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| Por enquanto, vai qualquer foto |
O céu brilhava forte no céu e quase não tinha nuvens. O calor insuportável estava fazendo com que o lindo pássaro perdesse o ar e diminuísse o bater de suas asas. Mas aquela não era uma criatura qualquer, era um ser transformado. Ele voava quase sem parar à procura de mais uma vítima após sete anos de descanso. O ser transformado em pássaro chamava-se "Gênio das criaturas infelizes" e, como o nome já diz, ele fazia de vítima para si qualquer homem ou mulher infeliz ou angustiado e resolvia seus problemas, como um gênio da lâmpada. Após fazer suas vítimas, o Gênio transformava-se em pássaro novamente e ía embora para o sul, para descansar durante sete anos e logo depois despertar e fazer tudo novamente. Tal ato era como um alimento para ele, algo que lhe desse mais energia, e agora estava no tempo de procurar mais uma pessoa infeliz para a sua coleção. Observou do alto um lamentável casebre e um jovem rapaz arrumando os seus pertences. A pequena criatura planou no ar, descendo aos poucos até parar num galho alto de uma árvore que ficava em frente à pequena casa. Aparentemente, o rapaz estava saindo para pescar, portanto, não teria como saber se ele poderia ser o próximo — ainda. O Gênio em forma de pássaro, sacudiu suas asas e decidiu esperar a volta do rapaz. Contudo, teria que fazer logo o seu trabalho antes que acabasse o tempo.
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Marcos trancou a porta do casebre e fixou novamente o chapéu de palha sobre sua cabeça. O sol estava forte demais e quase não havia muitas árvores por aquela região onde ele morava, que era mais uma área de pasto. Não que aquilo fosse um problema para ele, pelo contrário. Sentia-se agradecido pela benevolência do dono das terras por ter lhe emprestado aquela casa para morar temporariamente. Ele suspendeu a vara de pescar sobre o ombro e caminhou em direção à cachoeira, que não ficava muito longe dali.
Marcos adorava pescar naquele lugar, mesmo que não houvesse muitos peixes, mas pela tranquilidade e sentimento de paz. Pescar para ele era muito mais do que apenas obter alimento; era também poder se lembrar de seu pai e de seu passado como ajudante de pescadores quando morava num vilarejo praiano. Após a morte de seu querido pai, o dono das terras o convidou para morar e trabalhar como peão na fazenda. Desde então, Antônio pareceu como uma segunda figura paterna para Marcos, ainda porque o patrão lembrava-lhe muito o seu pai.
Contudo, apesar de fazer um ano que conhecia o fazendeiro, não conhecia nenhuma de suas três filhas. Bem, por que deveria? Afinal, Marcos não passava de mais um peão e teria que saber o seu lugar; apesar de ser um homem adulto e carente por uma companhia feminina.
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Júlia mergulhava com leveza e graça; quase como se fosse uma bailarina d'água.
Fazia tempo, desde que voltara da cidade, que não mergulhava nas águas límpidas da cachoeira. Era um lugar lindo e escondido pelas muitas árvores em volta, o que a fazia sentir-se à vontade para nadar como veio ao mundo. Não teria por que se preocupar, pois ninguém parecia saber daquele lugar, apenas a sua família sabia que a cachoeira era o seu canto preferido nas terras da fazenda.
Júlia era a filha mais velha do fazendeiro Antônio e já havia feito os seus vinte e dois anos de idade. Por conta de sua idade e por ser a mais velha, seu pai achava que ela estava pronta para se casar. Mas Antônio era simplista demais, Júlia pensou com desgosto. Mesmo sendo dono de algumas terras, seu pai nunca fora do tipo que se preocupasse com dinheiro e status, e era isso o que ela mais almejava. Júlia não era mesmo do tipo que se contentasse com pouco e tinha receio que seu pai lhe apresentasse qualquer um para desposá-la. Ainda porque, mesmo sendo uma linda jovem, Júlia não obteve sucesso em fisgar um bom partido para si. Como, por exemplo, teve de perder um sujeito belo e milionário para a irmã caçula. Júlia tentou afastar os maus pensamentos, tomou fôlego e afundou-se nas águas mais profundas.
