Luana suspira satisfeita.
Seu dia estava sendo bastante agradável graças à idéia que Dolores tivera. Se continuasse como estava antes, só continuaria se lamentando, e não era isso o que ela queria.
O dia estava terminando e já se sentia melhor ao lado de pessoas queridas. Seu coração e sua razão ainda não haviam entrado num consenso, mas agora ela já sabia o que deveria fazer.
* * *
David chega em casa.
Ele estava apressado para sair daquela casa de vez, mas ainda sentia-se incapaz de ir embora. Mesmo que soubesse que não podia ter Luana para si, apenas a idéia de nunca mais vê-la era triste e assustadora.
Ivan percebe sua presença.
– David. Está bem?
David fecha a porta dupla.
– Sim – ele responde vagamente. – Sim, estou.
Ivan percebe uma estranheza em David ao notar que ele olha para o andar de cima a todo momento.
– David. – Ivan o encara interrogativamente. – Quer me dizer algo?
David olha para Ivan e respira profundamente, dando passos até a sala de estar.
– Sim, quero – David diz. – Hoje mesmo irei embora.
Ivan o encara em descrença.
– O que? Por que hoje?
David tira o casaco, o pendurando em um de seus braços.
– Eu disse a vocês que partiria para Romênia, só não disse quando. – David desvia o olhar por um momento. – Saí daqui no intuito de procurar algo que me desse uma demonstração de paz, e foi isso que consegui. Mas, ao mesmo tempo, algumas coisas só reforçaram o que eu realmente devo fazer. Vou embora hoje, Ivan – David diz firmemente ao encarar o tio.
Ivan assente tentando refletir nas palavras do sobrinho.
David já era um adulto e agora estava arrependido de seus pecados. Sua maturidade era bem clara em sua expressão e posição.
– Entendo.
– Vou subir para o meu quarto e me arrumar – David diz. – Não se preocupe com dinheiro. Inda tenho minhas economias, então não levarei mala com roupas. Lá mesmo posso me virar.
Ivan assente.
– Tudo bem. Mas, ainda assim, peço para que você tente entrar em contato conosco se precisar de algo.
David assente.
– Sim. Pode deixar.
Com um gesto de cabeça, David pede licença a Ivan e corre pela escada em direção a seu quarto. Aquilo não seria fácil, sabia disso. Mas não tinha outra escolha.
Ivan continua a olhar para cima, mesmo depois de David ter ido. Ele podia estar bastante agitado e ansioso para partir, mas conseguia perceber em seus olhos que não era aquilo que ele queria – pelo menos, não plenamente.
David nunca conhecera o pai e parecia desesperado para vê-lo, mas por outro lado, ele estava morrendo aos poucos por nunca mais poder ver Luana. Obviamente, sua dor nunca fora como a dele, mas podia sentir como era seu sofrimento. Sim... Às vezes o destino podia ser muito cruel.
* * *
– O que é isso em seu pescoço, Luana? – Dolores pergunta após as duas chegarem em casa. – Reparei quase agora.
Luana e sua madrinha tinham acabado de chegar após uma longa e divertida tarde no parque florestal. Certamente, aquele fora um dos dias mais felizes que já tivera, principalmente por conta da gravidez de Jessica. Apesar de não ter David ao lado deles, podia se sentir contente, pois o dia tinha sido maravilhoso.
Luana põe as bolsas e a cesta em cima do balcão da cozinha e se volta em direção a madrinha, pousando a mão no curativo em seu pescoço.
– Ah, isso aqui? Acabei me machucando no quarto. Estava dormindo e não me lembro – ela dá de ombros.
– Ah, sim – Dolores continua a encarando. – A gola de sua blusa é um pouco alta e não deu para ver.
– Sim – Luana sorri sem jeito e se adianta para guardar as sobras na geladeira.
– Mas, e então? Você decidiu?
– Decidi? – Luana pergunta ainda guardando os alimentos. – Decidi o que?
– Ora, Luana. Não se finja de desentendida. Me refiro à sua dúvida em relação ao David e a seu noivo – Dolores a reprime. – Conseguiu se decidir?
Luana coloca a última lata de ervilha dentro da geladeira e respira fundo antes de fechar a porta.
– Eu...
Antes que ela possa responder, seu telefone celular toca, mostrando um número que ela reconhecia. Luana atende.
– Alô?
– Olá, Bela Lua.
Era Alan. Luana sorri um pouco ao ouvir a voz dele.
– Olá, Alan.
– Alan? – Dolores franze o cenho, confusa.
Luana tapa o telefone.
– É o verdadeiro nome dele – ela explica.
– Verdadeiro? – Dolores pergunta intrigada. – Luana, o que você está me escondendo?
Luana a ignora e tira a mão do som do celular.
– Você está aí? – Alan pergunta.
– Sim, estou. Me desculpe. É que eu estava falando com minha madrinha.
– Sei. E como ela está?
– Bem, obrigada.
Luana permanece em silêncio, ouvindo apenas a respiração de Alan e um som de fundo que mais parecia o bater de uma caneta.
– Alan?
Dolores prefere ignorar a cena e se senta no sofá, ligando a televisão para assistir uma de suas novelas favoritas.
– Bela Lua, você me ama?
Luana se surpreende com a súbita pergunta que seu noivo faz. Por que ele tinha perguntado aquilo?
– Sim, claro – ela responde, ainda confusa. – Por que?
Ela podia escutar o sorriso dele.
– Preciso lhe dizer algo. Na verdade, preciso que você me diga. E quero que diga olhando em meus olhos.
Luana olha em volta. Mas o que Alan queria dizer com aquilo? Ele parecia estar agindo estranho.
– Alan? Do que você está falando?
Luana ouve a respiração dele.
– Não pelo telefone, Bela Lua. Te esperarei aqui.
Alan desliga a ligação, deixando Luana atônita e pensativa. Ela põe o celular em cima do balcão, encarando-o confusa.
Havia um tom misterioso na voz dele, e o que Alan dissera ainda não fazia sentido. Na verdade, nada mais fazia sentido. A confusão permanecia em sua mente, mas agora sabia qual era o lado certo a percorrer.
– Seu noivo... O que ele queria? – Dolores pergunta.
Luana sai de seu transe rapidamente e pega o celular.
– Madrinha, vou ter que sair.
– Entendo – Dolores diz. – Ele a chamou, não foi?
– Sim – Luana diz. – Ele quer falar comigo. E eu também quero falar com ele.
Dolores a olha e sorri.
– É ele, não é? Quem você escolheu.
Luana para por um momento, digerindo aquilo tudo: toda a tristeza, toda a confusão e um amor que nunca seria possível. Ela assente rapidamente, tentando pôr os pensamentos em ordem.
