Ambos estavam nus, um de frente para o outro, deitados em cima do tapete que ficava em frente à modesta lareira da sala. Era noite e a única luz que preenchia o ambiente era o fogo crepitante que vinha da lareira, iluminando parte do corpo forte dele e do ventre muito grávido dela. Aline encontrava-se perto do fim da gravidez, a barriga já estava bem protuberante, mas ela não tinha muitos enjoos ou outros sintomas ruins da gravidez - isso não era um problema. O maior problema era, e continuaria sendo, sequer pensar em se separar de Daniel. Ela não estava preparada para partir e deixá-lo - ou melhor, deixá-los, visto que estava perto de ganhar a criança e ninguém de sua família poderia descobrir que ela havia engravidado de Daniel. Nem mesmo ele...
Saber que teria um filho seu e de Daniel à caminho só machucava ainda mais seu coração em imaginar-se longe de sua criança, sem poder tê-lo em seus braços, amamentá-lo e dar-lhe todo o amor que já sentia desde o descobrimento da gravidez.
Seu corpo todo tremeu em angústia e medo ao pensar que teria que partir e ficar longe dos maiores amores de sua vida, as duas metades de seu coração.
Daniel notou o arrepio que percorreu toda a pele nua e suave de Aline e acariciou-lhe um dos braços numa tentativa de aquecer-lhe o corpo.
— Com frio? — Ele perguntou. — Quer que eu ponha mais lenha na fogueira?
Aline meneou a cabeça. Não seria preciso, pois o frio que sentia vinha de dentro.
— Não é nada — Ela murmurou, a voz suave.
Daniel, então, percebeu o que havia e soube que a resposta que ela dera não tinha sido verdadeira. Aline estava sofrendo, e muito. Ele também estava, mas do que adiantaria ficar chorando e se lamentando? Ele tinha de ser forte para consolá-la e para tentar seguir em frente dali a dois meses que ainda os restavam.
Ele olhou para a barriga protuberante e sorriu orgulhoso.
Seu filho logo estaria à caminho, o fruto de incansáveis dias e noites de puro desejo, amor e paixão. Como ele era louco por ela, e aquela gravidez alimentava ainda mais o amor que sentia.
Daniel passou a mão pela pele lisa e macia onde seu filho ainda residia e acariciou a barriga de Aline como uma reverência, por ela e pelo bebê. O coração de Aline se aqueceu ao sentir-se tão amada.
Daniel fitou a mulher de sua vida.
— Obrigado por isso — Ele disse, os olhos brilhantes e sorridentes.
Aline suspirou apaixonada e aconchegou-se para mais perto de seu amor que a abraçou com satisfação.
— Eu que agradeço — Ela disse. — Por me fazer tão feliz, mesmo com o que está acontecendo com a gente. Por me dar esse bebê...
A voz de Aline havia falhado e Daniel percebeu que ela estava tentando se conter para não ceder ao desespero e a tristeza, como das outras vezes. Ele sorriu num gesto para tentar acalmá-la e beijou-lhe a fronte.
— Não chore. Tudo vai ficar bem — Ele assegurou. — Vamos ter fé.
Aline assentiu, apesar de "fé" ser algo que não sentia há muito tempo. Sua família estava falida, seu irmão estava doente, e dali a poucos meses teria que se separar do único homem que amou e do filho deles. Como, afinal, ela teria fé? E se Deus, de fato, existia, por que ele permitia tanto sofrimento?
Mas não contestaria Daniel. Apenas apreciaria aquele momento maravilhoso ao lado de seu amado — um dos últimos momentos que restavam-lhe junto dele.
Mas não contestaria Daniel. Apenas apreciaria aquele momento maravilhoso ao lado de seu amado — um dos últimos momentos que restavam-lhe junto dele.
◇
O coração de Daniel começou a bater mais forte quando Fábio estacionou em frente à uma casa modesta, mas bem cuidada. A busca por Aline havia sido iniciada para valer desta vez e ele já estava criando bastante expectativas baseadas na confiança que havia adquirido em Fábio.
O lugar não era na cidade grande, mas também não era como o vilarejo onde morava, mais parecia um subúrbio pacato. A família de Aline tinha dinheiro, então o que eles teriam feito naquele lugar?
Os três saíram do carro e Daniel deu a mão a Johnata, notando que o menino parecia estar tão esperançoso quanto ele. Fábio tomou à frente, subiu alguns degraus que levavam a uma pequena varanda e bateu na porta de madeira envernizada. Não houve nem dois minutos de espera, o que pareceu rápido, menos para Daniel; ele sentia seu coração bater freneticamente pela expectativa de voltar a ver o seu amor, o suor invadindo-lhe o corpo tenso.
Fábio voltou sua atenção a Daniel e sentiu necessidade de responder a pergunta silenciosa feita pelos olhos confusos e pensamentos em dúvida.
— Esta é a casa de dona Maria. Ela foi babá da senhorita Aline e, depois, do Lucas — Disse. — Talvez ela saiba onde a família da senhorita Aline possa estar.
Daniel assentiu compreendendo.
A porta se abriu e apareceu uma bela jovem que ainda parecia estar na adolescência. Ela os fitou, os olhos em questionamento.
— Pois não? — Ela perguntou.
— Boa tarde. Dona Maria está? — Fábio perguntou em resposta.
— É a minha avó — disse a garota. — Ela está ocupada. O que desejam?
— Estamos aqui para saber o paradeiro da senhorita Aline — Fábio respondeu. — Eu gostaria de saber disso pela senhora sua avó.
— Aline? — a jovem perguntou sem entender e olhou para trás enquanto segurava a porta. — Vó, querem falar com a senhora.
Um breve silêncio ocorreu entre eles até Maria aparecer a passos lentos na entrada. Já era uma senhora de idade avançada e percebia-se que ela dependia da neta para ajudá-la.
A senhora olhou sem entender para Daniel e Johnata, mas seu rosto se iluminou ao avistar Fábio.
— Fábio, você aqui! — Maria o cumprimentou e saiu de trás da porta para dar-lhe um abraço caloroso. — Há quanto tempo!
Fábio sorriu e a abraçou apertado.
— Senti saudade, dona Maria — Fábio falou e carinhosamente desvenciliou-se do abraço. — Estes são Daniel e Johnata — disse indicando o rapaz e a criança a seu lado.
Maria olhou para os dois, analisando-os.
— São pai e filho, com certeza — Disse ela e olhou para Johnata. — Este menino é a cara dele.
Daniel sorriu, mas Johnata continuou impassível, olhando com curiosidade para a mulher idosa.
— Sim, ele é meu filho — Daniel respondeu e estendeu a mão para cumprimentá-la. — Prazer em conhecê-la, dona Maria.
Maria o cumprimentou cordialmente e continuou a analisá-lo.
— Embora você não pareça ser pai. Tem um rosto tão jovial.
— Ele ainda é bem jovem, dona Maria — Fábio falou. — Tem, mais ou menos, vinte e dois anos?
— Vinte e cinco — Daniel corrigiu.
— Então, se tornou pai bem jovem — disse Maria surpresa e tornou a fitar o menino que a encarava curioso.
— Eu tinha vinte anos, senhora — Daniel falou e também olhou para o filho. — Johnata tem cinco anos de idade.
Maria assentiu atenciosa e voltou sua atenção para Fábio.
— Eu pensei que nunca mais veria você. Se já não bastasse toda a família estar longe... — A senhora disse, a voz refletindo toda a sua tristeza.
A família de Aline devia ter sido maravilhosa, Daniel pensou. Dava para ver por Fábio e pela mulher idosa que eles não apenas deviam tratá-los como empregados, mas como membros da família.
— Me perdoe por não ter vindo antes — Fábio disse para a senhora.
— Então, a senhora era mesmo a babá da mamãe? — Irrompeu de repente a voz de Johnata nitidamente aos ouvidos dos adultos.
Daniel olhou para o filho e Maria franziu o cenho sem entender o que aquela criança havia acabado de dizer.
— "Mamãe"? — Ela perguntou completamente atônita. — A senhorita Aline teve um filho?
Nenhum comentário:
Postar um comentário