Daniel tomou um gole do chá, divertindo-se com as histórias de Maria sobre Aline e seu irmão mais novo.
Já era a hora do chá da tarde. Eles haviam almoçado e passado o tempo se conhecendo melhor, falando sobre outras coisas da vida. Como eles iriam passar a noite naquela casa, Daniel decidiu relaxar um pouco mais e aproveitar o momento.
Maria havia saído às compras com Johnata, mas manteve segredo o que iria contar até o chá da tarde, mas isso não afetou o menino que parecia enérgico com tudo e com todos, como sempre. Tanto Maria, quanto Ana, a neta, haviam sido cativadas pelo menino.
A casa de Maria tinha duas salas que mantinha o branco como cor predominante: a sala de estar, ou sala de visitas, onde tinha uma grande mesa redonda num dos cantos; e logo ao lado havia uma sala bem menor e bem mais modesta que era chamada por elas de "sala de leitura", apesar de não haver nenhum livro lá.
Fábio estava fumando na varanda, Maria estava sentada no sofá da sala de estar com Johnata e Ana, enquanto Daniel estava na sala de leitura ao lado, ouvindo as histórias da senhora, rindo de todos os momentos em que ela falava sobre as artimanhas de Aline quando era pequena.
Johnata desatou a rir, divertindo-se com os relatos.
— Pelo visto, a mamãe não era fácil — O menino comentou.
Da varanda, Fábio também sorriu e deu mais uma tragada no cigarro.
Daniel encostou os braços na altura das coxas, segurando a xícara de chá, e sorriu ao constatar que estivera um pouco errado sobre Aline. Ele havia dito para Johnata que a mãe era calma e tranquila, mas jamais havia imaginado que sua mulher fosse arteira quando pequena. Agora ele sabia de quem Johnata havia puxado toda aquela energia.
— Ela não era arteira para atormentar o próximo, mas simplesmente porque ela era assim — Maria disse em meio a doces lembranças de sua menininha. — Ela tinha muita energia, igual a você — Olhou para Johnata.
Daniel continuou com o sorriso bobo no rosto. Johnata sorriu para Maria e Ana.
— Já pensou se eu pudesse conhecer a mamãe pequena?
— Ah, mas está casa já estaria de cabeça para baixo — Maria disse e os outros riram.
Ana ajeitou-se no sofá e olhou para o menino a seu lado.
— Sua mãe devia ter sido uma pessoa bem legal. Eu gostaria de conhecê-la.
— Gostaria, não. Adoraria — Maria falou. — Aline era simplesmente encantadora.
Ana sorriu e olhou de soslaio para a sala de leitura ao lado.
— Luquinha também era um amor de pessoa. Sinto saudade do meu menininho, ainda porque não pude ficar com ele por muito tempo — Maria disse com a voz chorosa, refletindo sua tristeza.
— O que houve com ele? — Johnata perguntou curioso.
— Infelizmente, tive que terminar meu trabalho como babá assim que Lucas ficou mais velho. É claro que meu trabalho como babá da senhorita Aline havia terminado há muito tempo, mas ela ainda era criança quando Lucas nasceu, então pude ficar por mais tempo trabalhando para a família. — Os olhos de Maria ficaram marejados. — E logo um tempo depois, soube que o meu menininho estava prestes a morrer.
Johnata a fitou, espantado.
Houve um silêncio nos dois ambientes. Fábio deu uma última tragada no cigarro e amassou o que restara na mureta da sacada, os olhos tristes voltados ao longe.
— Ele morreu? — Perguntou o menino.
Maria deu de ombros.
— Eu não sei — ela respondeu. — Eu nunca mais soube nada deles.
Ana acariciou o braço da avó numa tentativa de consolá-la.
— Não fique triste, vovó — Disse a neta.
— Não se preocupe, dona Maria — Fábio disse ao adentrar a sala. — Lucas se recuperou da doença e conseguiu se salvar.
Maria juntou as duas mãos num gesto de oração.
— Graças a Deus — A senhora agradeceu. — Eu não aguentaria um dia saber que o meu menininho morreu.
— Por que ele morreria? — Johnata questionou. — Pegou muita chuva e ficou doente?
Nenhum adulto lhe respondeu e o silêncio de outrora havia voltado, deixando Johnata confuso. Apenas Maria o fitou e esboçou um triste sorriso.
— Não tente entender nada agora, meu filho — Ouviu-se a voz de Daniel. — Mais tarde papai te esclarece esse assunto com mais calma.
Ana enrubesceu envergonhada ao notar a presença de Daniel.
Johnata continuou a encará-los sem entender.
Do clima leve e descontraído que outrora estava no recinto, agora tinha sido substituído por sentimentos de saudade e tristeza. E, claro, para Johnata, dúvidas sobre um assunto inacabado.
— Quer mais chá, meu querido? — Maria perguntou a Daniel.
Daniel sorriu agradecido.
— Não, obrigado, dona Maria. Onde eu coloco? — perguntou indicando o conjunto de xícara que segurava.
— Oh, não se preocupe — Maria falou e olhou para a neta que andou sem jeito na direção de Daniel.
Ana mal encarava o homem à sua frente, as mãos tremendo ao pegar o conjunto das mãos dele, quase deixando os objetos de porcelana caírem no chão.
— O que houve com você, minha filha? — Maria interrogou olhando para a neta do sofá. — Nunca vi você sendo tão desastrada.
A jovem segurou o conjunto contra o peito e murmurou um pedido de desculpas antes de se retirar do recinto rumo à cozinha. Fábio sorriu por algum motivo que só ele sabia.
— Conseguiu relaxar um pouco? — Perguntou Maria a Daniel.
Daniel assentiu satisfeito, embora seus olhos refletissem algum tipo de tristeza pelo assunto de outrora.
— Sim, a sala é muito bonita e aconchegante — respondeu.
— Obrigada — Maria agradeceu.
Daniel percebeu que Johnata parecia confuso e perdido e andou para onde o filho estava, sentando-se a seu lado.
— O que houve? — Ele perguntou e acariciou o cabelo da criança.
— Nada — o menino respondeu e olhou para o pai. — Você vai me contar o que aconteceu?
Daniel sabia a que o filho se referia e sorriu ainda acariciando a cabeça do pequeno.
— Não agora — respondeu. — Mais tarde.
Maria ergueu-se com um pouco de dificuldade do sofá, mas conseguiu manter-se de pé antes que Fábio viesse lhe ajudar.
— Bem, vou adiantar o jantar junto de minha neta. Se vocês quiserem ver televisão, o controle está ali. — Apontou para uma das prateleiras da estante. — E qualquer coisa que quiserem, é só me chamar.
— Quer ajuda, dona Maria? — Fábio perguntou vendo a senhora andar a passos calculados na direção da cozinha.
Maria sorriu agradecida para o amigo e ex-colega de trabalho.
— Não precisa. Descanse um pouco.
Fábio achou que seria tolice "descansar um pouco", pois ele já havia feito isso. Apenas assentiu compreendendo e sentou-se no sofá ao lado de Daniel e Johnata.
— E então?
— Então o que? — Daniel perguntou de volta.
— Por que ficou trancado na sala de leitura e não se juntou a todos aqui?
Daniel suspirou levemente.
— Eu precisava colocar os pensamentos em ordem. Dona Maria compreendeu e respeitou meu espaço. Além disso — Sorriu. —, não me tranquei, pois a porta estava aberta.
Johnata achegou-se para mais perto do pai e encostou a cabeça no peito de Daniel.
— O que foi? — Daniel murmurou para o filho. — Está cansado?
O menino fez que não.
— Não muito — respondeu, os olhos fechados.
Daniel sorriu e beijou o topo da cabeça de Johnata, acariciando os fios de cabelo do filho.
— Parece que alguém gostou de você — Disse Fábio esboçando um sorriso.
Daniel o fitou sem entender.
— Quem? — perguntou. Fábio fez um gesto com a cabeça apontando na direção da cozinha. — Dona Maria?
— Não se faça de idiota. — Fábio suspirou impaciente, mas ainda sorrindo.
— Ah — Daniel pareceu compreender finalmente sobre quem Fábio estava se referindo. — E como você sabe?
— Notei como ela fica vermelha sempre que olha para você — Fábio disse em tom baixo por causa de Johnata. — E também percebi que a todo momento ela olhava para onde você estava, a sala de leitura.
Daniel assentiu.
— Que bom. É bom quando alguém gosta da gente — disse indiferente.
— É só isso o que tem a dizer? — Fábio perguntou.
Daniel o encarou sério.
— E o que você quer que eu diga? Você sabe que eu amo a Aline, e nunca haverá espaço em meu coração para nenhuma mulher que não seja ela. Você acha que não têm mulheres que gostam de mim onde eu moro? Eu noto os olhares delas sobre mim quase todos os dias e sei que essas mulheres me desejam. Mas, infelizmente para elas e para qualquer outra mulher que eu ainda vá conhecer, eu pertenço a Aline e ela me pertence.
Fábio piscou surpreso. Daniel estava visivelmente irritado.
Daniel engoliu em seco e se pôs em silêncio por um breve momento.
— Parece ser estranho eu dizer que ela me pertence, sendo que nesse momento ela está em algum lugar vivendo outra vida com um outro alguém — Daniel disse sentindo uma pontada no coração ao imaginá-la com outro homem que não fosse ele. — Mas eu a amo, e graças a você poderei encontrá-la novamente. Ela é tudo o que quero e tudo o que preciso.
