Já tinha se passado três horas de viagem.
Daniel continuou a olhar para a paisagem que ía e vinha pela janela do carro. Ainda que morasse num lugar parecido, seus olhos pareciam não se cansar de tamanha beleza. Ele jamais se veria em algum lugar diferente - não apenas por ser herança de seus queridos pais, como também o lugar onde conheceu o amor de sua vida e ambos, juntos, deram vida a Johnata.
Daniel olhou para trás e notou que mesmo após três horas de viagem sem parar, o filho ainda parecia cheio de energia e encantado com os lugares que ía conhecendo pela janela do carro. O menino parecia bem e tão esperançoso quanto ele em encontrar Aline.
O coração de Daniel continuava a bater forte. Apenas pensar que poderia encontrá-la o enchia de felicidade.
Fábio continuava a dirigir, sua total atenção voltada para a estrada. Ele parecia obstinado em querer ajudar Daniel e Johnata. Daniel não tivera muitas oportunidades de conhecer Fábio mais a fundo no passado, mas agora percebia que ele era uma boa pessoa, um bom amigo.
- Vamos parar no próximo posto de gasolina - Fábio falou. - Tenho que colocar mais combustível no carro e podemos parar para lanchar um pouco. Ao lado do posto tem uma praça para Johnata brincar um pouco.
Daniel olhou para o filho que ouvia interessado.
- Vai querer brincar um pouco na praça? - perguntou ao menino.
Johnata assentiu de imediato.
- Eu quero! - disse cheio de energia.
Daniel sorriu e olhou para Fábio que também sorria.
- Ele gostou da ideia - disse ao homem mais velho.
- Eu sabia que ele iria querer - Fábio deu de ombros.
Manobrando o veículo, Fábio entrou por um caminho que dava para o posto de gasolina e estacionou em frente ao controle de combustível.
- Chegamos.
Ele e Daniel removeram seus cintos de segurança e saíram do carro. Daniel abriu a porta de trás do carro e liberou Johnata do cinto de segurança enquanto Fábio foi atendido por um frentista.
- Papai, a gente vai na praça? - Perguntou o menino olhando ao longe para as outras crianças brincando nos brinquedos enquanto era carregado pelo pai.
Daniel fechou a porta do carro, ainda segurando Johnata no colo.
- Sim - respondeu. - Apenas vamos comprar o que comer e esperar Fábio abastecer o carro.
- Papai, me solte. Já sou um homem e não preciso ser carregado no colo igual a um bebê - reclamou o menino.
Daniel sorriu achando graça.
- Sei, "homem" - Pôs o menino no chão e deu-lhe a mão para segurar.
Fábio foi de encontro aos dois após pagar o abastecimento ao frentista que agradeceu.
- Vocês vão passar no posto de conveniência? - Fábio perguntou.
Daniel assentiu e ergueu a mão indicando que não precisava de contribuição quando Fábio sacou a carteira.
- Não, não precisa. Você pagou o abastecimento, eu pago o lanche.
Fábio ponderou por um breve momento e logo após guardou a carteira no bolso.
- Tudo bem - concordou. - Vou deixar o carro em frente à praça enquanto você compra o lanche.
Daniel assentiu e entrou no posto de conveniência junto ao filho.
◇
Fábio e Daniel estavam sentados relaxadamente no banco observando Johnata brincar alegre com outras crianças. A garrafa de refrigerante estava pela metade, apoiada no chão, e eles já haviam terminado de lanchar, exceto por cada um dos copos dos dois ainda estar com refrigerante. Fábio suspirou satisfeito.
- Seu filho tem uma grande facilidade em se enturmar.
Daniel sorriu olhando para o filho.
- Sim. Ele sabe conquistar as pessoas. Exatamente como a mãe dele - Daniel disse a última frase com o semblante demonstrando um pouco da tristeza que sentia.
Fábio olhou para o homem mais jovem.
- Não fique assim. Apesar de tudo o que aconteceu, vocês poderão se encontrar - disse tentando encontrar algum modo de consolá-lo.
Daniel ficou em silêncio por um breve momento e suspirou profundamente.
