quinta-feira, 31 de março de 2022

AOP (parte 1) - capítulo 8



Entre, por favor.

Lola abriu mais a porta da sala de estar para que Natália pudesse entrar.

Natália olhou em volta.

Por dentro da casa de Lola havia como cores de destaque o branco, azul claro e vidros de cor verde-claro, assim como na parte externa da casa. Dava para se ter uma boa visão de uma pequena parte do segundo andar, o que dava a impressão de um pé direito bem alto. Lola sempre tinha sido uma mulher moderna e a arquitetura e decoração de sua casa não eram diferentes.

Natália suspirou encantada. Só a sala da casa de Lola era quase do tamanho de sua casa.

Lola fechou a porta e acenou educadamente para o sofá branco e moderno.

— Sente-se.

Natália assentiu e obedeceu, sentando-se um pouco afastada do espaço do sofá onde continha algo que parecia um livro ou um álbum de fotografia.

— Quer um copo d'água? — Lola ofereceu educadamente, embora parecesse um pouco inquieta.

Natália fez que não.

Lola sentou-se ao lado da prima no sofá e segurou um álbum de fotos de cor preta. Ela suspirou profundamente, não tendo ideia de como iniciaria o que tinha para dizer.

Natália ajeitou-se no sofá e olhou para Lola, que não aparentava estar muito bem.

Natália não queria ceder a pensamentos estranhos, mas Lola parecia não colaborar. Mas o que, de fato, sua prima queria contar que parecia ser tão horrível?

— Lola, pelo amor de Deus, não me faça esse suspense todo — Natália pediu firme, mas com a voz um pouco vacilante. — O que você quer me contar?

Lola sentiu seus olhos marejarem e evitou olhar para a prima por um momento.

Havia ensaiado tantas vezes o que teria para dizer, mas não sabia por onde começar. E também, por outro lado, não queria vê-la tão desolada. Não ela, Natália, que havia encontrado o amor e a felicidade em tão pouco tempo. Mas ela não tinha culpa por seu marido ser o que era. Lola não queria magoá-la, mas não poderia deixar de contar-lhe a desgraça que Miguel havia feito em sua vida.

Lola engoliu em seco e tratou de se recompor. Ela olhou para Natália.

— Este é o álbum de fotos que eu guardo de Nick e Claus — Lola disse acariciando a capa do álbum. — Há poucas fotos de Claus aqui, pois ele não era tão fotogênico.

Natália prestou atenção. Não diria nada, por enquanto, pois Lola parecia indecisa entre contar ou não.

Lola abriu algumas páginas do álbum até parar numa onde havia algumas fotos dela e de Claus sorrindo e felizes, dele logo atrás dela acariciando sua barriga protuberante pela gravidez e mais outras tendo somente um bebê loirinho e sorridente. Natália prestou atenção em cada foto e lamentou por Lola não sorrir mais daquela forma como quando estava com o marido.

Lola respirou fundo e forçou-se a não chorar ao ver as fotos do homem que tanto amou.

— Lola, eu vim até aqui por que você me pediu — disse Natália lamentando a dor visível da prima. — Mas, se você não quiser contar agora, irei entender. Deve estar sendo difícil para você.

Lola assentiu, mas tomou firmeza. Não iria desistir agora. Estava mais do que determinada em contar e Natália merecia saber, por mais doloroso que pudesse ser para as duas.

Ela encarou Natália firmemente.

— Não - disse sem titubear. — Vou lhe contar de uma vez por todas o que aconteceu.



Álvaro estava fazendo a costumeira ronda pós-almoço e achou um tanto estranho não encontrar Miguel entre os outros funcionários no refeitório. Certamente, aprontando mais uma, pensou.

Miguel era um homem inteligente e capaz, mas também apresentava uma ameaça para toda a ética do Instituto. Em certos pontos, ele não parecia ter qualquer escrúpulo e não era uma pessoa que jogasse para perder, o que logicamente poderia atrapalhar, e muito, sua interação com os colegas de trabalho e até mesmo com seus superiores. Álvaro não havia se enganado nem um pouco. Desde quando percebera que Miguel trabalhava mais sozinho do que em equipe, viu que havia algo suspeito no jovem rapaz.

Olívia, uma dos funcionários, estava passando pelo corredor à caminho de uma das salas quando Álvaro a interceptou.

— Olívia, você sabe onde Miguel está? — Ele indagou.

A funcionária ponderou por um momento.

