domingo, 23 de outubro de 2022

AOP (parte 1) - capítulo 18



Aquela tortura continuava.

Miguel continuava a se trancar por horas a fio dentro do porão, agora mais do que antes. Ele não conseguia mais dormir, descansar, comer ou fazer qualquer outra coisa. Apenas contentava-se com um cafezinho na parte da tarde. Sua aparência estava fraca e deprimente e, em alguns momentos, Natália notou certos surtos psicológicos que ele estava começando a apresentar. Não havia um momento em que ela não chorasse ou ficasse preocupada pelo estado do marido. Natália não estava aguentando mais aquela situação, mas sabia que nada poderia fazer para pará-lo.

Às vezes, se perguntava se Miguel conseguisse ser promovido pelo Instituto ele estaria melhor, mais contente, ou ficaria viciado em dar seu melhor mais e mais e acabaria deixando-a de lado da mesma forma que agora. De uma coisa ela sabia: ele não estaria triste e abatido, pois tinha sido a demissão e outras coisas mais que o deixaram daquele jeito. E do fundo do coração ela amaldiçoava o dia em que ele foi aceito para trabalhar naquele Instituto pela primeira vez.

Por outro lado, ela estava começando a estranhar e temer toda aquela situação. Não que desacreditasse no marido, mas os relatos descritos por aqueles dois homens não pareciam ter sido mentira ou invenção, de certo modo. Em todo o instante em que eles diziam aqueles absurdos, Miguel praticamente não conseguiu se defender e apresentou forte e incômodo nervosismo. Ele mesmo dissera em alto e bom som que acabaria com um daqueles homens. Talvez ele estivesse irritado demais e tivesse dito aquilo da boca para fora, mas Natália conseguiu perceber um olhar sinistro no marido ao dizer aquelas palavras. Não parecia ser uma ameaça, mas uma promessa.

"Sinto que estou ficando louco."

Natália lembrava quando ele havia dito essas palavras, no flat onde estavam hospedados. Naquele momento ela não sabia do que se tratava, não percebia o quão vulnerável o marido estava.

"Coisas horríveis me passam pela cabeça e acabo me descontrolando."

Coisas horríveis...

Por que Miguel estaria nervoso e suado daquela forma? Por que ele fugiria com ela para outra cidade se, de fato, não tivesse feito nada?

Eles ficaram seis meses longe de casa, mas não havia passado pela cabeça dela, nem sequer por um momento, que aquela fuga para outro lugar era muito estranha para quem apenas tinha sido demitido.

"Eu duvido que outro instituto me aceite pelo que aconteceu", ele dissera quando Natália comentou que ele ainda teria outras chances de trabalho em outros institutos. Não que algo ainda fizesse sentido, mas já dava para ligar uma coisa com a outra quando se parava para pensar no que havia acontecido.

Mas seu marido não era assim, Natália disse a si mesma chorando ao pé da cama. Nos dias que se passaram, ela só sabia chorar e lamentar sua solidão. Era como se estivesse sozinha, sem ninguém — novamente.

O que estava acontecendo com ele?

Entendia a tristeza que Miguel estava sentindo, mas ele não estava apenas triste, também estava completamente perturbado com toda a situação. Era como se ele tivesse enlouquecido de vez.

Em uma das raras vezes em que Miguel havia saído do maldito porão, Natália observou em choque e completamente aflita seu marido sentar no chão, abraçar os joelhos e balançar o corpo freneticamente para frente e para trás. Logo depois, ela o chamou com o objetivo de tirá-lo daquele transe, mas Miguel simplesmente a encarou com um olhar mortal e correu de volta ao seu esconderijo. Natália chorou tanto naquele dia.

Aquele definitivamente não era seu marido, mas uma sombra dele. E só pelo fato de pensar que não teria como salvá-lo daquela situação, a destruía por dentro.

— Miguel, abra a porta! — Natália bateu na porta do porão pela quinta vez, a garganta entalada pelo choro. — Por favor, abra!

Silêncio.

— Miguel! — Chamou mais uma vez. Ela já estava ficando sem voz. — Eu fiz o almoço. Coma pelo menos um pouco.

De nada adiantou. Ela sabia que ele não iria sair. Ele não queria comer, não queria fazer nada a não ser ficar trancado naquele maldito lugar. Nem ela mesma sentia mais vontade de comer ou fazer qualquer outra coisa, dado o sofrimento de Miguel também estar a atingindo. Mas mesmo sem querer, procurava se tratar o melhor possível por causa do bebê.

E pensar que o recente passatempo favorito de Miguel fora deitar a seu lado na cama e ler contos infantis para o bebê... Agora ele não mais fazia isso. A única coisa que ele continuava fazendo em relação ao bebê, nos raros momentos em que saía do porão, era continuar cobrando por um filho homem, torturando-a psicologicamente com aquela insistência absurda.

Houve um barulho estrondoso lá dentro. Parecia ser de vidros quebrados, os tubos de ensaio e outros acessórios. Miguel havia deixado cair sem querer ou ele mesmo havia derrubado.

Natália, preocupada, perguntou-se o que teria acontecido. Miguel podia estar ferido e ela nada podia fazer para ajudá-lo. Mas antes que pudesse voltar a bater na porta, ela se destrancou e Miguel apareceu. Ela o fitou, preocupada.

