Já estava quase na hora de ir embora. Luana estava muito cansada depois de muito trabalho feito e o que mais queria agora era desabar em sua cama e dormir até outro dia.
Jéssica foi até a sua mesa.
— Me conte tudo — ela disse com um ar conspiratório.
Jéssica sentou-se de lado em cima da mesa, olhando para Luana, esboçando um sorriso um tanto malicioso.
— Hum? Contar o quê? — Luana perguntou sem entender.
— Sobre o David. O que foi que ele falou para você? — Os olhos de Jéssica reluziam de curiosidade.
Luana engoliu em seco e desviou o olhar para a mesa de trabalho de David que estava com a cadeira vazia.
Durante quase todo o dia ela o sentiu olhar para ela daquele jeito intenso que a deixava com calafrios. Luana sentia muito ter mentido para ele por falar que iria ao posto médico, sendo que só iria na farmácia comprar os remédios que o doutor já havia receitado. Mas o que mais ela poderia fazer? Ele a desconcertava. Ela não era, de modo algum, imune a ele. David a deixava sem ar e, ao mesmo tempo, um pouco temerosa... tinha de ficar longe dele.
Luana voltou a realidade e fitou novamente a sua amiga curiosa.
— Nada — ela gaguejou. — Não houve nada.
— Ah, pelo amor de Deus, Luana. Eu vi. Você parecia meio desconcertada perto dele. Parecia que ele estava dizendo algo que te perturbou...
— Exato. — Luana olhou para alguns de seus papéis espalhados sobre a mesa e os arrumou como uma maneira de se distrair e não encarar a amiga. — Ele realmente me desconcerta.
— E o que você vai fazer em relação a isso?
Luana a encarou.
— Como assim?
— O que você vai fazer? Vai deixar por isso mesmo? — Jéssica insistiu.
— Não entendo o que você quer dizer...
— Ah, Luana, pare! Você mesma vive me jogando para cima do Fred. — Jéssica olhou rapidamente ao redor da empresa, preocupada se alguém pudesse ouvir o que ela havia dito. Ela voltou a sua atenção para Luana. — Você vive dizendo que eu devo tomar alguma atitude em relação a ele... agora quando é com você, você simplesmente fica quieta, não faz nada.
Luana ficou vermelha e desviou o olhar.
— E o que você quer que eu faça?
— Fale para ele.
— Falar o quê? — Luana olhou para a amiga. — Que eu tenho medo dele?
Jéssica a encarou com surpresa. Com certeza, não era a resposta que ela estava procurando.
— Medo?
— Sim. Medo — Luana respondeu rapidamente. — Ele me dá muito medo.
— Mas, por quê? — Jéssica indagou sem entender.
O que Luana poderia dizer? Que ele se vestia de modo estranho? Que ele era um pouco sinistro, principalmente com ela? Aquele modo dele olhar que parecia querer devorá-la inteira... Não! Ela tinha que se manter afastada dele.
— Porque sim — Luana respondeu simplesmente.
— Ah? — Jéssica perguntou, ainda sem entender.
— Ele... — Luana gaguejou sem saber o que dizer. Afinal, o que poderia dizer para sua amiga? Se continuasse a contar a ela os seus outros motivos, Jéssica iria rir dela. — Ele é... um pouco diferente...
— Bem, isso é óbvio — Jéssica concordou impassível.
Luana desviou o olhar de Jéssica e notou David indo em sua direção.
Ah, meu Deus...
O que ele queria agora? Atormentá-la ainda mais com aquele olhar de “eu quero roubar a sua alma”?
Luana levantou-se da cadeira e rapidamente arrumou as suas coisas, deixando Jéssica um tanto confusa com sua pressa. Mas, de fato, aquilo não adiantaria nada, pois David estava indo em direção à mesa dela, encarando-a do mesmo modo sombrio e com ainda mais determinação brilhando nos olhos safira.
— Luana — Ele a chamou.
Vai embora, por favor...
Luana hesitou em olhar para ele, mas o fitou de modo que não pudesse deixar transparecer suas reais emoções.
— Sim...?
— Você já vai? — David continuou a olhar para ela, mas depois olhou para Jéssica ainda sentada de lado na mesa, olhando confusa para os dois. — Ah. Oi, Jéssica.
Jéssica sorriu e saiu de cima da mesa.
— Oi, David. Vou deixar vocês um pouco sozinhos.
Não!
Luana arqueou os olhos para Jéssica que a ignorou e saiu andando rindo.
Ela respirou profundamente e tornou a olhar para David. Ele estava apoiado na sua mesa, com seus bíceps flexionados, encarando-a daquele modo novamente. Realmente, ela não sabia o que fazer em relação àquele homem.
Luana se esforçou o bastante para não rir de desespero, correr ou desmaiar.
— O que? Não entendi. — Ela engoliu em seco e tentou manter-se mais firme possível.