– Sim. É.
Dolores mexe a cabeça pensativa e volta a ver sua novela.
– Ainda bem que você se decidiu. Essa não seria minha escolha correta, mas os sentimentos em questão aqui são os seus, não os meus. Apenas siga o caminho que você escolheu e seja feliz.
Luana sorri com a doce fala de Dolores.
Mesmo que sua madrinha não fosse do tipo de demonstrar seus sentimentos, ela realmente se importava.
– Obrigada, madrinha.
Luana entra no quarto e fecha a porta atrás de si, olhando vagamente para o nada.
Teria que seguir o certo, e trataria de ser muito feliz.
* * *
David olha para a área vazia onde costumava ficar o espelho. Essa fora uma das drásticas mudanças que ocorreram a ele, e ainda não sabia lidar muito bem, embora tentasse.
Ele havia feito sua barba por fazer e deixado o cabelo molhado jogado para trás, com alguns fios caindo sobre a testa. Vestia uma calça jeans, uma blusa branca e uma jaqueta de couro preta. O tênis surrado combinava com as cores das roupas. Ele podia não ter um espelho, mas sabia que já estava pronto. Com exceção de uma coisa.
David abre a primeira gaveta do criado-mudo e pega o visto e o passaporte para a Romênia. Ele encara aqueles documentos por um breve momento. Ainda não conseguia acreditar que veria seu pai pela primeira vez.
Quando era criança, soubera pela primeira vez que Vlad era um vampiro perigoso e assassino, mas não se importara muito. A segunda vez foi por parte de Irwin, um vampiro-criado de alguns membros da Elite, no mesmo dia em que sofrera uma das piores humilhações de sua vida.
Irwin dissera que Vlad assassinara sua irmã e seu pai, e demonstrado por meio de palavras todo seu ódio por ele. Mais para frente, aos oito anos de idade, soubera parcialmente da história de seus pais. Mas hoje já sabia de toda a história, e ainda sabia os nomes deles.
David olha para o grande quadro de Luana, que agora também tinham coladas as fotos de Vlad e Katherine. Aquilo seria o início de um ‘adeus’ e um ‘olá’.
Pelo que já ouvira falar de seu pai, teria que ser cuidadoso ao tentar se aproximar dele. Mas não se importava como quão perigoso ele poderia ser, se juntaria a Vlad para o início de uma nova vida.
* * *
Alan guarda seu telefone celular no bolso traseiro da calça. Logo mais Luana estaria lá para ele.
– E então? – Ivan pergunta logo atrás do irmão.
Alan se volta para ele.
– Ela virá.
Ivan põe as mãos nos bolsos da calça e olha para Alan.
– Fico feliz por vocês.
Alan sorri.
– Tenho um plano em mente.
Ivan ergue as sobrancelhas.
– E qual plano seria esse?
Alan pega a taça de cima da mesa e bebe o líquido viscoso de dentro.
– Pensei nisso durante um tempo, e agora tenho certeza do que fazer. – Alan olha para seu irmão mais velho. – A única coisa que posso lhe dizer agora é que Luana gostará. E muito.
Ivan sorri.
– Você me deixou curioso.
Alan também sorri e desvia o olhar.
– É o melhor que eu poderia fazer.
Ivan franze o cenho tentando entender a que seu irmão se referia.
Shartene entra em prantos na sala de jantar, surpreendendo aos dois. Miranda vem logo atrás, com lágrimas escorrendo sobre sua face.
Ivan as encara sem entender.
– Mas, o que houve?
– Vim me despedir.
David aparece logo atrás delas, com as mãos dentro dos bolsos da jaqueta. Ele sorri tristemente. Ivan e Alan se entreolham. Havia chegado a hora.
– David – Ivan dá um passo em direção ao sobrinho. – quero que fique bem.
David assente para o tio.
– Ficarei. E vocês duas, parem de chorar – ele adverte gentilmente as duas criadas, porém, sem sucesso.
Alan anda em direção a David e para à sua frente, assimilando o rosto do sobrinho.
– Você... está mais alto que eu.
David percebe a diferença de seus poucos centímetros maiores e sorri.
– Sim. Um pouco.
Alan continua a olhar para ele.
– Tem certeza de que quer ir?
David faz que sim.
– Sim – responde. – Pode não ser a coisa mais certa, mas vou tentar.
Alan respira fundo e assente.
– Pois bem. Você já é um homem, e sabe o que fazer.
David ergue as sobrancelhas perante o comentário de Alan.
Há muito tempo não se enxergava como um homem. Pelo menos, não um normal.
Alan estende a mão, deixando-o sem palavras. Um aperto de mão. Era isso que ele queria.
David olha para a mão de Alan e depois para ele.
Alan nunca tinha sido tão presente em sua vida como Ivan, mas também nunca fora tão indiferente como pensara por muito tempo.
Imagens vieram à sua cabeça de Alan lhe presenteando com o celular que depois havia quebrado, dele o salvando e o ajudando a ir para casa depois de quase ser morto queimado pelo sol e fazendo-o beber uma bolsa cheia de sangue, dele sempre sorrindo.
Alan não era seu inimigo, e nunca seria; seu rival, talvez. Mas, nunca o maior motivo de sua mágoa.
David olha para Ivan, que o encara de volta com curiosidade.
Ele se volta para Alan e, em vez de apertar a sua mão em um cumprimento, ele o puxa para si e envolve seu tio num abraço, deixando a todos surpresos.
Alan encara o nada, sem saber o que fazer, e finalmente, aos poucos, retribui o gesto gentil e inesperado do sobrinho.
Ivan sorri ao ver a cena, orgulhoso. Shartene e Miranda sorriem perante as lágrimas que ainda caíam.
– Você me prometeu cuidar dela – diz David, ainda abraçado ao tio. – Por favor, cumpra.
Alan se afasta gentilmente e olha um pouco sem jeito para o sobrinho.
– Sim – ele assente. – Eu o farei.
David sorri, e num gesto de cabeça, faz reverência aos tios.
– Adeus.
– Não diga ‘adeus’, David – Ivan diz. – Voltaremos a nos ver.
Ivan sorri.
– Sim. Até logo. – David olha para as criadas que ainda choram por sua partida. – Até logo, meninas.
Miranda enxuga suas incessantes lágrimas.
– Adieu, milorde.
– Adieu – Shartene repete a despedida no idioma natal delas.
David caminha até a porta, abrindo-a, mas parando para assimilar aquele lugar.
Desde os doze anos de idade fora criado ali. Tivera momentos confusos, de fúria, mas também de tranqüilidade e um pouco de divertimento. Agora era a hora de partir.
