Daniel olhou para fora da janela do quarto e observou a forte chuva caindo e molhando as flores que pareciam estar prestes a desmanchar com o impacto da água.
— Ainda bem que escapamos — Ele disse e voltou seu olhar para Aline que estava deitada na cama, segurando o bebê adormecido no colo.
Não tinha demorado muito para ele levantar e tomar um bom banho após um dia cansativo e inesperado como aquele. Trocou de roupa e cochilou sentado na cama ao lado de Aline enquanto o bebê era amamentado.
Aline assentiu concordando e Daniel foi até ela.
— Vou esquentar a comida para nós dois — Disse.
Aline estendeu a mão para ele.
— Fique aqui um pouco comigo — ela pediu, a voz suave expressando um pouco da fraqueza que sentia. — Depois você vai.
Como poderia negar?, Daniel pensou sorrindo. Qualquer coisa que sua amada mulher pedisse, ele faria.
Daniel tornou a se sentar no mesmo lugar de antes, mas dessa vez Aline chegou para o lado para que ele pudesse ter mais espaço e sentar-se de modo confortável. Ele passou o braço em torno dos ombros dela, ambos se entreolhando intensamente, e escondeu uma mecha do cabelo solto atrás da orelha dela.
Antes de fazer o que pretendia, Aline tomou as rédeas e ergueu a cabeça, seus lábios tocando nos de seu amado. Daniel aprofundou o beijo, mas decidiu não intensificar as coisas. Aline havia acabado de dar a luz e o filho deles estava ali.
Mesmo à contragosto, Daniel quebrou o beijo, ainda olhando intensamente para aquela linda mulher. Ela também o fitava da mesma forma apaixonada.
— Como se sente? — Ele indagou.
— Físico ou emocionalmente? — ela perguntou de volta.
— Os dois.
— Bem, fisicamente me sinto destruída. — Eles dois sorriram. — Sinto como se todos os órgãos do meu corpo tivessem sido esmagados.
— Imagino — Daniel falou ao lembrar-se de todo o sofrimento de Aline antes e durante o parto.
— Mas, emocionalmente, me sinto tão bem — Aline disse notando o olhar apaixonado de Daniel sobre si. — Mais feliz do que jamais pensei que poderia ser e estar. Meu coração está transbordando de alegria e de amor por você e por nosso filho, Daniel. Fazendo-me até mesmo esquecer o que nos aguarda daqui a dois meses.
Daniel apenas assentiu. Não queria ter que pensar muito naquilo. E seria melhor que Aline também não ficasse pensando muito. Queria vê-la bem e feliz, como ela mesma havia dito. Eles deviam e teriam que ser felizes enquanto não chegasse o amargo e horrível momento. Deixaria o sofrimento para depois.
— Viu como eu estava certa? — Aline falou após um breve momento de silêncio em que só dava para ouvir a água da chuva caindo sobre a janela do quarto.
— Sobre o que? — Daniel perguntou sem entender.
— Nosso filho. — Aline indicou o bebê coberto no colo protetor da mãe. — Ele é igualzinho a você.
Daniel sorriu orgulhoso ao observar o filho e tornou a fitar sua amada.
— Parece que eu também estava certo — ele disse olhando enamorado para ela. — Ele tem o seu sorriso.
Aline sorriu orgulhosa, feliz e apaixonada.
Por mais que restasse pouco tempo para eles, ela sentia-se tão feliz. Agradecia muito por Fábio, o motorista, ter apresentado-lhe Daniel, o grande amor de sua vida. E agora, mais do que antes, ele seria uma parte importante de sua vida, sua ligação com o bebê que tiveram juntos.
Daniel também sorriu contagiado pela alegria da mulher que amava e encostou seu rosto no dela, o contato carinhoso aumentando cada vez mais até se firmar num beijo profundo e cheio de amor.
◇
Amanheceu. Eles não esperaram pelo café-da-manhã, fariam a primeira alimentação do dia na estrada, pois a viagem seria longa.
Maria e Ana acordaram praticamente no mesmo horário que o menino e os dois rapazes e os ajudaram a arrumar suas coisas.