Marcos quase escorregou ao descer a pequena rampa de pedra, mas conseguiu encontrar equilíbrio. Havia muitas pedras ali e uma maior ao centro que era onde ele se sentava para pescar. Marcos sentou-se e desenrolou a linha em torno da vara de pesca. Ele sabia que era melhor ter ido na parte da manhã, pois o calor de fora também havia invadido o lugar mais fresco da fazenda. Ele abriu dois botões de sua camisa e enxugou o suor que havia caído de sua testa.
Marcos parou por um momento, paralisando ao perceber que ao lado da pedra em que estava sentado havia roupas femininas. Ele largou a vara de pesca num canto ao lado e ergueu as roupas para ver melhor: ele segurava um vestido floral de botões e mais duas peças íntimas. Marcos sorriu ao olhar em confusão para aquelas peças de roupas.
— Mas o que...
Júlia emergiu rapidamente quase sem fôlego e tirou um pouco da água do rosto, estacando de imediato ao ver um estranho segurando as suas roupas com depravação no olhar. Mas quem era aquele maldito? Ninguém nunca ía lá!
— Ei, quem é você? — Gritou envergonhada e encolhendo-se sob a água, afinal, estava completamente nua.
Marcos olhou rapidamente à sua frente, notando uma jovem que o encarava com raiva, ocultando os seios com os braços. Ela era linda.
— Ãh... me desculpe — ele respondeu sem jeito, ainda segurando as peças. — Eu as vi aqui e...
— Eu sei que você as viu aí, mas não precisava pegá-las — Júlia ralhou. — Para dizer a verdade, nem era para você ter entrado aqui!
Ah, sim, Marcos pensou colocando as roupas de volta no lugar. A dondoca devia ser uma das filhas de Antônio, e por isso achava que aquele lindo lugar era de exclusividade sua.
— Me desculpe, senhorita, mas eu vim aqui para pescar. — Marcos indicou a vara de pesca em mãos. — Como sempre faço. E, infelizmente, eu não sabia que encontraria a senhorita nadando por aqui tão... — Marcos parou por um breve momento, apreciando as curvas da jovem sob a água, ainda que não pudesse ver muito. — à vontade.
Júlia sentiu-se ainda mais irada por estar sendo observada daquela forma tão libidinosa por um completo estranho.
— Quem você pensa que é para me olhar dessa forma, seu... — Júlia fez uma pausa, pensando no que dizer. — pescador fedido!
Marcos riu com o insulto. Jamais havia sido chamado daquilo e a forma como ela o havia insultado tinha soado engraçada. Era um pescador, sim. Contudo, acreditava que o "fedido" devia ser por conta do calor insuportável.
— Me desculpe, senhorita. Não quis ser rude — Marcos lamentou, mas mal disfarçando o sorriso.
Júlia continuou o encarando com raiva. Aquele homem devia ser um pobretão qualquer ou até mesmo um dos peões de seu pai, mas exauria uma arrogância que a deixava ainda mais irritada.
E agora, como faço para sair daqui?, pensou angustiada.
— Tem como devolver as minhas roupas, por favor? — O pedido foi feito mais como uma ordem velada.
— Eu levo aí ou a senhorita vem buscar?
Por mais que tentasse, Marcos não conseguia disfarçar a malícia em seu tom de voz. Ora pelo fato de ter uma mulher nua à poucos metros de distância, ora por perceber o quanto ela ficava ainda mais linda corada de raiva.
Júlia olhou para os lados, perdida, não sabendo o que fazer, e hesitou fitar o homem que, tinha de reconhecer, era lindo.
— Jogue minhas roupas na água.
Marcos pegou as peças de roupa e olhou para Júlia.
— Tem certeza? Elas ficarão encharcadas.
— Não importa. Com o calor que está fazendo, consigo me secar até chegar em casa.
Verdade, Marcos concordou em pensamento. Estava tão quente que poderia ser possível fritar um ovo no chão.
— Tudo bem.
