Eles não sabiam, mas David conseguiu ouvir toda a conversa, e nem ao menos precisava de sua nova audição aguçada para isso, pois parecia que o "grupo maravilha" não sabia ser tão discreto e pouco barulhento.
Não que tivesse sido difícil concentrar-se em seus afazeres, mas toda aquela conversa fútil, o que certamente incluía o interesse repentino de Jéssica de jogar Nina para cima dele, o deixava ainda mais irritado.
Infelizmente, David havia esquecido de tentar disfarçar um pouco mais o nível de sua força na noite anterior. Aquela máquina era muito leve, pelo menos para ele. Há um ano, não conseguiria sequer arrastar aquilo, mas em pouco tempo, tanto sua força como sua audição, tinham se superado bastante. Fred pareceu não ter se espantado tanto em comparação a Nina e Jéssica ao vê-lo dar um jeito sozinho no objeto pesado; mal sabiam eles que, atualmente, David podia carregar aquilo com uma só mão. Saber que seus sentidos e desejos estavam em constante processo de mudança por sua condição mestiça o frustrava, pois David não sabia se essa mudança mudaria a sua vida para melhor ou pior. Se parecer cada vez mais com uma raça que sempre o menosprezou desde o nascimento não era algo bom, afinal, jamais seria como eles. Mas nada disso o frustrava mais do que saber que a sua desconfiança de outrora havia mudado para uma completa certeza; Luana realmente estava compromissada com alguém.
Se antes David soubesse que ela estava comprometida com outro cara, teria resolvido a situação de imediato. Esse cara se arrependeria de um dia tê-la conhecido, assim como aconteceu com os outros. Parece que seus esforços em mantê-la afastada dos caçadores vorazes tinham sido em vão. Também, não era para menos. Por mais "comum" que Luana parecesse ser naquele país, ela era uma jovem atraente e intrigante e, infelizmente para David, tinha um charme que sempre atraía os homens.
David suspirou profundamente, tentando ocultar o nervosismo.
Inferno! Por quê ela sempre o evitava e procurava namorar aqueles imbecis? Ele queria tanto conquistá-la, dizer que a amava, mais do que tudo. Mas Luana simplesmente o ignorava e ficava com homens que somente se interessavam em seu exterior e não em suas qualidades, no que ela realmente era. Mas David falaria com ela. Deveria enfrentá-la de uma vez por todas e fazê-la entender que ela pertencia a ele.
David havia terminado de passar o último parágrafo de um dos manuscritos para o editor de texto. Todo o dia era a mesma coisa. Não que o trabalho fosse cansativo, mas ele já estava farto daquilo. Ele queria mais. O lado ambicioso e inquieto dentro dele queria fazer muito mais coisas do que ficar com o traseiro sentado o dia todo até doer. Ele queria explorar o mundo, queria se perder por aí. E tudo isso com Luana.
Pronto.
Após terminar todo o seu trabalho e salvar para a pasta de documentos, David desabou sobre a cadeira, aliviado. A mesa de Luana não estava mais com toda aquela aglomeração de antes. Assim como ele, ela também suspirou de alívio e deixou-se descansar um pouco, os olhos se fechando logo em seguida. Luana havia terminado seu trabalho e agora estava livre. Bom. Assim, poderia falar com ela sem haver mais distrações.
David levantou-se da cadeira com um objetivo em mente: falar com Luana. Ele já havia levado uns foras dela, muitas e muitas vezes, mas agora queria tirar aquela história a limpo, saber se ela realmente estava com outro homem, mais um infeliz que ousou entrar em seu caminho. Ele parou diante da mesa dela e mostrou um pequeno sorriso.
— Luana — David a chamou.
Luana, antes distraída com seus afazeres, o fitou e por um momento quase paralisou ao vê-lo ali.
— David? — Ela não tinha uma forma melhor de olhar para ele? Por quê demonstrava tanto receio?
David deu-lhe seu melhor sorriso numa tentativa de apaziguar o clima estranho entre eles.
— Sim. Sou eu. — David se sentou na beirada da mesa. — Tem certeza de que aquela foi sua última palavra, Luana?
Ela pareceu não entender.
— Sobre o que você está falando?
— Em primeiro lugar, preciso saber se você tem algo para fazer, porque sempre parece que algo te prende quando eu quero falar com você.
Luana fitou a porta de entrada do escritório e voltou a olhar para ele.
