domingo, 27 de junho de 2021

A noiva do Drácula (nova versão) - capítulo 6



Furioso. Ele estava furioso.

David olhou de soslaio para seu tio mais velho. Não estava a fim de conversa.

 — O que foi? — Inquiriu de modo ríspido.

Ivan se ajeitou na poltrona e fitou o sobrinho.

— Você parece mais nervoso do que o normal.

Normal? Como se ele a todo momento passasse por momentos frustrantes como aquele, David pensou irritado. Bem, talvez fosse verdade.

David fitou mais uma vez seu tio e tomou uma respiração profunda antes de se sentar no sofá ao lado.

— Você fala como se eu ficasse nervoso o tempo todo.

Ivan achou graça.

— Mas você fica nervoso o tempo todo — Ivan disse parecendo analisá-lo. — Só que agora parece mais.

— Ah, é? — David perguntou vagamente.

— Por causa de uma garota? — Ivan indagou e David o encarou com surpresa.

David se ajeitou de modo desconfortável e suspirou impaciente.

— Ora, ora... Essa é a parte boa de ser um vampiro completo, não é? Ler mentes.

— Não precisei ler a sua mente quando cada expressão do seu rosto e do seu corpo deixa transparecer tudo — Ivan respondeu. — E mesmo que eu estivesse, não é como se você também não pudesse ter esse dom futuramente.

— Você sabe que eu sou mestiço. — David o encarou de modo gélido.

— O sangue de um vampiro corre em suas veias, David. As coisas vão começar a acontecer com você pouco a pouco.

David não gostava de tocar naquele assunto mais do que incômodo, mas seria melhor do que responder sobre a mulher que assombrava a sua vida e o seu coração.

— Incluindo varar a madrugada, igual a vocês?

— Isso. — Por alguma razão, que Ivan não soube explicar, ele estava se sentindo bem em explicar certas situações para David.

— E... beber sangue?

Ivan não pôde evitar que um pequeno sorriso se formasse no canto de seus lábios ao notar a expressão de repúdio no rosto do sobrinho.

— Sim — respondeu de modo paciente. — Mas, quando isso acontecer, ficaremos de olho em você. Você sabe. Vampiros sabem se controlar...

— E mestiços, não. — David completou com secura na voz. — Sei a minha condição.

— Mas, então, quem é a garota?

David suspirou de modo frustrado. Pensar que Ivan esqueceria o real motivo de todo o seu estresse acumulado seria muita ingenuidade.

— Que "garota"? — David perguntou na defensiva.

Ivan sorriu.

— Vamos lá, a mim você não engana. Quando eu perguntei se o motivo de você estar assim seria por uma garota, as suas pupilas dilataram — Ivan respondeu fitando atentamente o sobrinho. — E não precisei ler seus pensamentos.

David desviou o olhar, contrariado.

— Você não a conhece.

David não queria contar para os tios que estava completamente apaixonado por uma mulher que o desprezava.

— Traga-a aqui — Ivan sugeriu.

David o encarou e esboçou um sorriso surpreso e incrédulo.

— Aqui? — ele resmungou. — Ela simplesmente não quer dar dois passos fora da empresa comigo. Vive me evitando, parece que tem medo de mim.

Ivan se surpreendeu.

— Ora. Parece que você vai ter de conquistá-la aos poucos.

David olhou para o tio. Não gostava de contar seus segredos para ninguém mas, por alguma razão, acabava deixando se levar com Ivan.

— Você não sabe o que está dizendo. Ela nunca vai querer nada comigo.

— Nunca é tempo demais. Você só não pode desistir.

David esboçou um pequeno sorriso. Era estranho ouvir algo do tipo vindo de um dos tios, mas, ao mesmo tempo, um pouco motivador.

— E seria aceitável isso, trazer mais uma humana à família? — Decidiu provocar até ver onde ía a pose de "tio apoiador".

— Sei que você está sendo sarcástico, David. Você pouco se importa com a Elite.

— Mas, e quanto a vocês? Seriam mais mestiços na família. — David continuou a provocar. Queria saber a opinião da pessoa que mais parecia se importar – ou fingia se importar – com ele naquela casa.

