terça-feira, 11 de junho de 2019

A NOIVA DO DRÁCULA - CAPÍTULO 36



Luana chega à praia, apreciando as fortes ondas que batiam contra as pedras, e a imensa areia sob aquele céu escuro. Era um ótimo tempo para os casais que estavam por ali, aproveitando o lugar para se envolverem ainda mais num clima de romance.
Luana tira seus sapatos e anda mais um pouco adiante, passando pelos quiosques movimentados e andando em direção a areia, onde não havia muitas pessoas, e se senta.
Ela olha em volta e suspira pesadamente, sabendo que estava ainda mais perdida que antes. Como deixara aquilo acontecer? Como não pôde freá-lo no primeiro instante? David apresentava perigo demais para poder se mostrar fragilizada. Luana pega um pequeno graveto que está a sua frente e começa a fazer desenhos na areia.
Lembrava-se de quando teve longas conversas harmoniosas com David, de como ele a fazia sentir-se bem com seus conselhos. Não havia um momento em que estivesse com ele que ficasse triste ou se sentisse mal. Era um dos melhores amigos que uma pessoa poderia ter.
Lembrava-se bem quando tivera que passar o dia dos namorados sozinha, pois o antigo namorado preferira ficar com os amigos. David a tinha encontrado na praça e ficado a noite inteira senado no mesmo banco que ela conversando sobre várias coisas, sem tocar no assunto do esquecimento do namorado ingrato. Luana passara quase a noite inteira sendo embalada pelos braços dele, e tinha se sentido mais do que especial por ter um amigo ao maravilhoso.
David sempre fizera aquilo, sempre estivera lá quando ela mais precisava. Até mesmo se meia em brigas por sua causa. Luana ri com a lembrança. E o mais engraçado é que ela nunca o procurava, mas ele sempre parecia sentir o que ela mais precisava. Sempre estava lá para resolver tudo – mesmo que fosse de uma maneira bem estranha aos seus olhos.
Infelizmente, já naquela época, David já demonstrava ser bem diferente de ouros garotos, sendo uma visão bem diferente das coisas ao seu redor. Por mais que se esforçasse em parecer-se normal como as demais pessoas, sempre falhava miseravelmente. No próprio circulo de amizade que havia formado no trabalho, ele sempre fazia questão de isolar-se dos demais, mesmo que tivesse uma boa socialização com eles.
Luana sola o graveto em direção a pequena onda que molhava seus pés, abraçando fortemente os joelhos por causa do frio.
Lamentava o tempo que passara, transformando um amigo bom e conselheiro em um homem sombrio e incontrolável. Lamentava todo o sentimento bom que sentia por ele ser transformado em medo e receio. Mas, principalmente, lamentava vê-lo sofrer cada dia mais e não poder fazer nada para impedir.

– David... – Luana choraminga o nome dele, e apóia a cabeça nos braços, deixando-se levar pelas emoções.

* * *

Luana entra em casa, já se preparando para levar uma bronca de sua madrinha. Ela estava assistindo uma de suas novelas favoritas.

– Desculpe, madrinha.

Dolores a encara, sem entender.

– Pelo que? Ainda vão dar onze horas.

Luana coloca sua bolsa na mesa de centro.

– Ah. Pensei que já estivesse bem tarde – Luana diz, sentando-se ao lado de Dolores.

– O que houve, Luana?

– O que?

– Você esteve chorando? – Dolores indagou, olhando preocupada para a afilhada.

Luana desvia o olhar, dando um falso sorriso.

– Não. Impressão sua, madrinha.

Dolores a encarou com um olhar especulativo.

– Luana, não queira me enganar. Seus olhos estão vermelhos e inchados. Ande, me fale.

Luana suspira profundamente. Já era hora de contar o que vinha acontecendo para sua madrinha. Se não contasse, jamais se aliviaria daquele enorme peso.

– Tudo bem – diz. –Chorei por causa de David.

Dolores arqueou as sobrancelhas.

– David?

