa da tontura.

— Miguel, o que houve?

— Nada — Ele sorriu e disse com a voz embargada: — Você é tão linda…

Elogios. Era isso o que Miguel fazia quando não queria que ela se envolvesse em seus assuntos.

— Diga, Miguel. — Natália adiantou-se em tirar a gravata borboleta dele e a jogou em cima da cômoda ao lado da porta. — O que houve para você voltar assim para casa? Eu estava te esperando para jantar.

Miguel olhou com dificuldade para cima do fogão: havia panelas tampadas por dois panos de prato. Com certeza, a comida estava intacta, pois Natália se negava a jantar sem que ele tivesse chegado em casa.

Tão fiel, sua menina. Ele sorriu.

— Me desculpe, meu amor. — Ele acariciou o rosto suave. — Você deve estar com fome.

Natália tirou-lhe o paletó, deixando-o apenas com a camisa de manga longa branca, a calça e os sapatos.

— Você também.

— Não — ele disse quase caindo. — Comi uns petiscos servidos pelos garçons.

— Isso não é comida — ela disse e o apoiou nas costas, passando o outro braço dele por seu pescoço. — Venha, vou levá-lo para a cama.

Miguel assentiu. Mas, mesmo estando bêbado, concentrou-se em diminuir seu peso sobre a esposa.

Natália o pôs sentado na cama, e o notou oscilar de um lado para o outro, mal conseguindo manter os olhos abertos. Aquele momento não era adequado para perguntar-lhe qualquer coisa, então dirigiu sua atenção para os sapatos e os tirou, deixando-o ainda sentado.

— Vou esquentar a comida — Ela avisou e olhou para ele, mas não obteve resposta.

Natália lavou as mãos e constatou que a comida ainda estava morna, embora já estivesse prestes a dar uma hora da manhã.

Ela olhou preocupada para o relógio na parede.

Por que ele havia chegado tão tarde, se a festa iria até às onze? Com certeza, ela pensou enquanto colocava a comida dele no prato, Miguel tinha ido para outro lugar se embebedar. Ele não faria aquilo numa confraternização do trabalho; o ambiente era formal demais. Algo ruim havia acontecido para que ele ficasse daquela maneira.

Após tampar as panelas, Natália levou o prato de comida para Miguel, mas deteve-se ao notar que ele já havia dormido.

Natália sorriu, derrotada.

Não iria acordá-lo, pois ele estava bêbado demais para fazer qualquer coisa. No dia seguinte, daria um jeito de descobrir o que havia acontecido.
Ela sentou-se à mesa e se dispôs a comer. Miguel não gostaria de saber que ela havia dormido com fome.

Natália acordou e notou que Miguel não estava na cama, nem mesmo seus pertences. Tudo havia sido guardado e arrumado, pois ele era muito meticuloso.

Ela apertou os olhos por causa da luz do sol que havia entrado no quarto e percebeu que nem ao menos havia trocado de roupa para dormir.

Natália levantou-se da cama e andou até a sala, onde percebeu que Miguel carregava uma pilha de caixas até o porão. O que ele estava fazendo?, perguntou-se confusa.

— Miguel?

Ele olhou para ela e sorriu.

— Bom dia, meu amor. Dormiu bem? — Ele perguntou ainda com as caixas em mãos.

— Sim. Acho que sim — Natália respondeu ainda sonolenta e um pouco desapontada por não ter recebido um beijo dele. — E estas caixas…?

Miguel ajeitou melhor as caixas pesadas que segurava.

— Estas caixas — ele disse com determinação. — são o nosso futuro.

Natália o encarou sem entender. O que ele queria dizer com aquilo?

— Você… não vai trabalhar hoje?

— Não. Hoje, não — Miguel parou em frente a porta do porão e olhou para ela. — Só me chame quando for a hora do almoço, por favor. Já tomei o café-da-manhã — ele disse e adentrou o recinto onde era um local proibido para qualquer um entrar, menos ele.

Natália encarou a porta que, com certeza, já estava trancada.

Quando Miguel trancava-se lá, era quase possível tirá-lo, pensou angustiada. Mas seria melhor assim. O conhecera daquela maneira e sabia que Miguel esforçava-se para dar o melhor de si no trabalho; era um homem de grande ambição. Não teria a explicação da noite anterior por enquanto, mas o esperaria, como sempre.

Ela olhou para o relógio na parede: logo daria nove horas da manhã. Havia acordado tarde, pelo visto.

Deixou seus pensamentos e preocupações de lado e foi tomar seu café-da-manhã.

Miguel pôs cuidadosamente as caixas sobre a mesa coberta por documentos, tubos de ensaio e outros acessórios científicos. Apoiou suas mãos acima do objeto firme e suspirou um pouco cansado.

Aquele era um novo momento. Desde que vira sua linda esposa dormindo de manhã cedo, tivera uma nova ideia.

Álvaro o havia subestimado inúmeras vezes, além de com certeza estar mentindo junto com Márcio sobre o roubo de sua pesquisa — coincidência o inferno, pensou. Mas agora mostraria a eles e a todos os outros que conseguiria realizar tudo aquilo que sempre desejou, e muito mais.
Eles eram pessoas desprezíveis, com pensamentos pequenos, mas Miguel era diferente. Mostraria que eles mexeram com a pessoa errada e faria aquilo desenvolvendo um lindo presente para sua esposa estéril: um ativador de oosfera. Natália lhe daria filhos de uma vez por todas! E assim, realizaria a segunda de suas três maiores metas.

Miguel sorriu com o pensamento, mesmo sabendo que teria de dar tudo de si para que o projeto desse certo.

— Hora de trabalhar.

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