— Bem... Daqui à dez minutos eu vou embora.
— Todos vamos. A não ser que outra máquina quebre e Jéssica ou Nina me chame para eu consertar com Fred, enquanto você foge de mim outra vez — David disse de modo impassível, tentando soar bem-humorado e mais descontraído, mas pareceu não ter dado certo pela expressão dela.
Luana o encarou de modo ainda mais tenso. David, seja menos direto. Não assuste a garota.
— Então, como eu estava dizendo.... — David pigarreou e esboçou um pequeno sorriso. — Você tem algo para fazer, antes de sair?
— Não — Luana gaguejou e engoliu em seco. Parecia nervosa. — Já terminei meu trabalho. Pode falar.
David suspirou profundamente. Era agora.
— Bem, o que eu tenho a dizer, ou perguntar, é o seguinte: — David assumiu uma postura um pouco mais séria e olhou bem fundo nos olhos castanhos dela. — Eu ouvi dizer que você está compromissada. Isso é quase visível, dado a esse anel que você faz questão de esconder de mim. — David fez um gesto de cabeça para a direção onde deveria estar o anel que vira antes. Luana sentiu-se encolher perante o olhar dele. David cerrou os olhos ao fitá-la ainda mais intensamente. — Você está mesmo namorando, Luana?
Pareceu uma eternidade até ela abrir a boca e emitir qualquer som.
— David, é que...
— Sim ou não? — Ele perguntou direto. O jeito dela de querer fugir do assunto o deixava ainda mais nervoso.
— Para que você quer saber? — Luana perguntou exasperada e olhou nervosa para os outros cantos do escritório, preocupada se alguém os visse.
David não conseguiu esconder o sorriso de satisfação ao vê-la encabulada e nervosa. Ele também estava nervoso, então ambos estavam quites.
— Sou seu amigo. — Ele se inclinou para mais perto dela e notou ela esquivar um pouco para trás. — O que foi? Seus outros amigos podem saber e eu não? Até onde eu saiba, eu era seu amigo há muito tempo antes deles.
Luana suspirou agitada, mal conseguindo olhar para ele. David agradeceu em pensamento pelo pequeno gesto e a blusa escolhida por ela, pois dava a ele uma singela e maravilhosa visão do contorno seios dela.
— Eu sei, mas é que... — Luana desviou o olhar para a bolsa debaixo do compartimento da mesa, pois ali estava guardado seu anel de noivado. Ela apertou a ponta da alça. — Isso é muito complicado.
Luana, por fim, olhou para ele e David sentiu se acalmar apenas em olhar para ela. O olhar dela era lindo. Ela era linda.
— Complicado, como? — Ele perguntou de modo mais paciente.
Ele queria testá-la. Vê-la gemer de frustração.
— É complicado! — Luana respondeu, afobada, e arrependeu-se em pensamento por ter falado tão alto. David a deixava louca.
NDD NV 9 (10 original) - revisado
Eles não sabiam, mas David conseguiu ouvir toda a conversa e nem ao menos precisava de sua nova audição aguçada para isso, pois parecia que o "grupo maravilha" não sabia ser tão discreto e pouco barulhento.
Não que tivesse sido difícil concentrar-se em seus afazeres, mas toda aquela conversa fútil, o que certamente incluía o interesse repentino de Jéssica de jogar Nina para cima dele, o deixava ainda mais irritado.
Infelizmente, David havia esquecido de tentar disfarçar um pouco mais o nível de sua força na noite anterior. Aquela máquina era muito leve, pelo menos para ele. Há um ano, não conseguiria sequer arrastar aquilo, mas em pouco tempo, tanto sua força como sua audição, tinham se superado bastante. Fred pareceu não ter se espantado tanto em comparação a Nina e Jéssica ao vê-lo dar um jeito sozinho no objeto pesado; mal sabiam eles que, atualmente, David podia carregar aquilo com uma só mão. Saber que seus sentidos e desejos estavam em constante processo de mudança por sua condição mestiça o frustrava, pois David não sabia se essa mudança mudaria a sua vida para melhor ou pior. Se parecer cada vez mais com uma raça que sempre o menosprezou desde o nascimento não era algo bom, afinal, jamais seria como eles. Mas nada disso o frustrava mais do que saber que a sua desconfiança de outrora havia mudado para uma completa certeza; Luana realmente estava compromissada com alguém.
