quinta-feira, 21 de julho de 2022

AOP (parte 1) - capítulo 9



Natália entrou apressada em casa. Não havia como pensar de modo racional depois da revelação de Lola.

Ela jogou a bolsa numa cadeira e se pôs a andar de um lado para o outro na sala. Algo devia estar errado, ela pensou quase cedendo a mais lágrimas. Miguel jamais faria aquilo, visto que eles já se amavam e moravam juntos na época e Lola era casada com Claus. Desde que conhecera Miguel pela primeira vez, ele mostrou-se ser um homem bom e altruísta. Ele lhe salvara sem nem ao menos pedir algo em troca e também ela o viu ajudar outras pessoas. O homem que Lola havia se referido nada tinha a ver com seu marido.

E o que diz daquela crianca?, questionou seu pensamento traiçoeiro.

Natália parou por um momento, respirando com dificuldade.

Sim, o bebê de Lola, lembrou quando uma lágrima caiu em sua face. Ela não queria ter que pensar em coisas ruins ou imaginar que seu marido faria algo tão abominável, mas como poderia explicar a semelhança espantosa que aquela criança tinha com Miguel?

"Se por acaso duvida, pegue uma foto de quando Miguel era bebê e compare você mesma", Lola havia lhe dito. Por ter sido namorada e amiga de Miguel, Lola já devia ter visto alguma foto de quando ele era pequeno.

Natália afastou a cadeira e tateou por dentro das gavetas da cômoda que ficava próxima à porta de entrada. Ela procurou em quase todas as gavetas, quase dando lugar ao desespero, até que finalmente achou uma pequena foto antiga de um garotinho de cabelos dourados aparentando ter, mais ou menos, cinco anos de idade. Mesmo com três anos de diferença, Natália podia ver o filho de Lola ali. Ainda que não quisesse acreditar nas palavras da prima sobre Miguel possivelmente ter uma personalidade oculta e cruel, ela tinha de reconhecer que seu marido e Nick compartilhavam a mesma semelhança, e talvez o mesmo sangue.

Natália pôs a foto antiga em cima da cômoda com certa hesitação. Ela não sabia se encarava a foto ou se olhava para o vazio, pois tamanha era sua dor. Miguel, o seu amor, havia engravidado uma ex-namorada e tivera um filho idêntico a ele, enquanto ela nem ao menos podia conceber uma criança mesmo após dois anos juntos.

Natália respirou profundamente, tentando conter mais lágrimas que pudessem vir.

De nada adiantaria chorar, pois as lágrimas nada podiam melhorar. Passar por sua mente que o homem que mais amava no mundo pudesse fazer o que Lola descreveu doía muito.

Ela fechou os olhos. Quem sabe quando os abrisse, pudesse perceber que aquilo tudo não passava de um grande pesadelo. Ela voltou a abri-los e soluçou ao notar que estava com as mesmas roupas e no mesmo lugar. Não era um sonho, ela pensou desolada. Aquele pesadelo era real e ela nada podia fazer para mudar ou sequer desabafar com alguém. Apenas sofrer sozinha e calada em meio a uma casa vazia.

Ana. Natália olhou para o telefone em cima da cômoda. Sua prima, Ana, havia pedido para que ela lhe contasse sobre o encontro que tivera com Lola.

Ela tomou mais uma respiração profunda.

Como contaria aquilo para Ana? Seria humilhante demais. Por outro lado, Natália queria um consolo, uma luz para que pudesse pensar com mais clareza. Afinal, algo dentro de si insistia que tudo aquilo era um maldito engano e que seu marido jamais faria tal coisa. Ele, não.

Ela trouxe o aparelho de telefone para mais perto e discou o número da casa da prima.

Uma parte de si implorava para que desligasse o telefone, mas preferiu esperar a chamada enquanto suas mãos tremiam.

— Alô? — Ana falou do outro lado da linha.

Natália engoliu em seco. Não podia deixar transparecer que esteve chorando.

— Ana, sou eu. Natália.

— Oi, minha linda — Saudou alegremente. — Como vai?

Natália olhou para o vazio.

Se contasse a ela como realmente estava, teria que contar sobre a suposta traição de Miguel.

