Parou de chover. Daniel, Fábio e Johnata haviam aprontado suas coisas para seguirem com a viagem. O caminho foi longo, eles tomaram o café-da-manhã e almoçaram no caminho. Por um breve momento, Johnata até mesmo sentiu-se enjoado com o balanço do carro e da vista tão repetitiva, ainda que não faltasse energia nele.
Mesmo o caminho sendo tão longo, eles chegaram no destino escolhido no começo do entardecer. Assim como a casa de Maria, a casa do cozinheiro também era uma casa simples, mas bonita, localizada no subúrbio.
Fábio estacionou o carro, mas não tirou a bagagem. Teria que averiguar primeiro se Luciano ainda morava ali. Daniel tirou o cinto de segurança de Johnata e o carregou no colo. Dessa vez o menino não protestou, pois estava muito cansado e enjoado.
Como ainda era início do entardecer, o sol ainda estava forte, então Daniel optou por esperar com o filho sob a sombra de uma árvore enquanto Fábio batia na porta de entrada. Por um instante, Fábio achou que não havia ninguém na casa e olhou para onde Daniel e Johnata estavam sob a mão que protegia o rosto do sol. Tornou a bater e dessa vez foi atendido pelo próprio Luciano, o cozinheiro.
Luciano esboçou um sorriso de surpresa e confusão ao ver o ex-colega.
— Fábio? O que está fazendo aqui?
Antes que Fábio pudesse responder à pergunta, Luciano deu-lhe um abraço caloroso. Fábio respondeu ao gesto amigável e sorriu para o amigo.
— Antes de tudo, quero dizer que você mora muito longe — Fábio brincou e os dois sorriram.
— Ainda bem que não desintegrou até chegar aqui — Luciano brincou de volta. — Mas a que devo a ilustre visita?
Fábio olhou para trás e Luciano seguiu o seu olhar. Fábio indicou pai e filho debaixo da sombra da árvore.
— Aqueles são Daniel e Johnata — Fábio disse ao amigo. — Podemos te esclarecer melhor se você nos deixar entrar.
Luciano demorou o olhar no pai e no filho, ainda sem entender, e assentiu.
— Sim, claro — concordou.
— Vamos, Johnata — Daniel murmurou ao filho, ajeitando-o em seu colo. O menino murmurou algo incoerente por conta do sono.
— Prazer em conhecê-lo — Daniel ergueu a mão num gesto de cumprimento enquanto andava na direção deles. — E me desculpe por minha rudeza.
— O que é isso, não é nada! O sol realmente está muito forte, apesar de já estar perto de se pôr. — Luciano estendeu o braço e apertou a mão de Daniel. Era um aperto de mão firme, mas gentil. — Prazer, Daniel, sou Luciano. Entrem, por favor.
Daniel e Fábio fizeram como pedido e Luciano ajeitou rapidamente algumas coisas que estavam fora de lugar na sala.
— Só, por favor, não reparem na bagunça — pediu sem jeito.
— Não precisa se preocupar — Fábio falou. — Além disso, quase não tem bagunça.
Daniel olhou em volta. A sala era ainda mais modesta e menor do que a sala da casa de Maria, porém mais moderna.
— É que as crianças deixam tudo fora de lugar — Luciano explicou. — Não param quietas.
— Você tem filhos? — Fábio indagou.
— Dois são meus filhos e duas são minhas sobrinhas. Minha irmã está viajando e minha mãe me ajuda a cuidar deles, apesar de já ser idosa. Sentem-se, por favor. — Luciano indicou os dois sofás de couro marrom. — Querem um copo d'água?
— Eu vou aceitar, sim, por favor — disse Daniel.
— Eu também — disse Fábio.
Daniel mudou Johnata de posição e o ajeitou de lado em seu colo. O menino gemeu em protesto.
— Acorde, meu filho — Daniel sussurrou.
— Hum...? — Johnata coçou o olho, sonolento.
— Não quer beber água?
— Água? — Johnata olhou em volta, estranhando o ambiente. — Que lugar é este?
— Aqui é a casa do cozinheiro que trabalhava pra família da sua mamãe — Daniel explicou ao filho. — Lembra-se que tínhamos de vir para cá?
Johnata não disse nada, apenas bocejou e voltou a deitar no peito do pai.
— Parece que o seu filho foi trocado — Fábio comentou sorrindo.
Daniel também sorriu e aninhou o filho nos braços.