Se antes David soubesse que ela estava comprometida com outro cara, teria resolvido a situação de imediato. Esse cara se arrependeria de um dia tê-la conhecido, assim como aconteceu com os outros. Parece que seus esforços em mantê-la afastada dos caçadores vorazes tinham sido em vão. Também, não era para menos. Por mais "comum" que Luana parecesse ser naquele país, ela era uma jovem atraente e intrigante e, infelizmente para David, tinha um charme que sempre atraía os homens.
David suspirou profundamente, tentando ocultar o nervosismo.
Inferno! Por quê ela sempre o evitava e procurava namorar aqueles imbecis? Ele queria tanto conquistá-la, dizer que a amava, mais do que tudo. Mas Luana simplesmente o ignorava e ficava com homens que somente se interessavam em seu exterior e não em suas qualidades, no que ela realmente era. Mas David falaria com ela. Deveria enfrentá-la de uma vez por todas e fazê-la entender que ela pertencia a ele.
David havia terminado de passar o último parágrafo de um dos manuscritos para o editor de texto. Todo o dia era a mesma coisa. Não que o trabalho fosse cansativo, mas ele já estava farto daquilo. Ele queria mais. O lado ambicioso e inquieto dentro dele queria fazer muito mais coisas do que ficar com o traseiro sentado o dia todo até doer. Ele queria explorar o mundo, queria se perder por aí. E tudo isso com Luana.
Pronto.
Após terminar todo o seu trabalho e salvar na pasta de documentos, David desabou sobre a cadeira, aliviado. A mesa de Luana não estava mais com toda aquela aglomeração de antes. Assim como ele, ela também suspirou de alívio e deixou-se descansar um pouco, os olhos se fechando logo em seguida. Luana havia terminado seu trabalho e agora estava livre. Bom. Assim, poderia falar com ela sem haver mais distrações.
David levantou-se da cadeira com um objetivo em mente: falar com Luana. Ele já havia levado uns foras dela, muitas e muitas vezes, mas agora queria tirar aquela história a limpo, saber se ela realmente estava com outro homem, mais um infeliz que ousou entrar em seu caminho. Ele parou diante da mesa dela e mostrou um pequeno sorriso.
— Luana — David a chamou.
Luana, antes distraída com seus afazeres, o fitou e por um momento quase paralisou ao vê-lo ali.
— David? — Ela não tinha uma forma melhor de olhar para ele? Por que demonstrava tanto receio?
David deu-lhe seu melhor sorriso numa tentativa de apaziguar o clima estranho entre eles.
— Sim. Sou eu. — David se sentou na beirada da mesa. — Tem certeza de que aquela foi sua última palavra, Luana?
Ela pareceu não entender.
— Sobre o que você está falando?
— Em primeiro lugar, preciso saber se você tem algo para fazer, porque sempre parece que algo te prende quando eu quero falar com você.
Luana fitou a porta de entrada do escritório e voltou a olhar para ele.
— Bem... Daqui à dez minutos eu vou embora.
— Todos vamos. A não ser que outra máquina quebre e Jéssica ou Nina me chame para eu consertar com Fred, enquanto você foge de mim outra vez — David disse de modo impassível, tentando soar bem-humorado e mais descontraído, mas pareceu não ter dado certo pela expressão dela.
Luana o encarou de modo ainda mais tenso. David, seja menos direto. Não assuste a garota.
— Então, como eu estava dizendo.... — David pigarreou e esboçou um pequeno sorriso. — Você tem algo para fazer, antes de sair?
— Não — Luana gaguejou e engoliu em seco. Parecia nervosa. — Já terminei meu trabalho. Pode falar.
David suspirou profundamente. Era agora.
— Bem, o que eu tenho a dizer, ou perguntar, é o seguinte: — David assumiu uma postura um pouco mais séria e olhou bem fundo nos olhos castanhos dela. — Eu ouvi dizer que você está compromissada. Isso é quase visível, dado a esse anel que você faz questão de esconder de mim. — David fez um gesto de cabeça para a direção onde deveria estar o anel que vira antes. Luana sentiu-se encolher perante o olhar dele. David cerrou os olhos ao fitá-la ainda mais intensamente. — Você está mesmo namorando, Luana?
Pareceu uma eternidade até ela abrir a boca e emitir qualquer som.
— David, é que...
