domingo, 23 de maio de 2021

A noiva do Drácula (nova versão) - capítulo 5



Você... Você está brincando comigo?

Luana não pôde acreditar no que acabara de ouvir. Não podia acreditar no que aquele homem estranho havia dito. Como assim, ser noiva dele?

— Não, Bela Lua. — Ele avançou um passo na direção dela. — Gostei de você. Você me encanta.

— E depois de tudo o que você me fez ver aqui... espera que eu aceite, logo de cara? A gente mal se conhece!

Luana estava transtornada, enquanto ele permanecia calmo e impassível.

— Então, lhe darei um tempo para decidir, Bela Lua. Não precisamos ter pressa. — Ele sorriu.

Aquele homem era muito belo, tanto quanto David. Mas ela não podia deixar se enganar pela beleza dele, nem por aquela conversa que já não fazia o menor sentido.

— Prove.

Ele a fitou, confuso.

— Provar, o quê?

— Que você é um vampiro. — Luana nem ao menos sabia o que estava dizendo. E se ele fosse? Aquilo não era bom.

— Mesmo depois de ter visto isso tudo... — O misterioso homem mexeu a cabeça em reprovação. — Mulher de pouca fé. — Ele continuou a fitá-la mais atentamente. O que ele estaria pensando? — Tudo bem. Já que você quer... Venha aqui, Bela Lua.

Luana paralisou por um momento, hesitando.

E se ele a mordesse? Ela morreria em pouco tempo ou tornaria-se uma vampira? Mas... ele seria mesmo um vampiro?

Tudo aquilo era loucura. Ela jamais havia pensado que poderia ter pensamentos tão confusos e sem sentido como aqueles, mas por conta da noite cansativa, a sua mente havia viajado para um mundo completamente estranho. O que ela mais queria naquele momento era acordar em sua cama no dia seguinte e descobrir que aquela noite não havia passado de um pesadelo, ou de apenas um sonho bem louco. Mesmo até que Drácula fizesse parte somente de seus sonhos.

— O que você quer? — Luana perguntou um pouco temerosa.

Ele achou graça da expressão dela.

— Não tema, Bela Lua. Não irei lhe fazer mal algum.

— E esse “mal algum” inclui me morder?

O sorriso dele se ampliou. Não era nem um pouco difícil deixar se envolver por ele.

— Já disse: não tema. Não irei lhe morder.

— Promete? — Ela poderia acreditar nele?

Os olhos dele pareceram brilhar, mais por divertimento.

— Prometo, Bela Lua.

Bem... ela poderia acreditar, sim. Talvez.

Mesmo ainda um pouco hesitante, Luana aproximou-se um pouco mais para perto dele, não podendo evitar os tremores de seu corpo. Se ele realmente fosse um vampiro, seria bem capaz de ela acabar se arrependendo de estar tão próxima a ele. Ela estava perto demais, ao ponto de quase encostar seu corpo no corpo do homem à sua frente. O que ele iria fazer?

— Pronto, Bela Lua?

— Sim... — Luana gaguejou e engoliu em seco, seu coração palpitando intensamente. Será que ela estava?

Ele abriu lentamente a boca. Dentes perfeitos emolduravam sua gengiva bem vermelha. De repente, lá estava — lentamente, seus dentes caninos ficaram quase do mesmo tamanho que os dentes caninos de um animal. 

E lá estava sua resposta: seu “futuro pretendente” realmente era um vampiro.

— Meu Deus... do céu...

Luana estava desnorteada. Ela não sabia mais o que dizer. Simplesmente não podia.

— Mais alguma dúvida, Bela Lua? — Ele perguntou inabalável, a voz impassível.

Ela não sabia se continuava a encará-lo ou se desviava o seu olhar para qualquer canto em que ele não estivesse, mas de nada adiantaria.

— Não. Agora não — Luana respondeu num fio de voz, ainda completamente atônita.

Com a mesma lentidão que seus dentes caninos sobressaíram, eles voltaram ao normal novamente.

— Viu? — Ele disse. — Eu não te mordi.

— Mas, se você me mordesse... poderia me matar, não é?

— Nunca vou querer sua morte, Bela Lua — ele respondeu. — Não acabei de dizer que quero que você seja minha noiva? E respondendo à sua pergunta anterior: não.

Luana continuou a fitá-lo, confusa.

— "Não" o quê? — Ela indagou.

Luana continuou a encará-lo sem entender.

— Eu não a mataria e nem mesmo a tornaria numa vampira se te mordesse — Ele respondeu. — Não é desse jeito que as coisas funcionam.

— E como funcionam? — Ela indagou. O interesse e ansiedade assombrava a mente dela.

Ele sorriu.

— Um dia você saberá, não aqui e não agora. Mas teremos de ser cuidadosos em nossa relação até o oficializarmos o nosso compromisso. Não quero cometer o mesmo erro que o meu irmão — Ele disse, contudo, o tom de sua voz estava mais sombrio e misterioso.