Dando uma última olhada para aqueles a quem já considerou sua única família por muito tempo, David fecha a porta e sai.
* * *
– A senhora acha que estou bem assim, madrinha?
Luana pergunta a sua madrinha ao olhar pelo espelho o vestido vermelho de mangas curtas e de comprimento acima do joelho.
– Está, sim.
Luana encara seu reflexo. A vida tratara de brincar com seus sentimentos a um ponto de ter uma batalha quase mortal em seu coração por conta de um amor que achara estar dividido. Mas nunca estivera, aquela era a verdade. Seu coração pedia uma coisa, mas a razão pedia outra. Ambos jamais entrariam num consenso.
– Pronto – diz Dolores, ajeitando o cabelo solto da afilhada para trás. – Vá com alguma sapatilha.
Luana assente vagamente.
Droga. Por que sentia uma enorme vontade de chorar?
Mas trataria de engolir o choro. Seu noivo a esperava.
* * *
O táxi a solta perto de um cemitério. Era o mais longe que podia ir, ou pagaria o dobro da corrida.
Ela tenta se informar com algumas pessoas sobre o endereço da mansão, e sorri ao se lembrar que a primeira vez em que conhecera a família de David foi por um pequeno incidente no meio da noite que a fez andar até os seus pés incharem. Não estava na mesma situação, mas o momento lhe dava nostalgia.
Para ir até o endereço correto, ela teve que cortar caminho por um cemitério, pois a mansão ficava do outro lado. Não podia negar que sentia medo de coisas sobrenaturais, mas como já vivia uma, procurou não se importar tanto. Mas a sensação de andar sozinha por um cemitério no meio da noite ainda era inquietante.
Luana para em frente à uma lápide e se pergunta se Vlad sempre procurava visitar o túmulo da mulher amada. Afinal, o amor verdadeiro jamais poderia ser passageiro, mesmo que ignorado.
Luana engole em seco. Tomara uma decisão, e agora iria em frente.
O vento da noite tocou em sua pele, balançando levemente seus cabelos. Ela os arruma e se espanta ao ver uma imagem à sua frente.
Encostado em outra lápide, estava David com a cabeça baixa e admirando o que parecia ser algumas fotos em suas mãos. Ele estava bem arrumado e parecia ser o mesmo David que sempre conhecera, não o vampiro perigoso, descontrolado e selvagem que até mesmo tentara abusar de seu corpo.
Ela dá poucos passos à frente para vê-lo melhor, mas já não estava conseguindo comandar seu corpo, pois suas pernas já estavam dando passos largos na direção dele.
– David... – Luana diz sem nem conseguir ouvir a própria voz. Tudo o que importava era chegar até ele. – David...
David ouve algum chamado e olha à sua frente, erguendo os olhos e se surpreendendo ao ver Luana. Sua amada estava ali, em frente a ele, com o vento sereno balançando seus cabelos soltos. Sua expressão era de surpresa, mas algo parecido com tristeza também, pois podia ver lágrimas brilhando em seus olhos.
– Luana...
Como se não pudesse mais exigir controle sobre seu corpo, Luana aperta os passos e para bruscamente na frente de David, o ar lhe faltando nos pulmões.
David olha para ela, que ergue a mão para tocar-lhe o rosto.
Ainda era estranho saber que ela estava ali com ele, acariciando seu rosto, quando tudo o que fizera foi assustá-la, mas estava adorando aquela sensação maravilhosa de tê-la tão perto de si.
David inclina seu rosto para a palma da mão de sua amada. Luana suspira ao vê-lo tão forte, mas tão fraco.
– David – sua voz já não era a mesma.
Luana já não se sentia mais a mesma, ignorando até mesmo o encontro que teria com seu noivo. Mas David estava ali, o seu amor estava ali. E queria se despedir dele. Sua garganta chegou a travar pelo choro preso.
– Meu amor... O que está fazendo aqui?
Luana engole em seco e pisca os olhos rapidamente.
– Eu... – ela trava, não sabendo o que dizer. – Eu estava indo...
– Para minha casa, não é?
Ela assente e tira a mão do rosto dele. David sorri tristemente.
– Bom. – Ele se recompõe. – Luana, tenho que te dizer uma coisa.
– E qual é?
David suspira.
– Vou embora para Romênia – ele diz, observando a expressão de espanto no rosto dela. – E não sei se vou voltar. Pelo menos, não tão cedo.
Luana sente seu coração parar.
- O que? Mas, por quê?
Luana repara nas fotos que David segura em mãos e nota alguns rostos desconhecidos. David também olha para as fotos.
- Esses são meus pais. Ivan as deu para mim.
Luana abaixa o olhar pára vê-las e David as empresta.
Luana pega as fotos para si e se surpreende com a semelhança gritante que David tinha com os pais. Ele era uma verdadeira mistura dos dois. Katherine era tão linda. Certamente, esse fora um dos maiores motivos para que Vlad se apaixonasse completamente por ela. Vlad era o próprio David, até na maneira de olhar, mas com algumas diferenças. Ela sorri enquanto analisa os rostos nas fotos. David devia ter se sentido muito feliz ao saber como eram seus pais.
Ela volta a olhar para ele, que a encara de volta, e devolve as fotos.
- Você é tão parecido com eles...
Ele sorri.
- Sim. - David guarda as fotos no bolso da jaqueta.
Luana suspira profundamente, tentando manter as emoções no lugar.
- Por que você tem que ir, David?
David a olha com atenção e percebe que há uma lágrima prestes a cair de seu olho.
- Tenho que me encontrar com meu pai - ele diz. - Será a primeira vez que irei conhecê-lo, e não vou desperdiçar essa oportunidade. Não quando passei a minha vida inteira longe dele. Além do que, nada mais me prende aqui - Ele dá de ombros.
Luana sente um baque em seu coração ao ouvir aquelas palavras finais.
Como assim, nada mais o prendia naquele lugar? E todo o amor que ele já dissera sentir por ela?
Luana não consegue dizer nada em resposta, mas David continua:
- Já é tempo de eu começar uma nova vida, Luana. Minha mãe não está mais viva, mas meu pai está. E agora, meu lugar é ao lado dele.
Luana engole em seco, mas sua boca começa a tremer e uma lágrima cai em sua face.
- Sentirei muita falta daqui. Falta de nossos amigos, da dona Dolores, dos meus tios, das minhas criadas, de todo esse lugar... - David leva a mão ao rosto de Luana, secando as lágrimas que agora caíam uma atrás da outra. - Principalmente de você. O meu único e eterno amor.
Luana não pôde mais se segurar. Ela abraça David com todas as suas forças e chora desesperadamente em seu peito.