Natália fechou os olhos num gesto de dor. Só de pensar naquilo, seus olhos se enchiam de lágrimas.

— Vou bem — mentiu.

Houve um silêncio do outro lado da linha. Ela respondeu com uma voz muito embargada e Ana pareceu ter notado. Mas não contaria nada a prima. Não ainda.

— Fui na casa de Lola — Natália disse.

— E como foi?

— Estou com um pouco de dor de cabeça, portanto, não me lembro muito bem.

Parte do que dissera era verdade. Natália havia chorado tanto no trajeto da casa de Lola até em casa que sua cabeça estava quase explodindo de tanta dor.

— Procure descansar um pouco, Natália — Ana aconselhou amavelmente. — E tome algum remédio para melhorar.

— Sim, obrigada. Eu o farei — disse Natália não conseguindo desviar o olhar da pequena foto antiga de Miguel. — Ana, eu preciso de sua ajuda.

— O que você quiser. O que houve?

— É normal duas pessoas se parecerem tanto?

Ana estranhou a pergunta, mas sorriu em resposta.

— Mas é claro — a prima respondeu. — Há filhos que são muito parecidos com o pai ou com a mãe. Eu mesma sou a cara da minha mãe, é o que dizem.

Natália deu um suspiro aflito e acariciou a foto antiga.

— Apenas se essas pessoas terem um grau de parentesco, não é? — perguntou já temendo a resposta.

— Claro que não — Ana respondeu. — Já vi muitas e muitas pessoas que eram quase idênticas mesmo sem terem qualquer ligação sanguínea. Não é tão incomum isso acontecer e, em alguns casos, existe um estranho fenômeno chamado "doppelgänger".

Natália franziu o cenho.

— Doppelgänger?

— É um termo em alemão para pessoas que têm grandes semelhanças físicas — Ana explicou. — Já foram registrados casos tão impressionantes que algumas pessoas consideram como "vampirismo" ou "reencarnação".

Natália surpreendeu-se.

— Isso existe mesmo? — perguntou agora menos abalada.

— Bem, o vampirismo ou a reencarnação, talvez não. Mas o fenômeno "doppelgänger" existe e não é tão incomum — Ana respondeu. — Alguns estudiosos disseram que ao redor do mundo há, pelo menos, sete pessoas parecidas com você ou comigo...

Natália engoliu em seco.

— Mesmo com o Miguel?

— O que? — Ana perguntou sem entender. — Acho que sim, pois há muitos homens com as mesmas características físicas que ele pelo mundo, principalmente em países europeus. Você, por exemplo, é do tipo mais comum.

Natália assentiu pensativa.

Não conhecia sobre o tal fenômeno, mas concordava que Miguel não era único no mundo e muitas pessoas podiam ser muito parecidas com ele. A babá de Nick também era tão parecida com ela que qualquer pessoa diria que elas eram irmãs. Ela não poderia julgar tudo de forma tão precipitada, mas seu coração estava começando a se encher de novas esperanças.

— Natália? — Ana a chamou do outro lado.

Natália afastou os pensamentos e se lembrou que Ana ainda estava na linha.

— Me desculpe — Disse distraída. — Eu estava pensando.

— Em que? — Ana indagou curiosa.

— Nisso que você disse — Natália respondeu. — É muito confuso.

— Pode ser um pouco, mas acontece, de fato. Você pode pesquisar alguns casos envolvendo artistas.

— Eles... eram muito parecidos?

— Muito — Ana respondeu. — John Travolta é praticamente idêntico a um lorde de uma certa época. Também há outros casos, mas só me lembro desse.

— Sim... — Natália vagueou pensativa, sua tristeza sumindo aos poucos dando lugar a uma nova esperança. — Vou pesquisar mais sobre isso.

— Mas, para que você quer saber dessas coisas? — Ana interrogou.

Natália olhou para a foto do marido de quando ele era criança. Teria que pensar em algo antes de responder.

— Ãh... A babá de Nick. Somos muito parecidas.

Ana sorriu.

— Que bom que você notou. Pensei que só eu havia percebido.

— Você foi à casa de Lola?

— Há algum tempo — Ana respondeu. — Aquela moça trabalha de babá para Nick desde quando ele tinha um ano.

