Furioso. Ele estava furioso.
David olhou de soslaio para seu tio mais velho. Não estava a fim de conversa.
— O que foi? — Inquiriu de modo ríspido.
Ivan se ajeitou na poltrona e fitou o sobrinho.
— Você parece mais nervoso do que o normal.
Normal? Como se ele a todo momento passasse por momentos frustrantes como aquele, David pensou irritado. Bem, talvez fosse verdade.
David fitou mais uma vez seu tio e tomou uma respiração profunda antes de se sentar no sofá ao lado.
— Você fala como se eu ficasse nervoso o tempo todo.
Ivan achou graça.
— Mas você fica nervoso o tempo todo — Ivan disse parecendo analisá-lo. — Só que agora parece mais.
— Ah, é? — David perguntou vagamente.
— Por causa de uma garota? — Ivan indagou e David o encarou com surpresa.
David se ajeitou de modo desconfortável e suspirou impaciente.
— Ora, ora... Essa é a parte boa de ser um vampiro completo, não é? Ler mentes.
— Não precisei ler a sua mente quando cada expressão do seu rosto e do seu corpo deixa transparecer tudo — Ivan respondeu. — E mesmo que eu estivesse, não é como se você também não pudesse ter esse dom futuramente.
— Você sabe que eu sou mestiço. — David o encarou de modo gélido.
— O sangue de um vampiro corre em suas veias, David. As coisas vão começar a acontecer com você pouco a pouco.
David não gostava de tocar naquele assunto mais do que incômodo, mas seria melhor do que responder sobre a mulher que assombrava a sua vida e o seu coração.
— Incluindo varar a madrugada, igual a vocês?
— Isso. — Por alguma razão, que Ivan não soube explicar, ele estava se sentindo bem em explicar certas situações para David.
— E... beber sangue?
Ivan não pôde evitar que um pequeno sorriso se formasse no canto de seus lábios ao notar a expressão de repúdio no rosto do sobrinho.
— Sim — respondeu de modo paciente. — Mas, quando isso acontecer, ficaremos de olho em você. Você sabe. Vampiros sabem se controlar...
— E mestiços, não. — David completou com secura na voz. — Sei a minha condição.
— Mas, então, quem é a garota?
David suspirou de modo frustrado. Pensar que Ivan esqueceria o real motivo de todo o seu estresse acumulado seria muita ingenuidade.
— Que "garota"? — David perguntou na defensiva.
Ivan sorriu.
— Vamos lá, a mim você não engana. Quando eu perguntei se o motivo de você estar assim seria por uma garota, as suas pupilas dilataram — Ivan respondeu fitando atentamente o sobrinho. — E não precisei ler seus pensamentos.
David desviou o olhar, contrariado.
— Você não a conhece.
David não queria contar para os tios que estava completamente apaixonado por uma mulher que o desprezava.
— Traga-a aqui — Ivan sugeriu.
David o encarou e esboçou um sorriso surpreso e incrédulo.
— Aqui? — ele resmungou. — Ela simplesmente não quer dar dois passos fora da empresa comigo. Vive me evitando, parece que tem medo de mim.
Ivan se surpreendeu.
— Ora. Parece que você vai ter de conquistá-la aos poucos.
David olhou para o tio. Não gostava de contar seus segredos para ninguém mas, por alguma razão, acabava deixando se levar com Ivan.
— Você não sabe o que está dizendo. Ela nunca vai querer nada comigo.
— Nunca é tempo demais. Você só não pode desistir.
David esboçou um pequeno sorriso. Era estranho ouvir algo do tipo vindo de um dos tios, mas, ao mesmo tempo, um pouco motivador.
— E seria aceitável isso, trazer mais uma humana à família? — Decidiu provocar até ver onde ía a pose de "tio apoiador".
— Sei que você está sendo sarcástico, David. Você pouco se importa com a Elite.
— Mas, e quanto a vocês? Seriam mais mestiços na família. — David continuou a provocar. Queria saber a opinião da pessoa que mais parecia se importar – ou fingia se importar – com ele naquela casa.
