Ivan franze a testa, olhando para o alto da escada. Pôde sentir que havia algo, ou alguém, lá.
- Estranho - ele diz consigo mesmo.
- O que? - Luana pergunta, e olha para a mesma direção.
Ivan olha rapidamente para ela e sorri. Talvez, estivesse enganado.
- Que horas você tem que estar no trabalho, Luana? - Ivan pergunta gentilmente.
Ela fica surpresa com a pergunta e tira o celular de dentro da bolsa, consultando-o.
- Daqui a uma hora - ela responde.
- Acho melhor você ir - ele diz. - Não quero que se atrase por minha causa.
Luana nega com a cabeça.
- Não, não será por causa. Será por minha - ela insiste. - Me desculpe, Ivan. Mas não vou sair daqui até ouvir tudo.
Ivan encara Luana por um certo tempo, notando uma forte determinação em seu olhar.
- Tem certeza disso?
- Sim, claro - ela responde firme. - Qualquer coisa que acontecer, eu vou saber me virar. Mas, por favor. Não deixe chegar à noite para me contar.
Sua posição era firme, mas, ainda assim, seu olhar parecia suplicante. Desde o início, havia notado que Luana tinha se mostrado bastante interessada naquela história, e sabia que ela estava fazendo aquilo por David. Talvez, Alan estivesse com razão.
* * *
Não tínhamos outra escolha.
Logo após Gaspian ter ido embora, fizemos nossas malas, e ordenei às que as criadas preparassem David para partirmos de lá. Não foi algo muito empolgante termos que abandonar a casa em que moramos desde o início de nossa existência. Vivíamos viajando, indo de um lugar para outro, mas sempre tínhamos em mente de que lá era nosso lar.
Ainda me lembro quando minha mãe era viva e enchia aquela casa de alegria, e de um sentimento mais profundo - o amor. E por mais que tivesse ocorrido algo terrível naquelas últimas horas, ainda assim, era doloroso abandonar nosso lar. Mas, por outro lado, faríamos uma nova vida na capital, junto do mais novo membro de nossa família.
* * *
Shartene e Miranda já estavam arrumadas e postas em pé na sala de estar, esperando a ordem para sair.
Ivan arrumou seu sobretudo preto e olhou em volta da sala. Sentiria falta daquele lugar, embora estivesse aliviado por poder sair de lá. Só faltava Alan aparecer.
Como se escutasse seu pensamento, Alan apareceu na sala, usando um sobretudo quase igual ao dele, e com um cachecol por cima.
- Mi-a luat? (Demorei?) - Alan perguntou.
Ivan sorriu levemente para o irmão.
- Nu prea (Não muito) - respondeu. - Apropo, eu sunt într-o astfel de grabă să iasă de aici. (Aliás, não estou com tanta pressa de sair daqui.)
Alan o estudou atentamente.
- înţeleg (Entendo) - ele disse e olhou para a criança que Miranda segurava nos braços em volta do manto. - Miranda, ai grijă de David. Acolo, în capitală le va da bani pentru a cumpăra haine pentru el. (Miranda, cuide bem de David. Lá na capital lhes darei dinheiro para que comprem roupas para ele.)
Ivan o olhou surpreso.
- David?
Alan assentiu.
- Da (Sim) - respondeu. - Pe scurt întâlnit un om cu același nume, într-una din călătoriile noastre în Anglia. Din păcate, prietenia mea cu el a fost foarte repede, pentru că, în plus, nu putem sta acolo mult timp, tatăl nostru mă ferește să păstreze un astfel de contact. (Conheci brevemente um homem, com esse mesmo nome, em uma de nossas viagens para Inglaterra. Infelizmente, minha amizade para com ele tinha sido muito rápida, pois, além de não podermos ficar lá por muito tempo, nosso pai me proibiria de manter tal contato.)
Ivan sorriu.
- De ce razi? (Do que está rindo?)
- Tu. Întotdeauna am încercat să imite Vlad. (Você. Sempre tentava imitar Vlad.)
A expressão de Alan ficou dura.
- Nu mă compara cu el (Não me compare com ele) - disse com rigidez, logo depois tomando uma expressão mais branda. - Dar, oricum, eu nu regret au avut acea prietenie. (Mas, de qualquer forma, não me arrependo de ter tido aquela amizade.)
Ivan assentiu.
Realmente, as coisas haviam mudado. Vlad, o irmão adorado, tinha se tornado a desonra da família, e o maior motivo de ódio pelo ser que mais o admirava.
Ivan olhou para a criança adormecida.
- Da. (Sim.) David…
* * *
Saímos de lá direto para a capital. De início, foi um pouco difícil para nós nos adaptarmos naquele lugar, inclusive estarmos sendo vigiados por alguns membros da Elite. Porém, as coisas começaram a mudar quando Gaspian nos convidou a frequentar os mesmos ambientes que muitos outros membros ilustres da Elite. Não estávamos sendo desonrados, como nós achávamos, pelo contrário; estava tudo caminhando muito bem para nós. Contudo, infelizmente, nossa contestação não se aplicava à David.
Conforme o tempo passava, mais rejeitado ele era pelos membros da Elite. Eles não nos desonraram pelo que nosso irmão tinha feito, mas sempre faziam questão de mostrar para o menino de que ele não passava de um mestiço imundo.