— David, pare com isso. Isso pouco me importa — Disse Ivan sem se deixar abalar, apesar das palavras do sobrinho lhe trazerem lembranças incômodas. — Em algum momento, desde que você nasceu, tem sido maltratado por nós? E estou falando da família, não da Elite.

David pareceu ponderar. Bem, ele realmente nunca fora maltratado pela família, embora os tios tenham sido negligentes com ele. Shartene e Miranda também sempre o trataram com respeito e doçura.

— Bem... não — David respondeu num murmúrio e desviou o olhar para um ponto na sala.

— Pois então. Tente quebrar essa barreira que você coloca em sua frente. Só assim, você poderá conquistar o que quiser, inclusive essa garota que você ama.

David fitou Ivan e sorriu.

— Eu não disse que a amo.

— Eu lendo mentes ou não, isso é uma coisa que está na sua cara.

— Hum.

David tornou a desviar o olhar.

Quebrar a barreira... Mas, como ele poderia quebrar alguma barreira? Seu passado e seu presente o atormentavam, e no futuro seria pior por causa de sua condição sanguínea. E vendo Luana o desprezando o matava ainda mais. A vontade que sentia era de agarrá-la a força e fazê-la entender de uma vez por todas a quem ela pertencia. Não. Se fizesse isso, iria afastá-la definitivamente. Que inferno!

— Além disso, é previsto mais mestiços na família. — Ivan sorriu, misterioso.

David olhou surpreso para Ivan.

— O quê? — O que ele estava dizendo?

— Seu tio Alan. Está de caso com uma humana. — Deu de ombros. — Bem, pelo menos é o que parece.

— O Alan? — Pela primeira vez, depois de um dia estressante, David sorriu.

— Parece que sim. — Ivan o analisou mais atentamente. — É bom ver você nesse momento de descontração, David. Bem melhor do que ver você todo sério e amuado.

O sorriso de David esmoreceu.

— Sério e amuado, é? Bem, qual é o nome dessa infeliz?

— Bela Lua. — Uma voz conhecida veio da porta de entrada da casa. — Minha linda e bela.

— Como vai, “Drácula”? — Ivan não pôde evitar transparecer um tom de voz sarcástico e repreensivo.

— “Drácula”? — David perguntou sem entender ao olhar para os dois tios.

— Seu tio Alan disse para essa pobre menina que se chama Drácula.

— Ah, é? — David fitou o seu tio mais jovem.

— Drácula é um nome de prestígio, um nome de poder — Alan respondeu ainda de pé, olhando para irmão e sobrinho com um ótimo humor. — Todos temem esse nome, então achei que ficaria melhor em mim.

— E por que você sentiu toda essa necessidade de se achegar a uma humana? — Ivan inquiriu. — Ainda se apropriando de um nome que não é seu para impressioná-la.

Alan suspirou de modo paciente. Ele já sabia que Ivan iria repreendê-lo por sua atitude.

Ele andou até o outro sofá e se sentou de modo relaxado e confortável.

— Impressioná-la não deu tão certo assim, visto que ela parecia não saber nada sobre o nosso mundo — Alan disse.

— Mas ainda assim, a impressionou, pelo visto — Ivan disse. — Ou a falta de conhecimento dela sobre o nosso mundo te fez desistir dessa ideia absurda?

David continuou a olhar para os tios sem entender quase nada.

Alan se ajeitou de modo mais confortável e tentou não deixar se abalar pelo olhar e tom de voz repreensivos do irmão mais velho.

— Não, não me fez desistir — respondeu. — Vivemos num local completamente isolado e ninguém vem aqui, então acho que me deixei levar pelo fato de ver uma linda garota visitar a nossa casa. Ela não tem muita coisa que a faça ser especial em comparação a outras mulheres e vampiras, mas realmente me interessei por ela.

— E você nem ao menos pensou na possibilidade de toda a Elite ficar sabendo? — Ivan insistiu.

Alan fitou os olhos confusos de David por um breve momento antes de se voltar para o irmão.

— Deixe que com a Elite eu me entendo, isso se eles descobrirem — o que eu espero que não aconteça. Não se preocupe, Ivan. Sou Drácula apenas para ela.

