No quarto escuro e aquecido, Miguel e Natália conversavam após tanto fazerem amor.
Ela estava com o queixo encostado no peito suado dele, completamente satisfeita, mas completamente dolorida. Miguel parecia serenamente despreocupado.
— Então quer dizer que meu marido aprontava muito quando era criança?
Ele sorriu.
— Não muito — respondeu. — Eu era mais do tipo que ficava quieto num canto. Não tinha muitos amigos, nem mesmo irmãos — ele deu de ombros.
Natália fitou seu amado marido.
Miguel tinha sido filho único, e por conta disso, crescera um pouco solitário e carente. Mesmo que ela tivesse crescido numa família desestruturada, ainda tinha suas primas, enquanto ele não teve ninguém. Miguel só tivera o pai e a mãe de parentes próximos, mas seu pai havia abandonado a família por causa da amante e logo depois sua mãe também o abandonou por conta da depressão. Desde os quatorze anos de idade, Miguel tivera que se virar sozinho e, por mais incrível que parecesse, jamais reclamara de sua situação, sempre empenhando-se em fazer o melhor para sobressair. Mas, ainda assim, sabia que a carência o atormentava na questão de ter uma família para si, e ela sabia que não podia ser tudo o que ele queria somente.
— No que está pensando? — Miguel perguntou ao notar o semblante preocupado da esposa.
Natália mexeu a cabeça em negativa.
— Nada demais — ela respondeu vagamente.
Miguel sorriu e mudou de posição, ficando em frente a ela.
— Diga — insistiu bem humorado.
Natália suspirou em desistência e acariciou o rosto do homem amado.
— Eu estava pensando sobre filhos — confessou acanhada e o encarou sem jeito. — Você estava tentando me engravidar, não é?
Ele sorriu.
— Deu para perceber?
— Miguel, nós transamos nove vezes.
— Uau! Você contou? — ele perguntou com surpresa, não deixando de sorrir.
— Contei — ela confessou acanhada, desviando o olhar do dele.
— Bem, é verdade — Miguel disse, deliciando-se em ver como Natália ficava ainda mais linda vermelha de vergonha. — Não custa nada tentar.
Ela o encarou em silêncio por um instante.
— Miguel, e se eu for esté-
— Shiu! — Ele a silenciou. — Não diga mais essa palavra.
— Mas... — Natália insistiu.
— Coisas acontecem, Natália. Boas ou ruins, elas podem ocorrer de um modo mais complexo que um ser humano possa compreender. Já ouvi relatos de homens e mulheres estéreis terem filhos. Como Sara, por exemplo.
— Sara?
— Esposa de Abraão — ele explicou. — Ela era estéril, mas deu a luz a Isaque, não foi?
Natália sorriu.
— Eu não sabia que cientistas acreditavam em milagres.
— E não acreditamos — ele disse. — Mas, por outro lado, somos bem persistentes.
Miguel quis omitir a pesquisa secreta que estava fazendo para conseguir finalmente engravidá-la. Não teria por que contar se ainda faltaria muito até estar pronta — isso se conseguisse.
— E você quer mesmo me engravidar? — Natália perguntou, encolhendo-se nos braços dele.
Miguel a puxou para mais perto e beijou sua têmpora.
— Não acabei de mostrar isso? — Ele sorriu. — Lembra-se de quando lhe contei sobre minhas metas?
Ela sorriu.
— Eu sei. Ter uma linda esposa, ter filhos e ter muito sucesso e reconhecimento na área de trabalho — Natália lembrou.
— Isso. A linda esposa eu conquistei e o próximo passo é a criança, ou melhor, crianças — corrigiu-se. — Quero ter um monte de filhos com você.
Eles dois sorriram satisfeitos um para o outro.
— Meu Deus — Natália fingiu estar alarmada. — Será que vou aguentar ter tantos filhos?
