Enfim, eles chegaram na rua onde Luana morava depois de agonizantes quinze minutos. Com certeza, Dolores continuaria com as broncas, Luana pensou enquanto o elegante homem, cujo nome era Drácula, estacionou o carro em frente à sua porta. Luana fitou o homem a seu lado. Sentiria falta dele. Ele era tão gentil e charmoso...
— No que está pensando, Bela Lua? — Ele a fitou de volta.
Luana sorriu, um pouco acanhada.
— Nada demais. Obrigada por me trazer.
— Não há de quê, Bela Lua. — O homem elegante tomou gentilmente a sua mão e mais uma vez a beijou num gesto delicado.
Luana o fitou, hipnotizada. Aquele olhar... Ele tinha o mesmo olhar intenso de David. O mesmo olhar intimidador que a deixava trêmula.
— Obrigada — Luana gaguejou um pouco e recolheu a mão.
— Nos veremos novamente, Bela Lua?
Parecia que ambos tiveram o mesmo tipo de pensamento, como se ansiassem por estarem juntos novamente. Ele também sentiria a sua falta. Era bom saber disso.
— Bem... — Ela sorriu para ele. — Espero que sim. Podemos ser amigos.
— Amigos? — ele indagou e uma de suas sobrancelhas se arqueou em surpresa pelo que Luana havia dito. Seus olhos azuis tinham uma ponta de mistério, mas também de interesse. Talvez ele quisesse algo mais. Ou não?
— Sim. Você é muito legal — Luana respondeu, alheia ao que aquele sujeito realmente queria.
— "Legal"... — Ele riu consigo mesmo, como se ouvisse aquela palavra pela primeira vez. — Eu também acho. — Ele continuou a olhar para ela com a mesma intensidade que antes.
— Bem, então... eu já vou. — Parecia ser loucura, mas Luana estava começando a sentir-se um pouco intimidada por ele, mesmo que outrora estivesse tão encantada.
Luana se virou para abrir a porta, mas ele a segurou pelo braço.
— Bela Lua. Não vá. Ainda não.
— O quê? — Luana gaguejou sentindo o seu coração palpitar.
E se ela estivesse errada? E se o que sua madrinha havia falado antes fosse verdade? De fato, alguém poderia tentar fazer algum mal a ela. Talvez fosse aquele homem, mesmo tendo se mostrado tão gentil. Ela não o conhecia e ele poderia fazer qualquer coisa ruim. Matá-la, talvez?
Nao, não fazia sentido, afinal, ele havia estacionado o carro em frente à casa dela, e não em qualquer lugar desconhecido. Que tudo não passasse de coisas estúpidas de sua cabeça.
— Tenho que te mostrar uma coisa, Bela Lua. — Disse ele. — Algo que você nunca acreditaria.
— Mostrar algo?
O que poderia ser?
— Sim — ele respondeu e fez uma breve pausa, olhando-a com cautela. — Nem tudo é o que parece ser, Bela Lua.
Mas, o que aquele homem queria dizer com aquilo? Luana olhou para sua casa pela janela do carro. Ela devia ir embora logo. Aquela situação estava começando a ficar esquisita.
— O que você quer dizer com isso?
O elegante homem esboçou um sorriso despreocupado.
— Você não notou nada de diferente em mim?
— Diferente? — Luana perguntou de volta, sem entender a que ele se referia. — Bem, você é intenso, reservado e... um pouco diferente.
Para dizer a verdade, ela não sabia se estava descrevendo Drácula ou um certo alguém.
— "Diferente" — ele repetiu pensativo. — Sim, sou mesmo. E vou lhe mostrar o porquê. Espere.
Luana o observou sair e contornar o carro para abrir a porta do lado dela. Ele estendeu a mão e ela aceitou.
Contudo, no mesmo instante em que Luana saiu do carro, ela sentiu voltar as imagens antigas e distorcidas, exatamente como a cena dos cavalos negros e da carruagem vermelha e dourada que vira antes nos jardins da casa dele.
A maioria das casas daquela rua não estava mais ali, e as que estavam eram grandes e antigas, com a arquitetura bem clássica. A rua tinha um pavimento diferente, com blocos de pedra no lugar do asfalto. Nada do que ela conhecia estava mais ali, como se estivesse num lugar completamente diferente.
Luana olhou mais em volta e avistou a carruagem novamente. Ela realmente era toda vermelha adornada em pequenos detalhes dourados, e com cavalos negros e imponentes à frente, relinchando e batendo com os seus cascos no chão. Agora aquelas imagens estavam muito mais visíveis que antes, juntamente com toda aquela arquitetura de casas e vielas que ela jamais havia visto antes.
Mas... o que estava acontecendo ali? Por que ela estava vendo aquelas coisas e por que parecia que ela estava em outro tempo, em outro lugar?
— Parece diferente para você?
A voz masculina do elegante e intenso homem misterioso soou logo atrás dela. Luana pôde sentir um formigamento correr por todo o seu corpo com o som da voz dele. Ela se voltou para trás, após passar tanto tempo boquiaberta pelo que estava vendo, e o fitou.
Aquilo só podia ser loucura.
Não foi apenas o lugar e o carro que haviam mudado. As vestimentas daquele homem pareciam ser um pouco mais antigas e de costura nobre, e o seu belo rosto aparentava estar um pouco mais diferente que antes; as esclereóticas brancas de seus olhos assumiram um tom alaranjado, quase puxado para o vermelho, e a sua cor de pele era tão branca ao ponto de deixar praticamente à mostra todas as veias de seus braços firmes.