Ela chora por não compreendê-lo antes, por não ter estado ao seu lado quando tudo parecia tão difícil, por ter que se separar para sempre dele, e, principalmente, por não poder impedi-lo de ir embora e nunca mais se verem. Não, ela não poderia impedi-lo. David tinha razão quando dissera que dali em diante faria um novo começo em sua vida. Ele estava tentando mudar, e ela nada podia fazer para mudar aquilo. Ainda mais quando sua escolha já havia sido feita. Mas, mesmo sabendo disso, a dor em seu coração não diminuiu nem por um momento.
- Por favor... - Luana implora ainda abraçada a ele. - Não vá, por favor...
David sorri e a aconchega mais perto de seu corpo. Era a primeira vez que Luana se importava tanto com ele e o abraçava tão apertado. Muita coisa havia mudado desde então. Ele passa uma de suas mãos pelos longos cabelos dela.
- Ah, Luana... - Ele suspira. - Você sabe que eu faria qualquer coisa que você me pedisse. Mas, infelizmente, não posso atender a esse pedido. Eu tenho que ir.
David afasta gentilmente Luana de seu corpo e lhe dá um sorriso triste, enquanto enxuga as lágrimas que restaram de seu rosto inchado pelo choro. Luana olha para ele, tentando manter um fim no tremor de seu corpo e nos soluços incessantes. Ele não havia chorado, mas estava triste igualmente. Podia ver a dor em seus olhos.
- Você terá uma nova vida, e eu terei a minha - David acaricia os cabelos dela. - Eu te amo. Te amo mais que qualquer coisa nesse mundo, mas agora tenho que admitir quando perdi. Alan prometeu para mim que vai cuidar de você, e eu acredito na promessa dele, pois sei que ele te ama, assim como você o ama. - David sorri tristemente ao dizer aquilo e desvia o olhar por um breve momento. - Você ficará bem. E agora não terá um louco obcecado para fazer da sua vida um inferno, como antes.
David volta a abraçar Luana, mas ela não conseguia fazer mais nada em resposta, apenas deixar-se ser abraçada por ele e sentir o calor de seu corpo.
Ele estava errado se pensava que só fizera a vida dela um inferno durante todo esse tempo. Claro que David estivera bastante descontrolado e assustador durante um bom tempo, mas a única vida que ele fizera um verdadeiro inferno fora a dele mesmo. E até agora ela se lamentava por poder entendê-lo melhor somente por causa de uma história contada.
Luana não podia mais ficar ali. O que David dissera era verdade, e logo mais ela teria um encontro com seu noivo e futuro esposo. Alan a amava e queria tê-la ao seu lado para sempre, embora o sentimento não fosse mais recíproco. Mas, mesmo agora sabendo que amava David com todas as suas forças, ela sabia que não poderia impedi-lo de partir e que jamais voltariam a se ver. Aquele pensamento era cruel, mas teria que aceitar que essa era a realidade agora.
David continua a acariciá-la, mas Luana trata de se afastar rapidamente, antes que fosse cair em prantos novamente. Eles se encaram durante um breve tempo, sem saber o que dizer, até que Luana toma a iniciativa, dizendo com a voz tremida um triste 'adeus', e corre para longe dele. David apenas a vê se afastar, mas nada faz além de abaixar a cabeça e olhar para as fotos dos pais que ele tira do bolso da jaqueta. Seria melhor assim. Mas, mesmo sabendo que havia feito a coisa certa, pôde sentir seu coração se rasgando ao meio.
* * *
Luana tentou se recompor várias vezes antes de entrar nos jardins da mansão. No meio do caminho, entrou num bar e lavou várias vezes o rosto e depois limpou os resíduos de lágrimas que ainda se mantiveram, mas de nada adiantou. Além de não ter alguma maquiagem para esconder o inchaço no rosto causado pelo choro, ela não parava de se lembrar das palavras de David e da despedida dele, o que a fazia querer chorar mais e mais.
Ela sabia que não podia se apresentar a eles daquela forma, mas também sabia que nada podia fazer quando seu coração não parava de sangrar.
Luana bate na porta dupla de entrada e olha em volta, notando que o carro de David ainda permanecia ali. Por que, afinal, ele não levaria nada? Ou voltaria novamente para pegar seus bens?, pensou esperançosa. Luana tenta afastar aqueles pensamentos de sua cabeça. Aquele não era o momento de ficar se remoendo. Tentaria esquecer seu sofrimento por algum tempo, e voltaria a ver seu noivo. Não queria que ele soubesse de seu real sentimento.
A porta se abre, revelando Miranda, que mantinha uma leve expressão de tristeza. Certamente, era por causa de David.
- Oh, milady!
Miranda sorri ao vê-la e abre mais a porta, abrindo espaço para Luana passar.
- Olá, Miranda - Luana a cumprimenta. - Como vai?
Luana entra no hall de entrada e Miranda fecha a porta atrás de si, dando de ombros.
- Um pouco triste pela despedida de Lorde David.
Luana desvia o olhar e engole em seco, para que não desse lugar às emoções novamente. Ela assente.
- Ele foi embora, não foi?
Miranda faz que sim.
- Há pouco tempo. Sentirei a falta dele - Miranda diz e olha para Luana. - Milady também sentirá? Afinal, vocês eram amigos, apesar de tudo.
Luana respira profundamente, tentando manter as emoções sob controle. A vontade que sentia era de dizer que ela não sabia o quanto, ou até de chorar em seu ombro, ou de qualquer outro. Mas apenas limitou-se a assentir.
- Sim - Luana responde. - Sim, eu vou. Onde está Alan?
- Está na sala de estar - Miranda responde. - Venha comigo, por favor.
Luana segue a criada até a sala de estar e vê Alan e Ivan conversando sobre algo, com o antigo aparelho de som tocando uma música clássica e melodiosa de fundo. Seria estranho para ela ter que sempre ir àquela casa e não ver David lá. Para não dizer doloroso.
Alan e Ivan percebem sua presença e levantam-se de imediato.
- Olá, Luana - Ivan a cumprimenta, beijando as costas de sua mão.
Luana sorri com o gesto cortês.
- Boa noite - Ela toma coragem de olhar para Alan, que a encara de volta. - Vocês estão bem?
- Não muito, mas tudo pode melhorar - Ivan sorri gentilmente para ela. - Vou deixar vocês a sós. Com sua licença. Venha, Miranda.
Luana repete a reverência cortês de Ivan e o vê sair com Miranda até um outro cômodo.
Ela ainda não sabia o por que, mas estava sendo muito difícil ter que olhar novamente para Alan. Por mais que soubesse que seu verdadeiro amor era David, fora Alan a quem ela escolhera para sempre. Teria que aceitar seu destino ao lado dele.
