sexta-feira, 30 de setembro de 2022

AOP (parte 1) - capítulo 10




Lola passou levemente os dedos sobre as fotos dela e de Claus no álbum. Não havia um momento em que não pensasse em seu falecido marido. Mesmo que já tivesse passado um dia após sua revelação a Natália, ainda sentia-se triste pelo que acontecera. Não podia culpar a prima por ter se apaixonado por um homem como Miguel, mas ainda assim, Natália tinha que saber de toda a verdade, ainda que o remorso viesse à tona.

Ela cruzou as pernas e apoiou com maior cuidado o álbum preto de fotos em seu colo. Claus parecia tão jovial e alegre nas fotos e ela sabia que vivera momentos incríveis ao lado dele. Mas antes do episódio lamentável que ela insistia em esquecer, Claus tinha sido um homem íntegro e capaz de conquistar muitos ao seu redor. Era um homem aventureiro e sempre lhe dizia que algum dia ambos viajariam pelo mundo.

Os olhos de Lola ficaram marejados com a lembrança.

Infelizmente, aquele dia não havia chegado e nunca chegaria. Desde o primeiro momento em que Claus soubera de sua gravidez, ficara tão ou mais feliz que qualquer ganhador de loteria. Ele queria muito ser pai e Lola também queria carregar no ventre um fruto do amor dos dois. Até que a felicidade dentro de sua casa foi embora para nunca mais voltar; Claus havia desconfiado da aparência de Nicollas, visto que o menino não se parecia com nenhum dos dois, e logo exigira uma explicação.

Lola suspirou em tristeza.

Ela havia tentado de tudo. Infelizmente, tivera que lhe contar sobre o lamentável episódio com Miguel, o que acendeu ainda mais a chama do ciúme e da discórdia em seu casamento. Mesmo sendo tão cavalheiro e paciente desde antes do namoro, Claus já não lhe dava mais ouvidos, pois estava cego de raiva. Em nenhum momento ele havia tentado fazer algum mal físico a ela, mas sua raiva e frieza indicavam que o casamento estava praticamente acabado, fazendo Lola sofrer ainda mais. Até que um dia, Lola tentaria resolver as coisas com seu marido e dar um fim de uma vez por todas àquele sofrimento, o que não seria tão impossível, pois ainda existia uma esperança de que aquela história toda fosse um engano. E, em quinze de novembro daquele mesmo ano, Claus havia sido morto por atropelamento. Se antes Lola já estava sofrendo, a alma dela passara a não existir mais após o que acontecera a seu marido. Ela jamais soubera o que havia provocado o acidente e em nenhum momento de sua vida tivera a coragem de fazer um exame de DNA em seu pequeno filho. Preferiu deixar as coisas como estavam, pois nada poderia ser mudado ou até mesmo trazer Claus de volta.

— Dona Lola, Nick já está tomado banho e bem limpinho — Disse Samantha, tirando-lhe de seus tristes pensamentos. — Eu o coloquei para brincar no cercadinho.

Lola olhou para a jovem babá que já estava ajeitando as coisas para ir embora e assentiu.

— Sim. Obrigada, Samantha. — Lola fechou o álbum de fotos e o pôs de lado no sofá. — Vai sair direto daqui para algum lugar?

Samantha sorriu, mas Lola manteve-se séria ao analisar a babá de seu filho. Samantha lembrava, e muito, sua prima. Porém, os sorrisos de ambas eram diferentes. Enquanto o sorriso de Natália era de uma menina-mulher ingênua, o de Samantha era de uma garota esperta que sabia o que queria, ainda que a babá fosse alguns anos mais nova.

Lola lamentou profundamente. A ingenuidade de Natália ainda faria muito mal a ela.

— Vou me encontrar com meu namorado — Disse Samantha. — Nós vamos ao cinema hoje.

