domingo, 27 de setembro de 2020

Eternidade - capítulo 31



Finalmente, eles haviam chegado. Camila morava numa cidade bem desenvolvida, uma enorme metrópole onde tinham mais edifícios do que casas. Eles estavam super cansados de toda a viagem que fizeram, principalmente porque não dormiram muito, mas a satisfação de terem encontrado o lugar mais esperado falava mais alto.

Daniel não conseguia mais tirar o sorriso do rosto, embora ainda estivesse ansioso e apreensivo. Ele estava mais calmo e esperançoso de que tudo daria certo, ainda que existissem as dificuldades. Johnata também estava tão esperançoso quanto o pai e ainda mais enérgico que antes, apesar de ter dormido tão pouco. Fábio também estava tão animado quanto eles, mas decidiu que todos precisavam de um descanso, mesmo estando tão ansiosos pelo que viria a seguir. Eles se hospedaram por um dia num hotel não muito barato que havia na cidade e decidiram esperar pelo dia seguinte.

— Johnata, já sabe o que fazer — Daniel disse entrando no quarto logo atrás de Johnata e observando o filho serelepe pular numa das camas.

Johnata fitou o pai sem entender.

— O que eu tenho que fazer? — o menino perguntou.

— Tomar banho, ora — Daniel respondeu. — Ficamos por dias na estrada.

Johnata sorriu e se espreguiçou na cama.

— Ah... mas agora? — o menino perguntou dengoso. — Estou com sono.

Daniel não pôde evitar sorrir.

— Não duvido que você esteja com um pouco de sono, mas até agora você estava bem enérgico — Daniel contrapôs. — Além disso, já está ficando tarde e logo iremos dormir, então, nada de preguiça.

— Será que a senhorita Aline gostaria de saber que o filho dela está se tornando um porquinho? — Fábio comentou brincando ao notar o menino hesitante e pensativo. — Se eu fosse você, não daria esse desgosto para a minha mamãe.

Daniel sorriu achando graça e tornou a olhar para o filho que agora estava sentado na cama, olhando atentamente para os dois homens à sua frente.

— Ou eu posso dar banho em você, como nos velhos tempos — Daniel disse e o seu sorriso ampliou-se ao notar as sobrancelhas de Johnata se arquearem em surpresa. — Como você ainda é o bebê do papai, acho que seria o certo a se fazer.

Johnata fez uma leve carranca e lecantou-se da cama.

— Eu não sou mais um bebê — o menino resmungou e saiu em disparada em direção ao banheiro, sendo alvo de risada dos dois adultos.

— Então, está ansioso para amanhã? — Fábio perguntou após desabar sobre uma cadeira.

O quarto era relativamente grande. Três camas grande de solteiro preenchiam o ambiente e mais à frente havia uma mesa redonda e elegante que parecia ser estilo neoclássica rodeada por quatro cadeiras do mesmo modelo, e logo ao lado havia uma pequena área de lazer; no lado oposto do ambiente, entrando por um pequeno corredor, havia o banheiro da suíte e um pequeno closet.

— Confesso que sim — Daniel respondeu voltando do banheiro após entregar uma roupa limpa roupa para Johnata. Ele olhou para Fábio, percebendo que o amigo parecia estar pensativo, talvez até um pouco triste. — O que houve?

Fábio meneou a cabeça, tentando deixar de lado a questão que o incomodava. No entanto, ele sabia que o atual Daniel insistiria no assunto. Fábio fitou o jovem rapaz.

— O meu filho adoeceu — respondeu. — Pegou gripe.

Daniel se compadeceu e tomou outra cadeira ao lado para se sentar.

— Eu sinto muito. Quando você descobriu sobre isso? — Daniel indagou.

— Antes de ontem, quando paramos para comprar mantimentos num mercado perto da estrada — Fábio respondeu.

Daniel assentiu compreendendo.

— Bem que eu notei que você havia desaparecido por alguns minutos e logo depois voltou parecendo um pouco distante... Duda tem que idade?

— Um ano e oito meses — Fábio respondeu.

— Tão novo... — Daniel estava compadecido, mas ele não queria mostrar fraqueza ou desânimo. Fábio precisava de um ombro amigo e de uma forte motivação. — E a mãe dele?

— Ela está cuidando dele, já o levou ao médico. Eu fiquei realmente assustado quando ela me ligou chorando e me disse que o nosso filho estava doente.

Um breve silêncio correu pelo ambiente e Daniel tocou o ombro de Fábio num gesto amigável.

— Vai ficar tudo bem, ele vai melhorar. Realmente, é muito assustador quando as nossas crianças ficam enfermas, mas isso também faz parte do crescimento delas.

Fábio esboçou um pequeno sorriso para Daniel.

— Quem diria que um dia eu receberia conselhos de uma pessoa bem mais nova?

Daniel retribuiu o sorriso.

— Isso não é tão incomum. Afinal, mesmo eu sendo mais novo, tive filho primeiro.

— Deve ter sido assustador para você, não é?

Daniel se pôs a pensar por um momento.

— De início, quando eu me via sem o amor da minha vida e tendo que cuidar sozinho de um bebê, sim — ele respondeu ainda mantendo um pequeno sorriso. — Mas, os poucos, eu tive de me acostumar, e então percebi que as coisas foram ficando mais fáceis.

Fábio assentiu compreendendo.