— E... — Natália engoliu em seco. — Você não achou nada de estranho?

Ana sorriu.

— Até onde eu saiba, você não tem nenhuma irmã, Natália — disse brincando.

— Não. — Natália pigarreou e continuou, um pouco hesitante: — No Nick.

Ana estranhou a pergunta da prima.

— Nick? — perguntou confusa. — O que haveria de estranho nele?

— A aparência — Natália suspirou pensando em mudar de assunto ou acabaria contando toda aquela história para Ana.

— Ele não se parece muito com a Lola ou com o Claus, que descanse em paz.

Ana sorriu.

— Isso não é muito incomum. Minha filha mais nova, a Paulina, não é muito parecida comigo e nem com o pai. Às vezes penso que ela é filha da Lola. Ela é muito parecida com nossa prima quando era criança; o mesmo cabelo castanho-claro e os olhos cor-de-mel.

— Lola tem os olhos da cor dos meus, Ana.

— Ah, é verdade — Ana concordou. — Mas Paulina me lembra muito a Lola quando era pequena. Além disso, nossa avó paterna tinha cabelo e olhos claros, lembra?

Pela primeira vez depois daquele dia trágico, Natália sorriu.

Dolores, a querida avó delas, fora uma pessoa gentil e amorosa em contraste com uma família problemática e desunida. Lola havia recebido o nome em homenagem a avó e possivelmente seu filho também havia  recebido como lembrança algo que lembrasse dela. Pode ser isso, pensou angustiada e esperançosa.

— Sim, me lembro — Natália respondeu pensativa. — Ana, agradeço por você ter conversado comigo, mas vou descansar um pouco.

— Sim, faça isso — Ana concordou. — Você disse que estava com dor de cabeça, então descanse um pouco para melhorar. Tome um bom remédio primeiro.

— Sim, farei isso — Natália concordou. — Obrigada por ter sido paciente comigo mesmo eu fazendo perguntas sem sentido para você.

Ana sorriu amigavelmente.

— Não foi nada. Espero ter esclarecido algumas dúvidas que você tinha e quando sua dor de cabeça melhorar, vou esperar você me contar sobre o que Lola te disse.

Natália olhou para a foto do pequeno Miguel e suspirou.

— Ok, pode deixar — Disse por fim.

— Tudo bem. Até mais, Natália. Sabe que pode me ligar sempre que quiser e estarei esperando — Ana despediu-se.

— Até — Natália também se despediu e desligou o telefone.

Natália tornou a desabar sobre a cadeira, cansada, e suspirou profundamente.

Ela não queria ter que pressupor qualquer coisa até que Miguel lhe dissesse a verdade sobre sua história com Lola, mas não podia evitar ter um alívio com a explicação de Ana. De fato, a babá de Nick era parecida com ela, assim como Paulina se parecia com Lola e o pequeno Nicollas lembrava sua bisavó paterna — ainda que, de certo modo, o menino fosse idêntico ao Miguel. Contudo, algo naquela história teria que ser explicado e ela já suplicava a Deus em pensamento para que Lola tivesse se enganado.

Natália pegou a foto antiga de Miguel e se levantou da cadeira, levando-a consigo até o quarto. Ao deitar-se, ela beijou o rosto sorridente que, mesmo tendo passado vinte anos, permanecia o mesmo.

— Por favor, meu amor, que não seja verdade — disse chorosa. — Por favor...

Natália enxugou uma lágrima e virou-se de lado, protegendo a foto antiga.

Dormiria um pouco para descansar a cabeça e pôr os pensamentos em ordem. Se estivesse da mesma forma ao acordar, tomaria um remédio e adiantaria os afazeres de casa. Afinal, ainda que possivelmente Miguel fosse o monstro que Lola dissera, ele ainda era o seu marido e teria que cumprir com seus deveres como esposa. E quando ele chegasse, tomaria coragem para perguntar sobre Lola e Nick. Entretanto, ela não sabia se, de fato, queria uma resposta.

Natália suspirou e se pôs a cochilar. Pensaria naquilo depois.

