— Lucas, este é o Daniel — Aline falou apresentando o garoto que amava ao irmão mais novo.
O sorridente Lucas apertou a mão estendida de Daniel em cumprimento.
— Minha irmã fala muito de você — Disse o menino, fazendo Aline ruborizar.
Daniel assentiu sorrindo e olhou de relance para a garota que amava.
— Imagino — ele falou observando como ela ficava ainda mais linda corada.
— Lucas... — Aline tentou repreender seu irmãozinho.
— Mas é verdade — o menino insistiu ainda sorrindo. — Ela vive falando em você. Papai e mamãe disseram que ela está apaixonada.
— Lucas!
Daniel sorriu achando graça da sinceridade do garoto e, principalmente, do rosto de Aline que agora parecia um tomate de tão vermelho.
Como se ele não soubesse do sentimento de Aline por ele... Não era nenhuma novidade. Afinal, ele também era louco de amor por ela.
— Você gosta de cavalos, Lucas? — Daniel perguntou ao menino. — Tenho dois adultos e um potrinho.
— O que é um "potrinho"? — Lucas perguntou interessado.
— "Potro" é como são chamados os filhotes de cavalos — Daniel explicou. — Posso te ensinar a andar no filhote, se você tiver muito medo de andar em algum dos adultos. — Daniel fitou Aline. — Sua irmã está aprendendo rápido.
Lucas olhou surpreso para a irmã mais velha.
— Você já sabe andar a cavalo?
Aline voltou a corar um pouco.
— Bem, estou aprendendo — ela respondeu.
— Vou contar para o papai e a mamãe que você ficou corajosa graças à ajuda de Daniel — Johnata comentou sorrindo.
Daniel os fitou surpreso, mas sem entender.
— Graças a mim?
— É que a Aline não parece ser tão corajosa assim — respondeu o garoto. — Ela tem medo e barata.
— Mas são baratas, você quer o que? — Aline defendeu-se sendo alvo de risada dos dois. — Principalmente quando elas voam.
— É natural sentir medo de baratas — Daniel disse para os dois. — Ainda assim, vocês não precisam sentir medo de andar a cavalo, pois sei ser um bom professor.
Sim, ele sabia, Aline pensou corada ao lembrar-se de todos os beijos que Daniel roubava enquanto dava-lhe aula.
— Agora me interessei em aprender — Disse Lucas. — Mas promete que não vai me deixar cair?
— Prometo — Daniel disse convicto. — Nada será muito extremo, um passo de cada vez. Além disso, os cavalos são mansos.
— Eu também vou te ajudar — Aline pegou na mão do irmão. — Vem.
Daniel olhou para os dois e admirou o carinho que um sentia pelo outro. Esperava ter a tarde inteira sozinho com sua garota, mas a presença de Lucas era bem-vinda, o menino o havia conquistado no primeiro momento. Seria divertido passar aquela tarde com ele.
◇
Daniel sorriu com a lembrança do primeiro dia em que conheceu Lucas. Aquela tinha sido uma das duas únicas vezes em que o vira, pois mesmo antes da descoberta do câncer, ele já tinha facilidade em ficar doente com a mínima mudança de tempo. Era um garoto frágil e sensível e Aline o amava e o protegia, deixando de ficar dias sem estar com Daniel, pois queria ajudar a cuidar do irmão mais novo. Essa era uma das coisas que mais amava nela e, infelizmente, que os separou até ali.
Ele sorriu contagiado com as risadas de Johnata.
O menino ria sem parar das trapalhadas dos personagens do desenho animado que passava na televisão de led fincada na parede. O tempo calorento havia se tornado frio e ainda tinha vindo chuva de brinde. Era o tempo perfeito para estar deitado e aquecido, vendo televisão, ouvindo uma boa música ou lendo um bom livro, ainda que Daniel tivesse pressa para continuar a viagem. Contudo, mesmo na temperatura mais baixa que estava fazendo, Johnata preferiu apenas ficar sentado em cima do tapete felpudo com seus pezinhos cobertos por um par de meias, sendo as únicas partes agasalhadas do corpo pequeno.
"Seu filho lembra um pouco a ele. Ambos têm o mesmo encanto", Fábio dissera antes sobre Johnata e Lucas. E agora, depois de algumas lembranças, Daniel percebia que era verdade.
Johnata continuou rindo das falcatruas dos personagens, completamente alheio às observações do pai. Daniel gostava de ver o filho assim contente; era algo que nunca lhe cansava.
— Johnata, quer bolo? — Daniel perguntou ao filho que continuava com os olhos fixos no desenho animado.
Johnata meneou a cabeça.
— Eu já comi, papai — disse a criança.
— Só sobrou um pedaço. Vou comer no seu lugar — Daniel avisou.
— Está bem. — Johnata continuou a prestar atenção no entretenimento.
Enquanto comia o bolo, Daniel olhou através da janela para a chuva que caía lá fora.
Clima frio e chuvoso como aquele lembrava-lhe momentos únicos e maravilhosos que passava com sua mulher amada, principalmente um em especial, o primeiro de todos que tivera com ela.
"Não fique nervosa", ele sussurrou no ouvido dela. "Prometo que será especial para nós dois." Daniel sorriu com a lembrança. De fato, tinha sido um momento especial e maravilhoso. Aline tinha dezesseis anos e havia sido ela a tomar a iniciativa de se entregar a ele após quase fazer dois anos que se conheciam e se amavam mais do que tudo no mundo. Daniel tinha sido tão cuidadoso e Aline tinha sido tão entregue, ainda que fosse a sua primeira vez. Naquela noite chuvosa que ambos consumiram seu amor, eles dormiram com suas mãos entrelaçadas, como se já previssem a inevitável separação e como se nunca quisessem se separar.
Daniel olhou para sua mão direita. Ainda conseguia, de algum modo, sentir os dedos dela entre os seus.
A porta da suíte se abriu e Fábio entrou. Ele olhou de Johnata para Daniel.
— Parece que só vai dar para sairmos amanhã. A chuva está caindo forte e têm engarrafamentos em alguns lugares, pelo que vi agora no noticiário.
Daniel não deixou se abalar, pois já tinha previsto que aconteceria aquilo.
— Tudo bem, amanhã nós vamos. Só temos que torcer para que o tempo melhore. Aliás — Daniel indicou o filho com um gesto de cabeça —, ele parece bem entretido no momento.
Fábio olhou para o menino.
— É verdade, Johnata? — Perguntou.
Johnata, ainda completamente absorto, demorou um pouco para perceber que Fábio havia falado com ele.
— Oi? — Johnata perguntou sem entender.
Fábio e Daniel riram, deixando o menino mais confuso.
— Parece que ele vai trocar a viagem pelos desenhos — Fábio disse a Daniel.
Daniel continuou a sorrir, olhando para o filho.
— Tomara que não. Não é, Johnata?
— Eu não vou trocar a minha mamãe pelos desenhos — o menino assegurou. — Eu só gosto dos desenhos, mas amo a mamãe.
— Se você diz, temos que acreditar — Fábio brincou com a criança e atravessou a sala, indo em direção ao banheiro. — Mais tarde pedirei uma pizza para nós. Não gostei muito dessa comida do hotel.
Daniel olhou para o pequeno pedaço de bolo, desconfiando da declaração de Fábio. O bolo estava bom e a comida que eles haviam comido no dia anterior também estava. Com certeza Fábio havia comido algo que não o fez bem.
O desenho que Johnata estava assistindo antes havia acabado e o menino olhou para o pai.
— Venha, papai — Johnata bateu no tapete, indicando o espaço a seu lado.
Daniel levantou-se da poltrona e se sentou ao lado do filho. Indicou a Johnata o pequeno pedaço de bolo que havia sobrado.
— Quer?
Johnata meneou a cabeça, fazendo uma careta. Devia estar satisfeito.
— Fique aqui comigo — O menino pediu ao pai. — Vai passar o filme deles.
— Do desenho animado que você estava vendo?
— Sim.
— Então vou ficar aqui com você. — Daniel terminou de comer o restante do bolo e achegou-se mais para perto do filho, acariciando o cabelo do menino. — Espero que o filme não seja chato.
— Não vai ser, papai — Johnata disse cheio de energia. — Vai ser divertido igual ao desenho.
Daniel sorriu e abraçou seu menino.
Havia terminado o comercial e o filme logo começaria. Ainda que não fosse seu passatempo favorito, iria aproveitar com satisfação os entretenimentos que Johnata escolhesse. Afinal, chovia lá fora e eles teriam um longo dia até voltarem à sua jornada.
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