— Você vai — Miguel respondeu sorrindo para a mulher que amava. — Você é uma mulher forte. E todo parto que você tiver, estarei segurando sua mão e não sairei do seu lado por nada.
Os olhos de Natália encheram-se de lágrimas.
Não havia e nunca haveriam palavras no mundo para descrever seu amor por aquele homem.
— Nem mesmo pelo trabalho? — Perguntou dengosa.
— Nem mesmo pelo trabalho — Miguel afirmou enxugando uma solitária lágrima que havia caído na face da esposa. — O meu trabalho é importante, mas você é muito mais.
Miguel e Natália entreolharam-se apaixonados e logo suas bocas se uniram num beijo intenso e cheio de paixão. Natália foi a primeira a quebrar o beijo.
— Adivinhe o que fiz?
— O que você fez? — Ele sorriu contagiado com a alegria dela.
Natália sentou-se na cama, cobrindo os seios com o lençol.
— Fiz mousse de laranja, sua receita favorita.
Miguel fez uma expressão satisfeita e saiu nu da cama, logo cobrindo-se com um dos roupões de dormir que estava pendurado no cabideiro.
— Então, vamos devorá-lo agora mesmo — disse ele e esfendeu a mão para ela se levantar.
Natália aceitou a ajuda para descer da cama, vestiu o outro roupão e o seguiu de mãos dadas até a cozinha.
♤
No dia seguinte, Miguel se despediu de Natália de manhã cedo e partiu para a empresa.
Ele soltou uma leve exasperação ao chegar no portão de entrada.
Ao mesmo tempo que sempre foi seu sonho trabalhar lá, também odiava ter que colocar seus pés naquele lugar todo o santo dia. A maioria das pessoas parecia ser cancerígena e de alguma forma ele podia sentir sua energia sendo sugada. Mas teria que continuar aguentando se quisesse um dia ser um grande cientista muito melhor até que seus superiores.
— Bom dia, Miguel.
Miguel olhou para a frente e tirou os óculos escuros.
Era Márcio. O maldito ainda queria fingir seu seu amigo para continuar roubando suas pesquisas?
Miguel não precisou de muito esforço para forçar um sorriso convincente para o colega de trabalho. Não sabia o motivo, mas sentia-se tão confiante que não teria dificuldades em ter que enfrentar Márcio ou quem quer que fosse.
— Olá — Miguel o cumprimentou com falso entusiasmo. — Belo dia, não, campeão?
Márcio esboçou um sorriso amarelo e sem graça. Sorriso de culpa, talvez?, pensou Miguel.
— Você parece tão bem — Analisou o outro.
— E por que eu não estaria? — Miguel perguntou-lhe ainda sorrindo.
Porque você roubou a minha pesquisa junto com Álvaro?, Miguel o amaldiçoou em pensamento, mas manteve a expressão firme.
— Ahn... Nada — Márcio respondeu por fim. — Por que não veio ontem?
Antes que Miguel pudesse pensar numa resposta, Álvaro apareceu e percebeu a presença de Miguel.
— Oh, Miguel. Você aqui? - Álvaro disse numa falsa surpresa.
Com Álvaro era diferente. Miguel não conseguiria ficar com um sorriso falso estampado na cara. Mesmo assim, manteve o rosto sereno.
— Bom dia, Dr. Álvaro — cumprimentou por educação. — Trabalho aqui.
Álvaro assentiu.
— Verdade. Dr. Linsmeyer está te esperando na sala dele — Álvaro apontou para um dos corredores.
Miguel ficou quieto por um momento, perguntando-se o que Rodolfo Linsmeyer estava fazendo no Instituto naquele dia.
Rodolfo Linsmeyer fora o professor de Álvaro, era um dos mais respeitados cientistas brasileiros no exterior e agora era diretor do Instituto de Ciências, mas quase nunca aparecia por lá. Era um tanto estranho quase não vê-lo, nem mesmo no coquetel de premiação, e agora ser chamado em sua sala. O que estava havendo que não sabia? Bem, deixaria as perguntas para depois.
