quarta-feira, 12 de junho de 2019

A NOIVA DO DRÁCULA - CAPÍTULO 53


Amanhece.
Luana acorda mais disposta, pois naquele dia teria um dia tranqüilo e calmo com sua madrinha e seus amigos.
Ela já tinha despertado sua madrinha e ligado para seus amigos, marcando o encontro. Não estava tão agitada, como das outras vezes em que saíra com eles, mas tentando manter-se bem mentalmente.
Ela vestiu uma simples camiseta rosa claro, short jeans, e calçou um tênis, finalizando com um rabo de cavalo. Preferiu pôr uma maquiagem simples por conta da ocasião, e da temperatura do sol.
Luana se olha em frente ao espelho e nota o curativo no pescoço escondendo as mordidas de David.
Ainda não entendia como elas haviam desaparecido e aparecido novamente, mas aquilo ainda doía. Dolores ainda não tinha visto sua ferida, mas com certeza ficaria surpresa, pois, depois do que parecera um “sonho”, sua madrinha viu que não havia nenhuma marca no local onde Luana dissera. Com certeza, ela ficaria confusa.
Luana passa a mão por cima do curativo.
Sua memória ainda estava fresca da noite anterior, quando passara vergonha na farmácia por dizer vagamente a frase “eu te amo” e o atendente achar que tinha sido para ele. Naquele momento, ela queria enfiar a cabeça num buraco.
Luana engole em seco.
Estava começando a cometer loucuras de tanto pensar em qualquer coisa relacionada a David. Seria melhor parar de pensar em tudo que se referia à família vampiro, e procurar ter um pouco de paz naquele dia.
Luana balança a cabeça para tentar afastar os pensamentos, e arruma suas roupas que estão bagunçadas.
Após arrumar o que devia, Luana a sala e vê sua madrinha tomando um de seus remédios receitados, e a cesta de piquenique pronta em cima do balcão da cozinha americana.

– Está tudo pronto, madrinha?

Dolores lava o copo na torneira e o coloca emborcado na pia.

– Aprontei toda a cesta, e sua amiga, Jessica, disse que não daria para ir.

Luana se indigna.

– Como assim, não vai dar para ela ir? Ela disse que iria.

– Não se preocupe – Dolores diz calmamente. – No mesmo instante que ela disse isso, Fred confirmou a presença dos dois no encontro. – Ela sorri. – Parece que aqueles dois estão mesmo apaixonados.

Luana também sorri.

– Verdade, estão – Luana concorda. – Mas só não entendi por que ela não quis ir.

Dolores dá de ombros.

– Talvez, ela esteja um pouco indisposta hoje.

– Como a senhora, não é? – Luana diz a madrinha. Sabia que a madrinha era muito caseira.

Dolores a ignora.

– Você sabe que eu tenho osteoporose e diabete – Dolores replica. – Não posso ficar saindo por aí. Pode me fazer mal.

– Errado. O que pode lhe fazer mal é ficar aqui trancada e isolada, madrinha. A senhora precisa de um pouco mais de ar livre.

– Ar livre não vai me mostrar como a Maria é salva pelo capitão – Dolores resmunga em teimosia.

Dolores continua carregando a cesta e pega a mão de sua madrinha, andando com ela até a porta.

– Nada de Maria, nada de capitão, nada de novelas – Luana diz em ultimato, contudo, de forma respeitosa. – Hoje, não.

* * *

Alan e Ivan tinham ido dormir com o iniciar do amanhecer, mas logo depois acordaram para se alimentar. Shartene e Miranda os serviram, e foram para seus aposentos. Sentados na sala de estar, Ivan toma um gole de café na xícara de porcelana e olha para o irmão.

– Gostei de sua atitude ontem, Alan. Demonstrou ser um cavalheiro de honra.

Alan fica a girar a xícara quase vazia, encostada em sua perna cruzada.

– Apenas fiz o que é correto, e o que nós já devíamos ter feito há muito tempo.

Ivan continua a sorrir e assente.