David sorriu. Por que ele tinha de ser tão lindo?
— Perguntei se você já vai embora — ele repetiu.
— Sim, vou. E sozinha — ela respondeu com pressa e desviou o olhar, guardando a papelada dentro de uma das gavetas. Deixaria o resto do trabalho para o dia seguinte.
— Luana — David pegou seu queixo, fazendo-a olhar para ele. — Pare de ser tão hostil a mim.
Por um breve instante, Luana sentiu todo o seu corpo travar.
— O quê... eu...
— Parece que você está fugindo de mim. Aliás, como sempre. — David a olhou nos olhos. Havia raiva reluzindo nos olhos safira. — Por quê você sempre foge de mim, Luana?
— Eu... não estou... — Luana voltou a gaguejar e engoliu em seco. — Deve ser impressão sua...
David continuou a fitá-la por um momento antes de soltá-la.
— Tudo bem, então. — Ele se empertigou ainda olhando para ela. — Vamos para a sua casa, então? — Sorriu.
Luana estava prestes a perder os sentidos. Era esse o jogo. Se ela tentasse se esquivar dele, ele a intimidaria ainda mais. Mas ela tinha de ficar longe dele.
— Não dá... — Luana, com sua bolsa em mãos, deu a volta pela mesa e correu até a porta. — Tenho que ir em um lugar primeiro.
David foi em sua direção com o mesmo brilho de determinação no olhar.
— Ao médico?
Luana fez que sim, tentando não transparecer seu temor.
— Vou com você — ele disse decidido.
E agora? Luana não tinha mais saída. Ele queria ir com ela. Não importava o quanto ela quisesse fugir dele, o quanto evitasse estar perto dele, David sempre a alcançava e não aceitava uma recusa como resposta. O que ela iria fazer agora se ele já a havia encurralado contra a parede?
— David! — Jéssica apareceu atrás dele.
David e Luana olharam para ela.
— Jéssica... O que foi? — Ele perguntou.
— Fred está te chamando para ajudá-lo com um probleminha urgente...
David olhou para Luana, hesitando.
— Não tem como você ajudá-lo? Ou vocês podem fazer amanhã. Já deu a hora de irmos embora.
— Ah, mas o chefe pediu para hoje mesmo porque ele vai entregar amanhã... E só dois homens mesmo para fazer — ela insistiu.
David e Luana a olharam, confusos. E também com certa desconfiança por parte de David.
— É uma máquina. Consertar uma máquina de impressão. — Jéssica explicou. — Nina e eu não conseguimos. Ainda mais a Nina, que está com o dedo machucado... — Jéssica parecia estar ocultando algo.
Ah, então era isso! Jéssica estava tentando acobertá-la. Luana sorriu aliviada. Naquele momento, ela queria abraçar Jéssica, mas tinha que aproveitar a chance que sua amiga estava lhe dando.
— Bem, então... eu já vou, gente. Tchau, Jéssica. Tchau, David. — E a última coisa que ela viu foi David olhando para o nada com uma raiva mortal. Não era à toa que tinha medo dele.
°•♤•°
Depois de já ter comprado os remédios, Luana ficou no ponto de ônibus, esperando. Ela verificou o relógio de pulso: já eram nove horas da noite. Tinha que ir logo para casa, antes que sua madrinha começasse a reclamar, como sempre.
Luana sentou-se no banco e encostou a cabeça no vidro. Por quê as coisas tinham que ser assim, por quê ele não podia ser um pouco mais normal? Se ao menos, ele ainda fosse como antes, quando era mais novo, seria tão bom...
O ônibus chegou, despertando-a de seus pensamentos.
Depois de ter pagado a passagem e de ter sentado por cortesia de um senhor de idade que já estava indo embora, pois o ônibus estava muito cheio, Luana encostou o rosto na janela e continuou pensando em David.
Não era nem um pouco fácil para ela fugir dele. Para falar a verdade, uma parte sua sentia uma vontade imensa de estar perto dele, de ficar com ele. De vê-lo sorrir, de ouvi-lo contar os seus segredos mais íntimos. Mas era exatamente aquilo que ela não conseguia assimilar; o que, na verdade, sentia por ele?
Ela não sabia. Mas, de qualquer forma, deveria ficar longe de David.
Luana riu ao lembrar de Jéssica enganando David. A mulher no banco ao lado a fitou como se ela fosse louca. Luana colocou a mão sobre a boca para não rir mais ainda, mas acabou falhando. No dia seguinte agradeceria muito à Jéssica. Aquilo, sim, foi prova de uma verdadeira amizade.
Luana parou de rir e novamente encostou a testa no vidro, sua mente vagando em pensamentos. Ela tinha que resolver esse problema com David de uma vez por todas. Luana suspirou e depois bocejou com sono. Mas iria pensar nisso mais tarde. Agora só iria descansar um pouco.
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