— David, pare com isso. Isso pouco me importa — Disse Ivan sem se deixar abalar, apesar das palavras do sobrinho lhe trazerem lembranças incômodas. — Em algum momento, desde que você nasceu, tem sido maltratado por nós? E estou falando da família, não da Elite.
David pareceu ponderar. Bem, ele realmente nunca fora maltratado pela família, embora os tios tenham sido negligentes com ele. Shartene e Miranda também sempre o trataram com respeito e doçura.
— Bem... não — David respondeu num murmúrio e desviou o olhar para um ponto na sala.
— Pois então. Tente quebrar essa barreira que você coloca em sua frente. Só assim, você poderá conquistar o que quiser, inclusive essa garota que você ama.
David fitou Ivan e sorriu.
— Eu não disse que a amo.
— Eu lendo mentes ou não, isso é uma coisa que está na sua cara.
— Hum.
David tornou a desviar o olhar.
Quebrar a barreira... Mas, como ele poderia quebrar alguma barreira? Seu passado e seu presente o atormentavam, e no futuro seria pior por causa de sua condição sanguínea. E vendo Luana o desprezando o matava ainda mais. A vontade que sentia era de agarrá-la a força e fazê-la entender de uma vez por todas a quem ela pertencia. Não. Se fizesse isso, iria afastá-la definitivamente. Que inferno!
— Além disso, é previsto mais mestiços na família. — Ivan sorriu, misterioso.
David olhou surpreso para Ivan.
— O quê? — O que ele estava dizendo?
— Seu tio Alan. Está de caso com uma humana. — Deu de ombros. — Bem, pelo menos é o que parece.
— O Alan? — Pela primeira vez, depois de um dia estressante, David sorriu.
— Parece que sim. — Ivan o analisou mais atentamente. — É bom ver você nesse momento de descontração, David. Bem melhor do que ver você todo sério e amuado.
O sorriso de David esmoreceu.
— Sério e amuado, é? Bem, qual é o nome dessa infeliz?
— Bela Lua. — Uma voz conhecida veio da porta de entrada da casa. — Minha linda e bela.
— Como vai, “Drácula”? — Ivan não pôde evitar transparecer um tom de voz sarcástico e repreensivo.
— “Drácula”? — David perguntou sem entender ao olhar para os dois tios.
— Seu tio Alan disse para essa pobre menina que se chama Drácula.
— Ah, é? — David fitou o seu tio mais jovem.
— Drácula é um nome de prestígio, um nome de poder — Alan respondeu ainda de pé, olhando para irmão e sobrinho com um ótimo humor. — Todos temem esse nome, então achei que ficaria melhor em mim.
— E por que você sentiu toda essa necessidade de se achegar a uma humana? — Ivan inquiriu. — Ainda se apropriando de um nome que não é seu para impressioná-la.
Alan suspirou de modo paciente. Ele já sabia que Ivan iria repreendê-lo por sua atitude.
Ele andou até o outro sofá e se sentou de modo relaxado e confortável.
— Impressioná-la não deu tão certo assim, visto que ela parecia não saber nada sobre o nosso mundo — Alan disse.
— Mas ainda assim, a impressionou, pelo visto — Ivan disse. — Ou a falta de conhecimento dela sobre o nosso mundo te fez desistir dessa ideia absurda?
David continuou a olhar para os tios sem entender quase nada.
Alan se ajeitou de modo mais confortável e tentou não deixar se abalar pelo olhar e tom de voz repreensivos do irmão mais velho.
— Não, não me fez desistir — respondeu. — Vivemos num local completamente isolado e ninguém vem aqui, então acho que me deixei levar pelo fato de ver uma linda garota visitar a nossa casa. Ela não tem muita coisa que a faça ser especial em comparação a outras mulheres e vampiras, mas realmente me interessei por ela.
— E você nem ao menos pensou na possibilidade de toda a Elite ficar sabendo? — Ivan insistiu.
Alan fitou os olhos confusos de David por um breve momento antes de se voltar para o irmão.
— Deixe que com a Elite eu me entendo, isso se eles descobrirem — o que eu espero que não aconteça. Não se preocupe, Ivan. Sou Drácula apenas para ela.
David estava cansado e a última coisa que queria era ouvir sobre as recentes aventuras românticas de um de seus tios. Decidiu se recolher.