– David reconheceu seus erros e está querendo mudar, e nós também.

– Verdade – Alan concorda. – Quem sabe, Vlad aprenda um pouco com ele.

Ivan pensa um pouco antes de responder.

– Sim... Mas, ainda não acho que Vlad tenha errado tanto – Ivan diz e nota o olhar de descrença de Alan sobre ele. – Quer dizer, o único pecado que ele cometeu foi ter se apaixonado. E eu o entendo – Ivan falou a última frase mais para si mesmo do que para o irmão.

Alan leva a xícara perto da boca, pensativo.

– Se você diz – ele toma o último gole de café.

Ivan nota a mudança repentina de humor do irmão. Conseguia perceber pelo balançar repetitivo da perna de Alan.

– Alan – Ivan fala com cautela. – Você ainda odeia nosso irmão?

Alan pousa a xícara no pires respira profundamente sem encarar o irmão.

– Não – responde rispidamente. – Por fim, Alan olha para o irmão, que o encara em silêncio. – Bem, posso dizer que sinto pena dele.

– Pena?

– Sim – responde. – Ele perdeu a mulher que amava, está longe do filho, e ainda tem uma vida como foragido e delinqüente. – Alan dá de ombros e põe a xícara em cima da mesa de centro. – Enfim, uma vida triste e condenada.

– Não creio que essa vida triste e condenada que meu pai leva possa ser apagada, mas tentarei amenizá-la quando me encontrar com ele.

A voz de David surpreende os dois e ambos olham para o sobrinho descer a escada, vestindo jeans e um casaco preto com capuz.

– David. Aonde você vai? – Ivan pergunta.

David desce os últimos degraus e olha para seus tios.

– Vocês... – ele sorri. – estão tão humanos.

Alan e Ivan também sorriem.

– Então, podemos dizer que todos os humanos que viram a noite também são vampiros? – Alan pergunta de bom humor.

– Pode-se dizer que sim – David responde ainda sorridente.

Ivan olha atentamente para os dois.
Jamais pensara que veria algum tipo de empatia de um pelo outro, principalmente por causa de Luana.
As coisas estavam melhorando, finalmente.

– E, respondendo à sua pergunta, Ivan, vou sair – David responde.

Ivan olha para uma pequena fresta, onde a cortina não escondia, e vê o dia bem ensolarado. Ele volta a olhar para David.

– Tem certeza que vai sair?

David assente.

– Tomarei os devidos cuidados. Não se preocupem. – David levanta o capuz e coloca sobre a cabeça. – Até mais.

– Até mais – os tios se despedem ao ver o jovem rapaz saindo porta afora.

– É muito bom saber que a Elite estava enganada – Alan disse após um tempo.

– Sobre o que?

– Sobre o futuro descontrolado e sem volta que eles previram para David.

Ivan sorri e toma seu último gole de café antes de olhar para o balançar das árvores lá fora.

– Sim. Tem razão.

* * *

Luana se sentiu muito alegre em ter se reencontrado com seus amigos para um dia como aquele. Estava indo tudo muito bem, e Dolores pareceu se adaptar ao clima e ambiente daquele lindo lugar. As árvores não paravam de balançar com o vento gostoso que fazia o sol estar mais ameno. A grama era quase tão bem cortada quanto a grama de um campo de golfe, e vários grupos de pessoas faziam piquenique, outras brincavam por entre a grama, ou nas pequenas ruas que passavam pessoas com triciclos, bicicletas e outros meios de diversão.
Embora Luana estivesse se divertindo e aproveitando o dia com seus amigos, ainda sentia uma dor no coração em olhar para eles e não ver David ali. Tanta coisa havia se passado, e era quase inconformável que o garoto doce e gentil que ela conhecera fora transformado num ser frio e perigoso.
Luana desvia o olhar para as crianças que brincavam de pega-pega, pois lágrimas vieram aos seus olhos. Não importava o que tentasse; não conseguia tirá-lo da cabeça.

– Nossa, Jessica. Calma.

Luana volta a olhar para eles e Nina está espantada ao ver Jessica quase devorando toda a comida.