Natália subiu na cama. Ela já estava vestida para dormir enquanto Miguel terminava de escovar os dentes. Certamente, ele iria querer fazer amor, mas ela ainda se sentia indisposta, mesmo depois de ter tomado duas vezes um remédio para aliviar sua dor de cabeça. Além disso, não achava que pudesse fazer qualquer coisa com o marido com tantos pensamentos perturbando sua mente.

Desde que ele chegara, ela ficou na expectativa de contar-lhe sobre Lola, mas preferiu deixar para o momento de irem para a cama. Contudo, mesmo nesse momento, ela sentia que não conseguiria dizer uma palavra, pois parecia que tudo o que iria dizer estava entalado em sua garganta, tal era seu medo.

— Então, eu logo voltei para o Instituto — Miguel finalizou depois de contar-lhe que havia aparecido em casa.

— Deu para perceber um pouco — Natália disse alheia. — Algumas coisas pareciam estar fora de lugar.

Miguel bateu a escova na pia para tirar o excesso de água e a guardou no armário.

Olhando através do espelho pequeno, percebeu que sua esposa parecia mais reservada e hesitante. O que teria acontecido?

— Me desculpe pela bagunça — ele finalizou.

Miguel fechou a porta do banheiro e parou em frente à cômoda do quarto, pegando para si a seringa e injetando-a dentro do pequeno pote de vidro que continha um vistoso líquido azul, ou líquido milagroso, que era como Miguel havia chamado há pouco tempo. Ele havia comemorado antes pela pesquisa ter funcionado, mas agora teria de manter o pé no chão para não ter falsas esperanças. Não queria que, mais uma vez, Natália se entristecesse por algo não dar certo e não poder conceber um filho seu.

Natália viu o marido colher um líquido azul por uma enorme seringa. Miguel parecia não desistir da ideia de ambos terem filhos juntos. Embora outra já tenha feito esse trabalho, veio-lhe um mal pensamento que ela logo tratou de afastar. Não daria aquela história como encerrada apenas porque Lola disse. Ana havia lhe passado uma outra ideia diante de toda aquela história e ela teria de ouvir da boca de Miguel se o que Lola dissera era verdade ou não. Seu marido daria a palavra final.

— Isso... é para mim, não é? — Natália indagou olhando para o conteúdo.

Miguel assentiu e subiu na cama segurando a seringa e mais outra coisa que parecia ser uma fita bege.

— Sim, é — ele respondeu. — Isto — ele acenou para o conteúdo contido na seringa. — é nossa nova esperança.

Natália olhou em dúvida para o objeto que o marido segurava.

— Isso funciona?

Miguel deu um meio sorriso.

— Isso é o que vamos descobrir. Dê-me seu braço.

— Qual?

— Qualquer um.

Natália ofereceu-lhe o braço esquerdo, observando com atenção seu marido esticar a área do antebraço e ativar a circulação do sangue. Miguel viu que aquele local seria o mais adequado para a aplicação de injeção e olhou para a esposa. Natália estava em expectativa ao que viria e também um tanto preocupada.

— Pronta? — Ele perguntou.

Natália assentiu apesar de estar com um pouco de medo.

— Sim — respondeu cautelosa.

Miguel suspirou profundamente e injetou a agulha em uma das veias de Natália. Ela gemeu de dor com a picada da agulha, mas logo acostumou-se com a sensação. Miguel observou todo o líquido desaparecer para dentro do corpo de Natália e uma chama de esperança se acendeu em seu coração. Não que acreditasse que aquilo pudesse dar certo de primeira, mas um lado otimista dentro de si dizia-lhe que não demoraria muito até os dois conseguirem conceber uma criança. O pensamento o fez sorrir. Se aquilo desse certo, Natália ficaria tão feliz. Ela queria muito ser mãe de seus filhos e ele também queria muito.

Ele retirou a seringa com cuidado para não machucá-la e pressionou o furo com o polegar.

— Doeu?

Natália ergueu a cabeça.

— Não muito — ela respondeu.

Miguel estreitou os olhos, desconfiado.

Desde que chegara do trabalho, pôde perceber que Natália estava distante e um tanto aflita com algo. Mesmo após terem passado algumas horas se distraindo e conversando, ela continuava da mesma forma. E agora lá estava ela, ainda com a mesma aflição no olhar marejado.

