domingo, 26 de abril de 2020

Eternidade - capítulo 15




O sol já estava indo embora. O céu azul tinha sido coberto por nuvens acinzentadas, embora parecesse que não iria chover naquele momento, então eles teriam de ser rápidos.

As dores das contrações ficavam cada vez mais intensas, o que indicava que Aline já estava mais do que pronta para a chegada do bebê.

O corpo dela estava um pouco suado, ela inspirava e expirava numa tentativa de controlar as fortes batidas de seu coração e das dores insuportáveis que pareciam não ter fim.

Daniel acariciou a face da amada, enxugando um pouco do suor que cobria a testa dela.

Ele queria acalmá-la e cuidar dela, mas não podia evitar a sensação de medo e apreensão que sentia. Afinal, ele ajudaria seu filho a vir ao mundo, seria sua primeira experiência em algo assim. Tivera muitas experiências ao longo da vida, mas nada que se comparasse àquela.

Daniel olhou para o céu e constatou que o tempo havia se fechado, mas ainda não havia nenhum trovão ou chuva à caminho. Tornou a olhar para sua mulher e sorriu numa tentativa de confortá-la, apesar de saber que seria inútil; Aline expirava e inspirava com dificuldade e seu rosto não refletia nenhuma outra expressão que não fosse a dor. 

Ele afastou as pernas dela e levantou o vestido. Suas mãos subiram pelas pernas dela, depois para as coxas e então terminou na barriga protuberante, massageando cada ponto tenso e articulando cada músculo dolorido do corpo feminino. Aline gemeu de dor e seu corpo se contorceu pelas fortes contrações. Aquilo doía demais e era uma dor incomparável. Por que o bebê não nascia logo?

Daniel continuou massageando cada ponto dolorido do corpo de Aline, mas de nada adiantava, pois ela gemia e se contorcia mais ainda de dor. Entretanto, Daniel não deixaria a aflição e o desespero controlá-lo. Ele havia prometido cuidar dela e fazer o bebê nascer seguro e saudável, e era isso o que ele iria fazer.

Aline o fitou com as pupilas dos olhos dilatadas. Foi como se ela estivesse pedindo ajuda, como se quisesse e implorasse para que todo aquele sofrimento acabasse de uma vez.

Daniel tomou uma respiração profunda e então seguiu em frente. Ele continuou a massagear os pontos sensíveis dos músculos doloridos de Aline e, ao mesmo tempo, incentivando-a a expirar e inspirar e fazer força, dar tudo de si para que a dor insuportável pudesse passar e o filho deles finalmente nascer.

Ainda não havia nenhum sinal de chuva ou trovoada, mas uma rápida luz relampeou entre as nuvens. 

Daniel continuou incentivando sua amada a fazer mais força, dizendo-lhe palavras de motivação e carinho. A respiração de Aline estava cada vez mais pesada e mais rarefeita. Era muita coisa para fazer ao mesmo tempo, ela já não estava aguentando mais. Nenhuma dor que já tivera comparava-se àquilo e, por um momento, ela achou que iria morrer.

Por mais força que fizesse, parecia que o bebê não estava pronto para sair, nem tampouco daquela imensa dor acabar. Daniel estava sendo tão cuidadoso, tão carinhoso e protetor, mas nem mesmo tais atos do homem que amava a fazia se acalmar e perder a ansiedade de ver e tocar seu bebê. 

Daniel continuou a incentivar, ainda que parecesse difícil para sua mulher, assim como era para ele, mas eles tinham de seguir em frente. Aline continuou a fazer como lhe era pedido, depositando todas as suas forças para fazer o bebê nascer. E num momento de alívio, depois de tanto tempo de dores e aflição, ambos ouviram um choro manhoso surgir.

O bebê deles havia nascido saudável e no peso ideal. Aline, ainda tremendo pelos espasmos das dores, fechou os olhos em alívio e deixou seu corpo desabar sobre a areia macia. Daniel sorriu de felicidade ao carregar seu filho nos braços, sentindo um orgulho imenso que jamais sentira algum dia.