* * *
Numa certa noite, Ivan e Alan tinham sido convidados para um baile especial da Elite. David, já com cinco anos de idade, notou seus tios se arrumarem com elegância, cada um suspirando com satisfação.
- Deci, Alan (Então, Alan) - Ivan disse, ajeitando a gravata borboleta no pescoço. - Credeți că acest timp va fi decorat? (Acha que, dessa vez, seremos condecorados?)
Alan sorriu.
- Sper ca da (Tomara que sim) - respondeu. - Suntem rasfatati de ei, atunci cred că ne va face această bunătate. (Estamos sendo muito bem tratados por eles, então, creio que nos farão essa gentileza.)
Alan olhou rapidamente para o batente da porta, depois voltou o olhar para Ivan.
- Cred că suntem urmăriți. (Acho que estamos sendo observados.)
Ivan sorriu.
- David. Apar. (David. Apareça.)
A pequena criança colocou a cabecinha para fora com cautela, deixando refletir seus lindos olhos azuis-safira. David era uma criança muito bela, uma verdadeira mistura dos pais.
- Hai, David (Venha, David) - Alan o chamou, e o menino entrou na sala com certa timidez.
Alan pôs as mãos nos bolsos, olhando para o menino com certa curiosidade, e Ivan se agachou para ficar do tamanho dele, embora ainda continuasse bem maior.
- Contact. Ce vrei? (Fale. O que você quer?)
- Sunt doar cu ochii pe tine (Só estou vendo vocês) - o menino respondeu.
Ivan assentiu.
- Suntem frumoase? (Estamos bonitos?) - Alan perguntou com um leve sorriso no rosto.
O menino assentiu.
- Da. (Sim.)
- Shartene și Miranda a făcut o gustare pentru tine? (Shartene e Miranda fizeram lanche para você?) - Iavn perguntou.
- Da. (Sim) - respondeu a voz infantil. - Pot să merg cu tine? (Eu posso ir com vocês?)
Ivan e Alan se entreolharam.
- David, trebuie să mergi la culcare (David, você tem que ir dormir) - Ivan respondeu pacientemente.
- Dar vreau, Ivan. Nu m-am dus la o petrecere. (Mas eu quero, Ivan. Eu nunca fui à uma festa.)
Ivan achou graça ao ouvi-lo falar.
Desde que conhecera Katherine, jamais tinha visto tanta inocência no olhar de alguém. Aquele menino era encantador.
- Dar vei primi somnoros (Mas você vai ficar com sono) - Ivan insistiu ao menino.
- Eu nu. Promit să rămână treaz. (Não vou. Prometo ficar acordado.)
Ivan sabia que aquilo era mentira. Por ser um mestiço, David ainda não havia adquirido poderes de um vampiro. Não tinha super força ou aversão ao sol, ou até mesmo conseguir ficar acordado à noite. Tivera que alugar amas de leite para amamentá-lo quando ele ainda era pequeno e, desde então, comprar suprimentos humanos para alimentá-lo, pois ele não bebia sangue. Muitas vezes, Ivan, Alan e as criadas tinham que se esconder para se alimentarem apropriadamente, para que David não as visse.
David era um menino bem cuidado, embora Ivan sentisse que ele tinha uma certa tristeza e carência em seu olhar. Era desconfortável vê-lo tão solitário para uma criança, mas não podia misturá-lo com as outras. O pequeno David apresentava um perigo, principalmente para os humanos. Não podia arriscar.
Alan balançou a cabeça em negação para o menino.
- David, nu (David, não) - ele disse. - Aceasta este iese din discuție. (Isso está fora de questão.)
- Să-l du-te (Deixe ele ir) - Ivan disse.
Alan o encarou.
- Ce? (O quê?)
Ivan se ergueu e olhou para o menino, que tinha os olhos suplicantes.
- Dar Ivan. Nu se poate! (Mas, Ivan. Ele não pode!)
Ivan ignorou o irmão.
- David, cere Shartene și Miranda Pack. Să-l prindem, dar doar de data asta. (David, peça para que Shartene e Miranda o arrumem. Vamos levá-lo, mas só dessa vez.)
Os olhos do menino brilharam e ele sorriu, contente.
- Bine! (Está bem!) - ele assentiu alegremente e saiu correndo da sala.
Alan voltou a encarar Ivan com irritação.
- Ești nebun, Ivan? Nu putem lua! (Você está louco, Ivan? Nós não podemos levá-lo!)
Ivan levantou uma mão.
- Ia-o ușor, Alan. Tocmai am spus că ar fi doar de data asta. (Acalme-se, Alan. Acabei de dizer que seria apenas dessa vez.)
Alan olhou para a o arco que separava a sala de outro ambiente, e voltou a olhar para Ivan, abaixando o tom da voz.
- Știi că este o jumătate de rasa. Acest lucru nu se întâmplă extrema dreaptă. (Você sabe que ele é um mestiço. Isso não vai far certo.)
- Du-te, da (Vai, sim) - Ivan insistiu. - Eu îl voi lua. (Tomarei conta dele.)
Alan o encarou incrédulo, logo depois bufando de irritação.
- Bine. Dar face tot posibilul să nu-l face în jenă. Tudo bem. (Mas faça o possível para que ele não nos faça passar vergonha.)
- Bine, Alan. (Tudo bem, Alan.)

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