– Nossa – diz Luana surpresa pela repentina fome da amiga. – Que apetite, hein.

Jessica e Fred ficam um pouco sem graça pelo comentário.

– Ah... Desculpa – Jessica diz sem jeito enquanto Fred coça a cabeça, desviando o olhar.

Luana sorri gentilmente.

– Não precisa se desculpar.

Dolores encara os dois.

– O que vocês estão escondendo?

Fred e Jessica ficam sem saber o que responder. Nina também olha para eles.

– O que vocês dois estão escondendo? – Dolores volta a perguntar. – Vamos, digam logo.

– N-Não estamos escondendo nada – Jessica gagueja corada.

Nina sorri.

– Jessica, você é tão ruim em mentir.

Luana olha de um para outro. Do que eles estavam falando?
Fred não agüenta mais ser encarado pelas três mulheres e acaba rindo.

– Bem, como ainda não foi confirmado, achamos melhor contar depois, não é, amor?

Jessica encara alarmada o namorado e lhe dá um tapa no braço.

– Fred, agora, não!

Dolores sorri e pega um pedaço de bolo para si.

– Como pensei.

Ainda sem entender o que se passava, Luana os encara.

– “Agora não” o que, Jessica?

– Você ainda não percebeu, Luana? – Nina diz alegre. – Jessica está grávida.

– Ah, meu Deus! – Luana diz não acreditando.

No minuto seguinte, Jessica está praticamente amassada de tantos abraços e beijos. Fred também é bem tratado com a satisfação e alegria das mesmas.

– Parabéns, amiga! – Luana diz alegremente a Jessica. – Parabéns aos dois.

Fred sorri em resposta, agradecido.

– De uma certa forma, eu até desconfiava – diz Nina abraçando seus joelhos e olhando encantada para o casal.

– Eu percebi no mesmo instante – Dolores responde.

Jessica levanta a mão.

– Calma, pessoal. A gravidez ainda nem foi confirmada.

– Eu tenho certeza de que você está – Dolores diz convicta. – Dá para perceber, principalmente por causa de sua fome descontrolada de há pouco.

– Dizendo assim, parece até que a senhora já foi mãe, madrinha – Luana diz admirada.

– Você sabe que nunca pude ter filhos, Luana. Mas acompanhei a gravidez de sua mãe, e os sintomas eram os mesmos. – Dolores olha para Jessica. – Mesmo que você não faça nenhum exame, menina, é certeza de que você está grávida.

Jessica cora levemente e sorri, pousando a mão sobre a barriga ainda lisa.

– Gente, que felicidade! – Nina transpira de alegria. – Não tem como melhorar.

Luana pensa um pouco e pergunta a si mesma se tinha. Também se pergunta se Katherine acariciava o ventre grávido e tinha o mesmo olhar de amor de Jessica. Com certeza, se ela estivesse viva, seria uma excelente mãe para David, e poderia evitar toda essa tristeza e ódio que ele sentia.

* * *

O lugar era muito bonito. Um perfeito lugar para se estar com a família e passar um dia alegre.
David tinha pegado seu carro para ir a qualquer lugar que lhe desse um pouco de paz e achara aquele parque que lhe dava exatamente o que queria, mas, ao mesmo tempo, lhe entristecia por ver o que nunca teve em toda sua vida. Nem mesmo brincadeiras entre crianças era algo que ele conhecesse. Mas, a partir daquele dia, tentaria deixar o passado para trás. Seu foco seria dali para frente, mesmo que isso fosse envolver o adeus à maior razão de sua vida.
Ele permaneceu com as mãos nos bolsos do casaco e com o capuz preto cobrindo parcialmente seu rosto. Seu ponto de salvação fora uma sombra perto do parquinho das crianças e um banco sem encosto. Até que estava gostando dos gritinhos ensurdecedores e risadas alegres delas. Não o incomodava nem um pouco. Seu intuito era ter um momento de paz, e era aquilo o que estava sentindo.
Uma bola cai perto de seu pé e uma menina, em torno de seus sete anos de idade e cabelos loiro-escuros presos numa maria-chiquinha, olha para ele com um sorriso infantil e inocente.
David entende a mensagem e pega a bola, passando para a menina. Ela pega a bola, mas continua a encará-lo.