— Bem, eu o vi trabalhando antes do almoço, mas depois o vi sair — ela respondeu.

— Sair?

Ela assentiu.

— Sim. Parecia que estava indo embora, pois levou a mochila.

Álvaro assentiu brevemente, considerando mais uma de suas suspeitas.

— Obrigado, Olívia — Ele agradeceu.

— De nada — ela disse, um pouco confusa, e se retirou.

Álvaro olhou ao lado. A sala de Miguel estava trancada. Se estivesse correto em suas suspeitas sobre o funcionário, então teria que agir rapidamente, antes que pudesse ser tarde.

Ele tateou pelos bolsos da calça à procura das cópias das chaves de todas as portas da empresa, quando deparou com Miguel andando despreocupadamente em sua direção.

Álvaro tentou disfarçar a raiva que tinha daquele rosto jovem e insolente.

— Aonde você estava, Miguel? — Álvaro perguntou firmemente. Não daria brechas para ele.

Miguel ajeitou a única alça da mochila que estava segurando e sorriu para seu superior. Nem mesmo a cara creatina de Álvaro estragaria seu bom humor.

— Me desculpe, Dr. Álvaro. Sei que não deixei avisado, mas fui almoçar em minha casa. Minha esposa fez uma comida deliciosa e pediu para que eu fosse ficar um pouco com ela — respondeu.

Aquilo era mentira. Miguel havia ido para casa apenas com o objetivo de finalizar de vez sua pesquisa e Natália não estava lá. O que era uma pena, pois não tivera tempo de realmente almoçar e teria que lutar contra a fome ao longo do dia.

Álvaro o encarou, desconfiado.

— Você sabe que o local de todos os funcionários almoçar é aqui. Entendo que prometeu estar com a sua esposa, mas você já devia saber que não é permitido sair do Instituto enquanto não acabar o período de trabalho — Álvaro disse quase acreditando, mas ainda desconfiado de que pudesse ter algo mais. — Espero que isso não aconteça novamente.

Miguel assentiu e sorriu. Nada poderia estragar sua mais recente alegria. Nem mesmo Álvaro.

— Pode deixar — Miguel concordou.

— Bom — Álvaro disse e retirou-se dali.

Miguel o encarou com um olhar mortal.

Álvaro não fazia ideia no que estava se metendo. Sua alegria por saber que sua pesquisa havia dado certo era mais forte que o ódio que nutria por aquele homem, mas um lado seu não descartaria nem um pouco a hipótese de estrangulá-lo com as próprias mãos. Ele sabia que Álvaro pretendia entrar em sua sala para descobrir algo, mas dava graças aos céus por ter chegado no momento certo. Álvaro Hisher era arrogante mas, no fundo, morria de inveja por saber que alguém era melhor do que ele. Mostraria de vez para aquele imbecil que poderia ter o destaque merecido no trabalho e, em breve, em todos os cantos do país e do mundo. E, se por ventura, Álvaro Hisher se colocasse em seu caminho, o faria pagar caro. Havia feito isso uma vez e não pensaria duas vezes em fazer de novo.



Ainda com o álbum aberto sobre o colo, Lola olhou para Natália que a encarava com uma sutil apreensão. Era melhor contar logo tudo e parar com aquela embromação toda.

— Natália, vou lhe contar parte por parte para que você possa compreender onde quero chegar — Lola disse. — Até mesmo o tempo em que eu estava com Miguel.

Natália engoliu em seco.

Não gostava muito de lembrar que Lola e Miguel tinham sido tão próximos, mas ouviria o que a prima teria a dizer.

— Entendo — foi o que Natália conseguiu dizer.

— Talvez Miguel não tenha lhe contado direito sobre o tempo em que nós estivemos juntos, mas eu gostaria de esclarecer as coisas.

— Eu nunca insisti sobre o assunto — disse Natália. — Achei que não seria importante lembrar os casos amorosos que ele teve.

Lola assentiu.

— Fez bem. Eu também não achava que teria que mencionar meu passado com ele para alguém — disse amargamente e olhou para a prima. — Mas eis que aconteceram coisas que você precisa saber.

— Conte-me, por favor — pediu Natália.

Natália Estava odiando a questão de ouvir sobre o passado que Lola e Miguel tiveram juntos, mas estava determinada a ouvir aquela história até o fim e saber o que o Miguel do presente, seu marido, tinha a ver com aquilo tudo.