— Pressione seu polegar aqui por enquanto — ele pediu indicando o polegar feminino onde tinha inserido a seringa. Natália obedeceu e observou Miguel cobrir a parte com um band-aid. — Agora me conte o que está acontecendo — pediu mais sério.

Natália olhou mais uma vez para o marido e percebeu que ele falava com mais seriedade e parecia ter notado sua aflição. Chegara o momento, mas seria muito difícil tocar naquele assunto. Ela tomou uma respiração profunda.

— Hoje eu saí — ela disse.

— Percebi ao chegar.

— Fui à casa de Lola.

Miguel estreitou os olhos e seu olhar ficou ainda mais sério que antes.

— Sei. O que foi fazer lá? — questionou desconfiado.

— Fui visitá-la e saber o que ela queria comigo — Natália respondeu.

— E o que ela queria?

Natália desviou o olhar por um momento. Lembrar de tudo a fazia sentir-se mal.

— Natália — Miguel a chamou. — Diga para mim o que Lola disse a você.

Natália engoliu em seco e olhou para o marido que mantinha o semblante sério.

— Ela me contou sobre o passado de vocês — ela respondeu vagamente. — Disse que você a assustava com a ideia de ter um filho e outras coisas mais.

— Que coisas?

— Ela não expecificou.

Miguel assentiu lentamente.

— Sim... E o que mais ela te disse?

Natália o encarou perplexa.

— Então, é verdade?

— Deixarei para formular tudo para o final e te dar uma resposta.

Natália olhou atentamente para o marido. Ele era um homem muito inteligente que analisava bem as coisas antes de agir ou chegar à uma conclusão. Por mais que aquela história a deixasse nervosa, se deixaria cinfiar na perspicácia de Miguel.

— Ela me disse que se apaixonou por Claus, mas que ainda te via como amigo e...

Natália soluçou e deixou uma lágrima rolar em sua face. Tinha de esclarecer aquilo de uma vez por todas, mas seu coração apertava apenas em lembrar das palavras de Lola.

Miguel segurou o queixo de Natália e a fez olhar para ele.

— Você está chorando — ele disse preocupado. — Ela disse algo que te magoou, não foi?

Natália assentiu.

— Ela me mostrou a foto do menino — Natália virou para pegar a foto antiga debaixo do travesseiro, mas não deixou de reparar no olhar de surpresa de Miguel. — E ele é idêntico a você.

Miguel pegou a foto antiga da mão de Natália e a analisou por um breve momento.

— Uma foto minha. Onde achou?

— Na gaveta da cômoda da sala — Natália respondeu. — Por favor, Miguel, me diga.

Miguel olhou da foto para a esposa.

— Dizer o que?

— Lola me disse que você foi à casa dela brindar por uma promoção sua no Instituto de Ciências. Ela me disse que você injetou uma droga na bebida dela — Natália enxugou as lágrimas que teimavam em cair. — E que, talvez, você tenha abusado dela enquanto Claus não estava.

Ela olhou para o marido que mantinha o semblante sério e o olhar indecifrável.

Estaria Miguel quieto por não poder desmentir as revelações de Lola? Que Deus a ajudasse naquele momento. Natália queria uma resposta do marido, mas não estava preparada para uma resposta contrária da que imaginava que Miguel diria. Amava demais aquele homem e não seria justo que ele tivesse a traído.

Impaciente e cedendo ao desespero, Natália se esqueceu do ponto frágil no braço e agarrou a lapela do pijama que Miguel vestia, o obrigando a encará-la.

— Aquele menino é idêntico a você, o rosto dele é quase o mesmo que o seu nesta foto. — Natália soluçou e cedeu a mais lágrimas enquanto encarava o marido. — Pelo amor de Deus, Miguel. Diga-me que Lola está mentindo. Diga-me que você não teve nada com ela e essa criança não é o seu filho!

Miguel olhou para o rosto coberto de lágrimas da esposa. Natália estava desesperada por uma resposta e teria de dar a ela.

Ele soltou as mãos dela de seu pijama de forma amável e sorriu.

— Primeiramente, responderei a primeira pergunta sobre eu ter sido um péssimo namorado e ter exigido que ela me desse um filho — Miguel disse calmamente ao enxugar as lágrimas do rosto da esposa. — Sim, é verdade. E não me orgulho nem um pouco de minha atitude.