- Boa noite, Bela Lua - Alan a cumprimenta, dando passos em sua direção.
Luana hesita por um momento a olhar para ele, mas, enfim, consegue. Alan sorri para ela.
- Boa noite - ela diz. - Perdoe minha falta de educação.
- Você não foi mal educada. Mas sei que algo a perturba.
Luana engole em seco e rapidamente desvia o olhar, mas Alan gentilmente pega seu queixo e a faz olhar para ele.
- Você está bem?
Luana sabia que Alan a estava analisando. Ele sabia que ela não estava bem, podia ver isso olhando para ele. Mas, por que ele queria que ela respondesse, se já sabia a resposta?
- Estou - ela mente. - Um pouco.
Alan dá um sorriso amarelo. Ele sabia que ela estava mentindo.
- Quer dançar, Bela Lua?
Alan estende sua mão, e Luana aceita.
- Sim - Ela sorri para ele.
Apesar de saber que não o amava mais - na verdade, que nunca o amou, não como David -, Luana ainda se sentia encantada pelo charme e o jeito simpático de Alan. Desde o começo, ele a conquistara de um jeito que nenhum outro homem conseguira. Apesar do verdadeiro amor de sua vida ter ido embora, não seria nenhum sacrifício estar ao lado de Alan.
Alan a puxa para mais perto de seu corpo e mexe os dois corpos no embalo da música instrumental pela sala de estar. Luana sente algo estranho no ambiente e se espanta ao ver que eles dois já não estavam mais na mansão, mas em outro lugar mais antigo e opulento. As vestes de Alan haviam mudado para um modelo que parecia ser de dois séculos antes, e o vestido que ela vestia continuava vermelho, porém, longo e com luvas da mesma cor cobrindo seus braços. As paredes do grandioso salão pareciam ser de ouro puro e o piso era quase cristalino. Ela se lembrava muito bem da primeira vez em que Alan dissera a ela que era um vampiro. Naquele mesmo dia, ela também tinha visto cavalos e uma carruagem no lugar da Lamborguine vermelha dele. E agora, voltava a ter o mesmo tipo de alucinação. Era uma alucinação, não era?
As pessoas no salão dançavam em pares e pareciam ser bem elegantes e satisfeitas. Um desses pares tinha dois adultos um pouco familiares: o primeiro era um vampiro parecido com os três irmãos, porém mais velho; e a outra era uma vampira bem parecida com Alan. Se assemelhava muito a ele.
- São meus pais - Alan diz abraçado a Luana enquanto toca a mesma música no salão, porém mais forte por conta da banda.
Luana olha para ele e volta a olhar para o casal que se divertia junto.
- Deu para perceber um pouco.
Alan sorri.
- Eles se amavam tanto.
Luana olha novamente para o belo casal. Damian não parecia ser o vampiro malvado que conhecia pela história, mas um marido apaixonado e orgulhoso de sua esposa. A mãe de Alan sorria por alguma coisa que Damian disse, e por um momento olha orgulhosa e atenta para um trio de meninos que corriam pelo salão. Certamente um era mais velho que o outro e o mais velho de todos era quase tão alto quanto sua mãe. Luana sorri. Com certeza, aquele era Ivan. O mais novo tentava fazer tudo o que os dois irmãos mais velhos faziam, correndo atrás deles, mas principalmente atrás do irmão do meio. Os três também vestiam roupas da época, e Ivan mantinha seu curto cabelo preso, enquanto o irmão do meio mantinha o cabelo mais longo preso na nuca, e o irmão mais novo usava boina. Os três continuaram correndo pelo salão, até que o menino de cabelo longo parou por um momento e a olhou atentamente.
David?
Não, aquele não era David. Era Vlad. Eles eram tão parecidos...
Ele continuou olhando-a, como se pudesse vê-la ali, mas ela sabia que aquilo era impossível. O menino olhou dela para Alan e deu um sorriso cortês, mas não um sorriso verdadeiro. Era como se ele dissesse que Alan não era o homem certo para ela. Mas, como aquilo podia ser tão real?
- Isso não é uma ilusão, Bela Lua - Alan diz como se estivesse lendo seus pensamentos. - Apenas voltamos ao passado.
Luana o encara com espanto.
- Mas, como?
Alan continua a dançar com ela pela pista de dança.
- Queria vê-los mais uma vez, minha mãe e meu pai - Alan diz em nostalgia. - Sinto falta deles.
Luana assente. Aquilo era mais do que compreensível. Principalmente quando se tratava do pai que morrera na frente dele.
- Também quis que você os conhecesse, pelo menos uma vez.
Luana olha para o irmão mais novo correndo dos dois mais velhos, sorrindo alegre.
- Você era tão bonitinho - ela sorri.
Alan também sorri.
- Bem, obrigado, Bela Lua.
Luana continua a olhar para os outros à sua volta, especialmente para Vlad.
- Como... ele conseguiu me ver?
Alan olha para seu pequeno irmão mais velho.
- Eu não sei - ele diz. - Mas ele foi o único que conseguiu ver a nós dois.
Luana assente pensativa. Certamente, Vlad devia ser um caso especial. Assim como seu filho.
Alan a puxa contra seu corpo, a abraçando gentilmente. Luana se surpreende pelo gesto inesperado.
- Agora não chore mais.
Ela se afasta um pouco e olha surpresa para ele. Como ele sabia?
- O que?
Alan acaricia a face dela.
- Eu não preciso ser adivinho para saber que você estava chorando, e por quem estava chorando, Bela Lua - Alan diz e sorri. - Foi por ele, não foi?
Luana desvia o olhar de Alan por um breve momento.
- Sim... - ela responde sincera. - Vou sentir a falta dele.
- Sim. Eu também. Mas, quero que você seja sincera comigo, Bela Lua - Alan diz olhando nos olhos dela. Seus olhos brilhavam. - Eu a chamei aqui para que você dissesse o que realmente quer e o que realmente sente. E agora é a hora.
Luana engole em seco. Alan parecia saber o que ela realmente estava sentindo, mas apenas esperando que ela contasse. Mas, como ele podia saber? Ou ela havia deixado tudo tão transparente ao ponto de qualquer um perceber?
A questão era que não podia mentir para Alan. Não importava mais qual rumo sua vida tomaria, contaria a verdade para ele, pois aquilo era o mínimo que podia fazer por alguém que estivera ao seu lado e fora tão gentil desde que a conhecera.
Luana respira fundo antes de falar algo.
- O que você quer que eu diga?
- O óbvio - Alan sorri. - Quero que você diga se me ama ou não.
- É tão óbvio assim para você?
Ele assente.
- Muito - Alan responde. - Mas quero que você mesma diga para mim. E, por favor, não se preocupe se vai me magoar ou não. Apenas diga.