O bebê nada podia ver, mas, por algum motivo, seu choro havia cessado e ele aconchegou-se mais nos braços do pai, como se já soubesse de quem se tratava. Mesmo seu filho estando coberto de sangue e outras coisas mais que o envolviam antes mesmo do nascimento, Daniel o beijou com ternura e amor que já sentia pelo filho desde quando soube que iria ser pai. Aquele menino era o fruto de seu relacionamento com Aline e o mais novo amor de sua vida.

Por um momento, Daniel assustou-se ao ver Aline imóvel e de olhos fechados, mas constatou que ela só estava dormindo, relaxando tranquilamente depois de um parto tão difícil e doloroso.

Ele olhou para o céu e percebeu que havia começado a trovejar, nuvens mais pesadas e mais escuras apareceram. Teria que ir embora o mais depressa dali antes que chovesse e ainda teria um longo caminho pela frente.

Daniel olhou para sua mulher deitada e para o filho em seus braços. 

Seria difícil partir com os dois dali, mas teria que dar o melhor de si para que mãe e filho ficassem bem e a salvos.

— Aline — Ele sussurrou o nome dela.

Os cílios tremularam e ela abriu os olhos, vendo Daniel com o bebê deles nos braços. Ela sorriu e estendeu a mão para tocar seu bebê. Daniel estendeu mais o filho para que Aline pudesse tocá-lo e acariciá-lo. Os olhos de Aline ficaram marejados pela emoção de estar junto a seu filho.

— Aline, levante-se e segure bem o bebê — Disse Daniel. — Temos que ir para casa rápido.

Com um pouco de esforço, Aline levantou-se com dificuldade e segurou seu bebê no colo. O bebê achegou-se mais a Aline como se sentisse o calor da mãe. Daniel teve de ser mais rápido e agarrar o corpo de Aline antes que ela caísse com o bebê. Ela estava muito fraca, desorientada e não conseguiria andar sozinha por enquanto.

— Segure bem o bebê — Ele pediu e ela obedeceu aconchegando carinhosamente o filho nos braços.

Daniel olhou para o filho recém-nascido e se deu conta de que o bebê não iria aguentar aquele clima mais frio que estava fazendo desde que o tempo se fechou. Prontamente, ele tirou a camisa rápido o suficiente para não deixar Aline cair, por conta das pernas bambas e fracas, e a envolveu no bebê que agora sentia-se melhor nos braços da mãe. Seu corpo tremeu um pouco, mas ele ignorou. Não estava tão frio assim. Além do mais, a proteção de Aline e do bebê vinham em primeiro lugar.

Com um pouco de esforço, e um pouco de preocupação em relação à Aline e ao bebê, Daniel continuou com eles em seus braços fortes, seguindo rumo ao pequeno rancho que possuía. Aline estava segurando firmemente o filho nos braços, a cabeça dela estava apoiada entre o peito de Daniel e o menino num gesto de proteção materna.

Daniel finalmente adentrou a casa e não quis perder tempo. Colocou cuidadosamente mãe e filho no sofá da sala e correu até o banheiro para preparar o banho. Limpou a banheira redonda de madeira, pôs uma panela grande de água para esquentar na cozinha e separou roupas para os dois, depositando-as estendidas sobre a cama de casal em seu quarto.

Ele olhou com carinho para a pequena roupa de bebê e sorriu ao lembrar-se do dia em que havia levado Aline para a feira no centro do vilarejo e ela havia se encantado com os lindos trajes de bebê que vira numa das barracas, fazendo Daniel comprar quase todos. Não que ele tivesse reclamado, pelo contrário; havia se encantado tanto quanto ela e saber que estava prestes a se tornar pai o enchia ainda mais de amor e orgulho, apesar do que ainda estaria para acontecer.

Ele desligou o fogo onde estava a panela com água em fervura, despejou toda a água quente na banheira, misturando com um pouco da água morna que já tinha, e verificou a temperatura — estava ótima para eles.