— Ah, meu Deus. — Luana o encarou, assustada. — O que houve com você?
— Nem tudo é o que parece ser, Bela Lua — ele disse com o tom de voz calmo.
— Estou vendo. — Luana demorou a desviar seu olhar da aparição à sua frente e olhou ao redor. — Mas, o que houve aqui? O que houve com você?
Aquele homem olhou para o lugar, pensativo, depois a fitou.
— O lugar que você vê, não é esta cidade, mas onde eu vivi por um longo tempo de minha vida. Tive de vir para cá por causa das circunstâncias. — Ele deu de ombros. — Certas coisas mudam, mas nunca as tradições — ele disse ao continuar fitando-a com os mesmos intensos olhos azuis que lhe eram tão familiares.
Luana engoliu em seco.
— Quem é você? — Ela continuou a olhar assustada para ele. — O que é você?
— Não tenha medo, Bela Lua. Não irei lhe fazer mal algum.
— Mas... como isso tudo aconteceu? — Luana tornou a olhar para o estranho lugar ao seu redor. — O que houve aqui?
Luana estava seriamente confusa e com medo. Era só sair correndo e abrir a porta de sua casa, que todo aquele sonho — ou pesadelo — sumiria, foi o que ela quis acreditar. Mas como ela poderia pensar em tentar fazer algo, se já não estava mais em frente à sua casa? Eles haviam voltado para onde ele havia nascido e crescido, um lugar que parecia ser bem distante dali. E mesmo que tudo aquilo que ela vira fosse um alto delírio de sua mente, talvez ele fosse um doente psicopata e tentasse fazer algum mal a ela e à sua tia. Definitivamente, não seria uma boa ideia.
— Bela Lua, eu não sou um humano — A voz grave e calma dele tornou a chamar a sua atenção.
O cenho dela franziu em confusão. O que ele havia acabado de dizer?
— Não é...? Mas o que...?
— Sou um vampiro, Bela Lua.
Os lábios de Luana se abriram de forma bem tímida até um enorme sorriso trêmulo. Com certeza, aquilo devia ser um grande delírio de sua mente. Vampiros não existiam.
— Está rindo, Bela Lua? Não acredita em mim? — Drácula indagou ao observá-la sorrir, mais de nervoso do que por qualquer outro motivo.
— E como é que você quer que eu acredite? — Luana questionou, ainda sorrindo.
Ela jamais havia pensado que tarde da noite, após um cansativo dia de trabalho, a sua mente estivesse tão preenchida com trabalhos e preocupações que a fizessem começar a ter delírios e ver coisas que não existiam. Nada daquilo era real, nem mesmo aquele homem.
— Como? — ele a interrogou. — Depois de tudo o que você viu aqui, ainda duvida?
O sorriso de Luana esmoreceu.
Ele tinha razão. Depois das coisas que ela vira, não poderia duvidar mais. Mas certamente aquilo tudo era fruto de sua imaginação. Era o cansaço. Só podia ser o cansaço que a deixou imaginar coisas tão absurdas.
— Mas, nada disso é real. — Os olhos dela voltaram a ficar temerosos. — Não pode ser real!
— Você está apenas assustada, Bela Lua. Não se preocupe, com o tempo, você irá se acostumar — o sujeito à sua frente disse sem deixar se abalar pela reação dela, demonstrando até mesmo uma grande paciência.
Ela o encarou por um longo tempo.
— Você... é um vampiro mesmo?
— Sim. Eu sou — ele respondeu. — E estou em busca de um compromisso.
Luana o encarou sem entender.
— Compromisso?
— Exatamente.
Ele sorriu para ela, um sorriso estonteante. Então, o compromisso que aquele homem buscava seria com ela? E por que logo com ela?
— Me prove — Luana o desafiou.
— Perdão?
— Me prove que você é um vampiro, e não um demônio.
O sorriso dele permaneceu, mas agora por achar graça dela.
— E por quê eu seria um demônio?
— Bem, para fazer todas essas coisas... — Ela indicou todo o lugar em volta, um lugar que outrora era tão conhecido, mas que agora ela já não sabia onde se encontrava. — só sendo um ser do mal.
— Ou talvez, não.
— E vampiros são do bem?
— Nem todos. A grande maioria ainda é preconceituosa e egoísta — ele disse pensativo. — Além disso, não é muito inteligente ficar limitando tudo apenas ao "bem" e ao "mal"; uma única pessoa pode ser um anjo, mas também pode ser um demônio, Bela Lua.
— O quê? — Ela perguntou ainda sem entender.
— Vou lhe contar tudo, Bela Lua. Mas, apenas se você me der uns minutos de sua atenção. E não ter medo de mim, é claro.
— E como você quer que eu não tenha medo? — Ela rebateu, achando ridículo que ele permanecesse tão calmo.
— É um pouco estranho, eu sei. Mas não estou aqui para lhe fazer mal. Apenas quero que você... — Ele parou por um breve momento, analisando cuidadosamente cada expressão dela.
— O quê? O que você quer? — a voz de Luana soou ansiosa e repleta de expectativa. O temor e o receio em sua voz eram bem aparentes.
— Que você se torne a minha noiva.
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