Ao serem chamados pelos pais, Aline deixou a escada rapidamente com o irmão mais novo apoiando-se nas costas dela. Era uma brincadeira perigosa que poderia causar um acidente, mas eles não se importavam, pois cada momento que passavam juntos era precioso.
Os dois irmãos, sorrindo de orelha a orelha, correram até a cozinha onde seus pais estavam junto de Luciano, o cozinheiro da casa.
— Oi, papai. O senhor chamou? — Aline perguntou.
— Chamei — ele respondeu e deu um olhar cúmplice para a esposa. — Eu estava conversando com a sua mãe sobre termos uma casa, no litoral ou no campo. Porém, como a mãe de vocês fez objeção ao litoral por conta da pele dela ficar irritadiça com a maresia, eu decidi comprar uma casa no campo.
— E quando poderemos ir? — Lucas perguntou bastante animado.
— No final deste mês, a papelada para a compra da casa poderá ficar pronta, e aí poderemos ir para lá — o pai respondeu.
— Vamos morar lá? — Aline indagou também um tanto animada por poder conhecer um lugar diferente, mas também um pouco desapontada em pensar que abandonaria os seus amigos e toda a vida a qual já estava acostumada.
Os pais sorriram achando graça.
— Não, será apenas uma casa para passarmos as férias e, de vez em quando, os feriados — a mãe respondeu.
Aline e Lucas sorriram animados um para o outro. Eles já estavam ansiosos para conhecer o lugar onde teriam mais experiências de vida e mais pessoas para conhecer.
César, o pai, era um homem muito bem resolvido financeiramente. Seus dois maiores meios de ganhar dinheiro era administrar uma média empresa de cinco filiais e investir na bolsa de valores. Em relação aos dois meios de trabalho, César havia enfrentado altas e baixas temporadas, mas nunca se deixava intimidar pelas dificuldades, pois ele queria dar o melhor para a sua família; o que eles precisavam e muito mais.
Marta fora uma mulher bem nascida, mas o seu pai havia perdido tudo num jogo de pôquer quando ela ainda era adolescente. Ter nascido em berço de ouro nunca a havia impedido de trabalhar e de ser uma mulher independente, embora ela tenha se abdicado de todo o esforço que fazia para ter uma vida confortável ao lado do marido. Marta nunca esteve com qualquer homem antes de César por interesse, mas ela não seria hipócrita ao ponto de dizer que não estava com ele também por conta dos bons recursos e da vida tranquila e confortável que levava. Ambos sabiam os seus próprios interesses e não havia ninguém enganado ali, ainda que naquela união também houvesse muito amor, e os seus filhos eram a prova disso.
— E o que vocês vão querer para comer hoje, hein? — Luciano perguntou para Aline e Lucas.
— Eu vou querer risoto de frango — Aline respondeu ao mesmo tempo que o irmão mais novo que havia respondido apenas "bife".
— Bife ou risoto de frango? — Marta perguntou aos filhos.
— Eu queria bife — Lucas disse com um olhar que fazia qualquer um ceder.
Os patrões tinham toda a autoridade quando se tratava de outros assuntos, mas eram Lucas e Aline que quase sempre decidiam o que teria no cardápio.
— Tudo bem, você decide o que terá para o almoço, e eu, para a janta — Aline disse cedendo ao olhar do irmãozinho, observando-o esboçar um grande sorriso de orelha a orelha.
— Que tal feijão, arroz, bife, batata-frita, e salada de alface com tomate e pepino? — Luciano sugeriu fazendo os olhos dos irmãos brilharem.
— Hum, vai ficar delicioso — Aline comentou em apreciação.
— Sim, eu quero! — Lucas concordou com a proposta de Luciano. Era perceptível que o menino já estava com água na boca.
— Então podem deixar comigo que daqui à uma hora, no máximo, o almoço estará pronto. Os senhores vão querer algum acompanhamento? — Luciano perguntou aos patrões?
— Não — César respondeu educadamente e fitou a esposa. — E você, querida?
— Não desta vez. Comeremos o mesmo que as crianças — Marta respondeu. — Luciano, depois que você fizer o almoço, pode descansar um pouco.
— Sim, senhora — Luciano concordou e pegou os pertences que iria precisar.
— Meu amor, eu vou para o escritório — César disse e deu um rápido beijo na esposa. — Qualquer coisa que você e as crianças precisarem, é só me chamar.
— Sim, tenha um bom trabalho.
— Mamãe, podemos ajudar o Luciano a fazer comida? — Lucas perguntou animado após o pai se retirar.
Marta achou graça.
— Nada disso, rapazinho, vocês só iriam atrapalhar o Luciano — Marta disse e deu uma rápida olhadela para o funcionário que também sorria. — E se bem me lembro, você tem dever de casa, certo?
Lucas ficou hesitante e sem o que dizer, fitando a mãe com um olhar de desapontamento.
Na verdade, Lucas sempre fazia o mesmo olhar inocente de cachorrinho pidão para a sua família e funcionários da casa, o que quase sempre funcionava, mas Marta não cederia dessa vez.
— Nada de me olhar assim, rapazinho — Marta disse tentando soar firme, embora ainda estivesse achando graça do filho. — Vá lá para cima fazer o seu dever de casa. Como é pouca coisa, dá tempo de você terminar antes do almoço.
Lucas percebeu que as suas tentativas não funcionariam com a mãe naquele momento e suspirou frustrado, acatando o que ela havia ordenado.
Luciano observou o menino sair em disparada da cozinha e riu enquanto descascava as batatas.
— Teve uma outra vez em que ele me pediu para ajudar no almoço também — Luciano comentou. — Mas eu disse que a senhora e o senhor César ficariam bravos.
Marta também riu.
— Não, não ficaríamos bravos — Marta disse. — Mas também não teríamos deixado Aline e Lucas ajudarem no preparo de alguma comida, pois eles iriam mais atrapalhar do que ajudar.
— Eu sei fazer algumas coisas, mamãe — Aline disse encostada no balcão, observando atenciosamente cada movimento preciso de Luciano pela cozinha.
— Não duvido, afinal, você já é uma mocinha — Marta disse ao acariciar o cabelo solto da filha. — E falando em "mocinha", você disse que queria me contar algo.
Aline piscou surpresa e ruborizou ao olhar de soslaio para o cozinheiro.
— Luciano, mamãe e eu sairemos por um instante, pois precisamos conversar a sós.
— Oh, sim, senhorita. Fiquem à vontade — Luciano concordou. — Mais tarde os chamarei para o almoço.
Marta assentiu e segurou a mão da filha, guiando-a até a sala de estar que estava vazia, exceto por um dos gatos da casa. Aline sentou-se ao lado da mãe num sofá Chesterfield clássico de cor bege que combinava com o resto da mobília da sala.
— O que você queria me contar? — Marta indagou.
Aline suspirou profundamente antes de contar à mãe mais um de seus segredos.
— Eu... — Aline ficou hesitante e olhou ao redor da sala.
— Não precisa se preocupar, não tem ninguém aqui. Ande, diga — Marta a encorajou de modo paciente.
Aline tornou a corar um pouco e Marta esboçou um leve sorriso, já tendo ideia do que se tratava.
— Eu... eu fui no banheiro hoje e... — Ainda corada, Aline fitou os próprios dedos entrelaçados por cima das pernas, numa tentativa de não fitar a mãe. — aconteceu algo estranho.
O sorriso de Marta ampliou-se um pouco e ela suspirou de alívio. Com certeza, devia ser aquilo que ela estava pensando.
— Imagino. — Marta pegou gentilmente o queixo da filha, fazendo a jovem olhar para ela. — E como você se sentiu?
— Um pouco estranha. — Aline deu de ombros. — Parecia que eu estava prestes a morrer.
Marta riu achando graça. Aline também sorriu um pouco envergonhada.
— Não, minha filha. Nenhuma mulher morre com isso. O máximo que pode acontecer é você sentir muitas dores.
— Eu estou sentindo um pouco de dor.
— Isso é natural. — Marta acariciou a mão da filha. — Significa que você é uma moça prestes a se tornar uma mulher.
— Sim, a senhora já havia me dito isso antes. — Aline sorriu. — Eu só não achava que viria tão cedo.
Marta piscou surpresa.
— Cedo? Aline, você tem quinze anos. Comigo aconteceu aos dez.
— Com dez anos de idade? — Aline perguntou com surpresa e incredulidade para a mãe. — Mas a senhora era uma criança ainda.
— Sim, mas aconteceu. — Marta deu de ombros. — Não existe uma idade certa para uma menina tornar-se uma moça; pode acontecer cedo ou tarde.
— E comigo, foi muito tarde? — Aline indagou.
— Não exatamente — Marta respondeu. — Como eu disse antes, cada menina tem o seu próprio tempo; algumas tornam-se moças com oito ou nove anos de idade, enquanto outras tornam-se moças a partir dos quinze ou dezesseis. Pode ser estranho agora, mas aos poucos você irá se acostumar.
Aline sorriu mais aliviada, embora ainda estivesse um pouco envergonhada.
Era bom para Aline ter Marta como mãe, pois ela sempre a ouvia e a aconselhava — não apenas como mãe, mas como sua amiga. Marta e Camila eram as suas duas melhores amigas e em quem mais Aline podia confiar. Ela amava o pai e o irmão, mas eles não poderiam compreender muitos dos problemas de uma jovem adolescente.
— É estranho, mas sinto que estou crescendo rápido demais.
Marta continuou a acariciar a mão da filha e a apertou de leve num gesto carinhoso.
— Não pense assim, meu amor. Você apenas está passando por etapas que toda garota também passa e isso é natural na vida. Você está crescendo aos poucos, mas continua a mesma menina linda e encantadora de sempre — Marta disse e surpreendeu-se com o abraço caloroso da filha.
Marta abraçou Aline de volta, demonstrando todo o amor e afeto que sentia pela filha.
— Obrigada, mamãe — Aline agradeceu.
— Não tem de quê. Agora vamos para o meu quarto, mocinha, pois lhe darei alguns cuidados necessários que você irá precisar.
Marta levantou-se do sofá e segurou a mão de Aline, guiando-a pela sala de estar em direção à escadaria.
— Sim, mamãe — Aline aceitou um pouco mais confiante e seguiu a mãe, preparando-se para ouvir mais instruções e conselhos sobre mais uma descoberta em sua vida.
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