David estava cansado e a última coisa que queria era ouvir sobre as recentes aventuras românticas de um de seus tios. Decidiu se recolher.

— Bem, vou para o meu quarto.

— Ainda sente sono à noite, David? — Alan perguntou surpreso.

— Sim, um pouco — David respondeu ao se levantar. — Mas estou prestes a me preparar para viver noites infernais sem dormir.

— Não são infernais, David.

— Talvez para vocês. Eu trabalho.

— Tudo bem, David. Tenha um bom descanso — Ivan disse.

David se retirou do recinto e subiu a escada em direção ao seu quarto, mas parou no início do corredor para ouvir o que Alan e Ivan diziam a seu respeito — o que sempre acontecia.

— David deve ser controlado, Ivan — Se ouviu a voz de Alan. — Ele ainda vai fazer muita bobagem.

— Não se preocupe com isso, Alan. Ficarei de olho nele, mas você também tem que me ajudar.

— Vou ver o que posso fazer.

Merda! Eles estavam conspirando novamente por suas costas, como se ele fosse um cachorro que tivesse de estar sempre preso a uma maldita coleira. Não precisava de ninguém o controlando.

— Agora me conte mais sobre você e aquela jovem moça, Alan. Sei que há mais nessa história que você ainda não contou — Ivan continuou.

Não havia mais por que David continuar ali parado, ouvindo os seus tios falarem dele ou de quem quer que fosse. Ele saiu daquele canto num ímpeto e bateu furiosamente a porta de seu quarto.

Ao entrar no recinto, o olhar de David pousou sobre o enorme retrato emoldurado que ficava na parede ao lado da porta e praticamente em frente à sua cama; era um enorme retrato de Luana.

No retrato, ela estava sorrindo alegremente. Como ele amava aquela mulher. Ele a queria para ele, e só para ele. Não havia colocado para correr todos os namorados que ela tivera à toa. Cinco namorados. Cinco babacas que ele tinha aterrorizado sem ela nunca saber. Desde então, ela não teve mais qualquer pessoa em sua vida, talvez por achar que era desinteressante — o que era uma enorme mentira, pois David a queria com todo o seu ser, desde o momento em que a conhecera. Ainda assim, ela ainda era inalcançável. E a cada vez mais, essa distância crescia entre eles.

O que Ivan dissera era verdade? David deveria mudar aquele jeito intimidador? Não, ele era assim e não iria mudar. Havia sido um menino inocente no passado e o menosprezaram, o colocaram abaixo da ralé. Agora tinha que mostrar que era forte, tão impetuoso como foram com ele.

Trancou a fechadura da porta.

David tirou os seus sapatos lentamente, olhando para o rosto sorridente no retrato. Com a mesma lentidão, também tirou peça por peça de suas roupas, ficando completamente nu. Ele conseguiu esboçar um pequeno sorriso, talvez por imaginar que ela realmente estivesse ali, olhando para ele.

— Luana... Minha Luana...

A mão de David escorregou entre o peito firme e desceu lentamente em direção ao abdômen e logo um pouco mais até as suas partes genitais.

— Você... está me deixando louco...

Ele fechou os olhos, voltando a se acariciar.

— Ah... Luana...

Desde que a conhecera, seis anos atrás, David perdia o juízo quando pensava nela, ou quando estava perto dela. Desde então, se deixava levar pela sensação de como era tê-la em seu quarto, em sua cama. Queria tomá-la com tanta força até vê-la e ouvi-la gritar o seu nome. Ele a amava. Com todas as forças do seu coração e de sua alma.

Ele tornou a olhar para o retrato que havia tirado quando ela estava brincando com Jéssica e Nina em um dos passeios que tiveram. Tão linda. Seu amor era linda. E logo, logo iria se declarar a ela.

David, ainda se acariciando logo abaixo e estimulando a sua intimidade, andou mais à frente até encostar o rosto no grande retrato emoldurado.

— Você é minha, Luana — ele disse para a imagem sorridente dela, respirando com dificuldade. — Só minha.

Ele ergueu o braço desocupado para acariciar o rosto da mulher que amava. Ela era e sempre seria a sua única luz em um mundo sombrio que o aguardava.

— E eu vou ter você para mim... custe o que custar.


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