- Sim, verdade. Eu creio nisso - disse obstinado, mas tratou e mudar de assunto. - Quem era aquela mulher?
Fábio olhou surpreso para Daniel.
- Um caso complicado - Fábio limitou-se a dizer.
Daniel sorriu.
- Imagino.
- Não é só você e a senhorita Aline que tiveram um romance naquele lugar, eu também tive.
Daniel olhou surpreso para o homem mais velho.
- A diferença é que nosso relacionamento não era bonito e romântico como o de vocês, mas como de cão e gato. Ela não admitia que gostava de mim e nem eu admitia que gostava dela.
- Mas um não vivia sem o outro - Daniel completou.
Fábio sorriu.
- Sim - respondeu. - Ficamos muito tempo longe um do outro, até que eu voltei para aquele lugar por sentir saudades. Senti falta do ambiente tranquilo e acolhedor, de ver você e a senhorita Aline tão apaixonados, da família para qual trabalhei... Mas, acima de tudo, por sentir falta dela.
- Isso foi depois de você ter sido demitido? - Daniel indagou.
- Sim, ano passado - respondeu. - Finalmente admitimos que nos gostávamos e, então, ela ficou grávida.
Daniel arqueou as sobrancelhas.
- Então aquela criança era seu filho?
Fábio fez que sim.
- Sim. Não que eu quisesse abandoná-los, mas tive que ir embora.
- Não entendo. Se vocês se amavam e haviam feito um filho, por que não ficou com ela? - Daniel questionou.
Fábio suspirou profundamente olhando para o vazio.
- Não sou o que ela é meu filho precisam. Não ainda - respondeu. - Ela não exige nada de mim, mas conheço minhas limitações. Sei que sou apenas um ex-chofer com os estudos incompletos e um homem praticamente sem futuro. Quero dar o melhor de mim e ter o suficiente para nada faltar a eles. E sei que vou conseguir.
Daniel assentiu pensativo.
- Então você os visita de vez em quando?
- Sim - Fábio respondeu. - Moro sozinho em outra cidade, trabalho no que me for oferecido - honestamente, é claro - e então junto bom dinheiro e viajo até lá. Também deposito o dinheiro direto na conta dela, mas ela não gosta - Fábio sorriu com a lembrança. - Ela me quer lá.
- Entendo - Daniel assentiu pensativo. - Vocês se amam, têm um filho, mas não podem ficar juntos por enquanto.
Fábio olhou para Daniel.
Podia notar que o jovem rapaz estava comparando as duas histórias. Mas o caso de Daniel era mais triste.
Fábio se pôs em silêncio por um breve instante, pois não sabia o que dizer - não por ele, mas por Daniel.
- Sim - Respondeu.
O vento soprou seus cabelos e assim permaneceram, tomando o resto do refrigerante dos copos e observando Johnata divertir-se com os novos amiguinhos que fizera.
◇
Aline ainda estava com a respiração pesada, Daniel sobre ela, também com a respiração irregular após fazerem amor na cama dele.
Daniel sorriu e acariciou a face da amada, tirando uma mecha de cabelo do rosto suado.
- Me sinto tão bem em você - Ele disse enamorado. - Você é a minha vida, sabia? Pensei que teria que esperar um ano inteiro até poder te ver novamente. E agora você está aqui.
Meio ano antes, Aline havia prometido a ele que quando completasse a maioridade, ela voltaria e ambos ficariam juntos para sempre. Daniel estava se preparando todos os dias para aguentar ficar longe dela durante um ano, como sempre. Contudo, o destino havia lhe sorrido e, então, Aline apareceu de repente, pulando em seus braços.
O semblante de Aline mostrou tristeza, os olhos marejados encarando o homem que amava.
Daniel notou sofrimento no olhar de Aline e a encarou, intrigado.
- Aline? - Ele a chamou, preocupado. - Por que você está assim, meu amor?
Aline engoliu em seco antes de ter coragem de falar.
- Me perdoe por quebrar minha promessa, Daniel. - Uma solitária lágrima desceu pelo canto de sua face. - Nós só poderemos ficar juntos durante um ano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário