Aline havia ido embora, entrando no carro e mal conseguindo segurar as lágrimas incessantes que banhavam o rosto delicado. Foi a primeira vez que Aline caiu em prantos daquela forma depois de passar um bom tempo sem chorar desde a chegada do filho deles. Mas Daniel compreendia perfeitamente o sentimento de fragilidade e perda, pois ele sentia o mesmo.
Johnata estava em seus braços. O seu filho seria a sua única companhia e mais alguém para amar. No entanto, observar Aline ir embora e ficar parado sem poder evitar a sua partida o machucava profundamente; a sensação mais real era de sentir o seu coração ser arrancado.
Daniel permaneceu parado no mesmo local no gramado que ficava em frente à estrada principal. Aline realmente havia ido embora, talvez não para a casa da família, mas para a casa do homem que a havia proposto em casamento em troca do tratamento de Lucas, o irmão mais novo dela. O sentimento de incapacidade e de tristeza profunda ocupava a maior parte de sua mente e de seu coração, no entanto, Daniel não podia mais permanecer parado no mesmo lugar sem ter a mínima ideia do que fazer a partir daquele momento. O tempo estava se fechando e Johnata não poderia pegar friagem.
Aconchegando o menino em seus braços e enxugando as lágrimas de tristeza que o filho deixou cair por ver a mãe ir embora, Daniel tentou manter-se emocionalmente mais forte possível, beijou o topo da cabeça do bebê e se retirou daquele lugar rumo ao rancho.
Daniel continuou a olhar da janela da sala para a chuva que caía lá fora. Por um breve momento, ele lembrou-se do dia em que Johnata nascera, pois também havia chovido. Mas, diferentemente daquele dia tão memorável e especial, a chuva que caía agora deixava transparecer toda a dor e tristeza que estavam no ar.
Daniel suspirou, sentindo-se perdido e sem ter qualquer noção do que fazer. Johnata não parava de chorar, nem por um momento, mesmo depois de Daniel dar banho no filho e ter esquentado leite para ele beber. Havia tentado fazê-lo dormir, dando suaves tapinhas no bumbum do bebê para acalmá-lo, mas não havia dado certo; a ansiedade e inquietação do bebê não só se davam pela falta da mãe, mas também como um reflexo do desespero e abalo emocional do pai.
Daniel não sabia realmente como cuidar de um bebê, pois essa tarefa sempre coube a Aline, enquanto era ele quem fazia os afazeres do campo. Trocar fralda, regular a temperatura do leite, fazer dormir... tudo isso parecia ser tão fácil quando via a sua mulher fazendo, mas praticamente impossível quando era só ele.
O olhar de Daniel deixou a vista lá fora e a sua atenção se voltou para o quarto, onde Johnata chorava incessantemente, desesperado para ter o calor e a proteção de um dos pais — mais precisamente da mãe.
Ele suspirou profundamente, tentando manter os pensamentos em ordem. Dar lugar à ansiedade e ao desespero não seria o certo, afinal, Johnata precisava dele.
— Shh... Calma — Daniel disse baixinho após inclinar-se sobre o berço e pegar o filho no colo. — Papai está aqui.
Mesmo dizendo palavras tão doces para confortar o filho, o bebê continuava a chorar e soluçar com a mãozinha fechada em punho parcialmente dentro da boca, olhando inquieto para todos os lados. Johnata sentia a falta da mãe e a queria muito, e Daniel o compreendia perfeitamente.
— A mamãe não vai voltar. Não ainda — Daniel disse tentando ninar e acalmar o seu filho inquieto. — Mas até ela voltar para nós, papai estará aqui para cuidar e proteger você. — Daniel beijou o rostinho molhado do filho que agora somente soluçava e emitia gemidos manhosos. — Está bem?
Daniel sentiu um lado do seu rosto humedecer, mas constatou que não era por causa de Johnata, ele também estava chorando.
Como um oposto de Aline, Daniel não era tão sensível e fácil de demonstrar emoções, ele era um homem bem reservado e relativamente frio. Mas Aline mexia com os seus pensamentos e ações de tal forma que era quase impossível ocultar suas reais emoções e toda a angústia em seu coração.
Doía olhar para os cantos da casa e do rancho e não encontrá-la. Doía não poder vê-la na cozinha, cozinhando sorridente e perguntando o que ele iria querer comer, não poder ouvi-la contar sobre coisas da vida — ainda que algumas delas se tratassem de algo triste, como o caso de Lucas —, não correr atrás dela numa das brincadeiras infantis que ambos ainda faziam, não ter o corpo dela debaixo do seu e ouvi-la suspirar e sussurrar o quanto o amava.
Daniel continuou a ninar o bebê, mas dessa vez ocultando o rostinho do filho em seu peito. Ele não queria que Johnata o visse chorar, que visse a sua fraqueza; Daniel tinha de manter-se forte pelos dois a partir daquele momento.
— Tudo vai ficar bem, você vai ver — ele disse com a voz embargada pelo choro, o seu corpo tremia e as lágrimas de tristeza não conseguiam cessar. — É uma promessa — Daniel continuou a dizer, mas, no fundo, perguntou-se se estava dizendo aquelas palavras para Johnata ou para si mesmo.
