quinta-feira, 20 de junho de 2024

A semente mágica - capítulo 2

 




Júlia subiu a escada do casarão da fazenda com cara de poucos amigos, percebendo que seu pai e suas irmãs estavam na sala; Juliana estava fazendo crochê, Julieta estava lendo — como sempre — e Antônio estava sentado em sua poltrona favorita ouvindo as mesmas músicas bregas de uma estação de rádio. Os três notaram a sua presença.

— Oh, Júlia, estava na cachoeira? — Juliana perguntou.

— Sim — Júlia respondeu esforçando-se para esconder o seu mau humor. — Está fazendo muito calor e fui dar uma refrescada.

Júlia passou pelas irmãs e sentou-se em outra poltrona.

— Essa sua mania de sempre ir à cachoeira não é muito boa, Júlia — Antônio a repreendeu. — Olhe só para o seu vestido. Acha que é adequado para uma moça de sua idade andar assim?

— E qual é o problema? — Júlia queixou-se. — A cachoeira fica dentro de suas terras e eu estava com muito calor. — Ela percebeu que o vestido claro havia ficado quase transparente em seu corpo. — Apenas esqueci de levar a toalha — disse omitindo seu encontro nada desejável com o peão pescador.

Julieta mal prestava atenção em sua família de tão absorta que estava no livro que estava lendo. Antônio fitou a filha mais velha. Júlia não parecia estar tão satisfeita assim depois de ter se refrescado na cachoeira. Ele sabia que sua primogênita não gostava muito da vida no campo, mas ela sempre agia de modo natural, diferente daquele momento.

— Algo a irritou, Júlia?

Júlia olhou para o pai. Antônio era ligeiro em perceber as coisas — ou quase tudo, pensou aliviada.

— Nada demais — ela mentiu. — Apenas esse calor insuportável.

Apesar de não ter gostado nem um pouco do sujeito arrogante que a tinha visto quase nua na cachoeira, Júlia não queria ser responsável por uma demissão quando, talvez, o peão teria uma família para sustentar.

— Ah, sim. — Antônio voltou a encostar a sua cabeça no encosto da poltrona, deliciando-se com as músicas bregas.

Júlia suspirou profundamente, vencida pelo tédio que era aquele lugar.

A fazenda de seu pai era um lugar bonito, mas sossegado até demais, visto que estava mais acostumada com a vida na cidade. Júlia era a filha primogênita de três filhas de Antônio com uma artesã que ele conhecera na cidade grande e se apaixonara. Júlia era a segunda filha que mais se parecia com a mãe, perdendo apenas para Julieta que era um retrato quase fiel. Júlia era um misto perfeito de Antônio com Gisela, enquanto Juliana se parecia mais com o pai.

Gisela, a mãe das meninas, era uma mulher fina e educada, muito respeitada e admirada em seu meio e também entre os moradores do campo. Antônio sempre fora um homem matuto que não importava-se com dinheiro ou bens materiais, apenas tinha amor pelo que fazia e pela tranquilidade de viver na zona rural. Aparentemente, havia sido exatamente o seu jeito de ser que fizera Gisela se apaixonar por ele, largando tudo o que tinha na cidade para viver com o seu amado na fazenda.

Juliana e Julieta mais pareciam ser irmãs gêmeas no modo de pensar. Juliana gostava do estilo de vida que levavam e gostava muito de escrever. Julieta também adorava aquela vida e seu passatempo favorito era perder-se na coleção de livros que tinha no quarto que dividia com as irmãs. Júlia era um pouco mais diferente das duas. Ela não tinha a menor paciência para escrever ou perder-se nos livros, além de nunca conseguir se adaptar àquele estilo de vida tão bonito, mas tão monótono. Na maior parte de sua vida, havia sido criada no campo, mas teve de ir para a cidade junto com as irmãs para completarem os estudos. Como passou mais tempo que as outras, Júlia iniciou a sua vida boêmia ao lado de alguns amigos que conhecera e adorou tudo aquilo que outrora era tão desconhecido para ela. Suas irmãs mais novas também haviam gostado da vida na cidade, mas elas sempre davam preferência para a vida na fazenda.

Juliana queria ser escritora, mas também tinha vocação para pedagogia. Julieta não sabia o que iria querer para o futuro, assim como Júlia, mas tinha um forte apreço pela ideia libertadora de viajar o mundo, como lia em seus livros. Contudo, diferente da irmã caçula, Júlia não tinha um milionário para encostar-se e fazer todas as suas vontades. Se Julieta não fosse ter uma profissão fixa no futuro, aquilo não a prejudicaria de modo algum, pois Romeu poderia arcar com todas as despesas de suas viagens caras pelo mundo, Júlia pensou com amargura.

Desde quando era criança, um dos maiores sonhos de Júlia fora ter um marido milionário que a cercasse de luxos e mimos. Mesmo tendo um pai bem de vida, ela sabia que Antônio não era tão rico assim e tinha medo de algum dia ter que acabar como uma mulher do campo numa vida miserável. Como não poderia depender da fortuna do pai, teria que encontrar um bom partido para lhe dar boa parte das coisas que não pôde ter por falta de muitos recursos, além da vida de glamour que de fato merecia.

Julieta pôs um marcador sobre a página em que acabara de ler e fechou o livro.