— Miguel e eu nos conhecemos quando eu cursava o colegial e eu acabei me atraindo por sua genialidade — Lola começou a contar. — Foi ele quem deu um passo à frente em nossa relação e começamos a namorar desde então.

Natália assentiu tentando controlar o crescente ciúme dentro de si.

— Não demorou muito até ele começar com suas loucas exigências, mesmo com tanto pouco tempo de namoro — Lola continuou. — Uma delas era que eu desse um filho a ele.

Natália alarmou-se.

Miguel, seu marido e o homem que a amava, não pedira para ter um filho somente com ela, mas também com outra mulher? Não, ela não podia deixar-se acreditar naquilo.

— Eu já havia perdido a minha virgindade com um rapaz antes dele, mas não me sentia segura o bastante para me entregar a ele. Mesmo assim, Miguel me forçou a fazer sexo com ele uma vez para que eu engravidasse — Lola disse com a voz tremida e sentindo nojo de si mesma.

Natália sentiu uma súbita vontade de chorar e vomitar. Não era possível que o homem a que Lola se referia pudesse ser Miguel. Não o homem gentil e amoroso que havia conhecido.

— Obviamente, não engravidei e ele ficou furioso. — Lola mal encarava a prima ao contar sobre o seu passado, mas podia perceber que as mãos de Natália estavam tremendo. — Dois meses, Natália. Nosso relacionamento durou dois meses até Miguel começar a fazer e dizer loucuras, me deixando apavorada. Eu já não queria ter mais nada com Miguel mas, no fundo, ainda gostava dele.

— Romanticamente? — Natália perguntou, a voz um pouco engasgada.

— Não, não romanticamente — Lola respondeu. — Para dizer a verdade, nunca o amei, não da forma como você o ama ou que passei a amar Claus. — Lola engoliu em seco. — De certa forma, eu tinha um afeto por ele e demorou um pouco até eu pedir o fim do namoro, pois não queria magoá-lo.

Natália assentiu vagamente. Tanto ela quanto Lola mal se encaravam.

— Você já havia conhecido o Claus? — Natália perguntou.

— Sim. — Lola sorriu tristemente. — Me encantei por ele desde o primeiro momento em que o vi. Sua pele morena e seus cabelos cacheados como os típicos gregos das histórias me chamaram a atenção. Mas, ainda assim, eu tinha medo de que minha história com Miguel pudesse se repetir com Claus.

— Por você conhecê-lo em tão pouco tempo? — Natália indagou.

— Sim — Lola respondeu. — Não queria novamente me encantar à primeira vista com outro homem para logo depois me arrepender de ter um relacionamento com ele.

Natália assentiu pensativa.

— Mesmo assim, não demorou muito até eu me apaixonar completamente por ele e terminar de vez meu relacionamento com Miguel. E não foi tão ruim quanto eu achava que seria, pois ele aceitou tranquilamente e logo conheceu você. Posso ter minhas opiniões sobre o tipo de pessoa que ele é, mas nunca duvidaria do amor que ele sente por você.

Natália a encarou de volta.

O que Lola queria dizer com aquilo tudo, afinal? Ela e Miguel tiveram um passado juntos, mas Natália não sabia em que aquela história poderia interferir no presente.

— Por favor, Lola, seja clara — Natália pediu firme, embora sua voz estivesse rouca. — Vá logo ao ponto e me diga o que o Miguel ainda tem a ver com a sua vida.

Lola assentiu.

Ela sabia que por trás daquela postura firme, Natália estava enciumada e agoniada em saber o que Miguel tinha a ver com aquilo tudo. Com certeza, Natália devia estar pensando que Lola estava se divertindo ao contar sobre seu passado com Miguel, mas sua prima não fazia a menor ideia do psicopata louco que Miguel era. Estava sendo horrível contar aquilo para ela, mas não desistiria agora.

— Quero ser o mais breve possível, Natália. Mas também não quero jogar tudo em cima de você ao mesmo tempo — Lola disse e ajeitou-se de modo desconfortável no sofá. — Bem, a verdadeira desgraça na minha vida começou quando Claus havia saído daqui de casa para se encontrar com um amigo que não via há muito tempo. Nós já éramos casados e felizes nessa época.

*

13 de maio, cinco e trinta da tarde, quase dois anos antes

Lola usava um macacão bege Prada. Estava bem apresentável para seu marido que logo iria chegar, e possivelmente para o amigo que ele havia saído para encontrar.

