domingo, 10 de maio de 2020

Eternidade - capítulo 17



Fábio continuou seu percurso pela estrada.

Eles haviam parado para tomar café-da-manhã e continuaram a viagem, pararam para o almoço e voltaram à estrada. Qualquer descanso que poderiam ter seria dentro do carro, pois tempo de viagem não poderia ser perdido; havia um longo caminho pela frente.

Do banco do carona, Daniel olhou para onde o filho estava.

Johnata olhava os lugares passando pela janela, mas sem o mesmo interesse de antes. Certamente, o menino devia estar entediado por não ter parado para brincar e gastar as energias.

— Está com sono? — Perguntou para a criança.

Johnata fez que não, ainda com a cabeça apoiada na palma da mão e olhando para fora.

— Não — respondeu o menino. — Só com um pouco de fome.

— Logo mais vamos nos hospedar em alguma pousada que tenha por perto e aí poderemos comer e descansar — Fábio disse, os olhos fixos na estrada.

— Já está sentindo saudade delas, filho? — Daniel perguntou.

— Sim, elas eram legais — Johnata respondeu.

Daniel concordou assentindo.

— Verdade, elas foram muito hospitaleiras — ele disse.

Johnata olhou para a frente.

— O que é "hospitaleiro"? — o menino indagou curioso.

— Uma pessoa que recebe bem a outras em sua casa — Daniel explicou. — Dona Maria e a neta dela nos receberam muito bem, apesar de, aparentemente, sermos dois estranhos, tirando o Fábio.

— Dona Maria sempre foi assim, independentemente com quem fosse — disse Fábio. — Por isso ela era tão querida entre as pessoas da família e os outros funcionários.

Daniel assentiu pensativo e olhou para o mais novo amigo.

— Mas e quanto a você? — Daniel perguntou. — Não vai entrar em contato com a sua família?

Fábio olhou de relance para o jovem rapaz.

— Qual você se refere? — perguntou sem saber. — Meu filho e a mãe dele?

— Exato.

— Fiz isso ontem — Fábio respondeu. — Nas duas vezes em que fui fumar na varanda, falei com ela e meu filho.

— Você tem filho, Fábio? — Johnata perguntou interessado.

— Sim, mas não vai dar para vocês brincarem juntos ainda — Fábio disse ao menino. — Ele é muito novo, tem apenas um ano de idade.

— Poxa, então ele deve ser muito pequenininho — Johnata refletiu.

Fábio sorriu.

— Ele é, sim.

— Mas a gente vai poder brincar juntos quando ele crescer? — Johnata voltou a perguntar.

— Claro, por que não? — Fábio respondeu e fitou Daniel após um momento. — Ele tem muitos amigos?

Daniel piscou surpreso.

— Sim, alguns — respondeu. — As pessoas da escola de Johnata gostam muito dele.

— Eu tenho amigos grandes e pequenos — Johnata comentou e os dois homens sorriram.

— Imagino — Fábio falou pensativo. — Dona Maria gostou muito de você.

— E eu, dela — o menino disse. — Dela e da Ana.

— Acha que a sua mamãe também irá gostar de você?

— É claro que sim, ela é minha mãe! — o menino disse de modo óbvio.

Fábio e Daniel riram achando graça.

— Correção: ela não vai apenas gostar de você, filho — Daniel disse a Johnata. — Sua mamãe te ama demais desde quando descobriu que você já estava dentro da barriga dela.

— Mas, como ela me amava, se nem mesmo me via? — o menino perguntou de modo inocente.

— Não precisa ver para crer, nem mesmo para amar — Fábio disse. — E do jeito que eu a conheço, sua mamãe deve estar com muita saudade de você.

Johnata sorriu, suas energias voltando a surgir.

— E o papai? — Johnata perguntou. — Será que a mamãe está com saudade dele também?

Daniel piscou surpreso com a pergunta. Fábio deu uma rápida olhada para o amigo e sorriu.

— Não, nem um pouco — brincou, arrancando um enorme sorriso de Daniel enquanto o mesmo olhava para os lugares que passavam lá fora.

Passou-se um pouco de tempo até começar a anoitecer. Fábio estacionou o carro numa rua privada e, junto com Daniel, pagou a noite em que estariam hospedados até voltarem à viagem.

Recém-saído do banho, Fábio assentou-se numa confortável cadeira artesanal que ficava na pequena varanda privativa do quarto, e tomou um livro para ler.

Daniel estava sentado na cama, a mochila a seu lado aberta, procurando uma roupa de dormir para Johnata que estava à sua frente.

— Papai, só pegou pijama de casaco? — O menino perguntou ao pegar a parte superior do conjunto.

— Não é casaco — Daniel o corrigiu. — É blusa de manga longa.

— Mas está calor — disse o menino. — Não tem nenhum de manga curta?

Daniel deu mais uma olhada na mochila, mas nada achou.

— Parece que não — disse e olhou para o filho. — Vista só a calça. Pode ficar sem a parte de cima, já que está fazendo calor.

— Aqui é muito calorento — Johnata reclamou se abanando com a mão. — Lá em casa não é assim.