Lola assentiu. Era final de semana e Samantha estava saindo para se divertir, assim como várias outras pessoas. Ela olhou para Nick brincando no cercadinho. Talvez o levaria para passear também.

— Divirta-se e tenha juízo.

Samantha sorriu ao pegar sua bolsa de lado. Às vezes, sua patroa de vinte e três anos falava como uma senhora de cinquenta.

— Pode deixar, dona Lola. Até segunda. — A babá disse e soprou um beijo.

— Até — Lola respondeu, mas continuou a olhar para o filho.

Sim, faria aquilo. Levaria seu bebê para passear um pouco, ainda que o passeio fosse mais para ela, pois Nick sempre passeava com Samantha. Lola precisava espairecer um pouco a mente e pensar no que faria dali em diante. Já havia contado a verdade a Natália e sentia que um peso havia sido tirado de suas costas, ainda que a prima possivelmente não havia acreditado em nada do que ela dissera. Para dizer a verdade, pensou ela irônica, era difícil até ela mesma acreditar.

— Dona Lola, a senhora tem visita — A voz um pouco mais alta de Samantha vindo da entrada lhe despertou. — Até!

Lola ouviu Samantha sussurrar um "com licença" do hall de entrada e notou que tinha visita. Ela levantou-se à contragosto e cruzou a sala para atender quem quer que fosse. Quem poderia ser?

Ah, meu Deus.

Lola deteve o passo imediatamente e paralisou ao ver Miguel encostado na parede do hall com os braços cruzados e um olhar ameaçador, apesar dos lábios esboçarem um sorriso.

— Miguel? — Ela falou assustada.

— Olá, Lola. Há quanto tempo...

Lola engoliu em seco e olhou para a porta fechada. Não queria estar no mesmo recinto que aquele homem, mas certamente ele não a deixaria fugir. Teria que lidar com a presença dele ali, pois não poderia sair sem Nick, além de que, não faria o menor sentido fugir de sua própria casa.

— O que você está fazendo em minha casa?

Miguel desencostou-se da parede e Lola deu um passo atrás.

— O que estou fazendo aqui? — ele perguntou com um humor sinistro. — Acho que você deve saber.

Lola não respondeu, mas já devia saber. Com certeza Natália devia ter contado e exigido explicações dele. Era por isso que Miguel estava ali e, mesmo não demonstrando, ele devia estar furioso. Mas quem ele pensava que era para ficar furioso?, Lola pensou irritada. Aquele homem havia desgraçado sua vida e por isso não tinha nenhum direito de ir até sua casa para tirar satisfações.

— Parece que você deu com a língua nos dentes e contou sobre nós para a Natália. Não é?

— Não existe "nós", Miguel — Lola disse firme embora estivesse tremendo por dentro. — Nunca houve.

Miguel sorriu e cruzou a sala como se aquele fosse um espaço seu. Lola quase tropeçou ao segui-lo.

— Quero que saia da minha casa!

Os olhos de Miguel pousaram na criança brincando no cercadinho, alheia a discussão dos dois adultos.

— Ora, ora, ora... — Miguel assobiou admirado. — E não é que ele é mesmo parecido comigo?

Lola ficou ainda mais nervosa. De uns tempos para cá, Miguel já não era mais uma pessoa de confiança e agora acreditava que aquele homem era capaz de tudo para conseguir o que queria. Teria que estar atenta caso ele tentasse fazer algo a ela ou a seu filho.

— O que você quer, Miguel?

Miguel olhou para ela. O mesmo olhar sinistro e ameaçador continuava lá.

— Depois de perturbar a cabeça de minha esposa, você ainda me pergunta o que quero?

— Eu não perturbei a cabeça dela — Lola defendeu-se. — Apenas contei o que já estava entalado em minha garganta há muito tempo.

— Ah, é mesmo? — Miguel inclinou a cabeça. — Você devia ver como ela estava, Lola. Ela chorou muito por sua causa.

Lola indignou-se. Como ele ousava?