Daniel era tão novo quando assumiu o dever de ser pai e, ainda assim, cuidava e protegia Johnata de uma forma que muitos pais mais velhos poderiam aprender. Fábio também gostaria de ser um pai parecido com Daniel; estar presente para o seu filho, protegê-lo de todo o mal e ensiná-lo as coisas certas e erradas da vida. Mas, infelizmente, a sua vida se dava a trabalhos e viagens para tentar dar o conforto que Amanda e Duda precisavam. Fábio sabia que não era somente o dinheiro dele que eles precisavam, mas todo o esforço era necessário por enquanto.

— Entendo — Fábio refletiu pensativo. — As coisas podem parecer difíceis agora, mas chegará o dia em que não precisaremos nos preocupar tanto.

— Exatamente. A solução é não perder a fé — Daniel concordou também pensativo. — Mas ele está melhor?

— Está melhorando aos poucos, Amanda está cuidando bem dele — Fábio respondeu. — Mas, ainda assim, estou preocupado.

— É natural, se trata do seu filho — Daniel disse. — Afinal, o menino está doente e ainda tem menos de dois anos de idade.

Fábio suspirou profundamente. Embora estivesse cansado físico e psicologicamente, ele teria de ser forte.

— Não se trata apenas de Duda estar doente, mas de eu não poder estar lá para apoiá-lo, cuidar dele. — Fábio passou os dedos pelos fios de cabelo num gesto exasperado. — Sou um pai ausente e meu filho está vivenciando coisas boas e ruins sem mim.

Daniel fitou atentamente o amigo, pensando em algo reconfortante para lhe dizer.

— É como você mesmo disse há pouco: "as coisas podem parecer difíceis agora, mas chegará o dia em que não precisaremos nos preocupar tanto", e é verdade — Daniel disse tendo a completa atenção de Fábio. — Não só você, mas eu também tenho esperanças de que tudo ficará bem; Johnata e eu teremos Aline de volta, e você poderá cuidar de sua família sem mais precisar ficar longe deles.

Fábio sorriu um pouco mais aliviado e Johnata saiu do banheiro, vestindo uma pequena calça quadriculada que era a parte de baixo de um pijama enquanto o tronco ainda úmido estava coberto apenas pela toalha.

— Tomou banho direitinho? — Daniel indagou a Johnata que vinha na direção deles.

— Tomei — o menino respondeu.

Daniel pegou a toalha e enxugou melhor o corpo do menino, incluindo o cabelo que estava encharcado.

— Johnata, não precisava você molhar o cabelo, pois logo iremos dormir.

— Eu me esqueci — o menino disse sorrindo.

Fábio continuou a observar Daniel e Johnata, admirando o afeto e a parceria entre pai e filho. Sim, um dia ele seria assim para Duda.

— Amanda? — Fábio chamou o nome da mulher que amava assim que a chamada foi atendida.

— Fábio? — a voz feminina falou do outro lado da linha. — É você?

— Sim, sou eu — Fábio respondeu e mexeu distraído na cortina da janela. — Como estão as coisas aí?

— Está tudo bem, Duda está melhor — ela respondeu com a voz suave e gentil. — E você?

Fábio observou o sol se pondo ao fundo, dando lugar a um céu mais escuro.

Ele suspirou profundamente, embora não estivesse mais com a mesma carga pesada e negativa de antes.

— Estou melhor agora, apenas um pouco preocupado — ele respondeu.

Fábio pôde ouvir Juliana também suspirar.

— Você não precisa se preocupar tanto. O nosso filho já está bem melhor e nada está faltando aqui em casa. Você está fazendo o que pode e isso já é o suficiente para mim — ela disse.

— Suficiente? — Ele sorriu. — Não quer que eu volte?

— Quero — ela respondeu e parecia também sorrir. — Mas sei que você trabalha muito e dá tudo de si para dar uma vida melhor à mim e ao nosso filho. Eu poderia trabalhar também para ajudar nas despesas, mas Duda ainda é pequeno e precisa de mim.

— Não, nem pense nisso — a voz de Fábio surgiu de imediato, embora o tom de voz ainda estivesse baixo por conta de Daniel e Johnata. Ele olhou para o lado e observou pai e filho vendo TV juntos, sentados num pequeno sofá que ficava mais ao lado da mesa redonda. — Faço o que faço para que você não precise mais se preocupar com essas coisas.

Um breve silêncio correu e Fábio instantaneamente soube que Amanda ainda estava pensativa sobre o assunto. Por mais que ela gostasse do papel protetor e provedor de Fábio, ele sabia que ela queria ter a sua independência financeira.

— Logo mais eu voltarei — Fábio disse ainda observando Daniel e Johnata descontraídos e alegres. — Neste momento, estou envolvido em algo muito importante, algo que fez parte do passado e que eu ainda vou te contar. E quando tudo se resolver, e eu tenho fé que vai, eu voltarei para casa e passaremos um tempo juntos, nós três, como uma família de verdade.

Amanda sorriu mais uma vez e agora ela parecia estar mais aliviada.

— Fiquei curiosa sobre o que se trata, mas esperarei você me contar quando chegar — ela disse e a alegria era perceptível em sua voz. — Nosso filho e eu estaremos te esperando.

Fábio sorriu e os seus olhos tornaram a observar o desencontro da lua e do sol no céu limpo e escurecido.

— Até mais — ele disse tendo a certeza de que aquela despedida não duraria muito tempo.

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