Natália soube num instante o que estava acontecendo: ela estava para dar a luz. Tentou não se desesperar, apesar de uma contração forte após a outra estar praticamente rasgando todo o interior de seu corpo. Aquela dor estava sendo indescritível. Mesmo gemendo de dor e com a respiração desregulada, Natália abriu a porta com uma mão, enquanto a outra apoiava a barriga, dando de cara com Miguel entrando pela porta da sala. Ele não estava com as roupas largas e desleixada de antes, mas vestia roupas casuais, limpas e passadas. Seu cabelo estava desalinhado como antes, mas agora não parecia mais sujo. Todo ele, em questão de aparência, estava exatamente como o Miguel que conhecia e amava. Contudo, o olhar sombrio e vazio do "novo Miguel" permanecia lá.
Natália iria chamá-lo, mas outra forte contração a atingiu e ela se contorceu de dor. Miguel pareceu notá-la e arqueou os olhos em espanto e surpresa.
— Natália? — Ele a chamou, assustado, e correu na direção da esposa que estava paralisada e se contorcendo por causa da dor.
Natália agradeceu aos céus por ter trazido de volta o Miguel que ela amava, mesmo que por um breve momento. Ele agora não a olhava com raiva ou com o olhar sombrio que ela tanto temia, mas com preocupação e senso de proteção a ela e ao bebê que logo nasceria.
— Miguel... — Natália sentiu faltar o ar com mais uma forte contração. — O bebê...
— Sim, eu sei — ele falou com a voz rouca e aflita. — Venha, vou te levar para o hospital.
Miguel a ajudou a se levantar corretamente e andou com ela até a saída de casa, pousando o corpo dela sobre o carro.
— Fique calma — Ele tentou tranquilizá-la. Natália respirava com dificuldade, a dor assolando seu corpo. — Logo mais estaremos no hospital.
Natália olhou com dificuldade para o marido e depois para o Chevete estacionado de forma irregular na calçada. Para onde Miguel teria ido?
Miguel, sem conseguir esconder seu nervosismo pela situação de Natália, puxou a chave do carro no bolso da calça e abriu a porta traseira.
— Venha — Ele ergueu o corpo dela e a conduziu cuidadosamente até o banco traseiro. Natália sentou-se com dificuldade, a mão apoiada na barriga. — Já vamos chegar lá.
Miguel bateu a porta do carro e deu a volta, abriu a porta da frente e sentou-se em frente ao volante. Não perdeu tempo e deu a partida, dirigindo um pouco rápido demais. Natália procurou se segurar mais firmemente no banco traseiro devido a velocidade, mas não condenou o gesto do marido. Quanto mais rápido eles chegassem ao hospital, mais rápido aquela incômoda dor seria aliviada. Ou era o que ela achava.
Miguel continuou na mesma velocidade, mas procurou frear mais devagar quando estacionou em frente à maternidade mais próxima. Saiu rapidamente do carro, a expressão preocupada, e abriu a porta traseira onde Natália se encontrava. Natália se mexeu com dificuldade e Miguel a ajudou a sair do veículo. Logo atrás deles vieram dois enfermeiros para ajudá-los.
— Já está na hora? — Perguntou um deles enquanto o outro amparava o corpo de Natália.
Natália assentiu.
— Sinto como se ele fosse nascer agora — respondeu com dificuldade.
Miguel soltou sua mão.
— Cuidem de minha esposa, por favor.
Natália o fitou.
— Você não vem comigo? — Ela perguntou sentindo-se abandonada.
— Irei para casa pegar roupas para você e o nosso filho — ele disse. — Logo mais estarei aqui.
Natália mais uma vez sentiu vontade de chorar pois Miguel parecia querer ficar mais e mais longe dela, como se já não suportasse a sua presença. Entretanto, uma parte de si se aliviava por ele não estar por perto, como se previsse algo ruim.
De qualquer modo, teve que ser levada pelos dois enfermeiros para dentro da maternidade e observou em lamento seu marido desaparecer com o carro para longe dali.
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Foi tudo muito rápido ou ela estava inconsciente demais para discernir quanto tempo sentira aquela dor insuportável e indescritível antes de, finalmente, colocar seu primeiro filho no mundo?
Por um lado, sentia-se aliviada por aquela dor agonizante ter acabado rápido, apesar de seu corpo sentir cada músculo dolorido como se suas entranhas tivessem sido rasgadas; por outro, sentia-se terrivelmente mal por não ter a mão de Miguel segurando a sua na hora do parto.
Todo marido que amasse sua esposa e que estivesse radiando de felicidade por brevemente se tornar pai, ficaria ao lado da esposa, segurando a mão dela, confortando-a e, no final, ambos chorariam de felicidade e de amor pela chegada do herdeiro. Mas Miguel já não parecia se importar com mais nada além de suas pesquisas e da busca incansável em tornar-se um grande cientista. Antes ele dissera que havia desistido, mas ela conhecia Miguel, ele jamais desistia, principalmente de um dos seus maiores sonhos. E agora, lá estava ela, grogue e sozinha em cima de uma cama de hospital, sem o marido por perto dizendo-lhe palavras de conforto e de carinho. Apesar de tudo, ao menos teria seu filho em seus braços.
Natália abriu os olhos com um pouco de dificuldade e olhou para o quarto. Era pequeno, mas ao menos não era um daqueles públicos que era dividido para várias pessoas.