– Sim – ela responde. – Esses dias em sido um inferno, madrinha...

Dolores a olha com preocupação e chega um pouco mais perto.

– Me diga o que está acontecendo, Luana.

Luana a olha durante um tempo antes de responder.

– David está passando por uma fase ruim de sua vida. – responde. – Ele está muito mal por conta de algumas coisas que aconteceram quando era mais novo, e coisas que estão acontecendo agora.

– Ele está passando por situações difíceis?

– Sim – Luana responde indecisa se poderia lhe dizer o assunto principal. – e tudo isso tem sido um verdadeiro inferno, madrinha.

Dolores continua olhando-a sem entender. Fora uma escolha difícil ter que iniciar aquele assunto com ela, mas teria que ir até o fim.

– Deixe-me ver se entendi – Dolores fala com calma. – Há alguns dias você e David pareciam ter brigado, você mal queria ouvir sequer o nome dele. Mas, agora, parecem ter se reconciliado. O que eu não entendo é o que você tem a ver com isso, Luana. Claro que vocês são amigos, mas sofrer porque ele está passando por uma situação difícil?            

Luana nega com a cabeça.

– Não, madrinha. David e eu ainda não fizemos as pazes. Para falar a verdade, nunca deixamos de sermos amigos. – Luana suspira. – A verdade é que ele tem ficado muito estranho por causa de coisas que aconteceram em sua infância, fazendo coisas horríveis. E eu sei que ele está sofrendo muito com tudo que está acontecendo. – Ela abaixa a cabeça em pesar. – O que me faz sofrer muito também.

Dolores suspira pesadamente e puxa a afilhada para um abraço.

– Oh, minha querida. Sei exatamente como se sente – ela diz embalando Luana em seus braços. – Tive uma melhor amiga na infância, e também sofria quando ela sofria. Ainda não sei de toda essa história, e espero que você me conte depois. Mas agora, só espero que você se acalme, hum? As coisas vão se ajeitar.

Luana funga perto do pescoço de sua madrinha.

– Tomara.

Dolores solta levemente Luana.

– Acredite – ela diz a olhando. – Por mais que as coisas possam estar sendo um pesadelo agora, tudo ficará bem mais tarde. – Dolores sorri. – Inclusive vocês dois.

Luana a olhou durante um tempo.
Mesmo com as lágrimas prestes a cair, não pôde deixar de achar graça do que sua madrinha dissera. Dolores, como sempre, não desistia da idéia de vê-los juntos.

– Tudo bem. – Luana sorri. – Vou para o meu quarto. Já tomou seu remédio?

– Já. Mas fique um pouco comigo vá tomar um banho e procurar alguma coisa para comer.

Luana assente.

– Está bem, madrinha. – Luana pega sua bolsa. – Pode esquentar a comida para mim, por favor?

– Já está quente.

– Ok. – Luana se levanta e caminha até seu quarto.      

De uma certa forma, sentia-se melhor. Dolores não soubera de toda a história, mas ainda assim soube lhe tranqüilizar como nenhum outro. Não sabia exatamente se lhe contaria toda aquela história, mas agora não podia mais andar para trás.

Por ora, deixaria aquele assunto para depois. Agora trataria de relaxar num belo banho e descansar sua mente.

* * *

Luana abre seus olhos.

Ainda eram cinco horas da manhã, e desde que deitara, não tinham conseguido dormir. Sua mente estava cheia demais, apesar da aparente tranqüilidade que sua madrinha tinha passado para ela.

Luana se levanta, procurando algo para vestir. Como já devia saber, Dolores não havia acreditado em quase nada do que ela dissera, apenas rira descontroladamente. Mas era bom assim. Ainda desconfiava de que Nina e Jessica não acreditavam em quase nada do que ela dissera também. Mas, quem acreditaria?

Luana veste um vestido marrom de alças grossas, olhando-se no espelho e notando as pequenas marcas de mordida em seu pescoço. Ela passa a mão, ainda não acreditando que David realmente havia feito aquilo com ela. Contudo, por mais que todas aquelas coisas estivessem acontecendo, não conseguia mais sentir raiva ou rancor dele; pelo contrário. Sua preocupação por ele aumentava cada vez mais.