◇
As coisas ainda eram difíceis, mas não tão complicadas quanto antes. Com os seus vizinhos mais próximos, Daniel aprendeu que não podia dar leite de vaca para um bebê e nem mesmo deixar a temperatura acima da ideal. Agora ele entendia porque Johnata sempre evitava ser alimentado. De início, Daniel sentiu-se culpado por fazer o seu filho passar por aquela situação, mas tentou não se culpar tanto, afinal, aquilo tudo era muito novo para ele. O jeito, então, foi comprar um leite especial, e nada barato, que mais se assemelhava ao leite materno de uma mulher. Johnata agora se alimentava do modo correto, mas as manhas e os receios continuavam, pois não era o mesmo que estar nos braços da mãe e ser amamentado por ela.
Daniel já estava acostumado a acordar várias vezes no meio da noite para tentar saciar os anseios do filho, mas, com Aline presente, tudo era muito mais fácil, embora novo e diferente. Mas agora ele tinha de fazer tudo sozinho, tentando ao máximo dar o melhor de si ao filho, mesmo que as suas tarefas diárias muitas vezes fossem feitas às pressas ou até mesmo algumas delas serem deixadas de lado para dar atenção ao bebê ou descansar o que não conseguia de madrugada.
Em um desses assaltos ao sono, Daniel percebeu que o filho chorava com dor e incômodo, o que parecia ser cólica. Johnata já tivera a mesma dor antes, e rapidamente Aline o tirou do berço e o deitou nos braços, acalmando-o por quase toda a noite. Tentando dar o seu melhor, Daniel fez o mesmo que sua mulher e pegou o filho nos braços, ainda completamente sonolento, mas se esforçando para manter-se acordado, e o ninou calmamente, mas Johnata continuava a emitir choros manhosos. Como um último recurso, ainda porque estava cansado demais para continuar mantendo-se sentado, Daniel deitou-se na cama de barriga para cima e apoiou o corpinho pequeno e frágil do filho de bruços em sua barriga. Enquanto um braço se ocupava em mexer suavemente o corpinho do bebê, a outra mão dava delicados tapinhas no bumbum vestido pela fralda. O choro do bebê havia cessado e o silêncio ecoou pelo quarto, o que significava que Johnata havia dormido ou estava prestes a dormir. Daniel abriu os olhos e fitou o filho, percebendo que o bebê olhava sorridente para ele. Daniel também sorriu enquanto prosseguia com os movimentos de ninar.
— O que foi? — ele perguntou sonolento enquanto Johnata continuava desperto, embora ainda estivesse um pouco fragilizado pela dor da cólica. — Do que você está rindo?
Johnata emitiu um gritinho de alegria, remexendo-se sobre a barriga do pai. Daniel riu achando graça, mas continuou a ninar e confortar o seu filho, tentando manter-se desperto, pois Johnata não dormiria tão cedo.
O bebê Johnata estava crescendo forte e saudável, dando menos trabalho a cada tempo que passava. Diferente de outros bebês, Johnata não era tão bagunceiro, e nos únicos momentos em que Daniel tinha de dar total atenção a ele eram nos horários de amamentação, limpeza e quando tentava colocá-lo para dormir — o que não era uma tarefa fácil, pois, ao mesmo tempo que o filho era calmo, ele também era bastante agitado; um bebê bipolar.
Daniel incentivava o filho a engatinhar em sua direção no tapete da sala e se divertia em ver o filho se animar com a tarefa. Ele nunca incentivava Johnata a dizer uma primeira palavra em específico, mas sempre lia para o filho e o ensinava algumas coisas, mesmo que não fosse para a idade adequada, mas Daniel gostava de vê-lo aprender. Contudo, mesmo sem ensiná-lo e incentivá-lo a dizer a dizer qualquer palavra, Johnata surpreendeu Daniel, emitindo com a voz fina e desconexa a sua primeira palavrinha: mama.
De início, Daniel pensou que se tratava de mamar na mamadeira ou de querer a papinha de frutas, mas percebeu que Johnata dizia "mama" repetidamente se referindo a mãe. Daniel sorriu, emocionado. Mesmo tendo se passado dez meses após Aline ter ido embora, de algum modo, Johnata lembrava-se dela e sentia a sua falta.
Pouco tempo depois, Johnata deu seus primeiros passos com as suas perninhas fofas e cheias de dobras em direção ao pai enquanto Daniel concertava o trinco da porta de entrada. Daniel percebeu que Johnata, que antes estava engatinhando pelo chão da sala, esforçou-se ao máximo para ficar de pé, apoiando as mãozinhas no tapete enquanto as perninhas tremidas buscavam por equilíbrio. O bebê caiu apenas duas vezes na tentativa de começar a andar, mas não se machucou e nem mesmo chorou. Daniel pausou a sua tarefa e sorriu encantado para o seu bebê. Johnata parecia ser destemido e determinado, e isso o enchia de orgulho.