Por um momento, Luana sentiu-se indigna. Não era justo para Alan ter que cortejá-la durante todo esse tempo para, no final, ficar sozinho. Não queria magoá-lo, mesmo que ele dissesse que ficaria bem. Mas, por outro lado, seu amor por David era tão forte que não tinha mais como ela continuar mentindo sobre seus reais sentimentos. Sabia que não teria mais chance com ele, e nunca mais o veria, mas sempre iria amá-lo.
Luana deixa seus sentimentos serem libertos e o abraça, chorando em seus braços.
- Me perdoe.
Ela escuta Alan rir.
- Não precisa pedir perdão, Bela Lua. Eu entendo.
- Eu não queria te magoar - Luana olha para ele. - Mas...
Alan a silencia, pondo um dedo sobre seus lábios.
- Mas você acabou se apaixonado por ele - Alan diz. - Você não tem culpa disso, assim como eu não tenho culpa de ter me apaixonado por você. - Alan dá de ombros. - Quando vi, já era tarde demais.
Luana olha atentamente para ele, as lágrimas descendo em seu rosto.
- Sabe, Bela Lua, eu não queria ter que repetir a mesma burrice que meu irmão Vlad, que foi se relacionar com uma mulher humana. Temia a Elite, e ainda temo muito, pois nada sou diante de tantos deles. Mas alguma coisa em Vlad, e até mesmo em seu filho, me fez parar de pensar que a Elite pode mandar em tudo que eu possa fazer. Não é que eu quisesse continuar me inspirando em meu irmão, mas me encantei por você a primeira vez em que a vi. - Ele sorri com a lembrança. - Tão perdida e tão linda.
Luana sorri em meio às lágrimas. Ela também havia se encantado por Alan à primeira vista.
- Quando percebi, já sentia algo a mais por você, algo que eu achava estranho para minha raça. E, com o passar do tempo, tive certeza que era você quem eu queria para mim. Já não importava a Elite, e nem mesmo David. O que fez nossa relação ficar ainda mais intensa.
- Me sinto horrível por ter feito vocês dois brigarem por minha causa.
Alan continuou a abraçá-la.
- David ficou tão bravo... Foi ali que percebi que eu não tinha chance.
Luana enxuga seu rosto e percebe que uma das luvas está quase encharcada por suas lágrimas. Ela volta a abraçar Alan.
- Me desculpe.
Alan volta a sorrir.
- Você só sabe pedir desculpas?
- E o que você quer que eu faça?
Alan a afasta gentilmente para olhar em seus olhos.
- Apenas diga o óbvio.
Luana sente ainda mais vontade de chorar.
- Eu quero esquecer isso, Alan. Você não merece ouvir isso de mim, principalmente porque David já foi embora - ela diz tentando controlar os soluços. - Nós nunca mais voltaremos a nos ver. Essa é a verdade.
Alan assente.
- Entendo... Então, você o ama, não é?
Luana tenta desviar o olhar, mas Alan pega seu queixo gentilmente.
- Me diga, Luana. Seja sincera consigo mesma.
Luana menea a cabeça.
- Do que isso vai adiantar? Ele foi embora, Alan. E meu lugar agora é com você.
Alan continua a segurar seu queixo e olha fixamente em seus olhos.
- Não diga isso - ele diz firmemente. - Não queira se prender a mim apenas porque acha que é obrigada a fazer isso. Ou porque acha que vai me magoar. Eu não quero sua compaixão, Bela Lua. Eu só quero o seu amor, mas sei que isso não poderei ter.
Luana não podia mais se segurar. Apesar de tentar controlar suas emoções, seus sentimentos por David eram fortes demais para serem ignorados. Mas um dos maiores motivos de seu pranto era saber que Alan seria magoado por ela.
- Eu o amo - ela diz, finalmente. - Mas de nada adianta, pois ele foi embora.
- Não exatamente - Alan diz gentilmente. - Ainda dá tempo de ir atrás dele.
Luana o encara.
- Eu não posso fazer isso com você.
- Bela Lua, eu vou ficar bem. E você não pode deixar seu amor ir embora apenas por minha causa - Alan insiste. - Vá atrás dele e faça-o voltar para casa. Não sou contra David ir para a Romênia, mas quero que ele faça isso quando vocês dois estiverem juntos.
Luana ainda o encara em dúvida.
- Você quer mesmo isso?
Alan sorri gentilmente para ela.
- Eu quero que você seja feliz. E eu só conseguirei ser se você for. Entende, Bela Lua?
Luana finalmente sorri. Agradecia aos céus por ter lhe permitido conhecer Alan. Por mais que não o amasse, conhecê-lo fora uma das melhores coisas que já havia acontecido em sua vida.
- Obrigada! - Luana o abraça bem apertado, tentando ignorar a tristeza que ainda invadia seu coração. - Muito obrigada!
Alan ri junto com ela e a abraça apertado.
- Não precisa agradecer, Bela Lua. Apenas quero que vocês sejam muito felizes.
Luana volta a chorar, mas daquela vez foi de felicidade por poder confessar seu amor e estar livre para amar o único homem que realmente tomara conta de seu coração e de sua mente. Ela vê o pequeno Vlad parando num canto do salão e sorrindo para ela; um sorriso de verdade desta vez. Ela sorri de volta e o vê voltando a brincar com seus irmãos, que parecia não vê-los.
Alan a afasta novamente e Luana se espanta ao ver que eles estão novamente na sala de estar da mansão e suas roupas voltaram a ser as mesmas. Tudo parecia ter sido um sonho tão real.
- Bela Lua - Alan diz ao olhar para ela. - Vá agora. Ou você quer que David vá embora?
Luana arqueja agoniada.
- Mas... e se não der tempo?
- Ficar aqui não resolverá nada. Se eu fosse você, iria logo atrás dele.
- Sim - Luana sorri. - Muito obrigada mesmo, Alan. - Luana fica na ponta dos pés para beijar o rosto de seu ex-noivo. - E mesmo que meu amor possa pertencer à outra pessoa, você sempre terá um lugar reservado em meu coração.
Alan sorri satisfeito.
- É bom saber disso. Agora vá.
Não esperando um terceiro mandato, Luana corre em direção à saída, sem olhar para trás.
Alan a observa ir. Não se arrependia nem um pouco por tê-la libertado do noivado. Mas não deixou de sentir um certo vazio.
Ivan entra sutilmente na sala e para perto do irmão, também vendo Luana sair dos jardins.
- Acha que fez o certo?
- Não acho - Alan respondeu sem olhar para o irmão. - Tenho certeza.
Ivan olha para ele.