Ela termina de se aprontar, amarrando um lenço vermelho sobre o pescoço e abre a porta silenciosamente, não queria despertar a madrinha de madrugada. Sabia que ela ficaria preocupada por não vê-la de manhã, mas teria que encontrar Ivan o mais rápido possível.

* * *

A casa estava escura. De todos os cômodos, apenas três estavam acesos. Estariam eles dormindo?

Luana gira a maçaneta da grande porta dupla, adentrando a suntuosa sala de estar. Parecia ainda mais sombria com toda aquela escuridão. Melhor dizendo, o clima inteiro parecia tenso e perigoso. Ela engole em seco. Não podia negar que estava com medo.

– Olá – ela chama, apesar de só ouvir o eco da própria voz.

Luana olha ao redor, mas parecia não haver ninguém ali. Ela sobe lentamente a grande escadaria, temendo o que poderia encontrar. Já no segundo andar, ela anda pelo corredor escuro com decoração neoclássica e sombria. Não pôde notar a beleza daquele lugar da última vez que estivera ali, pois David a tinha pego de surpresa. Agora, teria que encontrar Ivan, pois queria saber o resto daquela história que tanto mexia com sua cabeça.

Ela para em frente a uma porta conhecida: o quarto de David. Não sabia exatamente o que estava fazendo ali, mas algo não a impedia de sair dali o mais rápido possível. Queria estar naquele lugar, queria muito vê-lo.

Luana abre silenciosamente a porta do quarto de David, apesar do medo estar percorrendo todo o seu corpo. Se algo de pior acontecesse, a única pessoa que poderia culpar seria a si mesma. Luana fecha a porta atrás de si, encarando sua retrato numa opulenta moldura pendurado na parede. Era perceptível o amor e a obsessão que David sentia por ela, mas não sabia exatamente como se sentir em relação àquilo.

Ela olha para David deitado na cama. Parecia estar em um sono tranqüilo, sem preocupações ou perturbações que tanto enfrentava. Em um gesto de admiração, Luana ajoelha-se perante a cama dele, observando o levantar e descer de seu peito numa respiração leve. Apesar de suas roupas estarem em frangalhos e sua aparência pálida, David ainda estava lindo como sempre, e agora parecia tranqüilo, calmo. Sentia-se bem por vê-lo melhorar de uma certa forma, afinal, nem dormir mais ele conseguia. E, por mais louco que parecesse, a vontade que tinha era de acariciar seus cabelos, sentir a suavidade de sua pele.

Mas no que estava pensando? David poderia acordar e atacá-la a qualquer momento. Luana se afasta e levanta-se rapidamente. Não poderia mais continuar ali. Mas, a vontade de ficar perto dele era quase esmagadora.

David geme, fazendo o coração de Luana palpitar acelerado. Ela abre a porta, olhando novamente para o quadro na parede. Já era hora de sair dali, antes que ele acordasse.

Ao fechar a porta, Luana quase tem um infarto ao se deparar com Ivan atrás de si.

– Ivan! – ela arqueja assustada.

– O que está fazendo aqui, Luana? – Ivan pergunta em censura. – Principalmente no quarto de David?

Luana engole em seco e desvia o olhar rapidamente. Não queria lhe dar satisfação sobre aquilo.

– Acabei vindo para esse quarto por acaso. – Ela ri nervosa. – Estava procurando você.

– Me procurando? Para que?

Luana o encara, séria.

– Quero saber, de uma vez por todas, o resto daquela história.

Ivan a puxa para um pouco mais longe do quarto de David.

– Por isso você veio tão cedo? Luana, eu disse que iria lhe contar, mas apenas quando David não estivesse aqui. Pode ser perigoso para você.                

– Sinto muito, Ivan – Luana diz, decidida –, mas não saio daqui até saber.

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