Natália encarou o marido.

— Ela disse que você a forçou a fazer sexo com você — disse com a voz embargada.

Miguel assentiu.

— Há coisas na vida que nós fazemos e que nos arrependemos profundamente mais tarde. Ela sempre inventava desculpas para não se deitar comigo e eu queria muito ter um filho, mesmo com tão pouco tempo de namoro. — Miguel deu de ombros. — Me desculpe.

Natália abaixou os olhos.

Lá estava seu marido, desculpando-se pelas burradas que havia feito no passado e parecendo ser sincero. Mas, ainda que ele tivesse conhecido Lola primeiro e ela tivesse sido parte de um passado, saber que ele algum dia quis um filho com ela doía, e muito.

— E respondendo à pergunta que você tanto me exigiu — Miguel continuou observando a pura aflição da esposa. —, quero que saiba que isso é mentira.

Natália não estava enganada. Miguel havia dito que aquela acusação não era verdade. A batida de seu coração começou a se acalmar aos poucos.

— É mentira? — Ela perguntou esperançosa.

— Sim, meu amor. — Miguel enxugou mais lágrimas do rosto feminino. — Fui, sim, uma vez comemorar minha chamada para o Instituto, mas Lola e eu brindamos juntos, como amigos. Ela estava feliz por mim e eu estava feliz por ela. Tomamos duas taças, eu vi o álbum de casamento dela e de Claus e logo vim embora. Aliás, eu pergunto a você: eu demorei a chegar naquele dia?

Havia passado certo tempo, mas Natália podia se lembrar muito bem. Miguel não havia demorado muito em todo o trajeto do Instituto até a casa deles, ainda que tivesse se encontrado com Lola. Se, de fato, ele fizesse algo com sua prima, não teria chegado tão cedo em casa.

Ela fez que não.

— Não, não demorou — respondeu. — Mas por que você não me contou que havia ido na casa dela?

— Achei que não precisasse. Me desculpe — ele respondeu sincero.

Natália suspirou em alívio e engoliu em seco.

Se ao menos desde cedo seu ciúme por Lola não fosse tão aparente, Miguel poderia ter sido mais sincero na primeira vez. Graças ao seu ciúme, seu marido lhe omitia as coisas e seu casamento quase havia sido destruído.

— Mas por que ela me disse aquelas coisas? — Questionou Natália ainda angustiada.

— Eu sei por que — Miguel respondeu inabalado. — Primeiro: Lola não suporta a ideia de ter perdido Claus. Ela o amava muito e o acidente que ocorreu com ele não só levou sua vida embora, mas a vida de Lola também, de certa forma. Arrisco-me até a dizer que ela ficou louca.

Natália o encarou boquiaberta.

— Você acha?

— Você não vê, meu amor? Lola excluiu-se de tudo e de todos, só voltando a ter contato com você e com Ana há pouco tempo. De certo modo, a morte de Claus mexeu e muito com ela. E também...

Natália percebeu o olhar de incerteza de Miguel. Não era o momento de ele fazer suspense.

— "E também" o que, Miguel? — ela exigiu.

Miguel olhou com cautela para a esposa.

— E também ela é ainda apaixonada por mim. — Deu de ombros. — É o que parece.

Natália o encarou sem entender.

— Mas... — Ela pensou no que dizer. — Mas Lola não é apaixonada por Claus?

— Sim, mas há pessoas que se apaixonam por mais de uma pessoa ao mesmo tempo — ele respondeu. — Você não percebeu até hoje, meu amor? A primeira vez que te apresentei a ela, Lola fez uma cara de poucos amigos e você mesma passou a ter mais ciúmes dela depois desse dia.

Miguel tinha razão. De fato, Lola parecia não ter gostado de saber que ela e Miguel estavam juntos. Parecia que a primeira peça se encaixava.

— Além disso, uma vez ela me perguntou por que eu estava com você — ele continuou. — Na época não entendi muito bem, mas agora pude perceber que ela queria uma nova chance para nós, sem você e sem Claus. Claro que isso aconteceu antes de ela se apaixonar por ele.

— Mas você acha que ela continuou te amando?

Miguel deu de ombros.