— Lá em casa tem muitas árvores e o ar é mais puro, aqui não — Daniel disse e olhou para a janela do quarto. — Pessoas que moram nos subúrbios, ou metrópoles, parecem não gostar muito de árvores.

— Metrópoles? — A criança perguntou sem entender.

— Metrópoles é como são chamadas as cidades grandes — Daniel explicou ao filho. — Agora vá para o banheiro tirar a roupa. Vou pedir a janta pelo serviço de quarto e já vou te dar banho.

Johnata, que estava indo para o banheiro, voltou a atenção ao pai enquanto segurava sua roupa íntima e a roupa de dormir.

— Não precisa, papai. Eu tomo banho sozinho.

Daniel arqueou as sobrancelhas em surpresa.

— Tem certeza? — perguntou ao filho.

— Sim — Johnata respondeu. — Eu não disse que já sou um homem?

— Ah, sim, claro... — Daniel sorriu ao ver seu anjinho desaparecer no banheiro. — Qualquer coisa que estiver precisando, é só me chamar — disse um pouco mais alto para que Johnata escutasse.

— Está bem — Johnata respondeu.

Daniel suspirou sentindo um pouco de incômodo.

Por mais que fosse o tipo de pai que não mimasse o filho, sentia uma forte preocupação em relação a Johnata. Afinal, ele não era nenhum adulto, mas uma inocente criança de apenas cinco anos de idade e a única lembrança que havia lhe restado de Aline. Por mais que quisesse que seu menino andasse com as próprias pernas, tinha que ceder ao fato de que ele já estava crescendo e aprendendo muitas coisas.

Daniel esboçou um triste sorriso.

Seu filho estava crescendo e tornando-se cada vez mais independente. A questão é que não sabia se gostava ou não daquilo.

— Pensando muito? — Fábio perguntou da varanda.

Daniel olhou na direção da pequena varanda e notou Fábio olhar para ele com um livro em mãos. Sorriu sem jeito e pôs de volta na mochila as roupas que ele e Johnata não iriam usar.

— Um pouco — Respondeu evasivo. — Coisas da vida.

Fábio fechou o livro e aconchegou mais o corpo na cadeira reclinável.

— Está louco para encontrá-la, não é?

— Sim, é claro — Daniel respondeu. — Mas eu estava pensando sobre Johnata.

Fábio piscou sem entender.

— O que tem ele?

Daniel sorriu sem jeito e pegou a mochila, pondo-a num espaço vazio entre a cama e o criado-mudo.

— Meu filho acabou de me dispensar do banho dele.

Fábio sorriu surpreso.

— Não entendi.

— Eu sempre dava banho nele — Daniel disse. — Mas agora ele não quer mais. — Olhou para a porta fechada do banheiro. — Diz que já está crescido.

Fábio riu da situação.

— Mas ele está certo. Apesar de ter apenas cinco anos, Johnata está crescendo — Fábio disse. — Mas você tem de se acostumar. Logo mais, a voz dele vai ficar mais grave.

Fábio e Daniel desataram a rir.

Daniel relaxou mais na cama, as mãos apoiando seu corpo.

— E pensar que em um dia desses eu fiz o parto dele... O tempo passa muito rápido — Daniel refletiu pensativo. — Bem, em certo caso.

Fábio também assentiu pensativo e olhou para o livro em suas mãos.

— Verdade. Também terei de me acostumar com meu filho crescendo rápido.

Daniel sorriu para o homem mais velho.

— Talvez ele e Johnata possam se tornar amigos.

— Nada de "talvez". Eles vão ser melhores amigos quando Duda crescer — Fábio disse.

— Duda é o nome do seu filho?

— Eduardo, mas já recebeu o apelido de Duda — Fábio respondeu. — Juliana, minha mulher, e a senhorita Aline também serão muito amigas. Juliana já a conhece de poucas ocasiões e se encantou por ela.

Daniel sorriu ao lembrar-se de seu amor.

— Seria difícil não se encantar por ela — ele disse envolto em doces lembranças e saudade.

— Podemos ser amigos também — Fábio disse para o jovem.

Daniel olhou surpreso para Fábio e sorriu.

— Já te considero como um. Afinal, não é qualquer um que decide fazer por mim e por meu filho o que você está fazendo. Sei que você já deve estar cansado de me ouvir te agradecendo, mas ainda que eu te diga "obrigado" mil vezes, não será o suficiente.

Fábio sorriu agradecido.

— Bem, amigos são para essas coisas.

— Papai! — Ouviu-se a voz de Johnata vinda do banheiro.

Daniel olhou para o banheiro e depois para Fábio.

— Eu disse que ligaria para o serviço de quarto para pedir a janta e acabei me esquecendo — Daniel disse ao levantar-se da cama. — Tem como você fazer isso enquanto ajudo Johnata, por favor?

— Claro — Fábio concordou ao levantar-se da cadeira artesanal e pôs o livro que lerá em cima do acento. — O menino tem alguma preferência ou algo que não coma?

— Não, ele come de tudo — Daniel respondeu e andou em direção ao banheiro.