Ambas estavam melancólicas pela partida dos três — Maria, por ter que se despedir de uma pequena lembrança de sua menininha que nunca mais vira; e Ana, por também ter se apegado ao menino, mas, mais ainda, por seu coração ter batido tão forte pelo jovem rapaz e agora ter que vê-lo ir embora.
Fábio colocou sua mala pequena e a mochila e Daniel no porta-malas. Mesmo com a idade avançada, Maria carregou Johnata no colo e o abraçou carinhosamente, sua neta a seu lado na pequena varanda de entrada da casa.
— Sentirei a sua falta, viu? — A senhora disse com a voz chorosa. — De vocês todos, mas você ganhou um lugar especial em meu coração.
Daniel sorriu comovido ao ver a bela cena de carinho. Mas também achou graça por seu filho ser mais uma vez carregado por alguém, sendo que o mesmo não gostava muito por já se achar um "homem".
— Não fique assim, dona Maria — Disse Johnata. — A gente vai voltar a se ver.
— Quando? — Ana perguntou curiosa.
Com as mãos nos bolsos da calça à espera de Fábio e Johnata, Daniel respondeu:
— Assim que a encontrarmos. Assim que encontrarmos Aline, faremos uma visita a vocês.
Ana assentiu, acanhada, e desviou o olhar de Daniel.
— A questão agora é: qual vai ser a próxima pessoa que iremos visitar a fim de obtermos informações do paradeiro da senhorita Aline? — Fábio perguntou indo em direção a eles.
— Você tem alguém em mente? — Daniel perguntou a ele.
— Talvez alguns outros colegas de equipe que trabalharam na casa — Fábio respondeu dando e ombros. — Sei onde alguns deles moram.
— Acho que não vai ser preciso — Maria disse e colocou o menino no chão. — A senhorita Aline e o pequeno Luquinha também eram muito apegados ao cozinheiro da casa. Acho que o nome dele era Luciano, se não me falha a memória.
— Sim, era — Fábio concordou. — Ele sempre fazia de almoço o que a senhorita Aline e o Luquinha queriam comer. Quer dizer, cada dia um pedia algo.
Johnata olhou sorridente para o pai que segurava sua pequena mão.
— Papai, vamos fazer isso lá em casa também. Eu digo o que quero comer e você faz — O menino pediu.
Daniel e os outros riram achando graça.
— Depende — Daniel falou ao filho. — Contanto que você me peça algo saudável, e não o que geralmente todas as crianças querem comer.
— Não me lembro muito bem onde Luciano morava — Fábio falou. — A senhora sabe, dona Maria?
Maria ponderou por um breve momento.
— Acredito que ele ainda esteja morando na casa de dona Dalva, a mãe dele. Ela ía algumas vezes para a mansão fazer faxina.
— No campo? — Daniel perguntou.
— Não, na cidade onde eles moravam — Fábio respondeu a Daniel e tornou a olhar para Maria. — Ela ainda mora perto da Avenida Principal, certo?
Maria assentiu.
— Até onde eu me lembre, sim, mas...
Maria pareceu hesitante por um momento, o que deixou Daniel ainda mais ansioso.
— O que foi, dona Maria? — Daniel perguntou à senhora.
— Não é nada, é que... — Maria passou por um breve momento, pensando. — Eu estava pensando aqui comigo mesma: não seria mais fácil contatar a família? Mas acredito que não seria o caminho correto por dois motivos: o primeiro é que nenhum de nós sabe onde eles poderiam estar; e o segundo é que eles não sabem sobre a existência de Johnata e creio que a senhorita Aline nunca tenha contado sobre o filho a eles.
— Não — Fábio concordou. — Ela nunca falou. Pelo menos, não até eu ser demitido dos serviços à família.
— Mas, ainda há uma pessoa — Maria continuou. — Uma pessoa que não é da família, mas que teve uma forte ligação com a senhorita Aline.
O coração de Daniel bateu mais forte. Teria de controlar suas emoções e ansiedade, mas sua vontade e desejo de ver Aline o estava enlouquecendo.
— De quem se trata? — Daniel interrogou de modo impulsivo, dando um passo à frente. Maria pareceu notar seu nervosismo.
— Acalme-se, Daniel — A senhora aconselhou. — Ainda não sei se é uma boa ideia vocês falarem sobre Johnata com ela, pois, como acabei de dizer, ela é muito achegada à família e pode acabar contando sobre o menino.