- Por que não a levou? Seria mais rápido.
Alan menea a cabeça.
- Esse é um momento só deles. Ela vai conseguir alcançá-lo.
Ivan assente concordando.
- Tenhamos fé. Aliás, bom plano.
Alan sorri.
- Obrigado.
* * *
Luana continua a correr a toda velocidade. Na verdade, não sabia para onde ir, apenas que teria que encontrá-lo rapidamente ou nunca mais o veria. O aeroporto mais próximo ficava a uma hora, de carro. Se sentia perdida naquele momento. A única coisa que podia fazer, ao menos por enquanto, seria voltar ao cemitério e ver se David ainda estaria lá.
Que os céus a ajudassem.
* * *
David olha mais uma vez para as fotos em suas mãos. Logo mais daria a hora de ir embora, mas algo realmente o impedia de ir. Ele queria poder ver o pai, estar ao lado dele, mas ter que se despedir daquele lugar e, principalmente de Luana, era muito doloroso.
Ele guarda as fotos no bolso de sua jaqueta de couro e se levanta da lápide. Estava na hora.
Luana chega ao cemitério a tempo. David tinha que estar lá ou não conseguiria encontrá-lo. Até que ela o vê na mesma lápide de antes, preparando-se para partir. Ele não podia ir. Não agora.
Apesar de estar com os pés inchados de tanto correr e quase sem voz pelo cansaço, Luana reúne todas as suas forças para gritar o nome dele:
– David!
Antes que possa ir, David escuta alguém chamá-lo e se surpreende ao ver Luana correndo em sua direção, os cabelos soltos balançando freneticamente. O eu ela estava fazendo ali?
Ele se vira até ela, mas continua parado. Luana continua a correr desesperadamente em sua direção. Já o havia encontrado, mas o medo de ainda perdê-lo chegava a ser irracional.
– Luana?
– David! – Luana chama o nome dele mais uma vez, louca para alcançá-lo.
David não espera ser chamado mais uma vez, ou esperar ser alcançado por Luana. Mesmo sem entender o que estava acontecendo, ele dá passos largos e firmes até ela. Finalmente, Luana consegue alcançá-lo e o abraça com todas as forças.
Ele não conseguia entender o que ela estava fazendo ali. Quando a viu correr, sua expressão era de pura felicidade, como das poucas vezes em que estiveram juntos com os amigos. Não, até mais.
Luana o abraça com força, sentindo todo seu calor e desejando nunca mais sair de seus braços fortes. Ela sente que David a abraça de volta e sorri, o abraçando ainda mais e beijando mais perto de seu pescoço. David fica surpreso com o gesto inesperado, mas sorri satisfeito em tê-la em seus braços como sempre desejara.
– Luana? – David a chama, ainda abraçado a ela.
Luana esfrega o nariz no pescoço de David para que pudesse sentir melhor seu cheiro. Era o mesmo perfume de sempre. Aliás, sempre havia gostado do cheiro dele, exceto as poucas vezes em que ele cheirava a sangue. Mas, deixaria o passado ruim para trás. O havia encontrado e confessaria seu amor.
David se assusta um pouco ao notar que a boca de Luana estava perto de seu pescoço. O que estava acontecendo com ela?
– Luana – David a afasta gentilmente, procurando olhar em seus olhos. – O que está fazendo aqui?
Ele queria uma resposta dela, mas tudo o que recebeu em troca fora um par de olhos castanhos brilhando de tal forma que já pareciam âmbar, e um sorriso tão deslumbrante como jamais vira em sua vida, nem mesmo no retrato emoldurado que tinha em seu quarto. Luana estava tão linda e feliz. Com certeza, Alan já estava mantendo sua promessa.
Luana não conseguia esconder o quão feliz estava por ter reencontrado o amor de sua vida, aquele que sempre fora seu verdadeiro amor. E agora era a hora de contar a ele.
– Estou aqui por duas coisas. A primeira foi para te encontrar. Te impedir de ir embora. – Ela sorri. – Você não tem idéia do quanto foi cansativo tentar te alcançar.
David franze o cenho, não conseguindo entender o que ela quis dizer com aquilo. Por que ela o queria impedir de partir?
Luana acha graça da expressão confusa dele. Ela prossegue antes que ele possa dizer algo.
– Você não vai embora daqui. Pelo menos, não agora.
– Luana, eu tenho que ir. Tenho eu ver meu pai, estar ao lado dele.
Luana assente, compreendendo.
– Eu entendo.
Ela chega mais perto dele e põe uma mão em seu rosto, assim como da última vez. Mas o gesto daquela vez fora por uma despedida, enquanto o de agora era de um reencontro: reencontro de si mesma, e do homem que sempre ocupara seu coração.
– Sei que você deve estar com seu pai – ela continua. – Mas jamais o deixaria partir sem mim.
David ergue as sobrancelhas, surpreso com aquela declaração. Luana estava tão diferente de um modo que ele não conseguia explicar. E ali, naquele momento, ser acariciado por ela e ouvir suas palavras estava sendo maravilhoso. Não que tivesse uma chance com ela, é claro. Afinal, seu amor por ela apenas deixava tudo mais doloroso.
– Do que está falando, Luana?
Ela respira fundo antes de dizer o que sempre quis desde quando o conhecera, mas não se dera conta por bastante tempo.
– A segunda coisa que vim fazer aqui é dizer o quanto eu te amo. – Luana abre ainda mais seu sorriso ao perceber que os olhos de David se arregalam em espanto. – Eu te amo. Muito.
David engole em seco, tentando assimilar bem aquela informação. Não, ela não tinha dito aquilo. Certeza que era um sonho.
– Você... – ele gagueja sem saber o que dizer. – Você está brincando, não está?
Luana menea a cabeça, ainda acariciando o rosto amado. Uma lágrima cai em seu rosto.
– Não, meu amor. Não estou. Na verdade, tenho brincado com meu coração há muito tempo, e só deixei para perceber agora meus verdadeiros sentimentos. – Luana sorri para ele, que ainda a encara, incrédulo. Mais uma lágrima cai em seu rosto. – Te peço perdão, David. Perdão por todas as vezes em que te deixei de lado, pelas vezes em que não me importei com seus sentimentos, e por sempre usar o medo como desculpa para me afastar de você.
David suspira. Então, não era um sonho?
Luana estava ali, em frente a ele, lhe dizendo o quanto o amava e pedindo perdão por algumas coisas. Mas, do que ela devia ser perdoada, quando fora ele quem havia feito a vida dela um inferno? Claramente, ele havia mudado um pouco. Mas aquilo não seria suficiente até pagar seus pecados.
