O check-in do hotel onde eles se hospedaram já havia sido feito e os três arrumaram as suas bagagens para partir para o local tão esperado que não ficava muito longe daquela cidade grande. Daniel fazia preces em pensamento para que Camila estivesse em casa, e mesmo que ela não estivesse, ele poderia sentar e esperar quanto tempo fosse preciso. Ela era a última esperança que o faria se reencontrar com Aline, e ele não deixaria essa última chance escapar pelos seus dedos. Sim, ele havia jurado para si mesmo não mais se desesperar ou dar lugar a ansiedade, mas era difícil quando sabia que estava bem perto do que mais almejava, ainda mais perto do que jamais esteve, mesmo depois de tantas vezes pensar que nunca mais poderia voltar a ver o seu grande amor.
Desta vez, o destino havia lhe sorriso e o presenteado com mais uma chance de encontrá-la. Não que Daniel não tivesse suas incertezas, mas agora a chama da esperança estava ainda mais forte em seu coração. Fábio, Maria, Ana, Luciano e Dalva o ajudaram a erguer a cabeça e seguir em frente em meio a tanta saudade e angústia, e Daniel sentia-se muito grato por isso.
Sim, havia uma grande chance de, mesmo após reencontrar Aline, ela não poder voltar com ele e Johnata para o rancho por conta daquele casamento fajuto, mas Daniel nada temia, nem mesmo um homem de prestígios, contanto que pudesse estar junto dela. No passado, Daniel não pôde fazer nada e teve de ver a pessoa que mais amava traçar um outro caminho em direção à um casamento com um homem que ela não amava, pois Daniel não tinha uma boa e estabilizada vida financeira, e Lucas precisava do tratamento para sobreviver. Daniel ainda não era rico como o homem com quem Aline era casada, mas ele lutaria para tê-la de volta em seus braços.
Após estacionar num acostamento próximo, Fábio, Daniel e Johnata saíram do carro e andaram pelas casas próximas. Finalmente, eles haviam chegado.
Fábio notou duas jovens sorridentes passarem cochichando próximas a eles, as duas dando olhares furtivos para Daniel, que mal percebeu a presença delas. Elas o desejavam e estavam encantadas com a sua aparência, assim como Ana e outras mulheres que o viram antes, mas obviamente Daniel não se importava, pois a mente e o coração do jovem rapaz só se fixava em Aline.
Por um lado, era bom vê-lo determinado em reencontrá-la, pois mostrava que o amor que sentiam era ainda maior que todos os obstáculos; mas, por outro lado, também era preocupante vê-lo tão otimista em voltar a encontrá-la, pois Aline ainda era uma mulher comprometida. Mesmo que Camila os levasse onde Aline pudesse estar, como aquela situação seria resolvida?
Daniel não notou as aparências das duas mulheres, mas conseguiu ouvir os cochichos e os risos. Essas pareciam ser ainda mais entregues do que as mulheres do vilarejo, talvez pelas influências mais modernas da cidade. Ana parecia ser uma freira comparada àquelas duas. Ele não se importava e nem se incomodava com o comportamento alheio, mas os sentimentos de tranquilidade e esperança de antes se dissiparam por conta da volta da ansiedade tomando a sua mente, embora o seu coração ainda estivesse com a chama da esperança ainda acesa. Era difícil não sentir-se nervoso, pois tudo estava a um passo de ser definido — tê-la de volta ou perdê-la mais uma vez.
Fábio deteu o passo em frente à uma casa, o seu movimento repentino servindo de reflexo para Daniel e Johnata.
— Fábio? — Johnata perguntou, fitando-o com curiosidade.
Fábio olhou da casa para Daniel.
— É aqui, correto? — indagou.
Daniel puxou o papel do bolso traseiro da calça e constatou que o endereço escrito por Luciano confirmava com o endereço na placa da rua e o número da casa.
Daniel assentiu.
— Sim — respondeu, o coração batendo mais forte. — É aqui.