— Por favor, dona Maria, quem é essa pessoa?
— Trata-se de Camila, a melhor amiga de infância da senhorita Aline — Maria disse. — Elas sempre foram muito achegadas e creio que ela deva saber do paradeiro da senhorita Aline e da família.
— Ela mora muito longe daqui? — Daniel perguntou esperançoso.
— Sim, e muito — Fábio respondeu. — Não me lembro exatamente onde ela morava, mas que ficava perto da casa da família. A questão é que seria melhor irmos à casa de Luciano primeiro, buscar informações corretas, para depois irmos à casa da senhorita Camila.
Daniel fitou Fábio.
— Mas Camila deve ter informações mais precisas sobre Aline.
— Sim, mas não tenho certeza de onde a senhorita Camila deve morar, e talvez Luciano possa tirar algumas dessas dúvidas. Acho bem melhor do que ficarmos rodando perdidos por aí.
Daniel assentiu pensativo.
O mais óbvio a se fazer seria procurar por Camila, mas Fábio estava certo. Ser impulsivo e tentar resolver as coisas com rapidez não seria uma boa escolha.
— Tem certeza de que não querem tomar o café-da-manhã? — Maria perguntou a eles. — Ainda estão todos aqui mesmo.
— Agradeço. Mas quanto mais cedo pudermos resolver as coisas, melhor — disse Daniel e olhou para Fábio. — Podemos ir?
Fábio assentiu. Maria abaixou-se um pouco e olhou para Johnata, que esboçava um sorriso tímido para ela e para Ana.
Mesmo tendo se passado menos de vinte e quatro horas após conhecê-lo, aquele menino já ocupava um lugar especial em seu coração, assim como a mãe dele.
— Vou sentir a sua falta, viu? — A senhora disse com lágrimas nos olhos. — Por favor, não se esqueçam de nós visitar.
— Não vou me esquecer. Assim que a gente encontrar a mamãe, Fábio, papai e eu vamos vir aqui com a mamãe comer biscoitos. — Johnata olhou para o pai que sorria. — Não é, papai?
Daniel fez que sim.
— Isso mesmo — concordou. — E não vai demorar muito.
— Quando esse dia chegar, vou dar um abraço bem apertado na menina Aline e também farei um almoço muito gostoso para nós — Maria disse e abraçou a criança. — Até lá, morrerei de saudades.
Daniel sorriu comovido ao notar uma lágrima descer pela face de Maria. Com toda a certeza, ela havia se apegado muito ao menino, ainda que se conhecessem há tão pouco tempo.
Seu olhar voltou-se mais para cima e notou surpreso que Ana também chorava e enxugava as lágrimas que caíam. Contudo, ao invés da jovem olhar para a avó e o menino, estava olhando para ele, ainda que tentasse disfarçar.
Se era aquilo que estava pensando, Daniel lamentava muito por ela. Ana aparentava ser bem mais nova que ele, talvez ainda fosse uma adolescente. Ela tinha um longo caminho pela frente, e se dependesse de sua bela aparência somado com seu jeito de ser, não demoraria muito a encontrar alguém para amar e que a amasse na mesma medida.
Johnata abraçou Maria de volta e a beijou no rosto.
— Não chore — Disse o menino. — Logo nos veremos.
Maria assentiu sorrindo e secando as lágrimas.
— Sim — ela concordou e olhou para a neta a seu lado. — Você também está chorando?
Ana não disse nada, apenas fez que não, apesar de ser nítido que ela havia chorado.
Johnata sorriu e foi até a jovem.
— Logo mais estaremos aqui, está bem? — Disse o menino sorridente.
Ana assentiu e agachou-se para abraçar o menino.
— Não demore muito, viu? — A jovem disse ao abraçar o menino bem apertado.
— Não vamos demorar — Johnata assegurou convicto de que logo encontrariam sua mamãe.
— Vamos, Johnata? — Fábio chamou abrindo a porta do motorista. — Até mais, dona Maria, Ana.
Johnata desceu da varanda, de mão dada com o pai, ambos despedindo-se de avó e neta, e adentraram o carro, partindo rumo à novos horizontes.
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