— Romeu nos convidou para um almoço amanhã em sua casa.

— Diga logo "nossa casa", Julieta — Juliana brincou com a irmã mais nova. — Vocês já são noivos, certo?

Júlia revisou os olhos.

— Ela é noiva dele, não esposa — Antônio disse em tom sério, ainda que soubesse que a filha estava brincando.

Julieta corou como sempre fazia quando falavam sobre seu amado.

— Bem, seria bom se fôssemos um pouco mais cedo tomar um chá antes do almoço — A caçula disse.

— Acho que estarei indisposta — Disse Júlia.

— Por que? — perguntou o pai curioso.

— O calor — Júlia fez um gesto indiferente.

— Talvez faça mais vento amanhã — Juliana comentou. — Ainda porque iremos pela parte da manhã.

— Um amigo do Romeu estará lá — Julieta falou. — Ele quer que o conheçamos.

Júlia recompôs-se de imediato.

Romeu era milionário e certamente seu círculo de amizades era feito de pessoas tão poderosas quanto. Talvez essa poderia ser a sua chance.

Ela fitou a irmã caçula.

— Um... amigo?

— Sim — Julieta respondeu. — Ele é da cidade e virá fazer uma visita de negócios. Foi o que Romeu disse. — Deu de ombros.

Júlia assentou pensativa ao tentar disfarçar seu contentamento.

— Bem, vou preparar minha roupa para a visita — Disse e levantou-se.

— Mas, já? — Antônio se surpreendeu com a súbita mudança da filha.

— Tenho que estar apresentável, não é? — Júlia falou com o humor bem melhor e partiu em direção ao quarto.

Julieta virou-se para o pai e a irmã.

— Por que será que ela mudou de ideia tão repentinamente?

Juliana esboçou um sorriso malicioso.

— Tenho minhas suspeitas — respondeu e continuou com o seu crochê.


Marcos chegou em casa mais cansado que o normal. Como era o seu dia de folga, havia passado parte do dia pescando, mas o sol forte tinha acabado com ele, o que foi um contraste enorme entre o ambiente refrescante da cachoeira e o calor sufocante da pradaria.

Ele pôs seus três peixes em cima da pequena pia da cozinha e abriu as únicas duas janelas da casa que ficavam em direções opostas.

A casa de Marcos era minúscula, tendo apenas o banheiro como um cômodo separado. Mas não havia do que ele se queixar, pois aquele simples casebre tinha lhe sido dado de graça pelo dono das terras, além de também conseguir ver bem o nascer e o pôr-do-sol dali. Não teria do que reclamar, apenas concertar o que fosse preciso com o tempo, o que incluiria plantar algumas árvores frutíferas no quintal de sua casa.

Marcos debruçou-se na janela perto de onde ficava a cama, absorvendo o vento gostoso que soprava em seu rosto, esboçando um pequeno sorriso pela lembrança daquela tarde. Que mulher, ele pensou extasiado. Por mais incrível que parecesse, aquela moça não parecia ser tão esnobe quanto algumas senhorita da cidade que ele tivera o infortúnio de conhecer. Ela era quente, não somente pelo belo corpo escultural, mas também por seu jeito de ser. Parecia ser uma moça entregue e aventureira e ele havia notado bem.

Marcos suspirou.

Nem ao menos soube o nome dela, mas, se ela fosse uma das filhas do patrão, iria reencontrá-la mais cedo ou mais tarde. Mas o que faria, caso esse dia chegasse? Possivelmente, ela ainda estaria com raiva dele, Marcos pensou, ampliando ainda mais o sorriso. Havia gostado mesmo dela.

Ele olhou para os três peixes sobre a pia. Seria melhor prepará-los logo. Estava faminto.


Logo após ter tomado banho e ter almoçado um pouco tarde — estava prestes a dar três horas da tarde —, Marcos apenas vestiu uma calça confortável e deitou de barriga para cima na cama. Ele ía tirar aquele tempo para cochilar um pouco. Estava juntando um pouco do seu salário para comprar uma TV e, assim, sair um pouco da monotonia do campo.

Como Marcos havia sido criado num vilarejo em beira de praia, não faltavam pequenas festas e brincadeiras por parte dos moradores, fossem crianças ou adultos. Já no campo tudo era mais silencioso, principalmente quando ele morava numa área mais isolada.

O vento soprou sobre seu peito forte e Marcos bocejou já fechando os olhos, quando percebeu um movimento suspeito num dos cantos da casa.

Ele sentou-se na cama.

— O que foi isso? — Perguntou fitando com curiosidade o canto do lado oposto.

Novamente veio o movimento e da sombra surgiu um belo pássaro colorido. Marcos suspirou aliviado. Pelo menos não havia sido um rato.

— Olá, amiguinho. O que você quer?

O sorriso de Marcos esmoreceu quando ele viu o pequeno pássaro transformar-se num homem estranho. O sujeito tinha cabelos curtos e castanhos, barba lisa e estatura média. Suas vestes excêntricas indicavam que ele era do exterior.

— Olá, Marcos. — O sujeito sorriu. — Prazer em conhecê-lo.

Marcos prontamente pulou da cama e encarou aquele ser estranho que outrora havia sido um pássaro, mas que havia acabado de transformar-se num homem perante seus olhos. Com certeza, ele devia estar enlouquecendo.

— Quem diabos é você?


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