Luana não conseguia entender. Como seu pescoço estava sangrando, se tudo o que aconteceu não passava de um sonho? Nem mesmo as marcas estavam lá de manhã cedo.
Luana passa os dedos sobre o sangue e o olha paralisada. Nina pega um lenço de sua bolsa e vai até ela.
– Calma. Você deve ter se machucado por aí.
Luana a olha, ainda sem palavras. Não sabia o que dizer naquele momento, nem mesmo o que pensar.
Nina termina de passar o lenço com cuidado pelo pescoço de Luana e sorri.
– Calma, Luana. Você está pálida.
Luana engole em seco e olha para seus amigos.
– Eu... Eu não sei o que aconteceu.
Jessica a olha fixamente.
– Acho que você sabe, sim.
Luana assente.
Jessica já sabia de seu segredo, e o bom é que ela e Nina acreditavam, parecia não ter dúvidas quanto ao segredo da amiga. Contudo, elas não sabiam que era David que talvez tivesse feito aquilo, não Alan – ou Drácula, como elas acreditavam que ele se chamasse.
Mas, o que Luana não sabia mesmo é como aquilo tudo que houvera em seu louco sonho era real.
David estivera lá na noite anterior.
Apesar de seu nervosismo, Luana consegue se recompor e pega sua bolsa sobre a mesa.
– Vamos para o bar. Não estou com tanto frio assim. Você vem, Jessica?
Jessica dá de ombros.
– Ah, eu não tenho escolha.
* * *
Uma hora depois Luana já não agüentava mais. Não que estivesse com sono, ou fosse muito tarde. Ela simplesmente não conseguia mais sossegar sua mente com todas as coisas que foram acontecendo durante aquele período tórrido de sua amizade com David.
Estava tudo fora do lugar, e sua mente ameaçava explodir.
Ela bebe um rápido gole de sua cerveja e volta a pensar, alheia a conversa de seus amigos.
Sua mente viaja até a noite anterior, quando Ivan a tinha levado para casa.
– Luana, quero que ouça. Ainda vou lhe contar sobre o final dessa história, e o que realmente aconteceu com David. Mas, mesmo assim, quero que você mantenha distância dele.
Luana o olhou e assentiu.
– Estou mantendo.
– Não o bastante. – Ivan se ajeitou desconfortável sobre o banco do carro. – Ouça, Luana. Sei que vocês eram melhores amigos, e sei que você tem bons sentimentos por meu sobrinho. Mas, talvez, esses sentimentos podem fazê-la correr um grande risco. David já não é mais o mesmo, minha jovem. Pense nisso.
Luana o encarou, assustada.
– Acha mesmo que ele teria coragem de me matar?
Ivan a olhou fixamente. Havia tristeza em seu olhar.
– Quer mesmo saber a verdade? Sim.
Luana continuou encarando-o, sem acreditar.
– Há cem anos atrás, meu pai, Vlad, Alan e eu saímos para caminhar à luz da lua. No meio do caminho vimos quatro homens: um era um vampiro, o outro era um humano que tinha se transformado em vampiro, o outro era humano, e o outro era um mestiço, como David. O vampiro sangue puro e o vampiro transformado, que era seu escravo, ficaram parados olhando o vampiro mestiço devorar com ferocidade o humano. Ficaria surpresa se eu lhe dissesse que o humano e o vampiro mestiço eram melhores amigos de infância?
Luana o encarou boquiaberta.
– Eles... eram amigos?
– Sim. Foi o que Vlad descobriu depois.
– Mas... – Luana tentou encontrar as palavras. – Como isso aconteceu?
– Instintos, minha jovem. Vampiros mestiços, em sua maioria, não sabem se controlar. Suas atitudes são monstruosas e sem controle. Tanto que até mesmo muitos vampiros sangue puro e experientes têm medo deles.
– E por isso, os maltratam? – Luana disse tentando controlar seu nervosismo.
– Sim.
Luana assentiu, tentando processar aquela informação em sua cabeça. Sentia-se enojada e ainda com mais medo. Ficar longe de David? Era o mais provável que o fizesse, mas algo em si lhe fazia ter vontade de ficar com ele e protegê-lo de todas as injustiças que, com certeza, devia ter sofrido.