— Minha causa? — ela disparou. — Foi você quem causou isso tudo!

Mesmo encarando seu pior inimigo, Lola apiedou-se por Natália. Também tinha visto a prima chorar e sabia que aquilo devia ter sido difícil para ela, mas o que poderia fazer? Havia guardado aquele segredo por tanto tempo justamente por não querer magoá-la e aquilo só havia trazido ainda mais sofrimento.

Miguel arqueou as sobrancelhas.

— É mesmo, Lola? E o que foi que eu fiz?

Lola deu mais um passo para trás ao vê-lo se aproximando. Aquele homem parecia não estar para brincadeiras. Mesmo sabendo que ele queria provocá-la, teria que ser cuidadosa por Nick.

— Isso é o que eu lhe pergunto — ela gaguejou nervosa. — O que você  fez comigo naquele dia, Miguel?

Miguel sorriu mais uma vez. Se algum dia duvidara que aquele homem fosse um psicopata, agora tinha certeza.

— Então quer dizer que você deixou Natália naquele estado apenas por não ter certeza do que eu supostamente tenha feito com você?

Lola olhou aflita para o menino que agora os observava atentamente.

— Como eu vou saber? Acordei na cama do meu quarto completamente desorientada por causa de alguma droga que você injetou em minha bebida!

Lola já estava farta da ironia e cinismo daquele homem. Não queria se aborrecer na frente do filho, mas ver aquele homem agir de forma tão descarada e hipócrita a irritava ainda mais. Contudo, antes que pudesse fazer ou dizer qualquer coisa, Miguel disparou em sua direção e entrelaçou fortemente os dedos na parte de trás dos cabelos dela, forçando-a a encará-lo.

— Escute aqui, sua vagabunda — Miguel rosnou de forma ameçadora enquanto Lola o encarava amedrontada. — Você  não tem provas de nada, então não fale como se tivesse certeza.

Lola tentou se soltar, mas Miguel era muito mais forte que ela.

— Não tenho culpa de você ser uma louca que não conseguiu segurar seu próprio marido e agora está tentando infernizar a vida de minha mulher ao dizer que este menino é meu filho.

Lola cravou as unhas no pulso em que Miguel lhe puxava os cabelos numa tentativa vã de se soltar.

— Sim, você tem razão. Nick não é seu filho, ele é meu e de Claus — Lola bradou. — Claus é o pai dele e sempre será, independente do sangue!

Miguel desatou a rir e a soltou bruscamente. Lola tentou se equilibrar, tendo como salvamento a mesa de centro.

— Como eu já devia saber — Miguel a encarou de forma insolente, ainda com o maldito sorriso no rosto. — Você é uma louca.

Lola não queria se permitir chorar na frente dele, mas não pôde evitar que uma lágrima caísse em sua face ao ser tratada por algo que não era. Ela a enxugou rapidamente ainda o encarando.

— Quase acabou com meu casamento com Natália por causa de uma dúvida, fazendo ela acreditar que esta criança é meu filho, para agora dizer que tem certeza de que Claus é o pai dele? — Ele riu. — Você está pior do que eu imaginei.

Lola permaneceu em silêncio, deixando-se ser humilhada. Todo o orgulho que adquirira com o passar dos anos estava ruindo por conta das palavras do homem que, agora, era a pessoa que ela mais abominava no mundo. Ainda que tivesse o que dizer, não conseguiria, pois se tentasse dizer qualquer coisa, cairia aos prantos.

Miguel deu mais alguns passos à frente, não na direção de Lola, mas de Nick. Lola olhou aflita para o filho que olhava atentamente para o homem que mais parecia ser uma versão adulta dele. Miguel se agachou e procurou chamar a atenção do menino.

— Saia de perto do meu filho — foi mais uma súplica do que um pedido ou uma ordem.

Miguel ignorou-a.