Ela levantou-se com dificuldade e constatou que suas narinas e braços estavam injetados por finos tubos transparentes. Ela fez uma careta de dor. Seu corpo doía demais. Sentiu falta de seu bebê, queria tê-lo nos braços.
Certamente ela havia desmaiado após dar à luz, o que explicava não terem lhe entregado o seu filho. Que não fosse outra coisa, ela suplicou mentalmente, quase cedendo ao desespero ao olhar de um lado para o outro do quarto. Queria Miguel ao seu lado. Porém, mais que tudo, queria estar com seu bebê.
Ela viu a porta ser aberta e uma simpática enfermeira entrar. A senhora aparentava ter não muito mais de cinquenta anos e uma vasta experiência no local.
A enfermeira sorriu de forma simpática para Natália e andou até onde a jovem estava.
— Como a senhora está? — Ela indagou.
Natália voltou a se recostar nos travesseiros.
— Muito dolorida — Ela respondeu, a voz fraca. — Onde está meu marido?
A enfermeira franziu o cenho, confusa.
— Lamento, mas não sei de quem se trata. Mas creio que ele logo virá para preencher os documentos e pagar a sua internação.
Natália arqueou as sobrancelhas, surpresa. O hospital era pago e Miguel estava desempregado. Se eles não fossem cuidadosos, o dinheiro da economia poderia acabar rápido.
Natália assentiu e fechou os olhos ao sentir outra fisgada em seu interior. A sensação que tinha era como se todos os seus órgãos tivessem sugados.
— O meu bebê...
— Ah, sim, meus parabéns. — A enfermeira sorriu. — É uma linda menininha e agora ela está descansando na incubadora. Mais tarde eu a trarei aqui para você poder amamentá-la.
Natália sentiu o mundo parar por um momento, mas, ao mesmo tempo, toda a sua cabeça girar.
Ela não podia estar ouvindo aquilo. Só podia ser um grande engano.
— O que? — Natália perguntou sentindo-se paralisar.
— Perdão? — perguntou a enfermeira sem entender.
— A senhora disse... que é uma menina? — Natália engoliu em seco. Agora sentia sua boca ainda mais seca que antes.
— Sim, e muito linda — respondeu a enfermeira. — Mais tarde a trarei para você.
Uma forte onda de desespero correu pelo frágil e dolorido corpo de Natália.
— Por favor, me diga que isso é mentira — Ela suplicou, a voz chorosa.
Se fosse por ela, aceitaria a chegada da criança como fosse: menino ou menina. De qualquer modo, seria o fruto do amor entre ela e Miguel. Mas ela sabia que Miguel não ficaria nem um pouco contente com a notícia, não depois de tantas vezes ele fazer questão de repetir suas exigências. Ele estava tão diferente e tão preso em pensamentos sombrios que Natália sentia-se ainda mais temerosa.
A enfermeira continuou a encará-la sem entender.
— Mas por que, senhora? — Perguntou. — Não era uma menina que você queria? Ela é tão linda.
Natália sentiu os lábios tremeram e uma lágrima caiu.
Ela queria, sim. O que ela mais queria era ter sua menininha em seus braços. Mas o medo da reação de Miguel falava mais alto.
— Por favor, troque — Natália suplicou. — Troque ela por um menino, por favor.
A enfermeira a fitou num misto de espanto e descrença.
— Senhora, não posso fazer isso. É um ato sujo e criminoso.
Natália ergueu as mãos frágeis e entubadas e segurou firmemente as mãos da enfermeira.
— Por favor, eu imploro — Natália implorou, as lágrimas invadindo seu rosto abatido. — Não fale para o meu marido. Não conte a ele que é uma menina, por favor.
Uma parte de Natália estranhava aquilo tudo. Por que estava sentindo tanto medo de seu marido? Aonde estava o Miguel que a amava e a protegia? Não fazia o menor sentido estar com tanto medo dele ou de sua reação.
A enfermeira olhou para a jovem sem saber o que dizer ou o que fazer.
— Mas, senhora, em algum momento ele terá de ver a criança — Disse ainda espantada com a reação estranha e exagerada da jovem.
Natália meneou a cabeça.
— Não mostre a ele. Fale que ela morreu.
Os olhos da enfermeira se arquearam em pura descrença. Certamente ela estava achando que Natália era louca.
— Meu Deus, a senhora não sabe o que está dizendo. — Gentilmente soltou suas mãos das mãos frágeis e entubadas da jovem paciente. — Fique calma, está bem? A senhora só está delirando.
Natália mais uma vez meneou a cabeça, sua aflição era mais que evidente.
— Não. Não estou delirando — Ela tornou a insistir, mas viu que suas súplicas de nada adiantaram.
Mas, no fundo, a enfermeira não estava enganada. Natália, de fato, estava delirando com toda aquela situação que fizeram Miguel passar, e por isso, a estava afetando também.
— Tente descansar um pouco. — A enfermeira tornou a encostar as costas de Natália nos travesseiros. — Mais tarde estarei aqui com a sua filha.
Natália nada pôde dizer ao ver a enfermeira saindo pela porta. Agora ela seria taxada como louca por conta do medo que sentia pela reação de Miguel. Pedira para a enfermeira sumir com sua filha ou trocá-la por um menino, mas já amava sua menina antes mesmo de ela nascer. Queria tê-la nos braços, amamentá-la e dizer-lhe palavras de amor. O que mais queria era ver como ela era, protegê-la e tudo podia ser diferente do que estava sendo desde alguns meses atrás. Mas agora teria de escolher entre sua filha recém-nascida e Miguel.
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