– Não, Luana – Ele estende uma mão para enxugar as lágrimas que caíam do rosto dela. – Você não precisa me pedir perdão. Eu é que peço para você. – Ele sorri. – Nunca imaginei que logo eu, a pessoa que mais te fez sofrer, ouviria você dizer que me ama.
Luana sorri entre as lágrimas e as enxuga.
– Não importa o que você fez, não importa o que aconteceu. Estou aqui, dizendo o quanto eu te amo, e te amo muito, David. Acredite.
David sorri, ainda incrédulo. Não é que nunca imaginasse que ela dissesse aquilo para ele, mas tudo parecia ser tão surreal.
– Você... realmente me ama?
– Você duvida?
David dá de ombros, um pouco indeciso.
– Bem, estou confuso.
Luana acha graça. Foram raras as vezes em que vira um David bobo e inocente, e agora ele estava do mesmo jeito.
Luana chega mais perto de David e coloca suas duas mãos no rosto dele, olhando bem em seus brilhantes olhos azuis.
– Então, eu vou lhe mostrar o quanto te amo.
David nada falou, apenas deixou seus lábios serem tocados pelos lábios doces e molhados pelas lágrimas. Ele a sentiu envolver seu pescoço e aprofundar mais o beijo. David a abraça ainda mais apertado ao seu corpo e a beija intensamente enquanto mergulha uma das mãos no cabelo grande e sedoso. O beijo, antes apaixonado, se torna cada vez mais libidinoso.
– David! – Luana chama seu nome com paixão.
Como amava aquela mulher. Desde quando a conhecera a quis ter para si, mas o destino bondoso que agora os unia tinha sido cruel os separando. Quantas vezes tinha imaginado e sonhado com ela assim, beijando-o intensamente! E agora estava ali, abraçado a mulher que sempre amou e sempre amaria, fazendo tudo o que sempre quis fazer com ela. Bem, não exatamente tudo. Mas isso ele deixaria para depois.
– Ah, Luana... – Ele suspira louco de paixão enquanto a aperta ainda mais ao seu corpo.
Luana é a primeira a quebrar o beijo, respirando com dificuldade por causa da retribuição de amor e volúpia. Ela sente David dar beijos delicados e deliciosos na parte de seu pescoço e inclina para o lado para lhe dar mais acesso. Ele estava beijando deliciosamente o mesmo lugar que mordera antes. Não sabia como, mas parte daquele sonho tinha sido real. Podia parecer loucura, mas queria uma vez mais aqueles caninos cravados em seu pescoço. Não só a sensação de ser beijada ali lhe arrepiava, mas por estar nos braços dele.
Após dar desejosos beijos no pescoço de Luana, David assopra no mesmo lugar e sorri ao perceber que ela se arrepia ainda mais com o gesto.
– Ah, Luana... Como eu te amo.
– Eu também! – ela diz apaixonada enquanto se agarra ainda mais a ele, que a segura firmemente contra si. – Eu também te amo, David!
David não podia estar se sentindo mais feliz. Era certo que ainda tinha um longo caminho pela frente para se arrepender das coisas que fez e fazer uma nova vida ao lado de Vlad. Mas agora Luana estava ali, dizendo o quanto o amava. Certamente, teria que arrancar vários beijos dela para realmente ter a prova de que aquilo era um sonho ou a realidade. E só de saber que ela estava ali com ele, já o fazia se sentir o ser mais feliz do mundo. Finalmente, Luana seria sua. Mas, ainda assim, teria que enfrentar algumas dificuldades dali para frente, começando pelas dúvidas.
Mesmo a contragosto, David a afasta gentilmente, olhando atentamente para a mulher que o encarava apaixonadamente de volta.
– Luana... E Alan?
Luana sorri.
– Ele foi muito gentil comigo, e entendeu meus sentimentos antes de mim mesma. E mesmo que eu não possa amá-lo, Alan sempre terá um lugar em meu coração.
David sorri. Agora entendia a admiração de Luana por Alan. Demorou bastante tempo para ele entender que Alan não era, de fato, seu inimigo.
O sorriso de Luana diminui ao notar que David estava tão sério e pensativo. Estaria ele se culpando pelas coisas que havia feito no passado?
– David? – Luana o chama, preocupada.
David olha para ela e sorri, acariciando os longos cabelos dela.
– Luana, eu fiz coisas horríveis. Eu matei uma pessoa. – Ele sorri tristemente para ela. – Tem mesmo certeza de que quer ficar comigo?
Luana sorri e balança a cabeça.
– Tenho – ela diz firmemente ao cruzar os braços pelo pescoço dele e acariciar os fios agora um pouco mais longos. – Eu confio em você e sei que não voltará mais a fazer aquelas coisas. Eu estou aqui do seu lado, David. Agora e sempre.
David suspira de contentação por ter à sua frente a mulher que sempre amou e que agora queria estar a seu lado, apesar das loucuras que cometera. Se era merecedor, ou não, só o tempo diria. Mas, dali em diante, faria uma nova vida ao lado dela e de sua família. Sim. Luana completaria sua família que outrora já fora destruída.
Ele a puxa para mais perto.
– Você aceita ir para a Romênia comigo?
Luana se surpreende com a pergunta.
– O que? Hoje?
David ri.
– Não, não hoje. Mas, você aceita?
Luana sorri e faz que sim.
– Sim – ela diz contente. – Quero conhecer seu pai.
David a olha como um bobo apaixonado e acaricia sua face.
– Sim. Mas, por ora, teremos que sair daqui.
Luana olha em volta e percebe que eles ainda estão no cemitério.
Desde nova, tinha medo de lugares como aquele, mas os únicos sentimentos que sentia naquele momento eram de amor e felicidade.
– Shartene, Miranda e seus tios ficarão contentes que você permanecerá mais um pouco de tempo em casa.
David assente sem tirar os olhos dela.
– Minha madrinha ficará muito feliz quando ver você me deixando em casa. – Ela sorri. – Ela gosta muito de você. Tomara que ela não brigue comigo por causa do horário.
David a puxa num impulso contra seu corpo, fazendo Luana arquejar de surpresa e de prazer.
Ela o encara sem entender, mas David sorri perversamente como resposta.
– Sua madrinha e meus tios terão eu esperar – diz ele com a voz rouca de desejo. – Pois hoje você será minha.
Luana sorri louca de felicidade e abraça David mais apertado, sendo amada e desejada através dos doces e apaixonantes beijos que David lhe dá, selando sua união.
E assim, termina a história de um menino renegado – não só por outros, mas por si mesmo – que soube alcançar a felicidade ao lado de quem sempre amou. E assim, termina a história de uma menina que achava que tinha tudo, mas não sabia que seu único e verdadeiro amor estivera sempre ao seu lado.
Fim

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