Agora ele já estava falando sobre casamento. Eram muitas coisas para ela absorver numa só noite — a noite mais estranha e inacreditável de sua vida, Luana pensou ainda muito confusa.

— Seu irmão, o Ivan? — ela perguntou. — O que foi que ele fez?

A mesma expressão mais sóbria permaneceu no rosto pálido e ele se afastou um pouco.

— Não foi ele. Foi meu outro irmão — ele respondeu deixando a sua voz transparecer um misto de raiva e tristeza. — Seu nome era Vlad. Ele não tomou cautela com quem se envolveu, e como se envolveu, portanto tudo deu errado.

— Mas... eu não o vi.

— Claro que não. Ele está morto.

Luana assentiu, compreendendo.

— E a única lembrança viva que temos dele é seu filho.

— Você tem um sobrinho? — Luana não pôde deixar de esconder a sua surpresa.

— Sim. Embora não seja muito fácil lidar com ele. — Ele esboçou um sorriso desgostoso.

— Por quê?

— Porque ele é mestiço. — Ele fez outra pausa, parecendo se perder em alguma lembrança. — E mestiços não são bem aceitos na nossa sociedade.

— E, se por acaso, fôssemos nos casar e você tivesse um filho mestiço comigo... ele também não seria aceito, certo?

Ele mais uma vez sorriu.

— Bom saber que você também pensa em se casar comigo, Bela Lua — ele disse com o humor melhor. — Mas não se preocupe. Não me importo mais com o que a Elite pensa de mim.

— O que é a "Elite"?

Luana estava se odiando por fazer mais perguntas, mas é que tudo ainda era tão confuso e estranho.

— A Elite é um grupo formado pela nata da nossa sociedade — Ele respondeu de modo paciente. — Foram eles que descobriram o que meu irmão fazia e, por consequência, muitas coisas ruins aconteceram, incluindo o nosso exílio para cá.

Então eles eram de outro país e aquela aparição que ela via também, Luana pensou ao olhar mais uma vez para o lugar desconhecido ao seu redor.

— E você não teme que eles façam o mesmo com você? Com nós dois? — Ela indagou.

— Não — ele respondeu de modo impassível.

— Não? — Luana indagou curiosa. Por mais incrível que parecesse, ela não parecia mais tão temerosa quanto antes. — Mesmo depois do que aconteceu com o seu irmão?

— Não mais — ele respondeu com sinceridade. — Primeiro, estamos em outro lugar, e eles não podem nos controlar totalmente daqui. E também aprendi com o meu sobrinho a não temê-los e fazer o que eu bem quiser.

— Mas... você acabou de me dizer que não queria cometer os mesmos erros que o seu irmão — Luana lembrou, observando o humor dele se esvair novamente. Era óbvio que a lembrança do passado o incomodava.

— Sim — ele respondeu sem deixar se abalar. — Mas o caso dele foi diferente... — disse voltando às lembranças incômodas.

Luana não insistiria em tentar abordar o passado dele. Por mais estranho que aquele homem fosse, ela gostava mais quando o humor dele estava melhor, e não queria vê-lo ficar visivelmente triste e distante por conta de lembranças ruins do passado.

— Ah, sim. — Luana falou pensativa, tentando mudar de assunto. — E o seu sobrinho vive aqui com vocês?

— Sim, ele também vive conosco em nossa casa — respondeu.

— E vocês o criaram? Você e o seu irmão?

Luana sabia que estava sendo ridícula em fazer tantas perguntas, mas ela não tinha escolha. Era a única maneira de tentar manter-se sóbria em meio a tantas revelações.

— Sim, desde quando ele era apenas um bebê. Shartene e Miranda também ajudaram — ele respondeu, analisando o rosto confuso dela. — Mas esqueça esse assunto. Pelo menos, por ora.

— Como o seu irmão morreu? 

Luana ouviu um click. Era um ranger de porta se abrindo lentamente. Ela virou naquela direção para ver o que era: sua madrinha apareceu vestida com uma camisola e com um modesto roupão por cima, olhando atentamente para ela. 

Então, ela percebeu. O lugar todo havia voltado ao normal, desde o pavimento das ruas e das calçadas até as casas; nada era nem um pouco parecido com aquela aparição de antes.

— Oh, Luana!

— Madrinha?

— Fiquei preocupada com você, menina. — Dolores olhou para o homem ao lado de Luana. — Boa noite. Então, foi você quem falou comigo pelo telefone?

Luana também olhou para o lado e notou que Drácula havia voltado à sua forma de antes. Ou toda a realidade que ela achava ser verdade era uma mentira, ou aquilo tudo tinha sido mais um sonho.

Ele sorriu de modo cortês para a mulher mais velha.