— Vem — Daniel agachou-se a poucos metros do filho e estendeu os braços para que o bebê fosse até ele. — Venha cá.
Johnata sorriu para o pai e isso lhe deu mais motivação para continuar se equilibrando nas perninhas desengonçadas. Com passos pequenos e rápidos, mas quase caindo — o que alertou Daniel, mas não ao ponto de interromper o esforço do filho —, Johnata andou na direção do pai e, quando estava prestes a perder o equilíbrio, Daniel o agarrou no ar, fazendo Johnata dar um gritinho delicioso de alegria.
Daniel soltou uma risada satisfeita e deu dois beijos no rostinho do filho, orgulhoso de mais uma conquista de Johnata. A partir dali, seriam mais conquistas e aprendizados que ambos teriam.
Cuidar de um bebê era algo novo e complicado, mas Daniel não se queixava. Por mais que Johnata não fosse mais um bebê recém-nascido, os choros manhosos e os dengos continuavam — fossem pelas necessidades diárias de um bebê ou pela atenção do pai. Num certo dia, Daniel não havia conseguido fazer nada para o rancho ou para si mesmo, apenas para Johnata, pois o bebê havia chorado tanto que fizera a cabeça de Daniel praticamente explodir de tanta dor. Em muitas vezes, o menino dava trabalho, mas Daniel sempre procurava ser paciente e satisfazer os anseios do filho — não que quisesse mimá-lo, mas Johnata ainda era um bebê e a sua única família agora.
O tempo passou; em algumas vezes, mais rápido, e em outras, mais devagar. Johnata crescia saudável e cada vez mais esperto. Já falava outras palavras além de "mama", corria para um lado e para o outro depois que aprendeu a andar, ajudava o pai em pequenas tarefas fáceis e bobas e aprendia palavras de livros que Daniel lia para ele. Ser pai era maravilhoso, Daniel pensou satisfeito consigo mesmo.
Como havia prometido à Aline, Daniel começou a falar sobre ela ao filho, ainda que ele soubesse que a criança não entendesse muita coisa. No entanto, Daniel quis falar algumas coisas sobre Aline à Johnata, fazê-lo se acostumar com os relatos contados e, assim, crescer com um forte sentimento em relação à mãe.
Daniel não tinha sequer uma foto dela para mostrar à Johnata; a imagem de sua mulher, o amor de sua vida, estava apenas e unicamente guardada em sua memória. Quer dizer, não apenas em sua memória, mas também em todo o jeito gracioso e encantador de Johnata, principalmente no sorriso vivo e reluzente que era tão parecido com o de Aline.
O tempo continuou a passar e Daniel melhorava cada vez mais, tentando superar um dia após o outro, não apenas para ser um pai dedicado para Johnata, mas também para conseguir lidar com o fato de Aline não estar mais ao seu lado. Era difícil, ele sabia, e mais parecia que ele era um homem viúvo a cuidar sozinho do único fruto do amor que tivera com Aline. Mas ainda que uma parte de seu coração estivesse vazia pela ausência de sua amada, a outra parte era completada ainda mais por causa de Johnata e as alegrias constantes que o filho lhe proporcionava. Johnata crescia sendo uma criança inteligente e cativante, fazendo amigos por onde passava, inclusive na escolinha que Daniel o havia matriculado.
Daniel tinha uma vida tão tranquila e maravilhosa com Johnata no rancho que, em apenas algumas vezes, ele sentia que não poderia faltar mais nada. Todo o processo de tentar se curar pelas feridas da saudade e de ser um bom pai para Johnata havia sido bem desenvolvido, embora ainda estivesse em andamento, pois Daniel sabia que as coisas ainda poderiam melhorar; era uma esperança que ele tinha, ainda que um desses dois processos fosse tão complicado.
Mesmo tendo a sua própria cama, Johnata dormia algumas vezes com Daniel, deitado de bruços sobre a barriga do pai, exatamente como nos dias em que o menino sentia cólicas quando era só um bebê. Ambos gostavam muito dessa aproximação e sentiam-se ainda melhores assim do que quando dormiam separados. E pensar que Daniel já havia expulsado o filho da cama para ficar deitado somente com Aline, Daniel pensou sorrindo.
Ele observou o filho relaxado num sono profundo durante uma tarde calorenta e cansativa e imaginou Aline olhando pensativa para o céu, ou qualquer outro belo lugar, e pensando nos dois. Daniel nunca havia sido o tipo de pessoa que almejasse riquezas, mas a sua visão havia mudado, pelo menos por um momento, quando descobrira sobre a doença de Lucas e sobre o casamento arranjado que Aline tivera de se submeter para salvar a vida do irmão. Se Daniel fosse um homem rico, Johnata teria conhecido a mãe e Aline estaria junto deles; talvez a vida fosse difícil em alguns momentos, mas sem qualquer sofrimento, que era pelo que Daniel estava passando.
Johnata era o seu único refúgio, a única razão que o fazia erguer a cabeça, seguir em frente e não desmoronar de vez. E por mais que tudo parecesse difícil e cansativo, pai e filho podiam encontrar conforto e segurança, um nos braços do outro.
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