— Sim ou não? — Ele perguntou direto. A mania dela de querer fugir do assunto o deixava ainda mais nervoso.
— Para que você quer saber? — Luana perguntou exasperada e olhou nervosa para os outros cantos do escritório, preocupada se alguém os visse.
David não conseguiu esconder o sorriso de satisfação ao vê-la encabulada e nervosa. Ele também estava nervoso, então ambos estavam quites.
— Sou seu amigo. — Ele se inclinou para mais perto dela e notou ela esquivar um pouco para trás. — O que foi? Seus outros amigos podem saber e eu não? Até onde eu saiba, eu era seu amigo há muito tempo antes deles.
Luana suspirou agitada, mal conseguindo olhar para ele. David agradeceu em pensamento pelo pequeno gesto e a blusa escolhida por ela, pois dava a ele uma singela e maravilhosa visão do contorno seios dela.
— Eu sei, mas é que... — Luana desviou o olhar para a bolsa debaixo do compartimento da mesa, pois ali estava guardado seu anel de noivado. Ela apertou a ponta da alça. — Isso é muito complicado.
Luana, por fim, olhou para ele e David sentiu se acalmar apenas em olhar para ela. O olhar dela era lindo. Ela era linda.
— Complicado, como? — Ele perguntou de modo mais paciente.
Ele queria testá-la. Vê-la gemer de frustração.
— É complicado! — Luana respondeu, afobada, e arrependeu-se em pensamento por ter falado tão alto. David a deixava louca.
Ela já estava começando a se alterar e os outros poderiam ouvir a conversa deles dois — isso se eles não fossem interrompidos novamente. Merda. Ele queria calar aquela boca linda com beijos.
— Shh... — David pôs o dedo indicador sobre a boca carnuda dela. — Não fale alto, meu amor.
Luana arqueou os olhos em surpresa e espanto pelas últimas palavras dele.
Sim, Luana. É isso o que você é: o meu amor.
David esfregou o polegar nos lábios carnudos dela enquanto Luana continuava a fitá-lo em total paralisia.
— Luana... Tem tantas coisas que eu queria te dizer...
Luana desviou o olhar e fitou mais uma vez a sua bolsa que guardava o maior símbolo de seu atual compromisso. Afinal, por que ela o havia guardado, o que tinha para esconder? De quem e por quê?
Ela segurou o dedo de David numa tentativa de impedi-lo a continuar.
— Por favor, David, não complique mais isso.
Ele a olhou nos olhos. Havia súplica ali.
— Complicar o quê, Luana? — David voltou a perguntar.
Ele retirou o dedo dele dos lábios dela. Luana tornou a desviar o olhar, pois não queria continuar sendo encarada por ele.
— Tudo isso — respondeu.
Sua respiração estava acelerada. Nunca a vira tão exasperada antes, tão desesperada para fugir de um assunto. Mas que merda! Por quê ela não diz?
— Isso, o quê, Luana? — David perguntou mais uma vez, sério, ainda fitando-a de modo intenso.
Luana, enfim, o encarou com os olhos queimando em braza. Ela parecia estar ainda mais irritada.
— Você quer mesmo saber, David? Pois eu vou te dizer — Luana disse com o tom de voz ainda mais nervoso que antes, mas em nível baixo, pois não queria que os outros escutassem. Ela pegou sua bolsa e tateou à procura do anel, erguendo-o em seguida para que David pudesse vê-lo claramente e já não restasse mais nenhuma dúvida. — “Isso” quer dizer que estou noiva. — disse, encarando-o, ainda irritada.
David fitou por um bom tempo o anel altamente sofisticado de prata com pequenas pedras brilhantes em torno da pedra safira maior que ficava no centro.
Ele esboçou um sorriso nervoso e involuntário, balançando levemente a cabeça.
Mais um infeliz na lista de amantes dela que ele teria de lidar novamente. Não, dessa vez era pior: "noiva". Luana nunca tinha sido noiva de alguém, apenas teve cinco namorados no passado, mas, pelo visto, esse a tinha conquistado para valer. Talvez, se estivesse certo, ela estava com esse infeliz há um ano, pois fazia exatamente um ano que ela o ignorava. Mas como ela havia escondido dele por tanto tempo? A raiva que ele sentia era tão imensa que podia se imaginar matando seu atual rival com suas próprias mãos. Contudo, seria melhor tentar se acalmar ou poderia cometer uma loucura ali mesmo. Independentemente do que fosse acontecer – ou até mesmo do que ela diria –, ele não iria se afastar. Nunca desistiu e jamais desistiria dela — pelo contrário; era questão de honra saber quem era esse maldito que a havia conquistado e colocá-lo para correr, assim como fizera com os outros. Ele iria conquistá-la. De um jeito ou de outro.
