domingo, 23 de fevereiro de 2020

Eternidade - capítulo 10



Já tinha se passado três horas de viagem.

Daniel continuou a olhar para a paisagem que ía e vinha pela janela do carro. Ainda que morasse num lugar parecido, seus olhos pareciam não se cansar de tamanha beleza. Ele jamais se veria em algum lugar diferente - não apenas por ser herança de seus queridos pais, como também o lugar onde conheceu o amor de sua vida e ambos, juntos, deram vida a Johnata.

Daniel olhou para trás e notou que mesmo após três horas de viagem sem parar, o filho ainda parecia cheio de energia e encantado com os lugares que ía conhecendo pela janela do carro. O menino parecia bem e tão esperançoso quanto ele em encontrar Aline.

O coração de Daniel continuava a bater forte. Apenas pensar que poderia encontrá-la o enchia de felicidade.

Fábio continuava a dirigir, sua total atenção voltada para a estrada. Ele parecia obstinado em querer ajudar Daniel e Johnata. Daniel não tivera muitas oportunidades de conhecer Fábio mais a fundo no passado, mas agora percebia que ele era uma boa pessoa, um bom amigo.

- Vamos parar no próximo posto de gasolina - Fábio falou. - Tenho que colocar mais combustível no carro e podemos parar para lanchar um pouco. Ao lado do posto tem uma praça para Johnata brincar um pouco.

Daniel olhou para o filho que ouvia interessado.

- Vai querer brincar um pouco na praça? - perguntou ao menino.

Johnata assentiu de imediato.

- Eu quero! - disse cheio de energia.

Daniel sorriu e olhou para Fábio que também sorria.

- Ele gostou da ideia - disse ao homem mais velho.

- Eu sabia que ele iria querer - Fábio deu de ombros.

Manobrando o veículo, Fábio entrou por um caminho que dava para o posto de gasolina e estacionou em frente ao controle de combustível.

- Chegamos.

Ele e Daniel removeram seus cintos de segurança e saíram do carro. Daniel abriu a porta de trás do carro e liberou Johnata do cinto de segurança enquanto Fábio foi atendido por um frentista.

- Papai, a gente vai na praça? - Perguntou o menino olhando ao longe para as outras crianças brincando nos brinquedos enquanto era carregado pelo pai.

Daniel fechou a porta do carro, ainda segurando Johnata no colo.

- Sim - respondeu. - Apenas vamos comprar o que comer e esperar Fábio abastecer o carro.

- Papai, me solte. Já sou um homem e não preciso ser carregado no colo igual a um bebê - reclamou o menino.

Daniel sorriu achando graça.

- Sei, "homem" - Pôs o menino no chão e deu-lhe a mão para segurar.

Fábio foi de encontro aos dois após pagar o abastecimento ao frentista que agradeceu.

- Vocês vão passar no posto de conveniência? - Fábio perguntou.

Daniel assentiu e ergueu a mão indicando que não precisava de contribuição quando Fábio sacou a carteira.

- Não, não precisa. Você pagou o abastecimento, eu pago o lanche.

Fábio ponderou por um breve momento e logo após guardou a carteira no bolso.

- Tudo bem - concordou. - Vou deixar o carro em frente à praça enquanto você compra o lanche.

Daniel assentiu e entrou no posto de conveniência junto ao filho.


Fábio e Daniel estavam sentados relaxadamente no banco observando Johnata brincar alegre com outras crianças. A garrafa de refrigerante estava pela metade, apoiada no chão, e eles já haviam terminado de lanchar, exceto por cada um dos copos dos dois ainda estar com refrigerante. Fábio suspirou satisfeito.

- Seu filho tem uma grande facilidade em se enturmar.

Daniel sorriu olhando para o filho.

- Sim. Ele sabe conquistar as pessoas. Exatamente como a mãe dele - Daniel disse a última frase com o semblante demonstrando um pouco da tristeza que sentia. 

Fábio olhou para o homem mais jovem.

- Não fique assim. Apesar de tudo o que aconteceu, vocês poderão se encontrar - disse tentando encontrar algum modo de consolá-lo.