A casa não era modesta e nem muito opulenta; a sua arquitetura mais lembrava algumas das casas e pequenos edifícios de San Francisco, diretamente em frente à calçada bem cuidada e com poucos degraus que davam para a entrada da casa. O estilo da arquitetura lembrava também as casas coloniais tombadas e a cor que mais se destacava na frente era o bege com alguns detalhes muito bem desenhados em preto. Pelas laterais, havia muitas plantas e flores, todas muito bem cuidadas.
Daniel olhou para Fábio e Johnata, o coração batendo forte e as mãos tremendo de ansiedade.
— Vá em frente — Fábio o encorajou e sorriu para confortá-lo.
Daniel também sorriu e olhou para o filho que o fitava com os olhos brilhando de alegria e esperança.
— Vá, papai — o menino repetiu ansioso.
— Vamos juntos — Daniel disse e olhou de Johnata para Fábio. — Nós três.
Fábio assentiu e segurou a mão de Johnata, seguindo Daniel que ía logo à frente, subindo os poucos degraus e parando em frente à uma porta de madeira. Daniel continuou parado, olhando para a porta, não porque ele se interessasse pelos detalhes mais nobres, mas porque os seus movimentos haviam travado; uma parte sua estava muito nervosa.
— Vá em frente, Daniel — Fábio tornou a encorajá-lo quando parou com Johnata num degrau abaixo. — Sei que você está nervoso, e isso é normal, mas continue. Nós conseguimos, chegamos até aqui. Agora só falta o próximo passo.
Daniel fitou os dois logo um pouco atrás e sorriu mais aliviado. Sim, faltaria apenas um passo para voltar a encontrar o amor de sua vida.
Ele tornou a sua atenção para a porta de entrada, bem mais esperançoso e determinado que antes. A partir dali, a sua vida mudaria para sempre.
◇
Sentada de modo relaxante e confortável no sofá enquanto via a TV, Camila ouviu uma batida na porta. Ela apertou o botão "mudo" do controle e olhou para a porta de entrada.
— Quem é? — Ela perguntou e ouviu como resposta o seu nome como também uma pergunta vindo de uma voz masculina e suave que ela nunca havia ouvido antes.
Camila desligou a TV e andou até a porta, destrancando-a, dando de cara com um jovem homem e logo ao seu lado um menino que se parecia muito com ele, embora, de certa forma, também lhe parecesse bem familiar. Contudo, as suas incertezas talvez tinham sido sanadas quando ela fitou Fábio logo atrás. Os olhos de Camila se arquearam em surpresa e ela levou a mão à boca, em choque pelo que estava acontecendo.
— Oh, meu Deus...
— Você é a Camila, certo? — Daniel perguntou já percebendo que Camila sabia de toda a história.
Ela assentiu de imediato, ainda completamente surpresa e atônita.
— Sim — ela respondeu. — Você é o Daniel, certo? — Ela indagou e o observou assentir. — Fábio... — Camila fitou o motorista e ganhou um sorriso sutil como resposta. Mas por quem os seus olhos ansiosos procuravam mesmo era por Johnata, que a fitava de modo curioso e cheio de esperança. Camila não pôde evitar que os seus olhos ficassem marejados ao ver aquele menino. — E você é o Johnata... não é?
Johnata sorriu e respondeu que sim. O sorriso dele era tão parecido com o da mãe...
Camila demorou a tirar os olhos do menino e fitou os dois homens.
— Como... como vocês chegaram aqui? — Ela indagou ainda atônita. — Como sabiam onde eu moro?
— Eu não sabia onde a senhorita poderia estar morando, mas sabia que havia se mudado — Fábio respondeu. — Luciano nos deu o endereço.
Camila assentiu ainda sem fala.
— Viemos buscar uma informação — Daniel disse parecendo mais calmo. — E só a senhorita pode nos dizer.
Os olhos de Camila fitaram os olhos intensos e determinados de Daniel e, por um momento, ela sentiu o seu coração parar. Algo dentro dela sabia que aquele momento chegaria um dia.
Camila engoliu em seco numa tentativa de se recompor e rapidamente saiu daquele transe, embora ainda estivesse totalmente surpresa pela situação imprevisível.
— Por favor, entrem — Camila os chamou de modo educado e abriu mais a porta.
Daniel a observou por um momento enquanto segurava a mão de Johnata.
Camila parecia estar nervosa e hesitante. Talvez fosse pelo fato de estar conhecendo as duas pessoas que ela mais ouvira falar por meio da melhor amiga. Ela também parecia ser uma pessoa bondosa e confiável.
— Não precisam tirar os sapatos — ela disse quando eles pararam na entrada da sala. — Sentem-se e fiquem à vontade. Vou pegar água.
Os três permaneceram em pé por um breve momento, um tanto reservados, antes de tomarem os seus lugares nos sofás que ficavam frente à frente, separados por uma pequena mesa de centro que ficava no meio do amplo espaço.
Camila havia morado com a família em outro local, portanto, aquela casa era nova. Contudo, mesmo sendo o lar de uma jovem, toda a mobília e decoração da sala de estar e da sala de jantar era escura e pesada, tendo poucos detalhes mais claros como contraste, Fábio pensou ao olhar ao redor.
— Papai — Johnata chamou Daniel que parecia estar mais calmo, porém, pensativo.
Daniel fitou o filho ao seu lado e sorriu.
— Diga.
— Eu gostei de tudo o que tivemos até aqui — disse o menino tão sorridente quanto o pai. — Se eu pudesse, faria tudo de novo.
O sorriso de Daniel ampliou-se e ele beijou o topo da cabeça do filho.
— Nós faremos quantas vezes você quiser. E agora teremos a sua mãe ao nosso lado — Daniel disse ainda mais esperançoso que nunca, também tão feliz quanto Johnata em ter conhecido pessoas tão encantadoras e passado por experiências tão maravilhosas.
Fábio sorriu observando pai e filho e notou Camila voltar da cozinha, carregando uma jarra de água e copos numa bandeja.
— Precisa de ajuda? — ele se ofereceu para ajudar, mas Camila esboçou um pequeno sorriso tranquilizador em resposta.
— Não precisa, obrigada, Fábio — Camila disse ao pôr a bandeja sobre a mesinha de centro e encheu os quatro copos. Ela também precisaria de um copo d'água. — Por favor, sirvam-se.
Os três pegaram os seus copos, agradecendo. Daniel e Johnata estavam no sofá à frente e Fábio estava logo ao seu lado. Camila também sentou-se e suspirou profundamente, observando pai e filho tão ansiosos e cheios de esperanças. Ela deu um olhar furtivo para Fábio. Certamente, ele não devia saber.
Camila fitou Johnata e esboçou um pequeno sorriso para o menino.
— E... quantos anos você tem? — Ela perguntou interessada.
Johnata piscou surpreso.
— Tenho cinco anos — o menino respondeu expondo os cinco dedos da mão esquerda.
Camila assentiu ainda sorrindo para o menino. Podia se notar um forte afeto no olhar dela pela criança.
— Entendo — Camila disse percebendo que as datas estavam corretas e quantas coisas haviam mudado até ali.
Daniel tomou um gole generoso de água e percebeu que Camila ainda não havia bebido a água do copo que segurava. Mas o que realmente chamou a sua atenção foi notar que as mãos dela estavam tremendo. O que estaria ocorrendo para que ela ficasse daquele jeito?, Daniel perguntou-se desconfiado.
— É uma grande surpresa ter vocês aqui e eu sei pelo que vocês procuram — Camila disse tendo a total atenção deles, principalmente de Daniel que a fitava de modo tão intenso. — Eu não gosto de embromações, mas, por favor, peço para que vocês ouçam o que eu tenho a contar.
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