— Estou apenas pressupondo — ele respondeu. — Talvez não haja mais amor, mas é um fato que ela ainda me quer. Por isso disse aquelas coisas absurdas para você, até mesmo apontando o filho dela como sendo meu. Ela sabe que apenas a palavra "filho" é um grande ponto fraco para você, visto que não podia engravidar, até agora. — Miguel acariciou o braço onde minutos atrás havia injetado o conteúdo de sua mais recente pesquisa. — E por isso está usando a criança para que você desista de mim e me entregue de bandeja a ela — disse ele.

Natália assentiu pensativa.

De fato, Lola não parecia estar bem de suas faculdades mentais e havia provado na ida de Natália à casa dela. Claro que a criança era incrivelmente parecida com Miguel, mas certamente havia uma explicação, como o tal "doppelgänger" de qual Ana citou. Além disso, Miguel parecia extremamente sincero e estava dizendo e mostrando coisas que realmente faziam sentido.

— Eu também vi a criança, Natália, e ele realmente lembra a mim — Miguel respondeu aos pensamentos silenciosos dela. — Mas juro por tudo o que é mais sagrado e por meu amor a você que não me deitei com Lola, a não ser uma vez e foi quando nós namorávamos. Por favor, acredite em mim.

Natália olhou para o rosto do homem que amava mais que tudo.

O olhar de Miguel brilhava de sinceridade e determinação. Dava para ver que ele não estava mentindo e acreditaria em sua palavra. Aquilo tudo não passava de uma coincidência, ela pensou aliviada. Seu rosto devia estar muito vermelho de tanto chorar, mas as lágrimas não caíam mais. Se caíssem, seriam de alegria por ter um homem tão maravilhoso a seu lado. O amava mais que tudo e jamais abriria mão dele, nem mesmo por Lola. Entendia a dor e a confusão da prima, mas não entregaria seu marido por conta de invenções sem cabimento. Talvez, Lola não estivesse fazendo aquilo por mal, mas teria que ser mais cautelosa com a prima a partir daquele momento.

Depois de tanto chorar, Natália sorriu a primeira vez para seu amado.

— Eu acredito em você — Disse convicta.

Miguel também sorriu e a beijou suavemente.

— Eu te amo, Natália — disse apaixonado. — Você é tudo para mim e quero que saiba disso.

Natália assentiu ainda sorrindo.

— Eu já sei. E também quero que saiba que o amo mais que tudo.

Miguel fechou os olhos, sentindo Natália acariciar-lhe o rosto. Ela parecia tão frágil com o rosto vermelho e inchado depois de tanto chorar. Certamente estava com dor de cabeça.

— Um momento — Ele pediu ao se livrar carinhosamente da mão dela e saiu da cama, pegando a seringa e a depositando dentro de um pequeno compartimento em cima da cômoda do quarto.

Miguel abriu a segunda gaveta e tirou uma caixa de remédios, pegando uma cartilha de comprimidos para dor de cabeça. Como já havia uma jarra d'água e um copo em cima da cômoda, ele não precisou ir até a cozinha. Certamente Natália havia tomado outros remédios antes e ele não queria que ela se viciasse.

Ele colocou um pouco de água no copo e foi até onde ela estava, entregando-lhe o comprimido e o copo com água. Natália aceitou de bom grado e tomou tudo.

— Boa menina. — Miguel sorriu para ela e depositou o copo em cima do criado-mudo ao lado da cama.

Natália cobriu-se com o cobertor e olhou para trás quando Miguel deitou-se atrás dela.

— Me perdoe por desconfiar de você, meu amor — Ela disse arrependida.

Miguel puxou o corpo de Natália para junto do seu e beijou seu pescoço.

— Não se preocupe com isso, meu amor. A culpa não é sua — ele disse brincando com a aliança de casamento dela. — Agora vá dormir.

Natália assentiu e tratou de fechar os olhos, dando um leve suspiro de cansaço, mas também de alívio.

Miguel largou a mão de Natália e segurou o corpo dela contra si.

A amava muito e vê-la sofrer o irritava de uma forma inexplicável. Mas Lola Gregori pagaria por aquilo. Faria a maldita viúva arrepender-se amargamente do que fez. 

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