Marcos estava prestes a jogar as roupas na água, mas Júlia apressou-se em lembrar que o vestido era claro e, ele estando molhado, daria para ver toda a sua peça íntima. Não só o pescador à sua frente, como também os outros peões.
— Não, não jogue! — Júlia disse de imediato.
Marcos notou Júlia morder o lábio inferior, nervosa, sem saber o que fazer. Por um breve momento, teve pena dela. Entretanto, como não era nenhum maníaco pervertido, tratou de ajudá-la.
— Aqui. — Ele estendeu a mão que estendia as roupas, mas olhando para a direção contrária. — Pegue e vista-se. Prometo que não vou olhar.
Não que Júlia acreditasse fielmente nas palavras dele, mas ela teria de sair logo dali. Ela nadou hesitante até onde Marcos estava e olhou desconfiada para ele.
— É melhor que você não esteja olhando — Ela ameaçou.
— Não estou, senhorita. E nem irei — Marcos assegurou.
Rapidamente, Júlia pegou suas peças de roupa da mão dele e virou-se de costas para se vestir. Marcos ainda estava segurando o vestido dela, tentando controlar-se para não fazer algo que poderia se arrepender depois. Não era um pervertido, mas somente o fato de que tinha uma linda mulher se trocando a centímetros de distância o deixava louco. Ele sentiu o vestido ser arrancado de sua mão com um pouco mais de força do que o necessário e sorriu. Com toda a certeza, a dondoca estava com muita raiva.
— Posso me virar? — Ele perguntou.
— Por mim, você poderia ir embora — Júlia disparou, fechando os botões de cima do vestido.
Marcos virou-se e corou ao olhar para ela.
Mesmo as roupas estando secas, o corpo ainda molhado fazia com que as peças íntimas se revelassem um pouco sob o vestido que era claro. Ela tinha o corpo lindo e atraente, além do rosto de menina-mulher. Os cabelos lisos e claros puxados para trás desde quando emergiu do fundo do rio e um leve rubor na face que ele não sabia se era por causa do calor ou por causa dele. Não que ele se achasse tão atraente, mas por que ela não o notaria? Apesar de ela ter lhe dado um apelido tosco, Marcos havia notado um olhar diferente por parte da jovem moça, assim como naquele mesmo momento.
Ele era tão... atraente, Júlia notou engolindo em seco.
Mesmo sendo um intruso completamente indesejado, ele era lindo demais. Os cabelos eram ondulados na altura do pescoço abaixo daquele chapéu de palha cafona. Sua cor de pele era dourada por conta do forte sol, ele era magro, mas com os músculos definidos nos lugares certos. Dois ou três botões de sua camisa de manga estavam abertos, fazendo com que o olhar dela passeasse por um pouco daquele peitoral suado. Os olhos cor de avelã passeavam quase que indiscretamente por seu rosto e corpo, mas algo lhe dizia que ele estava notando o seu olhar sobre ele. O maldito sabia o quanto era atraente e isso a aborrecia ainda mais.
— Mas... — Marcos demorou-se a tirar os olhos dos seios dela. — Vim aqui para pescar o meu jantar, senhorita. — Ele sorriu deliciando-se ao ver Júlia corar ainda mais de raiva. — Aliás, não era a senhorita que iria embora?
Júlia engoliu em seco. Ele tinha razão. Ficar só mais um instante perto daquele homem a deixaria louca — no pior sentido da palavra.
Ela ergueu o queixo em desafio e o encarou.
— Sim, eu vou — Ela disse sem se deixar abalar. — Mas amanhã virei novamente e já lhe aviso que não quero vê-lo aqui. Vá fazer as suas pescas em outro lugar, seu pescador fedido!
Marcos a viu ir embora, demorando o olhar no traseiro redondo.
É claro que ele não faria o que uma dondoca exigisse, mesmo que ela fosse filha do patrão. De qualquer forma, era inútil discutir, ainda porque estava quase impossível tirar o maldito sorriso do rosto.
Pois é... Nem mesmo soubera o nome dela. Quem sabe no dia seguinte descobriria o nome da fera? Podia ser loucura, mas já estava muito interessado nela. Hoje à noite os seus sonhos seriam cheios.

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