Fábio assentiu e entrou no quarto, pegando o telefone para fazer o pedido.

Johnata abriu os olhos e notou que Daniel não estava na cama ao lado, exceto Fábio, que estava num sono profundo. Levantou a cabeça e virou o corpo um pouco para o lado, percebendo que a única luz que iluminava parcialmente o quarto escuro vinha da pequena varanda. As portas duplas de vidro estavam abertas e alguém parecia estar lá — talvez fosse o papai.

O menino levantou-se e cobriu-se com o lençol, visto que estava sem a parte superior do pijama e o tempo havia mudado. Caminhou a pequenos passos pelo quarto, com cuidado para não acordar Fábio, e atravessou as portas duplas em direção à pequena varanda.

Mas antes que Johnata pudesse fazer qualquer ruído, Daniel notou sua presença.

— Johnata? O que está fazendo acordado?

Johnata olhou para o pai inclinado na mesma cadeira que Fábio estivera sentado antes.

— Fiquei sem sono — o menino respondeu. — E você?

— Só pensando um pouco. — Daniel olhou para o filho coberto. — E este lençol? Está com frio agora?

Johnata assentiu.

— Sim, um pouco.

— Eu te chamaria para ficar aqui no meu colo, mas já que você já é um homem... — Daniel brincou.

Johnata sorriu e enganchou-se na cadeira, pulando no colo do pai. Daniel riu e beijou o topo da cabeça do filho, o aconchegando em seus braços.

— Pensando em que, papai?

Daniel suspirou mais relaxado.

— Na vida, em sua mãe...

Johnata olhou para ele.

— Papai, posso pedir uma coisa?

— Diga.

— Você disse que me contaria o que aconteceu com o irmão da mamãe. Por que ele iria morrer?

Daniel pensou um pouco antes de responder, pois o assunto era bem incômodo.

— Lucas era um menino legal, apesar de eu tê-lo conhecido por pouco tempo. Ele era saudável e completamente independente, ainda que fosse apenas uma criança. Antes de completar a maioridade, sua mãe havia me prometido que ficaria comigo no rancho para sempre.

— E por que não ficou? — o menino perguntou, os olhos brilhando de curiosidade e lamento.

Daniel olhou para o vazio, respirando profundamente. Ele voltou a fitar Johnata.

— Por causa de Lucas — Daniel respondeu, o olhar demonstrando tristeza. — Seu tio teve câncer, uma doença terrível e que pode matar. A família de sua mãe já estava cheia de dívidas e não tinham mais o patrimônio de antes, então não podiam pagar pelo tratamento intensivo que Lucas teria que se submeter para continuar vivendo. Até que...

Daniel engoliu em seco. Era ruim relembrar certas coisas.

— "Até que" o que, papai?

Daniel olhou para o rosto curioso e interessado do filho.

— Até que um homem que a família de sua mãe conhecia, e que parecia gostar de sua mãe, a pediu em casamento em troca de pagar todo o tratamento de Lucas. Como a família já estava falida e eu não tinha praticamente nada para oferecer, sua mãe aceitou.

— Mas por quê? — Johnata questionou com evidente discordância e tristeza. — A mamãe não havia prometido ficar para sempre contigo?

Daniel acariciou o rosto e o cabelo do menino.

— Sim, filho. Mas o que mais ela podia fazer? Seu tio estava muito doente e só aquele homem havia oferecido dinheiro para o tratamento. O papai tem o rancho e não deixa nada faltar em casa, mas não é rico.

Johnata assentiu, ainda inconformado.

— A família de sua mãe deu uma última chance de ela estar junto de mim por um ano e nesse período você foi feito.

— Pela cegonha? — Johnata perguntou de modo inocente.

Mesmo tocando num assunto infeliz e incômodo, Johnata o fez sorrir.

— Sim, pela cegonha. — Daniel abraçou mais o filho para esquentá-lo. — E, então, ela foi embora para a casa da família e deixou você comigo, pois nem a família dela e nem o noivo poderiam saber.

— E agora? — Johnata perguntou. — Eles vão saber que eu existo.

Daniel suspirou profundamente, olhando para o céu escuro da noite.

— Eu não sei o que vai ser daqui em diante, apenas sei que vamos encontrar a sua mãe. Ela está casada com outro agora, mas não me importo. Eu prometi a ela que nunca iria desistir de nosso amor. Só não fiz isso antes, pois eu não sabia como encontrá-la. Mas você ainda é pequeno, portanto, não falarei muito sobre isso.

— A mamãe vai voltar para a gente? — Johnata perguntou.

— Eu não sei, meu filho — Daniel respondeu. — Mas eu te prometi que você iria conhecer a sua mãe, e cumprirei essa promessa.

Johnata sorriu e voltou a deitar a cabeça no peito do pai.

— Te amo, papai.

— Também te amo — Daniel respondeu. — Muito.

Na pequena varanda o ar estava mais frio do que dentro do quarto que tinha o ar-condicionado ligado. No entanto, Daniel não se importou muito e decidiu ficar abraçado com seu filho, pelo menos por pouco tempo, observando as estrelas.

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