— Ele está muito enjoado. Deve ter comido algo que não o fez bem.
— Foi aquela comida horrível do hotel — Fábio falou.
— Eu não acho que a comida estava horrível — Daniel contestou. — Mas realmente acredito que não tenha feito bem a ele. — Olhou para o filho cochilando.
Luciano apareceu na sala segurando uma jarra e mais dois copos em outra mão. Seu sorriso era de orelha a orelha e ele parecia ser tão enérgico quanto Johnata, apesar de ser um homem adulto.
— Voltei! Me desculpem pela demora.
— Não se preocupe. Além disso, você não demorou. — Fábio levantou-se para ajudá-lo. — Quer ajuda?
Luciano deu um dos copos para Fábio, outro para Daniel e os serviu.
— E o menino, está muito cansado? — Luciano perguntou ao servir Fábio pela segunda vez.
Daniel fitou o filho ainda cochilando.
— Ele está um pouco enjoado por conta da longa viagem — respondeu. — Johnata, acorde. Beba um pouco d'água, meu filho.
O menino ignorou, gemendo em protesto.
— Filho? — Luciano perguntou surpreso e assustado. — Você é pai dele?
Diferente de Maria, Luciano parecia não ter notado a grande semelhança entre Daniel e o menino.
Daniel achou graça da expressão exagerada dele.
— Sim — respondeu.
Daniel continuou a fitar pai e filho com surpresa e descrença.
— Você parece ser bem novo. Eu jurava que ele fosse seu irmão mais novo ou algo parecido.
Daniel sorriu sem jeito. Mas não era hora de jogar conversa fora, o tempo era curto.
— Senhor Luciano...
— Pode me chamar apenas de Luciano. — O homem sorriu do mesmo modo alegre. — Senão fico me sentindo um velho.
Daniel assentiu.
— Luciano... Acredito que esteja achando estranho estarmos aqui, afinal, o senhor nem me conhecia, até agora. Pode parecer loucura, mas viemos atrás do senhor... de você por causa de uma pessoa e precisamos obter essa resposta com urgência.
Luciano sentou-se na poltrona entre os dois sofás opostos. O cenho dele franziu em surpresa e confusão.
— Por causa de mim? Mas no que eu posso ser útil?
— A senhorita Aline — Fábio disse. — Estamos procurando por ela e pela família.
As sobrancelhas de Luciano se arquearam ao compreender.
— Ah, sei. Faz tempo que não os vejo... Mas o que eles têm a ver com a família? — Luciano perguntou para Fábio.
— Sabe aquele menino? — Fábio apontou para Johnata dormindo e Luciano fitou a criança. — Ele é filho dela.
Luciano ficou mudo por um tempo, tentando absorver o que Fábio dissera. Daniel sentiu vontade de rir; as expressões de Luciano eram um tanto exageradas.
— Está brincando... — Ele continuou encarando o menino e seu olhar voltou-se entre Fábio e Daniel. — Como a menina Aline teve um filho? Eu nunca a vi com ninguém.
— Essa é uma longa história, mas não quero me ater a detalhes — Daniel respondeu. — Apenas preciso saber onde ela está e conto com a sua ajuda.
— Mas...
Antes que Luciano pudesse dizer algo, a porta se abriu e quatro crianças sorridentes correram para dentro da casa, seguidos por uma senhora que devia ser a mãe dele.
— Mamãe! Temos visitas.
Dalva, uma senhora que aparentava ter quase a mesma idade de Maria, olhou à frente e estranhou por um momento os recentes visitantes, embora esboçasse um sorriso educado.
— Olá — Ela os cumprimentou. — Boa tarde.
Fábio levantou-se em educação. Daniel teria feito o mesmo, mas estava segurando Johnata.
— Dona Dalva — Fábio a cumprimentou com um beijo no rosto. Dalva abriu um grande sorriso ao vê-lo.
— Fábio. — A senhora o abraçou. — Há quanto tempo!
Ele respondeu ao gesto carinhoso, mas desvenciliou-se para indicar Daniel.
— Este é meu amigo, Daniel.
— Prazer, dona Dalva — Daniel a cumprimentou cordialmente. — Nos desculpe por termos vindo sem avisar.
As quatro crianças haviam estacado, curiosas com a visita, mas, principalmente, com Johnata que ainda continuava a dormir.
— Não precisa se desculpar. — A senhora esboçou um grande sorriso tão parecido com o do filho. — Mas, então, a que devo a visita de vocês?
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