Ela respirou pesadamente e pegou sua bolsa.
– Obrigada por me contar, Ivan. – Ela tentou sorrir. – E obrigada por se preocupar comigo.
– Não precisa agradecer, Luana. Apenas faça o que eu disse.
Luana assentiu e saiu do carro.
Ainda lembrava das palavras de Ivan em sua cabeça, mas aquilo só servia para atormentá-la ainda mais. Imaginava-se como a mente de David estaria. Com certeza, ele já devia estar à beira da loucura.
Se o que Ivan dissera fosse verdade, David a atacaria mesmo? Teria realmente vontade de devorá-la?
Desistindo de pensar em tudo aquilo, Luana geme frustrada e se levanta rapidamente da mesa. Queria sair o mais rápido dali.
– Pessoal, estou indo.
Jessica a encarou preocupada.
– Luana, você está bem?
Luana engole em seco e assente rapidamente.
– Sim, claro. Apenas quero ir para casa. Talvez, em um outro dia, possamos ficar até tarde.
– Quer que eu te leve para casa? – Fred pergunta, já se levantando da cadeira, mas Luana faz um gesto negativo.
– Não, obrigada, Fred. Ainda está passando ônibus. Vou sozinha.
Nina a olha com preocupação.
– Luana. Tem certeza que está bem?
Luana sorri e assente.
– Sim, estou bem. Até amanhã.
Luana corre rapidamente para fora do bar e respira profundamente o ar de fora.
O que estava acontecendo com ela?
No mesmo instante, um táxi chega e ela corre até ele.
– Por favor. Está saindo agora?
O taxista assente educado.
– Sim. Para onde a senhorita vai?
Luana abre a porta do carro e se senta, encostando a cabeça no banco.
– Leve-me para a praia.
– Sim, senhorita.
Não voltaria para casa ainda naquele estado. Ainda tinha muita coisa no que pensar, e não poderia descarregar tudo em sua madrinha, pois ela nunca entenderia.
Não que estivesse com a intenção de relaxar, pois sabia que era um tanto improvável. Mas teria que tentar colocar sua mente no lugar, antes que enlouquecesse de vez.
E a pior maneira de enlouquecer seria indo atrás de David.
* * *
David sentiu alguém o apoiando em algum lugar. O que estava acontecendo?
Ele abre seus olhos lentamente e vê Ivan e Alan ao lado de sua cama, analisando-o.
Ele se senta rapidamente.
– O que? – Ele diz afobado. – O que houve?
– Acalme-se, David – diz Ivan. – Você apenas cochilou. Eu o coloquei na cama.
David os encara sem entender.
– Cochilei? Como, se eu não consigo mais dormir?
David leva a mão na cabeça. Estava com uma dor fortíssima.
– Você não consegue dormir por aborrecimentos, David – Alan diz. – Nem mesmo de dia. Seus olhos estão ficando fundos de tantas olheiras.
David encara mortalmente seu tio mais jovem.
– Ah, não me diga.
– David, precisamos conversar – Ivan diz finalmente, acalmando o clima tenso pelo sobrinho e o irmão no quarto.
David olha para Ivan.
– É mesmo? Sobre o que?
– Sobre seu ataque a duas humanas.
David ri.
– Ah, sim. Fico imaginando – David faz um gesto sutil com a cabeça para Alan – quem te falou isso.
– Sim, David. Fui eu – Alan diz. – O que você fez foi loucura.
David o encara furioso.
– Loucura? Você ainda não viu nada.
– Até quando se comportará dessa maneira? – Alan diz alterado. – Você não tem mais amigos, sai atacando quem estiver em seu caminho, e até mesmo está perdendo uma amiga.
– Vocês dois. – Ivan os interrompe. – Parem, por favor.
David se levanta da cama, encarando Alan e ignorando o pedido de Ivan.
– Se estou a perdendo é por sua causa, seu desgraçado! – David diz com fúria. Apenas olhar para Alan o fazia perder a calma. Sabia que ele o estava testando. Maldito miserável. – Você a tirou de mim, e ainda tem a coragem de fingir que nada aconteceu!
– Apenas estou tentando seguir em frente, David. Faça isso também.
David já não agüentava mais. A vontade de esmagar Alan era tão intensa que não pôde pensar em mais nada.