Daniel ficou em silêncio por um breve momento e suspirou profundamente.

- Sim, verdade. Eu creio nisso - disse obstinado, mas tratou e mudar de assunto. - Quem era aquela mulher?

Fábio olhou surpreso para Daniel.

- Um caso complicado - Fábio limitou-se a dizer.

Daniel sorriu.

- Imagino.

- Não é só você e a senhorita Aline que tiveram um romance naquele lugar, eu também tive.

Daniel olhou surpreso para o homem mais velho.

- A diferença é que nosso relacionamento não era bonito e romântico como o de vocês, mas como de cão e gato. Ela não admitia que gostava de mim e nem eu admitia que gostava dela.

- Mas um não vivia sem o outro - Daniel completou.

Fábio sorriu.

- Sim - respondeu. - Ficamos muito tempo longe um do outro, até que eu voltei para aquele lugar por sentir saudades. Senti falta do ambiente tranquilo e acolhedor, de ver você e a senhorita Aline tão apaixonados, da família para qual trabalhei... Mas, acima de tudo, por sentir falta dela.

- Isso foi depois de você ter sido demitido? - Daniel indagou.

- Sim, ano passado - respondeu. - Finalmente admitimos que nos gostávamos e, então, ela ficou grávida.

Daniel arqueou as sobrancelhas.

- Então aquela criança era seu filho?

Fábio fez que sim.

- Sim. Não que eu quisesse abandoná-los, mas tive que ir embora.

- Não entendo. Se vocês se amavam e haviam feito um filho, por que não ficou com ela? - Daniel questionou.

Fábio suspirou profundamente olhando para o vazio.

- Não sou o que ela é meu filho precisam. Não ainda - respondeu. - Ela não exige nada de mim, mas conheço minhas limitações. Sei que sou apenas um ex-chofer com os estudos incompletos e um homem praticamente sem futuro. Quero dar o melhor de mim e ter o suficiente para nada faltar a eles. E sei que vou conseguir.

Daniel assentiu pensativo.

- Então você os visita de vez em quando?

- Sim - Fábio respondeu. - Moro sozinho em outra cidade, trabalho no que me for oferecido - honestamente, é claro - e então junto bom dinheiro e viajo até lá. Também deposito o dinheiro direto na conta dela, mas ela não gosta - Fábio sorriu com a lembrança. - Ela me quer lá.

- Entendo - Daniel assentiu pensativo. - Vocês se amam, têm um filho, mas não podem ficar juntos por enquanto.

Fábio olhou para Daniel.

Podia notar que o jovem rapaz estava comparando as duas histórias. Mas o caso de Daniel era mais triste.

Fábio se pôs em silêncio por um breve instante, pois não sabia o que dizer - não por ele, mas por Daniel.

- Sim - Respondeu.

O vento soprou seus cabelos e assim permaneceram, tomando o resto do refrigerante dos copos e observando Johnata divertir-se com os novos amiguinhos que fizera.


Aline ainda estava com a respiração pesada, Daniel sobre ela, também com a respiração irregular após fazerem amor na cama dele.

Daniel sorriu e acariciou a face da amada, tirando uma mecha de cabelo do rosto suado.

- Me sinto tão bem em você - Ele disse enamorado. - Você é a minha vida, sabia? Pensei que teria que esperar um ano inteiro até poder te ver novamente. E agora você está aqui.

Meio ano antes, Aline havia prometido a ele que quando completasse a maioridade, ela voltaria e ambos ficariam juntos para sempre. Daniel estava se preparando todos os dias para aguentar ficar longe dela durante um ano, como sempre. Contudo, o destino havia lhe sorrido e, então, Aline apareceu de repente, pulando em seus braços.

O semblante de Aline mostrou tristeza, os olhos marejados encarando o homem que amava.

Daniel notou sofrimento no olhar de Aline e a encarou, intrigado.

- Aline? - Ele a chamou, preocupado. - Por que você está assim, meu amor?

Aline engoliu em seco antes de ter coragem de falar.

- Me perdoe por quebrar minha promessa, Daniel. - Uma solitária lágrima desceu pelo canto de sua face. - Nós só poderemos ficar juntos durante um ano.

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