terça-feira, 24 de março de 2020

Eternidade - capítulo 11



Johnata só pôde ficar por pouco tempo brincando na praça, pois dali eles continuariam a viagem, e já estava anoitecendo.
Fábio continuou seu caminho pela estrada e Johnata terminou por cochilar um pouco após lutar contra o sono, estava cansado após tanto brincar. Daniel pôde relaxar apreciando a paisagem lá de fora iluminada pelo brilho do entardecer. Não importava onde estivesse, o pôr-do-sol era lindo em todo o lugar, deixando até as mais inóspitas das cidades com um brilho especial. A arquitetura divina era, de fato, divina.
Enfim, após tantas horas de viagem com a lua brilhando no céu noturno, Fábio dobrou uma rua e estacionou o carro em frente ao estacionamento de um hotel que ficava perto da estrada principal. Ele, Daniel e Johnata se hospedaram no mesmo quarto onde havia três camas de solteiro. O quarto era modesto, assim como todo hotel de beira de estrada, sem muitos adornos, mas aconchegante.
Fábio pôs sua mala perto do criado-mudo ao lado da cama onde iria dormir, Daniel carregou o filho até a cama do meio, depositando o corpo desacordado do menino. Johnata murmurou algo inaudível e continuou em seu sono.
Havia duas poltronas numa pare mais vazia em frente às três camas e uma televisão de led fincada na parede oposta.
Daniel tirou a mochila pesada e desabou sobre a poltrona, pondo a carga ao lado do corpo cansado. Fábio também se sentou e olhou para o jovem rapaz.
— E aí, muito cansado?
Daniel assentiu, os olhos fechados.
— Não pensei que me cansaria ao viajar sentado.
— Cansa também, e muito — Fábio disse. — Apesar de eu já estar acostumado.
Daniel suspirou e olhou para as estrelas através da grande janela do outro lado.
— Fica se perguntando aonde ela deve estar? — Fábio indagou.
Daniel olhou para ele.
— Sempre me perguntei sobre isso desde quando ela me deixou.
Fábio olhou para o vazio do quarto.
— Também me pergunto isso sobre toda a família. Eles eram pessoas gentis e me tratavam como mais que um funcionário. — Fábio esboçou um leve sorriso. — Principalmente o Luquinha.
— O irmão de Aline? — Daniel perguntou.
Fábio assentiu.
— Ele me tratava como um tio. E adorava ficar passeando de carro comigo.
Daniel sorriu.
— Ele realmente era um garoto legal. Aliás, ele ainda está entre nós? — Daniel perguntou com evidente interesse e preocupação.
— Sim — Fábio respondeu. — Graças a Deus ele conseguiu se salvar.
Daniel assentiu e suspirou em alívio.
Jamais teria imaginado antes que o pequeno e encantador Lucas se tornaria o maior pivô de seu rompimento com Aline.
— Seu filho lembra um pouco a ele — Fábio comentou.
Daniel encarou Fábio e sorriu achando graça.
— Achei que Johnata fosse uma miniatura minha — disse ao relembrar as palavras anteriores de Fábio.
— Sim, ele se parece muito com você — Fábio concordou. — Mas consigo ver um pouco do pequeno Lucas em Johnata. — Fábio deu de ombros. — Ambos têm o mesmo encanto.
Daniel esboçou um pequeno sorriso.
— Você tem razão — concordou. — Os dois irmãos eram encantadores, mas não pude conhecê-lo melhor. Mas é bom saber que ele se recuperou.
— Vejo a forma como você trata e educa Johnata — Fábio analisou. — Parece que você nasceu para a paternidade.
Daniel sorriu agradecido.
— Faço o melhor que posso todos os dias, aprendendo e dando tudo de mim para que ele me veja como um bom pai. Apesar de amar meu filho e querer que ele sempre tenha o melhor da vida, não o mimo de modo algum. — Daniel observou seu pequeno filho envolto num sono profundo. — Não quero que ele cresça sendo um mimado, mas alguém com princípios.
Fábio assentiu pensativo.
— Foi estranho e difícil, não foi?  Daniel olhou para Fábio sem entender a que ele se referia. — Vocês ficarem juntos apenas durante um ano, e nesse meio tempo, ela descobrir que estava grávida — Fábio completou.