Fábio assentiu pensativo e sorriu.
— Eu entendo — Disse o homem mais velho. — Aquilo que eu disse só foi um comentário que fiz por algo que vi. Não foi meu intuito te ofender.
Daniel suspirou mais calmo e fitou o amigo.
— Tudo bem, não se preocupe. Acho que me excedi um pouco.
O sorriso de Fábio se expandiu.
— E eu pensando que você só era frio e reservado... Parece que você é bem irritadiço também.
Daniel sorriu finalmente.
— Sim, mas é raro. Não me irrito com frequência. — Mais uma vez ele olhou para Fábio. — Me desculpe.
— Não precisa se desculpar. — Fábio olhou para baixo, notando que Johnata já havia adormecido no peito do pai. — Isso é porque ele não estava cansado.
Daniel olhou para o filho dormindo com a boca aberta, babando quase toda sua blusa. Sorriu e mais uma vez beijou o topo da cabeça de seu menino.
— Bem, parece que ele não tem energia infinita — Daniel comentou.
◇
Anoiteceu e o tempo passou rápido. Todos jantaram, conversaram mais um pouco e tomaram mais um pouco de chá antes de irem para a cama, como era o costume de Maria e de sua neta. Fábio e Daniel também ajudaram com alguns simples afazeres de casa.
Daniel agradeceu silenciosamente por seu coração estar um pouco mais aliviado em relação à busca por Aline. Ele queria voltar a encontrá-la, mais do que qualquer cousa que já tenha almejado, com todas as suas forças. Mas agora sentia-se mais tranquilo, tanto por conta do lugar acolhedor, quanto pela gentileza de Maria e de sua neta.
— Durma — Daniel falou ao filho e beijou-lhe a testa num gesto carinhoso e paternal.
Na casa haviam dois quartos: um para Maria e outro para Ana. Johnata havia sido convidado para dormir com uma das duas, enquanto os homens dormiram num colchão colocado na sala. Contudo, como o menino era muito apegado ao pai, quis se juntar a eles.
Johnata sorriu e fechou os olhos, virando o corpo para o lado.
A única luz que preenchia o ambiente vinha de um pequeno abajur ao lado da estante. Fábio estava fumando novamente na sacada da varanda e Maria estava sentada no sofá que agora estava mais afastado para trás por conta do colchão estendido.
— Você é um ótimo pai — Maria comentou olhando sorridente para o pequeno menino que já havia conquistado seu coração.
Daniel sorriu agradecido e também sentou-se no sofá.
— Obrigado — ele agradeceu.
— Está mais calmo agora? — Ela indagou.
Daniel fez que sim.
— Sinto que agora posso pensar com mais clareza.
Maria assentiu pensativa.
— Johnata nasceu no hospital do vilarejo onde você mora ou na cidade? — Ela perguntou.
Daniel sorriu.
— Não houve hospital — disse ele.
Maria o fitou sem entender.
— Não houve? — perguntou confusa.
— Eu fiz o parto e trouxe meu filho ao mundo — Daniel respondeu à senhora que agora o encarava com surpresa e incredulidade. — Não daria tempo de levá-la ao hospital e, além disso, não queria ficar sem ela.
— Se ela tivesse o filho de vocês no hospital, a família dela saberia, certo?
— Não só isso — Daniel respondeu pensativo. — Ela e nosso filho ficariam muito tempo longe de mim, e não era o que eu pretendia. Sei que parece ter sido um ato irresponsável de minha parte, visto que não sou nenhum médico. Mas foi o melhor que eu pude fazer se tratando do nascimento do meu filho.
Maria observou Daniel olhar para Johnata dormindo. Era um olhar de carinho, amor. Aquele menino era a vida do pai e tudo o que ele tinha no momento.
Ela sorriu.
— Não se preocupe, não o estou julgando. — Maria levantou-se do sofá. Estava tarde e ela também iria para a cama. — Mas fico imaginando como deve ter sido difícil e complicado para você essa nova experiência.
Daniel sorriu ao lembrar.
— Digamos que fiquei com muito medo — disse ele.
— Imagino. Boa noite, Daniel.
— Boa noite, dona Maria. Durma bem.
Maria inclinou a cabeça na direção da varanda onde Fábio estava, apesar de não poder vê-lo.
— Boa noite, Fábio — Ela falou para o amigo.
— Opa. — Houve uma breve pausa. — Boa noite, dona Maria.
Maria caminhou em seu próprio ritmo em direção a seu quarto.
Daniel não queria demorar a se deitar, ainda teria que tomar banho primeiro. Mas ele não poderia ir agora quando pensamentos tomavam conta de sua mente. Apenas ficou ali, sentado e pensativo, deixando sua mente vagar por doces e maravilhosas lembranças.
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