Daniel carregava o bebê indefeso nos braços. Seu filho. Seu e da linda mulher que chorava à sua frente.
Haviam passado momentos tão maravilhosos juntos. Talvez os últimos de suas vidas.
E agora lá estava ele, com seu filho no colo, observando o amor de sua vida desaparecer aos poucos.
◇
— Papai, acorde — Chamou a voz infantil.
Daniel abriu os olhos lentamente e se deparou com o filho a seu lado na cama.
— Papai — o menino chamou novamente.
— Johnata — falou Daniel com a voz sonolenta. — Que horas tem?
— Antes de eu vir te acordar, eram nove horas e pouquinho — respondeu o menino.
As sobrancelhas de Daniel se arquearam e ele levantou-se assustado.
— Nove horas? Já passou da hora de você ir para a escola. — Ele olhou para o menino. — Por que não me acordou antes, filho?
— É que eu acordei quase agora — desculpou-se o menino.
— Ah — Ainda sonolento, Daniel apoiou a mão na cabeça, irritado por não ter levantado mais cedo. Ele olhou para o rosto inocente da criança. — Ou você se levantou mais cedo e não me acordou para te levar para a escola porque quer aprender andar a cavalo?
— Eu juro, acordei ainda agora — disse o menino inocentemente. — Mas também quero muito andar a cavalo — Sorriu em seguida.
Daniel achou graça da inocência do filho.
— Tudo bem — Disse por fim. — Mas vamos tratar de trocar de roupa, escovar os dentes e tomar café primeiro antes de fazer qualquer coisa. Venha.
Daniel desceu da cama e o filho o seguiu. Ele trocou de roupa e ajudou o filho a se trocar, escovaram os dentes juntos e tomaram café.
Johnata falava da escola, das matérias, dos alunos e dos professores e Daniel só ouvia e observava, achando graça do modo energético que o filho falava. Até mesmo seu jeito alegre de ser lembrava a mãe, e isso enchia de amor e orgulho o coração de Daniel. Apesar de que nos últimos momentos que estiveram juntos, Aline estava mais triste e abatida em comparação aos outros momentos que passaram antes. E não era para menos.
O sorriso de Daniel se esvaiu.
Lembrar dela doía. Doía muito. Mas o que ele podia fazer? Não podia mudar o passado e queria manter a imagem dela viva, ainda que apenas em sua memória.
— O que houve, papai? — Perguntou o menino com a boca cheia de farelos de pão.
Daniel olhou para o filho e deu um leve sorriso, limpando alguns farelos da boca do menino.
— Nada, papai só pensou em algumas coisas — Disse. — Agora vamos terminar nosso café antes de irmos lá para fora.
— Está bem — falou o menino que voltou a devorar o pão.
◇
O terreno de Daniel era grande, talvez não para um fazendeiro, mas para alguém que apenas queria morar num lugar com a paz e a tranquilidade do campo.
Daniel não era fazendeiro, mas nascera e fora criado no campo. Ele gostava daquela vida, apesar de também apreciar algumas coisas das cidades grandes e subúrbios. Não cultivava gado, porcos ou galinhas, apenas algumas hortas e frutas. Como um morador do campo que não vivia do trabalho da fazenda, submetia a si e a seu filho alguns produtos industrializados. Johnata não tinha telefone ou televisão para se distrair, pois Daniel não queria. Ele queria que o filho fosse criado de forma humilde e simples, se contentando e se divertindo com as coisas do campo, não com tantas tecnologias como as outras crianças das cidades vizinhas. E Johnata se divertia muito. Para falar a verdade, ele sempre inventava se divertir até com as coisas mais simples. Era um menino de ouro, inocente e cheio de energia.
Daniel saiu do estábulo segurando um cavalo alto e bonito de pelagem malhada. Johnata pulou a cerca do curral e correu alegremente na direção do pai.
— Eu vou andar nele? — Os olhos do menino brilharam de expectativa.
Daniel olhou para o cavalo e lhe deu dois tapinhas de leve perto da vasta crina de cor mogno. Olhou para o filho.
— Este cavalo era o de sua mãe.
Johnata arqueou as sobrancelhas em surpresa.
— Que legal! A mamãe andava nele... — O menino acariciou o pelo macio do animal. — Ele gostava dela?
Daniel esboçou um sorriso afetado.
— Seria impossível não gostar de sua mãe — Disse, a voz um pouco abalada.
Os brilhantes olhinhos do menino pairaram no pai.
— Vou poder montar nele também?
— Não, não — disse Daniel bem humorado. — Eu tenho um cavalo, você terá o seu e este sempre será o de sua mãe.
— Mas a mamãe não está aqui...
— Eu sei — Daniel engoliu em seco. — Mas eu sei que ela voltará.
— Verdade? — perguntou o menino, os olhos brilhando de esperança. — Mamãe vai voltar para a gente?
Daniel tratou de controlar suas emoções. O que Aline havia feito com ele...
— Eu tenho esperança, filho — Disse ele, mas tratou de mudar de assunto. Queria que seu bom humor permanecesse. — Venha, vou te mostrar em qual cavalo você vai andar.
Daniel deixou o cavalo malhado pastar no curral e pegou a pequena mão do filho, o guiando para dentro do estábulo que não era muito grande. Havia um total de quatro cômodos, um para cada cavalo, mas só havia três deles no total, o último ficava vazio.
No entanto, nem tão vazio, Daniel pensou silenciosamente ao lembrar-se da primeira vez dele e de Aline naquele local e também das outras vezes em que estiveram ali.
— Este é meu. Ou melhor, minha — corrigiu-se.
A criança olhou admirado para o animal majestoso de cor creme.
— É menina?
— Sim, é fêmea — Daniel sorriu. — Ela é linda, não é?
O menino olhou para o pai.
— A mamãe é como ela? — perguntou de modo inocente.
Daniel não pôde segurar a risada.
— Filho, sua mãe é uma mulher, não uma égua.
— Não foi isso que eu quis dizer — Disse o menino. — Eu quero saber se a mamãe é tão linda quanto ela — Apontou para a égua.
Daniel, por fim, controlou o riso.
— Sim, sua mãe é linda demais — respondeu. — Sempre foi.
— Em qual eu vou montar? — perguntou o menino cheio de energia.
— Neste aqui — Daniel guiou o menino até outro canto onde encontrava-se um cavalo da mesma cor que a crina do cavalo de Aline.
— Ele é bonito — admirou a criança.
— Verdade. Quer mesmo montar? Acho que hoje não... — Daniel disse brincando com o filho.
— Hoje, sim — pirraçou a criança. — Você prometeu!
— Tudo bem, tudo bem — Daniel falou com as mãos para o alto em rendição. — Afaste-se um pouco.
O menino moveu-se para um lado um pouco mais distante e Daniel abriu o trinco da porteira, libertando o animal.
— Apresento-lhe o seu cavalo — falou Daniel segurando a guia do animal.
— Ele tem nome? — o menino perguntou.
Daniel ficou pensativo por um momento.
— Hum, nunca pensei num nome para eles — respondeu.
— Você nunca deu nomes para eles? — questionou o menino em surpresa. — Tadinhos.
— Não que eu chame cada um por número. Apenas chamo de cavalo, égua — Daniel se justificou como se pedisse desculpas.
— Eles podem ter nome? — indagou o menino acariciando o pelo liso e lustroso do cavalo.
— É claro.
— O meu vai se chamar Pompeu.
— Pompeu? — Daniel perguntou achando graça. — Por que esse nome?
O menino deu de ombros.
— Sei lá, eu gostei do nome.
— E os outros? — perguntou Daniel.
— Huummm... — O menino olhou em volta, pensativo. — Cada um dá um nome ao seu bichinho. Eu dei um nome ao meu cavalo, você dá um nome ao seu e a mamãe vai dar um nome para o dela quando ela voltar. — O menino sorriu. — Não é uma boa ideia?
Daniel também sorriu. Não só ele como também o filho tinha esperança de que Aline ainda pudesse voltar.
— Sim, também acho — concordou Daniel.
— Qual vai ser o nome da sua égua? — perguntou Johnata ao pai. — Que tal Pompéia?
O sorriso de Daniel se ampliou.
— Pompéia? — Ele perguntou achando graça do nome nada comum.
— É, para combinar com Pompeu — respondeu o menino entusiasmado.
Daniel amava demais aquele menino. Não havia um momento em que Johnata não o fizesse sorrir.
— Tudo bem, então. Pompéia — Disse Daniel por fim. — E agora, vamos aprender?
O menino pulou de alegria.
— Eh, vamos!
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