— Sabe, apesar da situação ser um tanto complicada, pude explicar tudo direitinho para Natália — Miguel disse sem encarar Lola, enquanto brincava com o chocalho que Nick segurava. — Eu disse que havia duas razões para você ter dito aquilo. Você quer saber quais?

Lola engoliu em seco e olhou com pesar Nick brincar com aquele homem. Miguel não esperou Lola responder.

— A primeira é que você deve estar louca por causa da morte de Claus — ele disse ainda interagindo com o menino. — E, a segunda, é que você está louca de amor por mim e está usando a criança para me fisgar. — Ele sorriu com sarcasmo ao olhar para a expressão de indignação e espanto de Lola. — Muito conveniente, não?

Lola já não pôde mais aguentar e seus olhos abriram todas as barreiras d'água que outrora a estavam impedindo de chorar na frente dele. Como ele podia ser tão cínico e dizer aquilo para Natália? Agora sua prima tomaria raiva dela por causa das mentiras daquele maldito!

— Saia! — Lola bradou com uma mistura de ódio e desespero. — Saia da minha casa agora, seu desgraçado!

Miguel olhou de Lola para o menininho e deu-lhe um leve toque carinhoso na ponta do nariz. Ele se levantou e encarou Lola com mais seriedade.

— Tudo bem, eu saio. Mas, antes, quero que saiba de algo — Disse em tom de ameaça. — Não pude impedir você de abrir essa maldita boca para Natália e o estrago foi feito. Mas agora te digo com toda a certeza que, se você ousar chegar perto de Natália novamente, farei você se arrepender.

Lola não parava de tremer de medo e de raiva, mas conseguiu acompanhar o olhar dele indo em direção ao cercadinho de Nick. O desespero lhe veio à mente. Não. Seu filho, não!

Miguel voltou a encará-la.

— Sim, Lola — Disse ele como se tivesse lido seus pensamentos. — Chegue perto de Natália mais uma vez e eu prometo que você nunca mais verá o seu filho, assim como o seu querido maridinho.

Lola soluçou alto.

— Foi você, não foi? — ela disse com a voz embargada enquanto encarava o rosto arrogante. — Foi você quem matou o Claus...

Miguel lhe deu um sorriso sinistro antes de chegar perto de seu ouvido.

— Você não tem provas — Ele sussurrou fazendo-a tremer ainda mais.

Miguel assumiu a posição de antes e deu um último olhar ao menino antes de atravessar a sala até o hall de entrada. Ele olhou mais uma vez para Lola que não parava de tremer, o olhar distante.

— Já está avisado, Lola. Não brinque comigo ou o seu filho pagará o preço.

Lola fechou os olhos com força ao ouvir a porta de entrada bater violentamente.

Mais e mais lágrimas invadiram sua face e ela não sabia mais se elas eram de medo ou apreensão por poder perder seu filho para aquele homem. Ela tentou em vão secar as lágrimas e correu para o cercadinho, pegando seu menino no colo. Lola encheu o rosto do menino de beijos, apesar de saber que o mesmo não fazia ideia do que estava acontecendo. Ela deixou-se cair no sofá, acolhendo o filho nós braços e o embalando com mais aflição do que afeto.

— Foi ele... — Ela disse com a voz chorosa para seu filho, mas mais para si mesma.

Gostava muito de Natália, mas teria que fazer o que Miguel havia lhe ordenado. Em qualquer situação que houvesse, evitaria falar com ela, por um bem maior. Ela tinha quase certeza de que a prima também evitaria ter qualquer contato com ela por conta das mentiras do marido, o que, infelizmente, era melhor. Sim, seria melhor daquele jeito. Parecia ser loucura acatar as ordens de um psicopata que havia desgraçado com sua família, mas não arriscaria perder seu filho para ele, assim como perdera o marido.

— Foi ele... — Lola abraçou seu filho, ainda chorando.

Não, ela não tinha prova alguma. Mas agora nada lhe tirava da cabeça que Miguel havia assassinado Claus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário