domingo, 12 de abril de 2020

Eternidade - capítulo 13


Maria olhou para os dois homens e para a criança. Algo devia estar errado. Um filho?

Daniel pensou em responder, mas Fábio tomou a dianteira.

— Dona Maria, viemos aqui para falar sobre a senhorita Aline e obtermos a sua ajuda. Isso tudo pode ser esclarecido com mais calma — Fábio disse notando o semblante assustado e surpreso de Maria com a atenção voltada para Daniel e o menino.

Maria demorou-se um pouco a voltar sua atenção para Fábio.

— Não entendo o que quer dizer, mas entrem, por favor. — Ela foi até a porta de entrada e abriu mais espaço para que a criança e os dois adultos pudessem entrar. — Parece que temos muito o que conversar.

— Realmente, o sorriso ele é muito parecido com o da mãe — Maria comentou observando o pequeno Johnata devorar os biscoitos.

Todos se encontravam à mesa redonda enfeitada por uma bela toalha feita de crochê, exceto a jovem que servia biscoitos e chá para os adultos e leite quente para o menino.

— Parece loucura saber que a minha menininha tornou-se mãe — Maria disse ainda sem acreditar. — E mais loucura ainda saber que mãe e filho nem mesmo convivem juntos.

Daniel suspirou pensativo e tomou um gole de chá.

— Deve ter sido difícil para você, não é? — Maria perguntou a Daniel. — Cuidar do filho sozinho.

Daniel deu um meio sorriso.

— Não foi tão difícil assim, apesar e eu não ter experiência alguma. O que foi mais difícil mesmo, e ainda é, foi ter visto ela ir embora e eu não poder fazer nada para impedir. — Daniel engoliu em seco tentando controlar suas emoções.

Maria assentiu pensativa.

— Dois jovens tão apaixonados terem que se separar me parece muito triste. Bem diferente dos pais dela, que se separaram depois de tantas brigas e a deixaram comigo para eu cuidar — Maria disse apontando para a jovem neta que carregava mais biscoitos para Johanata numa travessa de madeira.

Todos olharam para ela, mas a jovem só enrubesceu ao fitar Daniel.

Maria suspirou profundamente enquanto a jovem servia os biscoitos para o menino que apreciou. A jovem recolheu a travessa e mais uma vez olhou enrubescida para Daniel e saiu rumo à cozinha.

— Mas, e então? Vocês estão indo atrás dela?

— Sim — Fábio respondeu. — E precisamos da ajuda da senhora para isso. Não sabemos onde ela deve estar, mas talvez a senhora tenha alguma ideia do paradeiro dela.

Maria meneou a cabeça e olhou com compaixão para pai e filho que ainda mantinham a esperança nos olhares cautelosos.

— Eu sinto muito, mas também não sei onde a senhorita Aline deve estar. Assim como Fábio, não sei do paradeiro dela ou da família — Disse lamentando-se. — Eu realmente queria poder ajudar, mas não sei como. Me perdoem.

Daniel assentiu vagamente, os olhos perdidos no vazio e suspirou pesadamente.

Fábio olhou para o jovem e sentiu compaixão. Era certo que eles continuariam a jornada em busca de Aline, mas vê-lo assim era triste. Daniel não podia sentir-se desesperado, pois eles continuariam à procura dela, mas também sabia que o jovem já estava sentindo-se sem esperança, visto que passara anos sem ela.

Johnata olhou para os adultos, a boca cheia de biscoitos.

— A senhora não precisa pedir perdão, dona Maria. Eu é que peço perdão por colocar falsas expectativas em cima da senhora — Daniel disse e levantou-se da cadeira.

Fábio olhou para ele.

— Aonde você vai?

— Vou lá fora tomar um ar — Daniel respondeu sem nem ao menos olhar para eles e andou porta afora.

Os olhos dos três se demoraram na porta fechada e Maria suspirou frustrada.

— Ele deve estar arrasado — Ela disse.

Johnata terminou de comer e olhou para os dois adultos.

— O papai é forte, ele vai ficar bem — Disse o menino. — Fábio disse que vamos visitar várias pessoas que conheceram a mamãe, e a senhora é a primeira, então ainda temos um longo caminho pela frente até encontrarmos a mamãe.

Maria esboçou um pequeno sorriso.

— Seu pai parece ser um homem forte, mas frágil e vulnerável quando se trata de sua mãe — Disse a senhora. — Ele devia tê-la amado muito.

— Ele ainda é louco por ela, dona Maria — Fábio disse. — Mas Johnata tem razão, temos um longo caminho pela frente.

Maria sorriu para o menino.

— Verdade. Aliás, você fala tão bonito. Quem te ensinou a se expressar desse jeito?

— O papai — o menino respondeu naturalmente. — Ele me deixa brincar e me ensina andar a cavalo. Mas também me coloca para ler livros.

— Livros infantis? — Maria indagou.

— Também — o menino respondeu. — E também leio na escola.

Maria assentiu.

— Você é um menino de cinco anos, mas já fala como um homem adulto. Continue lendo e estudando como o papai e a escola ensinam que você terá um ótimo futuro pela frente.

— Eu já sou um homem — disse Johnata pegando mais biscoitos. — Pequeno, mas sou.

Maria e Fábio sorriram achando graça.

— Johnata é uma mistura perfeita dos pais, dona Maria — Fábio comentou. — Ele tem o jeito alegre e bondoso da mãe e o jeito calculista e maduro do pai.

Maria olhou carinhosamente para a criança.

— Ele me lembra tanto Aline e Luquinhas... Que saudade — Disse, a voz embargada refletindo tristeza e lembranças.

Johnata tomou um gole de leite e olhou para Maria.

— Como a mamãe era?

Maria piscou surpresa com a pergunta.

— Como ela era? — Perguntou confusa. — Você não sabe?

— Dona Maria, a senhorita Aline só ficou com ele por dois meses depois que Johnata nasceu. Ele não conhece a mãe — Fábio explicou.

Maria continuou sem entender e olhou brevemente para Johnata.

— Sim, mas nem mesmo uma foto dela eles têm?

Johnata fez que não.

— Não — O menino respondeu. — Não temos. Eu queria tanto ter conhecido a mamãe...

Maria olhou com compaixão para o menino, mas uma ideia lhe veio à mente.

— Johnata, por que você não fica aqui um pouco? Acredito que as fotos que eu tinha de sua mãe e de Luquinhas estão na outra casa onde eu morava com a minha neta, e ainda estamos em processo de mudança para cá, então, não vou poder te mostrar as fotos dela por enquanto. Mas eu posso te contar algumas coisas que lembro sobre ela, que tal? — Fábio e Johnata a fitaram surpresos, Maria olhou para Fábio. — Fiquem aqui para o almoço. Mais tarde vocês poderão ir, ou amanhã mesmo, se quiserem.

Fábio ficou indeciso.

— Não sei se é uma boa ideia, dona Maria. Como a senhora não tem muitas informações sobre o paradeiro da senhorita Aline e da família, terei que ir atrás de outras pessoas, e a viagem será longa. Além disso, Johnata está faltando aula, e quanto mais cedo resolvermos essa questão, mais cedo eles voltam para casa.

— Eu sei. Mas, de qualquer forma, vocês teriam de almoçar na rua e procurar algum lugar para descansar, então daria no mesmo — Maria insistiu. — Vamos, descansem um pouco e amanhã vocês voltam à estrada. — A senhora levantou-se da cadeira. — Quer mais biscoitos, Johnata?

O menino fez que não.

— Eu gostaria de um copo d'água, por favor. — Johnata olhou para Fábio. — Vamos ficar um pouquinho. Eu quero muito saber o que ela vai contar sobre a mamãe.

Fábio fitou os olhos suplicante do menino e sorriu convencido pelos dois.

— Tudo bem — Ele falou por fim e também levantou-se da cadeira. — Vou lá fora falar com o seu pai.

Johnata sorriu triunfante.



Aline suspirou satisfeita e deliciada ao sentir seu amado acariciar a barriga protuberante.

— As contrações diminuíram? — Perguntou Daniel dando o seu melhor para acalmar a amada.

Aline assentiu, apesar das dores ainda estarem presentes.

— Sim, graças a você — ela respondeu.

Daniel sorriu ao olhar admirado para a barriga muito grande e para os olhos cerrados de Aline enquanto ela mantinha a respiração pesada e pausada.

Metade do corpo dela estava deitado na areia enquanto sua cabeça estava apoiada entre o peito e o braço e Daniel. A praia estava deserta e, além do mar límpido, o pôr-do-sol ao longe deixava a paisagem e o clima muito mais perfeitos. As respirações de Aline misturavam-se com os sons das ondas e dos grandes pássaros que sobrevoavam a praia.

Aquele lugar paradisíaco ficava longe de onde Daniel morava, mas ele levou Aline para conhecer outros cantos. Aconteceu, por acaso, do corpo dela estar pronto para a chegada do filho deles. Mas Daniel não entrou em desespero, manteve-se calmo e pronto para fazer algo que nunca havia feito na vida. Além de ter dado a vida, faria seu filho vir ao mundo.

Aline abriu os olhos e sorriu ao ver o homem que amava admirando-a orgulhoso.

— Sabe o que eu acho? — Ela perguntou, a voz suave.

— Hum? — Daniel prestou atenção, enamorado por ela.

— Que o nosso filho será igualzinho a você.

As sobrancelhas de Daniel se arquearam em surpresa e ele sorriu.

— Como você sabe? — Ele indagou.

— Instinto de mãe — Aline respondeu dando de ombros e passou a mão feminina por cima da mão de Daniel que acariciava o enorme ventre pronto para dar a luz.

O sorriso de Daniel aumentou e ele beijou o topo da cabeça de sua mulher.

— Sabe o que eu também acho? — Ele perguntou após um breve momento.

— O que?

— Que ele terá o seu lindo sorriso.

Ambos sorriram satisfeitos e apaixonados.

— Instinto paterno? — Ela indagou.

— Pode se dizer que sim — ele respondeu.

Aline suspirou puxando o ar puro da brisa praiana para seus pulmões e aconchegou-se mais ao corpo firme de Daniel. Ele beijou a face da mulher que tanto amava e ambos continuaram assim, sentados na areia, os olhos fechados e pacientes, absorvendo o vento fresco e esperando a breve chegada do bebê deles.



Daniel absorveu a brisa do vento no rosto, os braços apoiados na sacada da varanda.

O lugar onde Maria morava era bonito e aconchegante, embora fosse um meio termo entre a cidade e o campo.

Daniel suspirou profundamente.

Ele não podia se dar por vencido. Quando Fábio dissera que a viagem seria longa, era porque, de fato, eles visitariam vários outros lugares e pessoas até encontrarem Aline. Sua mente dizia-lhe isso, mas seu coração batia freneticamente em desespero por vê-la, beijá-la, amá-la e nunca mais deixá-la ir embora.

Ele teria que se acalmar, colocar a mente no lugar e, assim, pensar de modo mais racional, ainda que a ansiedade o consumisse por inteiro.

A porta da varanda se abriu e Daniel virou-se para ver quem era. Fábio estava ali parado.

— Fábio?

— Está tudo bem ou ainda quer ficar um pouco sozinho? — Fábio perguntou.

Daniel suspirou, as batidas do coração mais calmas que outrora. Já estava sentindo-se mais calmo.

— Está tudo bem — Respondeu. — Apenas precisava de ar.

— Eu sei — Fábio assentiu compreendendo. — Tive uma conversa com dona Maria.

Daniel piscou atento.

— Ela pediu para que possamos passar a noite aqui e voltamos à estrada amanhã. — Fábio disse ainda na porta. — Ela foi bem insistente.

Daniel olhou surpreso para Fábio, mas não se opôs.

Passar um dia lá não seria um atraso e também faria bem a Johnata. A senhora parecia ter gostado do menino e a criança merecia esse descanso. Apenas teria que deixar de ser tão ansioso e manter acesa a chama da esperança que ainda tinha.

— O que você sugere? — Fábio perguntou.

— Vamos acatar o pedido dela, então — Disse Daniel por fim. — E amanhã cedo partimos.

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