— Está noiva, é? Pode me dizer quem é o sortudo? — David se surpreendeu com a paciência que ainda conseguia manter.
Luana abaixou a mão.
— Para quê você quer saber, David, pelo amor de Deus?!
— A pergunta certa não é “para quê”, mas “por quê”. E a resposta é apenas uma, Luana: porque eu te quero.
A expressão do rosto dela não podia ficar mais assombrada que agora.
— O que você disse? — Luana pergunta gaguejando, depois de segundos sem dizer nada.
— Eu disse que te quero, Luana. Com toda a minha alma — David confessou expondo toda a sua paixão, depois de anos reprimindo seus sentimentos. — Merda, Luana, você é minha. E não quero te dividir com outro — sua voz parecia um rosnado.
Demorou um bom tempo para que Luana fechasse a boca. Ela o encarava como se ele fosse um ser de outro mundo.
— Meu Deus — Ela emitiu uma voz fina, transtornada, como se algo a perturbasse. — David, eu não posso.
— Não pode o quê, Luana?
Ela desviou o olhar mais uma vez e guardou o anel de volta dentro da bolsa. Já não havia mais nada a fazer ali. Ela pegou seus pertences e se levantou da cadeira.
— Aonde você vai? — Ele perguntou.
— Já são nove horas da noite, David — Ela respondeu sem sequer olhar para ele. — Me desculpe, mas eu tenho que ir.
Luana tentou passar, mas David impediu sua passagem e os seios dela foram de encontro ao tórax firme dele. Luana queria ir embora, mas David queria uma explicação. Por que sempre tinha que ser assim? Ele olhou rapidamente ao redor para ver se alguém estava observando. Ninguém.
— Não, Luana. — David aproximou seu rosto bem perto do rosto dela, feliz por estar tão perto, por praticamente sentir a mesma respiração dela. — Me fale, droga. O que você não pode? O que há de errado comigo, merda? — A fúria que sentia era muita para o tom de voz baixo.
Era impressão dele ou parecia que ela iria chorar?
Não, meu amor, não...
Luana tentou se recompor e aproveitou o momento de distração de David para conseguir escapar.
Ela poderia sair correndo dali, mas não faria sentido continuar fugindo. Luana olhou mais uma vez para trás, para ele, os olhos brilhando com as lágrimas que estavam prestes a cair.
— Por favor, David. Apenas esqueça.
Dizendo isso, Luana se foi e David continuou encostado na mesa dela, contrariado.
Esquecer? Como ela pedia para ele esquecer o que sentia por ela? Como?
Sem se dar conta de onde estava e mal conseguindo controlar seus maiores impulsos, David socou a mesa com forca, o que não demorou para atrair a atenção do chefe e dos outros funcionários que chegaram no local. Todos olharam completamente espantados para aquela cena.
David os encarou, mal contendo sua fúria.
— David, o que houve? — Márcio, o chefe, o encarou preocupado.
— Não foi nada, senhor. — David desviou o olhar deles para a vista do céu estrelado que se tinha por uma das enormes janelas. — Nada.
— Como não foi nada? Você destruiu a mesa — Márcio disse atraindo novamente a atenção de David para ele e para o objeto. — Como você fez isso? O que aconteceu aqui?
David engoliu em seco e apertou os olhos em profundo arrependimento. A mesa de madeira havia se partido ao meio com o monitor e outras coisas equilibradas entre um lado e outro.
Fred correu até o que sobrou da mesa e pegou com cuidado o monitor que estava pendurado, colocando-o numa mesa menor por perto.
— Deixe-me te ajudar — Jéssica ofereceu sua ajuda a Fred, mas sem conseguir deixar de fitar David e aquela cena completamente confusa.
Márcio e Nina continuaram a olhar assustados para ele.
— Me perdoe, senhor. — David engoliu em seco, ainda fervendo de raiva.
O que seria agora? Explicar a origem de sua força para eles estava fora de questão. Ele deveria se acalmar e tentar controlar seus próprios impulsos. Não podia dar brechas.
— Eu estava de cabeça quente. Vou comprar outra com meu próprio dinheiro.
David não conseguia encará-los, não somente por conta da fúria que ainda o corroía por dentro, mas também por já ter visto olhares parecidos com os deles no passado.
— Onde está Luana? — Márcio perguntou.
Ouvir o nome dela e lembrar do ocorrido o deixava ainda mais furioso. Continuar ali não seria uma boa ideia.
— Ela já foi embora. — David suspirou de modo bem profundo tentando pôr a mente em ordem. — Se o senhor não se importar, farei o mesmo.
Márcio demorou um tempo considerável antes de falar, olhando ainda surpreso para David e para a mesa partida. David queria que a Terra o engolisse naquele momento.
— Tudo bem, descanse um pouco e tente esquecer seja lá o que tenha acontecido aqui — Márcio disse e passou outro objeto para Nina que o colocou na mesa ao lado. — E não se preocupe, substituirei outra mesa para Luana.
— Não — David contrapôs. — Por favor, deixe por minha conta.
— Se você insiste. — Márcio deu de ombros, dando-se por vencido. — De qualquer forma, a mesa de Luana será substituída por outra daqui do escritório, pois acredito que vá demorar até a nova mesa chegar, certo?
David assentiu ainda com o olhar vago, suas emoções se acalmando aos poucos.
Ele olhou para os outros. Todos ainda estavam o encarando como se ele fosse uma aberração. Mas não era isso o que ele realmente era, uma aberração? Mais um dia, mais uma vez, tudo havia sido estragado. Independentemente do dia que fosse, tudo sempre dava errado para ele.
David ignorou os olhares assustados, andou até sua mesa e pegou sua mochila pendurada na alça da cadeira.
— Por favor, peço que me perdoem se eu assustei alguém — David disse de modo honesto e humilde. Ele não poderia deixar que desconfiassem sobre sua vida e sobre quem ele realmente era.
— Apenas descanse, David — Nina disse a ele. Ela já não parecia demonstrar o mesmo espanto de antes. — Talvez amanhã você já esteja melhor.
Jéssica esboçou um pequeno sorriso e se pôs ao lado da amiga.
— Nina tem razão — Ela concordou, embora o receio no olhar dela fosse ainda mais aparente.
Fred veio ao seu encontro quando David estava prestes a abrir a porta.
— David! Espera!
David o fitou.
— O que foi?
— Eu marquei com as meninas de irmos à uma boate na noite de sábado, pois faz muito tempo que nós não saímos juntos. Por favor, venha com a gente.
David continuou a olhar para Fred, sem entender mais nada. Havia brilho nos olhos dele. Mesmo os conhecendo há um tempo bem considerável, ainda não conseguia vê-los como amigos, como Luana os via e como eles a viam. Era estranho e confuso pensar naquilo, principalmente pensar em balada ou qualquer coisa do tipo com a cabeça que estava agora.
— Depois vemos isso, Fred. Agora eu só quero ir para casa.
Fred assentiu, respeitando o seu espaço.
— Tudo bem. Amanhã nos falamos, então — Fred disse quando David abriu a porta para sair. — E... David?
David abriu a porta e olhou para ele.
— O quê?
— Seja lá o que tiver te perturbando... — Fred sorriu numa tentativa vã de fazê-lo se sentir bem. — deixe isso para lá.
David agradeceu em pensamento a Fred pela tentativa, mas não havia como se sentir melhor agora ou em qualquer outro momento.
— Ah... sim. Obrigado.
David saiu, fechando a porta com cuidado atrás de si.
Após David sair, todos voltaram a se olhar, ainda com estranheza, mas sem o mesmo espanto de antes.
— Definitivamente, há algo muito estranho com esse garoto — Márcio comentou.
Nenhum deles ousou contrariar, pois sabiam que era verdade.
David entrou no carro e abaixou a cabeça sobre o volante. Precisava tentar se acalmar um pouco mais antes de partir.
"Deixar para lá", foi o que Fred havia dito a ele. Não. Não havia como "deixar para lá". Seria como desistir, jogar tudo ao inferno, mas não podia. Seria impossível para ele sequer pensar em desistir de Luana. Ele jamais faria isso.
Amanhã seria outro dia. Amanhã ele faria tudo ficar melhor. Mesmo que o seu coração ficasse despedaçado, assim como agora.
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