Lola sentia-se feliz a cada dia que passava ao lado de Claus. Algumas pessoas diziam que o casamento esfriava com o passar do tempo, mas não era o caso deles. Era certo que ela só conhecia Claus há não muito tempo, mas ele sempre a fazia sentir-se completa. Não duvidava nem um pouco que seu casamento duraria para toda a vida. E logo depois daquele ano eles tentariam ter um bebê, ela pensou em êxtase.

A campainha da casa tocou quando Lola encaixava o brinco na orelha.

Ela sorriu satisfeita e aumentou um pouco mais a música de fundo que tocava no aparelho.

Equilibrando-se de forma elegante e sem nenhuma dificuldade no salto alto, Lola atravessou a sala e abriu a porta. Contudo, diferente do que ela esperava, o homem à sua frente não era Claus, mas Miguel Franco, seu antigo namorado. O que ele queria, afinal?

— Miguel? — Perguntou surpresa. — O que faz aqui?

Ele sorriu.

Amava demais seu marido, mas tinha de admitir que a beleza e o sorriso de Miguel eram de tirar o fôlego. Era, de fato, um belo homem.

— Posso entrar? — Ele perguntou cortês.

Lola sentiu-se confusa por um momento, mas não seria mal educada. Abriu um pouco mais a porta, dando espaço para que ele pudesse passar.

— Claro, entre.

Miguel entrou na frente de Lola e olhou em volta da sala de estar. Lola jogou seus cabelos ainda medianos e mais escuros para trás, parando timidamente em frente à ele.

— Então, a que devo sua visita? — Ela perguntou sorridente, mas um tanto nervosa.

Por mais que o que tinha vivenciado com ele já estivesse no passado e Miguel aparentasse estar melhor e diferente, não podia evitar ficar nervosa perto dele. Miguel parecia ser muito imprevisível.

Miguel sorriu novamente.

— Fui convocado para trabalhar no Instituto de Ciências da cidade e um dos mais importantes do país — Ele disse. — Como Natália teve que sair e eu vim direto do Instituto, quis comemorar com vocês.

— Oh, meu Deus, Miguel. Parabéns! — Lola o saudou alegremente, dando-lhe um abraço carinhoso.

— Obrigado — ele agradeceu. — Claus está?

— Não, ele foi se encontrar com um velho amigo — ela respondeu. — Mas logo estará aqui para comemorar conosco. Sente-se.

Miguel sentou-se no grande sofá branco que Lola indicou.

— Lola, quero ser o mais breve possível, pois logo Natália estará em casa e ela é do tipo que se preocupa demais.

Lola sorriu enquanto carregava uma taça de champanhe e mais duas taças.

— Eu sei — ela concordou. — Natália parece te amar demais.

Miguel assentiu.

— E ela ama.

Lola colocou as taças e a garrafa em cima da mesa de centro. Miguel levantou-se de súbito.

— Com sua permissão — disse, tirando a garrafa de champanhe que parecia ser bastante cara das mãos de Lola.

Miguel sacudiu um pouco a garrafa, fazendo a rolha soltar e quicar na mesa de vidro. Saíram poucas espumas da garrafa e ele encheu as duas taças, dando a primeira para Lola.

— Me desculpe por não ter trazido meu próprio champanhe e ter me aproveitado do seu.

Lola sorriu.

— Você acabou de voltar do Instituto e não me importo de abrir um dos champanhes daqui de casa por um amigo. O que importa é comemorarmos a sua promoção. — Lola ergueu a taça num brinde. — Saúde e parabéns pela conquista.

Miguel também ergueu sua taça.

— Saúde. E obrigado.

Lola bebeu o conteúdo de sua taça, desviando um pouco seu olhar do olhar de Miguel. Ambos sentaram-se em sofás opostos, mas que ficavam lado a lado.

— Então — Ela deu continuação à conversa. — Como está sendo a vida de casado?

Miguel suspirou confiante.

— Ainda não somos casados como você e Claus, mas logo nos casaremos no civil — disse ele. — Mas, se você se refere à nossa vida juntos morando sob o mesmo teto, ela está sendo melhor do que eu achei que seria. Natália realmente é uma mulher maravilhosa.

— Sim, ela é — Lola concordou. — Que bom que você está cuidando dela, Miguel.

— Verdade. — Miguel assentiu. — E a sua vida como Sra. Gregori, como está?

Lola sorriu deslumbrante.

— Eu jamais poderia ser tão feliz — ela disse. — Só mesmo nascendo um fruto do nosso relacionamento.

