O barulho havia cessado. Nem Damian, nem seus subordinados estavam mais forçando a porta. O quarto estava num quase profundo silêncio, a não ser pelo choro infantil que reverberava pelo recinto.
Vlad olhou para a linda criança ainda coberta de sangue. Seus pequenos olhos ainda estavam fechados e seu corpo tremia violentamente, como se implorasse pelo calor do corpo de sua mãe.
Ele olhou para Katherine, que permanecia imóvel sob seu corpo. Ele percebeu que suas mãos pairavam sobre a boca e o nariz dela, e lembrou-se que havia feito aquilo com a intenção de fazê-lá desmaiar para que Damian e os outros vampiros pensassem que ela estava morta. Mas aquilo já estava começando a incomodá-lo.
Ele rapidamente retirou as mãos.
- Katherine! - ele exclamou seu nome, chacoalhando sutilmente seu corpo frágil. Ela não se mexeu. - Katherine!
Vlad a encarou fixamente com os olhos arregalados. Katherine não se mexia, seus olhos estavam abertos sem piscar, e ela parecia não estar respirando.
Ele sentiu seu peito subir e descer numa respiração acelerada e sufocante. Aquilo não podia estar acontecendo. Ela estava apenas desmaiada, não estava? Não estava?
Vlad varias vezes chacoalhou o corpo de Katherine, fez respiração boca a boca, e mais outros inúmeros meios desesperados de fazê-la acordar, mas ela ainda se mantinha do mesmo jeito. Cada vez mais ele se desesperava por pensar que ela estaria morta. Não, não queria sequer pensar naquilo. Não poderia se imaginar sem ela. Nunca.
Ele voltou a olhar para o filho, que ainda chorava pela mãe. Aquilo não podia estar acontecendo. Ele agarrou seus cabelos com força, suplicando para si mesmo que tudo aquilo não passava de um pesadelo.
Pela primeira vez em toda longa vida seu rosto foi molhado por lágrimas. Pela primeira vez em sua longa vida pôde sentir o que realmente era dor e tristeza.
•| ⊱✿⊰ |•
Alan levantou-se do chão, ainda reunindo forças para novamente tentar impedir seu pai e os soldados de irem atrás de Vlad e Katherine. Os três soldados estavam postos, prontos para derrubar de uma vez por todas a porta daquele quarto, porém Vlad os impediu com um gesto de mão.
- Nu! (Não!) - ele disse.
Damian agora tinha certeza. Era inconfundível o choro de criança reverberando pelo sótão. Então, o bebê não havia morrido, para seu terrível azar.
Ivan mais uma vez se interpôs entre seu pai e a porta.
- Te implor, tată! (Eu imploro, meu pai!) - ele suplicou. - Lăsați-i în pace! (Deixe-os em paz!)
Damian encarou mortalmente seu filho mais velho.
- Lăsați-i în pace? (Deixá-los em paz?) - ele rosnou. - Fratele tău e un ticălos sângeros pentru a ne jende familia. Pentru că ne-a fost jenat în fața Elitei! Chiar crezi că acești soldați nu îți vor spune ce se întâmplă? (Seu irmão é um maldito desgraçado por estar envergonhando a nossa família. Por ter nos envergonhado perante a Elite! Acha mesmo que esses soldados não relatarão sobre o que está acontecendo?!)
Ivan olhou para os soldados que estavam prestes a adentrar aquele sótão. Eles realmente relatariam aos membros da Elite o ocorrido, e sua família seria motivo de escárnio e desprezo, senão pior.
Damian continuou:
- Nu-ți voi ierta niciodată fratelui tău pentru asta! Și de astăzi el nu mai este fiul meu. (Jamais perdoarei seu maldito irmão por isso! E a partir de hoje ele não é mais o meu filho.)
Damian se virou para sair dali, e dois dos três soldados o seguiram até a superfície da casa. Ivan notou que um ainda permanecia ali, e soube que aquele continuaria ali até que pudesse realizar seu real propósito, que seria assassinar Katherine e o bebê.
Seu rosto era rijo e firme e parecia não ceder ao seu olhar, o encarando de volta. Se ele de fato fosse um assassino enviado pela Elite, teria que permanecer entre ele e aquela porta, mesmo que tivesse que morrer para proteger Katherine e os outros.
Mas o que estaria acontecendo lá dentro? A única coisa que pôde ouvir era o choro de um bebê. O que havia acontecido com Vlad e Katherine?
•| ⊱✿⊰ |•
Vlad conseguiu erguer a cabeça que antes estava pousada sobre o corpo estacado de Katherine. Nunca, em toda a sua vida, pensou que algum dia choraria. Entrou em um pranto quase sem fim sobre o corpo dela, e notou que uma parte do vestido estava molhado por causa das incessantes lágrimas que haviam caído. Mas agora seus olhos estavam cecos e sombrios. Não sentia mais tristeza, agora tudo havia se resumido a puro ódio. Ódio do monstro que algum dia já chamara de pai, ódio dos malditos capangas dele, e ódio de tudo que havia acontecido para que Katherine fosse tirada dele.
Ele levantou-se lentamente e voltou a olhar mais uma vez para seu pequeno filho que já não mais chorava. Estava calmo e sereno sob um sono tranquilo. Olhou para Katherine e notou que sua beleza permanecia a mesma, embora sem vida. Como desejara tê-la transformado em vampira quando ainda era viva! Mas agora não queria saber de mais nada, somente vingança.