Daniel ponderou.
— Foi uma grande surpresa. Nos sentimos perdidos por não sabermos o que fazer perante a situação, mas ao mesmo tempo, abençoados e felizes por ter um fruto do nosso amor à caminho — disse em meio a lembranças.
— E como ela reagiu?
Daniel esboçou um sorriso afetado.
— Chorando — respondeu. — Como sempre.
Fábio o encarou sem entender.
— Na maior parte do tempo ela chorava — Daniel respondeu a pergunta silenciosa. — Chorava de felicidade por estar comigo — e posteriormente por saber que estava carregando um filho meu — e também chorava de tristeza por saber que em algum momento iríamos nos separar.
Fábio assentiu ponderando.
O relacionamento dos dois tivera um término muito brusco e, infelizmente, teve que presenciar aquele amargo momento da vida sem poder fazer nada.
— E você, como reagiu? — Fábio perguntou após um momento.
— Feliz — Daniel respondeu. — Perdido, confuso e sem saber o que fazer, mas muito feliz por saber que me tornaria pai. E se quer saber se eu chorei, não, eu não chorei. — Sorriu.
— "Homem não chora"? — Fábio provocou.
— Não é isso. Eu apenas era um pouco frio demais, não era esse cara sensível que sou hoje em dia. O que me fez ser do jeito que sou hoje foi o amor de Aline e o nascimento de Johnata. Até mesmo tiveram vezes em que perdi a paciência com ela para que não chorasse tanto. — Daniel sorriu mais de tristeza do que por qualquer outro motivo. — Sim, eu fui idiota.
Fábio o analisou por um momento.
— Você não foi idiota, apenas estava tentando controlar o desespero que estava sentindo em imaginar se separar dela. Afinal, vocês tinham e ainda têm personalidades diferentes.
Daniel engoliu em seco e sentiu seu coração bater mais forte ao lembrar-se de seu amor. A amava muito.
Fábio levantou-se da poltrona e andou até onde estava sua mala.
— Bem, vou tomar banho — Disse e Daniel assentiu, saindo de seus pensamentos. — Espero que algum dia eu seja para meu filho, pelo menos, cinquenta porcento do pai que você é para Johnata.
Daniel sorriu um pouco sem jeito e olhou para o filho dormindo enquanto Fábio saía do aposento rumo ao banheiro ao lado com sua mala de mão.
Sim, um bom pai. Sentia orgulho do que havia feito até ali pelo filho. Agora só faltaria cumprir-lhe a promessa de fazê-lo conhecer a mãe.
Você tem certeza? — Daniel perguntou com a voz demonstrando espanto e, ao mesmo tempo, surpresa e descrença.
Uma das mãos dele estava apoiada sobre o ventre dela, ambos sentados de frente ao outro no campo de flores silvestres próximo ao rancho.
Aline suspirou profundamente e fez que sim, os olhos demonstrando o mesmo que Daniel.
— Sim — Respondeu, a voz vacilante. — Eu estou grávida.
O vento da relva correu por seus cabelos, somente as batidas dos dois corações sendo ouvidas em meio a um silêncio perturbador.
— O que vamos fazer? — A voz sussurrada de Aline perguntou para seu amado, toda a sua aflição e ansiedade exposta.
Daniel nada pôde dizer. O susto da notícia o havia deixado atônito, confuso. De certo modo, era um tanto óbvio que aquilo acabaria por acontecer, visto que ele e Aline eram apaixonados e viciados um no outro. Mas, ainda assim, ele não esperava ouvir aquela notícia.
Eles haviam estado juntos a um mês e nesse tempo ela já havia engravidado, sendo que restariam mais onze meses para ficarem juntos. Não só ele seria abandonado, como o filho que eles esperavam também. Felicidade, confusão e medo foram os sentimentos que passaram por sua mente e seu coração que batia forte pelo misto de emoções positivas e negativas.
Uma lágrima caiu de um dos olhos de Aline ao continuar olhando para seu amado, tentando obter uma resposta que ele não podia lhe dar.
Nada foi dito naquele momento. Apenas o balanço do vento nas flores silvestres ecoou pelo longo silêncio.

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