– Você tem filhos?

David acha graça.

– Não, não tenho.

– Então por que está na área das crianças?

David olha em volta.

– Desculpe. Não sabia que apenas crianças e pais podiam ficar aqui. É que aqui tinha a única sombra disponível, sabe. – Ele dá de ombros.

A menina inclina a cabeça com um ar inocente.

– Ah, sim – ela diz. – Você não gosta de sol?

David nega.

– Não – ele responde a criança. – O sol me faz mal.

A menina abraça a bola, o olhar menos alegre.

– Meu pai também não gostava de sol.

David assente.

– Bem, digamos que nosso caso seja diferente – David diz e olha em volta. – Cadê seu pai?

A menina aponta para uma jovem senhora, que conversa com a mãe de outra criança.

– Aquela lá é minha babá – a menina responde. – Eu não conheci minha mãe, e meu pai morreu.

David se sente triste pela menina e tenta consolá-la.

– Meus pêsames.

Ela sorri agradecida.

– Eu gostava muito dele. Mas nem pude ver seu corpo no enterro.

David franze a testa.

– Por que?

– Meu pai foi assassinado, e acho que foi por um monstro – ela diz perturbada com a lembrança. – A polícia disse para a minha babá que o monstro devorou quase o corpo inteiro do meu pai.

David desvia o olhar da menina. Aquela história...

– Aconteceu quando o papai estava voltando para casa – ela continua. – Ele tinha comprado uma boneca muito bonita para mim, a minha favorita. Mas, no meio da estrada, o monstro foi para cima do carro do papai e devorou ele.

David respira profundamente, tentando encontrar ar. Não podia ser...
Apesar de suas lembranças estarem um pouco turvas, por causa de seus descontroles, sabia muito bem que havia parado um homem no meio de uma estrada deserta e lhe atacado com o intuito de saciar sua sede incontrolável de sangue. Mas não esperava que fosse o pai daquela menina. Não podia ser...

– Eu sempre guardo a foto dele junto comigo – a menina diz, tirando David de seu transe.

E, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a menina tira uma pequena foto do bolso e lhe mostra. Maldita coincidência.
Na foto, a pequena menina abraçava feliz seu pai, que também correspondia o abraço da filha, mas olhando para a câmera. E, para mais uma de suas desgraças, era o mesmo homem que havia matado sem piedade na estrada.
David sente seu coração para por algum minuto, mas a menina continua:

– Eu sempre vou guardar essa foto comigo – ela diz, mas em vez de chorar, sorri. – Sei que papai está descansando agora.

– Lisa, venha!

David olha mais adiante e vê a babá da menina chamá-la.

– Eu já vou. Foi bom conhecê-lo.

David não fala nada em resposta, pois sabe que não conseguiria, mas vê a menina correr com a bola em direção à babá, que tem um sorriso maternal no rosto.
Ele fora para aquele lugar para tentar acalmar seu coração, mas agora sentia que lhe faltava um.
Uma menina doce e inocente abrira seu pequeno coraçãozinho quando mal o conhecia, sem ter idéia de que falava com um assassino. Acabara com uma vida e destruíra um sonho infantil. Não podia sentir-se um bom homem agora.
David olha para a menina que brincava alegremente com sua babá e mentora, que parecia gostar muito dela.
Um sonho infantil...
Teria que ir embora logo para a Romênia, pois seu lugar não era com aquelas pessoas.
Um ponto à frente lhe chama a atenção: em volta de uma toalha forrada de comida para piquenique, estava Dolores, Nina, Fred, Jessica e Luana. Luana estava jovial e linda, como sempre. Todos pareciam bem felizes, e era até uma surpresa ver Dolores ali.
Definitivamente, iria para Romênia. Hoje mesmo!

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