— Entendo — Miguel refletiu. — Também estou tentando ter um filho com a Natália. Mas estou começando a achar que ela é estéril.

Lola o encarou pasma.

— Não, Miguel, não diga isso. Natália vai lhe dar muitos filhos, você vai ver.

Miguel assentiu e voltou a sorrir.

— Obrigado. — Ele pôs a taça vazia na mesa de centro. — Você se importaria de me mostrar seu álbum de casamento? Estou curioso para ver.

Lola sorriu contagiada pelo bom humor de Miguel e levantou-se, deixando sua taça em cima da mesa.

— Me desculpe não ter convidado você e Natália para o meu casamento com Claus — Lola falou num tom de voz um pouco mais alto para que Miguel pudesse ouvi-la enquanto ela procurava o álbum em outro cômodo. — Mas, como ele é de família grega, quis fazer o casamento num pequeno iate e não cabiam muitas pessoas. — Lola agachou-se para procurar nas portas inferiores do pequeno armário, achando o álbum branco que procurava. Teria que avisar depois à empregada para não pôr mais seu álbum de casamento ali. — Achei.

— Entendo — Miguel disse da sala de estar. — Não precisa se preocupar.

Lola voltou à sala de estar, encontrando Miguel relaxado e despreocupado, as mãos esticadas acima dos encostos do sofá.

— O mar era muito lindo — Ela continuou a falar. — Nós casamos em alguma região do Nordeste, que agora não me lembro mais, e a pequena festa ocorreu dentro do barco mesmo.

Lola sentou-se no sofá que estava sentada antes, mas um pouco mais no canto para que Miguel pudesse ver as fotos. Miguel se recompôs e também foi para o canto do sofá que estava, vendo Lola tocar com carinho nas páginas iniciais do álbum.

— Ainda tem mais champanhe — Ele indicou. — Quer um pouco mais?

Lola assentiu em contentamento.

— Sim, por favor.

*

— Maldito seja o momento em que aceitei mais uma dose de champanhe — Lola disse com a voz embargada. — Ou eu deveria amaldiçoar a mim mesma por ter saído da sala, deixando-o colocar alguma droga na minha taça? Não, não... Talvez eu deva amaldiçoar o momento em que o deixei entrar em minha casa.

Lola olhou para Natália.

Mesmo que ela estivesse ouvindo, parecia alheia a tudo, como se não acreditasse numa palavra sequer. Ela amava demais o Miguel. Era quase certo de que ela não acreditaria — pelo menos, não em tudo.

— Natália — Lola a chamou. — Você... — Ela engoliu em seco. — Você acha que estou mentindo, não é?

Demorou um breve tempo antes que Natália quebrasse o silêncio.

— Termine de me contar tudo, Lola. Por favor — Foi tudo o que ela pôde dizer.

Uma lágrima caiu do olho de Lola.

— Como vou contar sobre algo que não me lembro?

Natália a encarou sem entender.

— Não se lembra?

Lola fez que não.

— Eu mostrei a ele meu álbum de casamento, mas por pouco tempo, pois ele voltou a encher minha taça de mais champanhe, e... — Lola tremeu.  E eu não me lembro de mais nada do que aconteceu, até que Claus chegou e me acordou em nosso quarto.

— Você... — Natália falou num fio de voz. — Você estava na sua cama? Nua?

Que Deus, de alguma forma, lhe dissesse que não, Natália suplicou quase cedendo ao desespero. Ela estava sendo muito corajosa ao ouvir um outro lado que não conhecia de seu marido, mas não estava sendo nem um pouco fácil. Ela queria acordar logo, de uma vez por todas, e perceber que aquilo tudo era irreal.

— Não — Lola respondeu enxugando a lágrima que havia caído. — Eu acordei na cama, mas do mesmo jeito que estava antes.

Natália fechou os olhos e suspirou aliviada. Mas não poderia se dar por satisfeita agora. Ainda havia mais naquela história.

— Me conte o que você quer dizer com esta história, Lola. Pelo amor de Deus, acabe logo com isso!

Lola encarou a prima. Era chegado o momento mais importante.

— Algum tempo depois,  eu engravidei. Claus e eu estávamos tão felizes pela novidade, ele mais ainda. — Lola mal conseguia controlar as lágrimas que caíam. — Até que Nick nasceu e Claus começou a mudar e me tratar de forma diferente. Principalmente ao nosso filho.

Natália só conseguia ouvir o que Lola dizia, pois não poderia encará-la naquele momento, mesmo que quisesse.

— Certamente, eu não havia entendido nada, até que... — O corpo inteiro de Lola tremeu e ela soluçou fortemente, tamanha era a dor em seu coração. — Até que a última coisa que Claus disse para mim foi que ele não era pai de Nick e que ele estava saindo de casa. — Lola mal podia se recompor, pois mais lágrimas invadiam-lhe a face. — Aquela foi a última vez em que vi meu marido.

Ainda sem poder encará-la, mas tremendo quase tanto, Natália perguntou:

— E o menino é filho dele?

Lola olhou para a prima e permaneceu em silêncio por um breve momento.

— Olhe, Natália.

Natália ergueu a cabeça e olhou para onde o dedo de Lola indicava: a foto de seu pequeno filho.

— Ele não te lembra alguém?

Natália olhou mais uma vez para a foto do bebê alegre.

O menino era saudável e tinha bochechas rosadas emolduradas por um grande sorriso; em quase todas as fotos ele sorria. Sua pele era rósea e ele também tinha vívidos olhos verdes-claros e poucas mechas douradas.

A vontade que tinha de chorar era tanta que mal conseguia aguentar. Não iria tocar na foto, pois nem seus braços estavam aguentando o calafrio que percorria todo o seu corpo.

"Ele não te lembra alguém?", fora o que Lola havia lhe perguntado. E Natália estava odiando admitir que aquele bebê das fotos lembrava, e muito. Não havia como negar a semelhança assustadora entre aquela criança e seu marido.

— Não cheguei a fazer nenhum exame de DNA — disse Lola. — Mas acho que talvez não seja preciso e você está vendo com seus próprios olhos. Se, por acaso, duvida, pegue uma foto de quando Miguel era bebê e compare você mesma.

Natália sentiu seus lábios tremerem, mas não deixaria a represa de seus sentimentos estouraram na frente de Lola. Dela, não.

Ela levantou-se num ímpeto, ajeitando sua pequena bolsa de lado. Lola surpreendeu-se por um momento com a rapidez de Natália. Claramente, ela estava arrasada. Mas como haveria de não estar? Não era fácil para ela saber que o marido era um monstro.

— Natália, você vai embora? — Lola perguntou ao seguir a prima pela sala.

Natália voltou-se para ela, enxugando as lágrimas que tanto queria esconder.

— Era isso o que você queria, acabar com o meu casamento?

Lola engoliu em seco.

— Natália, foi ele quem acabou com a minha família — Lola defendeu-se. — Foi ele quem destruiu meu casamento.

— Você não sabe o que está dizendo! — Natália gritou furiosa, mal conseguindo deter as incessantes lágrimas.

Lola indignou-se.

— Como não sei o que estou dizendo, Natália? Você mesma viu com seus próprios olhos e sabe que não estou mentindo!

A porta de entrada se abriu e revelou a jovem funcionária de Lola, carregando o menino nos braços. Natália tentou enxugar as lágrimas, sem muito sucesso, e surpreendeu-se ao perceber o quão parecida ela era com a jovem. Mas, obviamente, o que mais chamou sua atenção foi o menino mais crescido brincando com um chocalho nas mãos. Seus pequenos cabelos dourados estavam maiores e seus vívidos olhos verdes-claros continuavam lá.

Natália gemeu de dor. Uma dor interna e emocional.

Aquele menino era idêntico ao seu marido, seu amor. Por que Miguel havia feito aquilo?, perguntou-se desolada. Por que logo ele?

Samantha parou de súbito e encarou as duas mulheres com os rostos vermelhos e inchados. Nick também havia parado de brincar para olhar para elas.

— Opa... Cheguei numa má hora, não foi? — Samantha perguntou sem jeito.

Natália engoliu em seco e enxugou mais o rosto molhado.

— Não se preocupe — Natália murmurou, a voz rouca. — Já estou indo embora.

Lola nada podia fazer ao ver sua prima sair com rapidez para fora de casa. Do jeito que Natália estava, ela nem mesmo esperaria um táxi para buscá-la. Só teria que rezar para que nada de mau lhe acontecesse.

Samantha olhou confusa para fora e depois para a patroa.

— O que houve, dona Lola?

Lola balançou a cabeça em gesto negativo. Não queria ter que reviver aquele momento amargo, principalmente com a babá.

— Esqueça o que viu — respondeu simplesmente e estendeu os braços para Nick ir para o seu colo. — Eu não quero mais ter que relembrar esse momento de minha vida tão cedo.

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