Porém, quando estava prestes a socar Alan, Ivan segura seu punho.
– David, não! Por favor, pare com isso. Tente se controlar!
David retira sua mão com força.
– Me controlar? – Ele desata a rir. – Vocês estão querendo brincar comigo, não é? Estão querendo me deixar mais louco do que eu já estou! Não é?
– Não, David – Ivan diz com calma. Manter o sobrinho calmo seria uma tarefa praticamente impossível. – Queremos lhe ajudar. De forma alguma vou querer que aconteça com você o que aconteceu com um homem que eu conheci. Ele era mestiço como você, e seu destino foi horrível. E, por mais que você pense que nós não nos importamos com você, saiba que não queremos que aconteça o mesmo com seu destino.
David continuou a sorrir.
Durante anos, nunca ouvira algo que parecesse gentil de Ivan ou de Alan. Entretanto, repentinamente, eles estavam tentando demonstrar preocupação com seu estado. Logo seus tios, que nunca o defenderam da Elite, e sempre o faziam lembrar que era apenas um mestiço imundo.
Não. Não cairia no jogo deles. Alguma coisa eles queriam, tinha certeza. Mas faria com que eles caíssem em sua própria armadilha. Já estava farto de ser paciente.
David o encara sem hesitar.
– Meu destino – ele diz com veemência. – quem faz sou eu. Portanto, não se intrometa, Ivan. E você – David olha com intensidade feroz para Alan. – Não pense que ganhou de mim. Pois essa guerra ainda está muito longe de acabar.
– Não vejo isso como uma guerra, David. Não para mim. A maior guerra que você está travando é consigo mesmo, uma guerra interna. E tão intensa que te deixa com os olhos fechados a tudo ao seu redor.
– Não, Alan. Estou com os olhos bem abertos, acredite. Agora saiam do meu quarto.
David deita-se na cama e Ivan assente derrotado.
– Sim. Mas não o deixaremos mais sair daqui para caçar, David. Você já fez muito estrago.
David o encara.
– Não tanto quanto fizeram comigo. – Ele suspira. – Mas, não se preocupem. Não consigo mais associar o sangue daqueles humanos como gosto bom.
– Ficará com fome? – Alan diz sem acreditar.
David sorri sem olhar para ele.
– Não, Alan. Poderemos trazer as bolsas-
David interrompe Ivan antes mesmo dele terminar.
– Se está se referindo às bolsas de sangue, já pode ficar sabendo que não vou me alimentar daquilo. Tem um gosto horrível.
Ivan analisa o sobrinho.
– Podemos trazer sangue de animais, então?
David faz um gesto indiferente com a mão.
– Que seja – ele responde olhando para o nada.
Ivan respira aliviado. Pelo menos, em uma coisa, puderam concordar.
– Tudo bem. Faremos assim. Bem melhor que caçar humanos por aí. Vamos, Alan.
Alan assente e abre a porta, mas David fala antes de eles saírem:
– Agora deram-se conta do quão desprezíveis vocês são? Do quão monstruosos vocês eram quando caçavam humanos? Isso não me faz muito diferente de vocês.
Ivan pára para refletir nas palavras do sobrinho. David estava certo em dizer aquilo, eles não eram tão diferentes assim. No entanto, não podia enxergar as duas coisas como iguais. Não. Eles nunca seriam iguais. Eles conseguiram mudar com o tempo. David precisava de ajuda, antes que fosse tarde demais.
Ivan respira pesadamente e assente para o sobrinho que não olhava para eles.
– Apenas procure descansar, David.
Seus dois tios saem e a porta se fecha.
David sorri maliciosamente. Eles mal sabiam como ele pretendia se alimentar dessa vez. Não caçaria mais humanos, é claro; seus gostos eram péssimos. Nem mesmo se alimentaria de restos de animais, ou bolsas de sangue. Ele tinha uma forma muito melhor de se alimentar e se perder em algo mais belo e sagrado que era o corpo de Luana. Sim, ela seria sua. Dessa vez ganharia de Alan, mesmo que tivesse de apelar para o pior.
Ele olha para o quadro intacto de Luana.
– Você será minha de qualquer jeito, minha deusa. Ou não será de mais ninguém.

Nenhum comentário:
Postar um comentário