Miguel parecia não ter nenhum arranhão no corpo, mas ele estava igualmente magro e abatido, como sempre. Exceto pelos olhos; todo o sofrimento, ódio e frustração estavam refletidos neles.

Natália abriu passagem para ele, os sentimentos num misto de medo e preocupação. Miguel nem mesmo olhou para ela, apenas desabou no chão e urrou de raiva. Ela deu um passo cauteloso na direção dele.

— Miguel...

— Tudo está dando errado, tudo! — Ele esbravejou. — Passei tanto tempo enfurnado nessa merda de lugar para nada sair do jeito que eu quero! — Miguel puxou as mechas do próprio cabelo como se quisesse arrancá-los. — Por que tem que ser assim?

— Você quebrou aquelas coisas? — ela perguntou num fio de voz.

Ele não esboçou nenhuma reação.

— Eu quebrei tudo — respondeu vagamente. — Aqueles desgraçados conseguiram. Eu nunca vou ser um cientista.

Natália não podia ver a face do marido, mas, por alguma razão, sabia que ele estava chorando.

Ela deu mais um passo cauteloso para frente.

— Miguel... converse comigo.

Miguel continuou parado, com leves tremores no corpo.

— Saia de perto de mim, Natália — Ele pediu, a voz rouca. — Pelo amor que eu sinto por você e o nosso filho.

Uma parte do coração de Natália encheu-se de alegria. Miguel a amava e amava o filho deles. Mas por que não amaria? Ele podia estar transtornado demais, mas ainda era o homem que amava e que a amava muito em troca. Podia não parecer naquele momento, mas ele ainda era o Miguel. Ele só precisava de um tempo para se recuperar.

Aproveitando as últimas palavras proferidas por ele e ignorando o alerta inicial, Natália tomou coragem e deu mais alguns passos à frente, podendo ver agora com mais clareza o perfil do rosto dele molhado pelas lágrimas.

— Miguel — Ela o chamou, o coração sangrando por seu amado. — Por favor, vamos conversar.

— Saia daqui, Natália — ele ordenou mais uma vez.

— Por favor — ela insistiu.

Miguel a encarou com um olhar molhado e mortal, fazendo-a mais uma vez encolher-se de medo.

— SAIA DAQUI AGORA!! — Ele gritou furioso.

Natália afastou-se rapidamente, ainda fitando os olhos mortais do homem que ainda amava.

Miguel estava muito mudado. Aquele Instituto e os membros dele haviam acabado com seu marido. Agora Miguel mais parecia um selvagem agindo de forma estranha de uns tempos até ali. Um selvagem triste e frustrado.

Ela almejava tanto abraçá-lo e confortá-lo como em tantas outras vezes, secar suas lágrimas, dizer que tudo ficaria bem. Mas Miguel não queria deixar, pois ele mesmo desenvolvera um escudo invisível para que ninguém pudesse transpassar. E agora ela havia perdido o marido, o amor de sua vida.

O pensamento ruim e inquietante fez lágrimas caírem em suas faces e Natália correu dali, deixando Miguel na sala, abandonado na própria tristeza e solidão.


Natália havia chorado tanto deitada na cama, que acabou dormindo profundamente. Ela também havia sonhado. Sonhara com o tempo em que se conheceram, quando ele havia pedido para que ela morasse com ele depois de tê-la resgatado daquela vida miserável. Miguel era um homem bondoso, engraçado, um verdadeiro companheiro para ela, confortando-a nos momentos mais felizes e infelizes.

Natália abriu levemente os olhos, sentindo um pouco de dor na cabeça.

Ela olhou vagamente para o lado da cama onde Miguel costumava dormir. Não pôde evitar que uma lágrima caísse em sua face.

Era estranho. Ele estava ali, mas, ao mesmo tempo, não estava. O Miguel que conhecera e amava praticamente não existia mais.

Agora ela sabia, Miguel havia incendiado o Instituto. Ele mesmo havia confessado por meio de falas e atos que outrora pareciam estranhos, mas que agora faziam mais sentido. Ela perguntou-se o que mais ele devia ter feito em seus momentos de frustração. Não, ela se recusava a pensar no caso de Lola; aquilo não passava de um infeliz engano. Mas ela não estava contra ele, nunca estaria. O amava com todas as forças, mesmo com seus defeitos. Tinha sido muito errado o que ele fizera, um absurdo completo. Mas jamais ficaria contra ele.

Natália levantou-se com dificuldade da cama, a barriga pesada.

Ela sentia-se perdida, sem ter para onde ir, mesmo estando em sua própria casa. Não sentia vontade de visitar Ana ou manter contato com Lola, ainda porque sabia que Miguel não gostaria nem um pouco e queria evitar mais aborrecimentos para ele. Ela também não sabia se ia para fora tomar um ar, pensar em tudo o que estava acontecendo ou se mais uma vez, como das inúmeras outras vezes, tentaria trazer seu marido para a luz.

Sentia a falta dele. Sentia falta do Miguel, o homem maravilhoso que amava. Mas ela não iria desistir de seu amor, nunca. Mesmo que ele gritasse mil vezes com ela, mesmo que ele tentasse se ocultar mil vezes, ela estaria lá mil vezes para ele.

Com o pensamento determinado, apesar de tudo, Natália andou com dificuldade até a porta do quarto, mas, antes de tocar a maçaneta, parou abruptamente ao sentir um grande incômodo em seu interior. Ela olhou para baixo; sua bolsa havia estourado.

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