Daniel foi até a sala e notou que Aline dormia, ainda abraçando carinhosamente seu bebê. Ele sorriu enamorado ao ver a bela cena, mas não poderia deixá-los naquele estado.

Caminhou a passos largos na direção da amada e depositou um beijo carinhoso na face dela. Aline abriu os olhos e viu seu amado agachado perante o sofá, os joelhos em cima do tapete.

— Vamos, acorde — Daniel sussurrou para ela. — Tenho que banhá-los.

Aline demorou-se um pouco para absorver a informação, pois o sono e a fraqueza tomavam conta de si. Mas antes que pudesse perceber, Daniel a tinha levantado do sofá e a ajudado a caminhar até o banheiro, a mão nas costas feminina para apoiá-la.

Ele retirou as roupas dela, inclusive sua camisa do corpo pequeno e frágil do bebê e os colocou cuidadosamente dentro da banheira. Apesar de não conseguir mover-se muito bem, principalmente da cintura para baixo, Aline o ajudou a banhar o bebê, embora ela não conseguisse fazer o mesmo com o próprio corpo.

Daniel havia sido extremamente cuidadoso com cada um deles, depositando todo o amor que sentia por eles em cada toque firme, porém gentil e delicado, nos corpos da mulher e do filho. Aline relaxou em seus braços encharcados, embora todo o seu corpo ainda estivesse seco, pois ele só tomaria banho depois.

Os braços femininos acalentaram o bebê agora limpo que mamava em um dos seios fartos e Daniel acariciou a mão molhada no rosto do amor de sua vida. Aline virou a cabeça para trás, olhando para ele, e sorriu enamorada pelo homem que sempre amou e que sempre amaria.

Daniel era seu namorado, seu melhor amigo, seu amante, confidente, primeiro amor e agora pai de seu filho. Jamais se sentira tão íntima dele como agora.

Ele sorriu para ela e beijou com carinho a têmpora molhada enquanto Aline amamentava seu bebê.

Daniel, por fim, terminou e ajudou Aline a se levantar com o filho deles ainda se alimentando. Ele pegou duas toalhas e com a primeira secou todo o corpo dela, com a segunda envolveu o corpo do bebê. Aline estava com dificuldade para conseguir andar, então Daniel a guiou até o quarto e pôs mãe e filho em cima da cama de casal. Pegou a calcinha e a ajudou a se vestir, logo depois pegou o vestido de cor bege e o desabotoou para ser colocado por baixo. A tarefa não foi muito fácil, pois Aline teria de fazer movimentos mais suaves, não só por conta das dores do parto, mas também por causa do bebê que estava sendo amamentado. O belo vestido havia sido posto nela, mas a parte da frente continuava aberta e desabotoada para a amamentação do filho deles. 

Daniel olhou para o pequeno filho e sorriu achando graça. Não daria para vesti-lo naquele momento, pois o bebê de nada queria saber a não ser do calor da mãe.

Ele ajuntou três travesseiros na cabeceira da cama e encostou o corpo cansado de Aline neles. Ela sorriu agradecida e então continuou a observar encantada o filho se alimentar do leite materno.

Daniel percebeu que seu filho ainda estava envolvido pela toalha e apressou-se em pegar dois cobertores no alto do armário; um pequeno para o bebê e outro grande para cobri-los, já que não seria possível vesti-lo no momento.

Ele tirou de modo cuidadoso a toalha felpuda do bebê, envolveu a pequena e macia manta quente sobre ele, cobriu parte do corpo de Aline com o cobertor maior e sentou-se na cama ao lado dela. Não só o bebê estava quase dormindo, mas Aline também. Estava exausta e com a respiração pesada devido todo o esforço e as intensas dores que tivera. Deixaria ela dormir, ela merecia e precisava desse descanso.

Com cuidado para não acordá-los, Daniel passou o braço em volta do ombro de Aline, depositando um beijo carinhoso no rostinho do filho e no rosto de sua mulher, sussurrando o quanto a amava.

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