•| ⊱✿⊰ |•
Damian andou para um lado e para o outro da sala de estar. Os dois soldados ainda se mantiveram postos e firmes, quando um deles deu um passo à frente, tomando a dianteira.
- Damian! Să hotărâm în curând ce vom face cu cei trei, înainte ca lucrurile să se înrăutățească pentru tine! (Damian! Decida-se logo o que faremos com aqueles três, antes que as coisas fiquem pior para você!) - disse Lucius.
Damian o encarou sem entender.
- Trei? (Três?)
- Da (Sim) - ele respondeu. - Fiul tău, femeia și copilul. (Seu filho, a humana e a criança.) - Ele apontou para o corredor que levava ao sótão. - Știi foarte bine că acel copil va deveni un monstru. Trebuie să oprim imediat acest lucru! (Você sabe muito bem que aquela criança crescerá e se tornará num monstro. Temos que impedir isso imediatamente!)
Damian de repente sentiu um frio na espinha. Eles iam mesmo matar apenas uma criança?
Alan apareceu na sala e correu em direção a seu pai, olhando assustado para as duas figuras logo à frente de Damian.
- Tati! (Papai!)
Damian o cortou.
- Indiferent ce ai cerut, fratele tău va plăti pentru ceea ce a făcut! (Não adianta o que você implore, seu irmão pagará pelo que fez!) - Damian disse severo. - Și tu, pentru că ai acoperit totul. (E vocês também, por tê-lo encoberto nisso tudo.)
Alan não desistiu.
- Am o propunere. (Tenho uma proposta.)
Os três olharam para ele especulativamente.
- Și ce ar fi această propunere? (E qual seria essa proposta?) - Damian perguntou desconfiado.
- Lăsați-i să plece (Deixe-os ir embora) - Alan disse de imediato. - Lăsați-i să meargă în altă parte, departe de aici! (Deixe-os ir para outro lugar, longe daqui!)
Alan percebeu que o que acabara de dizer era totalmente descartável quando notou a expressão de horror e descrença estampada nos rostos dos três.
- Ești nebun? (Você está louco?) - Damian se alterou. - După dezgustul pe care la trimis fratele tău, încă mai crezi că îi voi lăsa să scape? Niciodată! (Depois do desgosto que seu irmão nos fez passar, você ainda acha que eu os deixarei escapar? Jamais!)
- Dar, tata ... (Mas, papai...) - Alan insistiu.
- Destul! (Já basta!) - Lucius interviu-se, dando um passo à frente e encarando Alan. - Fratele tău va plăti pentru ceea ce a făcut. Și dacă tot încerci să te amesteci, te vom ucide și pe tine. (Seu irmão irá pagar pelo que fez. E se continuar tentando interferir, o mataremos também.) - Ele olhou para o outro soldado. - Petro! Tu și Falco, bateți ușa și bateți-i acolo! (Petro! Você e Falco, derrubem aquela porta e os elimine lá mesmo!)
Petro assentiu e passou rapidamente por Alan em direção ao corredor.
- Tată ... (Papai...) - Alan olhou suplicante para seu pai. Damian ignorou o filho e encarou o fogo crepitante da fogueira.
- Vlad, nu! (Vlad, não!) - Ouviu-se uma voz que parecia ser de Ivan.
Antes que Petro virasse na direção do sótão, um corpo foi lançado na direção dele, fazendo os dois caírem ensanguentados atrás de um dos sofás. Vlad apareceu na entrada da sala e os encarou com olhos sombrios e mortais. Eles não já não estavam como antes; as escleróticas de brancas ficaram negras, e os azuis-safira de seus olhos ficaram vermelhos como o sangue. Damian engoliu em seco ao ver seu filho naquele estado. Vlad estava em seu limite de fúria.
Ele encarou seu pai por um breve momento e foi até os dois soldados que ainda estavam caídos no chão. Seus corpos começaram a se mexer, mas sem pensar duas vezes, Vlad estacou com fúria um pedaço de madeiro no meio dos dois corpos, adorando ouvir seus gritos de dor.
- Vlad! - Ivan correu novamente em sua direção para pará-lo, mas Vlad foi mais rápido, jogando Ivan com fúria na parede, fazendo-o desmaiar.
Enquanto permanecia no canto sem saber exatamente o que poderia fazer, Alan observou seu irmão quebrar todos os ossos do soldado Lúcius, que fora tentar impedí-lo miseravelmente.
Os três soldados estavam mortos, Shartene e Miranda estavam chorando assustadas num canto, Ivan estava desacordado, e seu pai estava tão alarmado quanto ele, presenciando tudo aquilo com os olhos estacados e num profundo silêncio. Alan escorregou o corpo até o chão, desejando que aquele ser vingativo e sanguinário não fosse seu irmão. Não o Vlad bem humorado e de bem com tudo ao seu redor, que sempre alegrara a família - sua maior inspiração. Aquele, definitivamente, não era ele.
Depois de finalizar o maldito soldado que ousara lhe enfrentar, Vlad encarou mortalmente o maior motivo de sua desgraça: Damian.
Ele não era mais Damian, seu querido pai. Era Damian, seu pior inimigo e causador da morte de sua noiva, da mulher que ele mais amou no mundo. Como inimigo, ele pagaria como os outros. E assim, esmagado por suas mãos, sentiria toda a dor que lhe causara.

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