— Boa noite, madame. Sua afilhada está entregue, nada de mau ocorreu a ela.

Madame?

Sim, nada ocorrera a ela. Só o fato de ele ter revelado que era um vampiro... e, que agora, ela era sua noiva.

— Muito obrigada por tê-la trazido em segurança. Às vezes, Luana consegue ser um pouco atrapalhada.

— Madrinha — Luana a repreendeu, envergonhada.

Ele esboçou um sorriso educado e voltou a sua atenção para Luana. Tirou uma pequena caixa do bolso da calça e a colocou sobre a palma da mão dela.

— Amanhã... quero ver você usando isto.

Luana fitou a pequena caixa em sua mão e tornou a olhar para o homem intenso e intrigante à sua frente.

— Como... nos veremos amanhã?

Ele sorriu, misterioso.

— Tenho meus truques. — Ele acariciou o queixo dela. — Até mais então, Bela Lua.

— Mas... e as coisas que você estava me falando? — Luana perguntou, ignorando os olhares confusos de Dolores.

— Sei que você ainda está confusa, Bela Lua, eu não a culpo. Mas deixaremos esta conversa para depois. Você está cansada, e a sua madrinha a quer em casa. Amanhã conversaremos.

Luana sentiu uma certa decepção. Ela queria saber mais, conhecer mais o passado dele e talvez também descobrir sobre o assunto que ainda tanto o angustiava.

Dolores continuou a olhar para os dois e suspirou cansada, pensando se estaria atrapalhando algo implícito.

— Luana, estarei te esperando — ela disse para a afilhada. — Por favor, não demore. Com licença — Ela se despediu e fechou a porta.

Eles fitaram por um breve momento a porta fechada e voltaram a se olhar.

Sem pedir a sua permissão, ele inclinou-se lentamente em sua direção para beijá-la. Mas, talvez ele não precisasse de permissão naquele momento, pois era algo que ela também esperava. Ele encostou levemente seus lábios nos dela em um beijo suave e gentil.

Luana ansiava, mas também não esperava que aquele momento fosse acontecer — pelo menos, não tão cedo. Agora ela era noiva daquele homem, daquele ser... mas tudo estava ocorrendo tão apressado, de modo tão estranho... Primeiro, descobriu que aquele belo e intrigante ser era um vampiro; segundo, foi pedida em casamento por ele, e agora... estava sendo beijada por ele. Sim, beijada — não parecia que ela estava sonhando. Ela já tivera alguns namorados, mas nenhum a fizera sentir-se daquela forma, tão plena.

Ele quebrou o beijo e olhou no fundo dos olhos dela.

— Depois do seu trabalho, Bela Lua — Ele disse com a sua voz parcialmente grave e sussurrada. — Estarei te esperando quando você sair do trabalho.

— Mas... não poderíamos nos ver antes?

Ele sorriu.

— Não, não podemos — ele respondeu. — Somente após o completo entardecer, por causa do sol.

— Ah, sim. — Luana assentiu compreendendo.

Ele beijou o topo da fronte dela.

— Você é linda, Bela Lua. Sou um homem de sorte.

Luana, pela primeira vez, achou graça.

— Eu pensei que você era um vampiro — Disse em tom de brincadeira.

— Mas não deixo de ser um homem — ele respondeu bem-humorado. — Vá para casa, querida. Sua madrinha já entrou. Aqui pode ser um pouco perigoso a esta hora.

Luana iria responder que ao lado dele era mais perigoso ainda. Era estranho... sentir-se tão temerosa e protegida ao lado do mesmo ser. Era muito parecida com a sensação que tinha com David. Não. Na verdade, com David, era apenas temor mesmo.

— Então, vou entrar — ela disse, e tomou um passo em direção à porta.

— Até amanhã, Bela Lua — Ele disse, e era uma promessa.

Luana volta a fitá-lo e sorriu.

— Até amanhã.

°•♤•°


Uma vez já dentro de seu quarto, Luana já estava vestida com a roupa de dormir, sentada na beirada da cama, olhando com admiração para o que usava em sua mão direita.

— Quem era aquele homem, Luana? — Dolores perguntou, vindo da sala.

— O meu noivo, madrinha. — Luana sorriu para sua madrinha, que a encarou com surpresa e descrença.

Noivo? — Dolores perguntou sem entender.

— Sim, madrinha. — Luana apalpou a aliança prateada com um grande e solitário rubi, já fincado em seu dedo anelar, o presente que estava na pequena caixa que Drácula havia dado para ela. — Noivo.

°•♤•°


Ivan estava sentado em sua poltrona favorita lendo o jornal do dia quando alguém conhecido passou furioso porta adentro: seu sobrinho. Seu sobrinho genioso e recluso. Já era costumeiro vê-lo daquele jeito.

Ivan dobrou o jornal e esboçou um educado sorriso de boas-vindas.

— Oh, boa noite, David.

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