Miguel assentiu vagaroso.
— Sim, claro. — Passou à frente. — Vamos?
Álvaro o seguiu e tomou a frente.
Miguel sabia que havia algo de errado, pois Márcio não parava de olhar para eles. Mas não se importaria, pois aquilo não era importante no momento.
No final do corredor, Álvaro bateu na porta e ouviu uma voz falar "entre" de lá de dentro. Ele abriu e indicou caminho para Miguel passar.
Miguel entrou na sala do diretor pela primeira vez e constatou que não era muito grande o quanto achava que fosse. Não era muito maior que a sala de Álvaro e quase todo o ambiente tinha decoração mais clara, exceto pelas mesas e cadeiras de cor mogno. Como Rodolfo tinha doença de pele, as janelas ficavam fechadas e com persianas brancas por cima, inibindo a luz do sol.
Era irônico um cientista do nível dele não ter criado algum tratamento ou cura para a doença, pensou Miguel.
— Bom dia, Dr. Rodolfo — Miguel o cumprimentou.
Linsmeyer levantou a cabeça, tirando a atenção de alguns documentos que estava assinando.
Era estranho olhar para ele e não se lembrar do "Papai Noel" com aquela vasta barba, porém bem feita, e com os óculos redondos empinados sobre o nariz.
— Bom dia, Miguel — saudou sério como sempre. — Soube que você não veio ontem.
Entre tantas coisas que odiava no Instituto, havia algumas coisas boas e uma delas era a clareza de Rodolfo. Ele não era um homem de enrolação ou falsidades como Álvaro. Qualquer coisa que Rodolfo dissesse ou quisesse, ele ía direto ao ponto. Ainda perguntava-se como mestre e aprendiz podiam ser tão unidos, sendo quase um o oposto do outro.
— Sim, faltei o dia de trabalho de ontem — respondeu Miguel. — Dr. Álvaro lhe contou?
Rodolfo assentiu enquanto assinava mais documentos.
— Sim — respondeu ele. — Também me contou que você ficou chateado na cerimônia de premiação. — Rodolfo fez uma pausa e o encarou. — Você quer me contar?
Miguel olhou de relance para Álvaro que estava em pé na porta.
— Dr. Álvaro não lhe contou tudo?
— Quero que você me conte — Rodolfo apontou para ele com a caneta que estava escrevendo antes. — É por isso que está aqui.
Miguel respirou fundo e pediu forças ao céu para continuar tendo paciência, mesmo lembrando-se da injustiça que lhe fizeram.
— Elaborei uma pesquisa, mas esqueci de mostrá-la aos superiores — forçou-se a repetir a mesma ladainha que Álvaro havia lhe dito. — O que eu não sabia era que Márcio teve a mesma ideia e foi premiado.
— Ele teve a mesma ideia que a sua? — perguntou Linsmeyer.
— Sim, senhor. — Miguel teve que engolir em seco e manter a compostura.
— E qual era a pesquisa?
— Tratamento de cicatrizes — respondeu.
— Entendo — Rodolfo assentiu. — E foi por isso que você faltou ontem?
— Não, senhor. — Miguel tentou não parecer ofendido. Até parece que ficaria chorando em casa por conta de algo que eles fizeram. — Achei que champanhe não embebedava e acabei tomando além da conta. No dia seguinte, acordei com muitas dores na cabeça e no corpo.
No fundo, aquilo tinha um pouco de verdade, pois tinha bebido além da conta e acordado com dor de cabeça. Mas certamente omitiu que havia saído da cerimônia para ir à um bar próximo "afogar as mágoas".
Rodolfo o encarou, assentindo lentamente.
— Peço desculpas por não avisar — completou.
Normalmente, qualquer funcionário da empresa olharia para os dois superiores ao pedir desculpas, mas não suportaria olhar para Álvaro.
— Entendo. — Rodolfo assentiu e juntou os papéis numa leve batida. — Coincidências acontecem, Miguel. Mas você deve ter cuidado com o que faz. Isso não teria acontecido se você mostrasse sua pesquisa a seus superiores.
— Claro que não. — Miguel esboçou um sorriso falso. — Aliás, Dr. Álvaro me disse a mesma coisa. Estarei mais atento daqui para frente.
Naquelas últimas palavras, sim, havia muita sinceridade e eles não tinham ideia do quanto.
Rodolfo assentiu.
— Certo. Lamentamos pelo que aconteceu, mas sabemos que você dará a volta por cima.
Miguel assentiu com certa malícia.
— Pode ter certeza, senhor.
— Bem, era só isso. — Rodolfo relaxou um pouco mais na poltrona. — Pode começar o trabalho, e da próxima vez que você estiver doente, apresente o atestado médico ou será obrigado a trabalhar na folga.
— Sim, senhor. Com licença — Miguel disse e saiu da sala.
Havia demorado um pouco para Álvaro fechar a porta atrás de si e seguí-lo.
Com certeza aquele maldito havia dito algo sobre ele para Rodolfo. Se Álvaro soubesse o ódio que sentia por ele... Mas Miguel sentia-se confiante demais naquela manhã para cair em suas provocações.
Miguel virou-se e sorriu para Álvaro.
— Agradeço pela ajuda — Disse falsamente. — Foi de grande valia.
— Não há de quê — Álvaro respondeu cinicamente. — Tem uma nova pesquisa em mente?
Miguel o encarou de relance enquanto continuava a andar pelo corredor.
— Ah, sim — respondeu sem revelar muito. — E já está quase pronta.
♤
Era horário de almoço e Miguel aproveitou o momento para ir depressa para sua casa, levar um novo elemento.
Havia roubado muitos elementos do Instituto para sua casa às escondidas. Ele sabia o que fazia era crime, mas não se importava; os fins justificavam os meios.
Miguel adentrou a casa rapidamente e constatou, surpreso, que Natália não estava lá. Para onde ela teria ido?, perguntou-se um tanto irritado. Mas aquilo não era importante, por ora. Teria que focar no que fora fazer ali.
Já faltava meia hora para voltar ao trabalho e Miguel abriu depressa a porta do porão, tirando o elemento que faltava de dentro da mochila preta. Mesmo com muita pressa, teve que ser cauteloso para não quebrar o frasco de vidro que continha o vistoso líquido azul.
Ele abriu a tampa do frasco com um singelo cuidado e despejou um pouco do conteúdo no frasco maior que já tinham os ativadores que precisava.
Aqueles simples líquido azul daria toda a força à sua experiência, pois nela estaria a maior concentração do ativador de que precisava. Com todo aquele conteúdo misturado, conseguiria, finalmente, o ativador de oosfera para Natália engravidar.
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Natália desceu do táxi e pagou a corrida.
Ela estava em frente à enorme casa de Lola. Ana morava numa casa bem grande, mas numa rua qualquer, enquanto Lola morava numa das lindas mansões dentro de um condomínio de luxo. Miguel tinha lhe dito que compraria uma casa bem grande para eles, mas seria ela dentro de um condomínio como aquele?
Ela havia visto a casa de Lola apenas uma vez, mas por fotos e apenas a frente da casa. Nunca havia entrado lá, mas o problema não seria esse, apenas ter que encarar Lola.
O que, de fato, Lola tinha de tão importante a lhe dizer e por que o filho dela estaria incluso? Era isso o que ela logo iria saber.
Natália tomou uma respiração profunda e subiu alguns degraus até à frente da mansão, depois apertou a campainha. Demorou um pouco para alguém atender, o que a fez ficar ainda mais inquieta, mas logo a porta se abriu: era Lola.
— Natália — Lola a cumprimentou com um sorriso amarelo, mas com um olhar de determinação. — Que bom que você veio.
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