— Bem, vou para o meu quarto.
— Ainda sente sono à noite, David? — Alan perguntou surpreso.
— Sim, um pouco — David respondeu ao se levantar. — Mas estou prestes a me preparar para viver noites infernais sem dormir.
— Não são infernais, David.
— Talvez para vocês. Eu trabalho.
— Tudo bem, David. Tenha um bom descanso — Ivan disse.
David se retirou do recinto e subiu a escada em direção ao seu quarto, mas parou no início do corredor para ouvir o que Alan e Ivan diziam a seu respeito — o que sempre acontecia.
— David deve ser controlado, Ivan — Se ouviu a voz de Alan. — Ele ainda vai fazer muita bobagem.
— Não se preocupe com isso, Alan. Ficarei de olho nele, mas você também tem que me ajudar.
— Vou ver o que posso fazer.
Merda! Eles estavam conspirando novamente por suas costas, como se ele fosse um cachorro que tivesse de estar sempre preso a uma maldita coleira. Não precisava de ninguém o controlando.
— Agora me conte mais sobre você e aquela jovem moça, Alan. Sei que há mais nessa história que você ainda não contou — Ivan continuou.
Não havia mais por que David continuar ali parado, ouvindo os seus tios falarem dele ou de quem quer que fosse. Ele saiu daquele canto num ímpeto e bateu furiosamente a porta de seu quarto.
Ao entrar no recinto, o olhar de David pousou sobre o enorme retrato emoldurado que ficava na parede ao lado da porta e praticamente em frente à sua cama; era um enorme retrato de Luana.
No retrato, ela estava sorrindo alegremente. Como ele amava aquela mulher. Ele a queria para ele, e só para ele. Não havia colocado para correr todos os namorados que ela tivera à toa. Cinco namorados. Cinco babacas que ele tinha aterrorizado sem ela nunca saber. Desde então, ela não teve mais qualquer pessoa em sua vida, talvez por achar que era desinteressante — o que era uma enorme mentira, pois David a queria com todo o seu ser, desde o momento em que a conhecera. Ainda assim, ela ainda era inalcançável. E a cada vez mais, essa distância crescia entre eles.
O que Ivan dissera era verdade? David deveria mudar aquele jeito intimidador? Não, ele era assim e não iria mudar. Havia sido um menino inocente no passado e o menosprezaram, o colocaram abaixo da ralé. Agora tinha que mostrar que era forte, tão impetuoso como foram com ele.
Trancou a fechadura da porta.
David tirou os seus sapatos lentamente, olhando para o rosto sorridente no retrato. Com a mesma lentidão, também tirou peça por peça de suas roupas, ficando completamente nu. Ele conseguiu esboçar um pequeno sorriso, talvez por imaginar que ela realmente estivesse ali, olhando para ele.
— Luana... Minha Luana...
A mão de David escorregou entre o peito firme e desceu lentamente em direção ao abdômen e logo um pouco mais até as suas partes genitais.
— Você... está me deixando louco...
Ele fechou os olhos, voltando a se acariciar.
— Ah... Luana...
Desde que a conhecera, seis anos atrás, David perdia o juízo quando pensava nela, ou quando estava perto dela. Desde então, se deixava levar pela sensação de como era tê-la em seu quarto, em sua cama. Queria tomá-la com tanta força até vê-la e ouvi-la gritar o seu nome. Ele a amava. Com todas as forças do seu coração e de sua alma.
Ele tornou a olhar para o retrato que havia tirado quando ela estava brincando com Jéssica e Nina em um dos passeios que tiveram. Tão linda. Seu amor era linda. E logo, logo iria se declarar a ela.
David, ainda se acariciando logo abaixo e estimulando a sua intimidade, andou mais à frente até encostar o rosto no grande retrato emoldurado.
— Você é minha, Luana — ele disse para a imagem sorridente dela, respirando com dificuldade. — Só minha.
Ele ergueu o braço desocupado para acariciar o rosto da mulher que amava. Ela era e sempre seria a sua única luz em um mundo sombrio que o aguardava.
— E eu vou ter você para mim... custe o que custar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário