Ainda em alta velocidade, Miguel estacionou o carro em frente ao hospital maternidade, o que causou o espanto e surpresa de algumas pessoas que passavam por perto. Ele saiu do carro e sem demora adentrou a recepção do hospital. Natália estava lá, prestes a dar a luz ao primeiro filho deles e ele prometera segurar a mão dela quando chegasse a hora do parto.
Ele havia feito tantas loucuras e estava longe de ser uma pessoa boa. Estava triste, abatido, com raiva de tudo e de todos. Mas, mesmo que tivesse perdido a paciência com a esposa por conta dos descontroles emocionais que tivera recentemente, Natália era um anjo que não merecia sua raiva.
Por conta de ter descontado toda a sua frustração em cima dela, teve que vê-la chorando por sua causa, e aquilo o fazia sentir-se ainda pior. Mas, a partir daquele momento, Miguel pôde perceber que não era Natália quem merecia sua fúria, mas alguém em particular. Ele não perdeu tempo e tentou fazer o que queria há muito tempo, mas teve que voltar para casa pôr conta da espera, pois não queria que algo mais desse errado e gerasse desconfiança. Obviamente, aquela maldita espera o havia estressado muito, mas agradeceu por ter chegado no instante em que Natália estava para dar à luz, o que era um ótimo momento para concretizar o que tinha em mente. No final, não conseguiu finalizar o que havia começado, mas o que havia ocorrido já valia de alguma coisa. Não que se contentasse com tão pouco, mas aquilo já era um avanço e não desistiria tão fácil do que pretendia; ainda que um dia seu humor melhorasse e conseguisse superar todo aquele trauma, Álvaro sempre estaria em sua mira.
Parado em frente ao balcão, Miguel pegou seus documentos no bolso da calça e completou o contrato de internação do hospital quando ouviu duas enfermeiras conversando atrás dele.
— Ela está completamente transtornada — Disse a enfermeira mais velha quando Miguel olhou de soslaio para as duas. — Começou a falar coisas sem sentido, como dar a própria filha.
— Meu Deus — falou surpresa a enfermeira mais jovem. — Talvez ela esteja sozinha e com medo. Pode ser sua primeira vez como mãe.
— Não, ela tem um marido — a enfermeira mais velha explicou. — Ela me disse para não falar nada a ele, como se estivesse com medo.
— Ou será que o marido dela é agressivo? — perguntou a mais jovem. — Pode ser isso também.
— Eu acho que ela está passando por um problema não muito comum que ocorre depois da chegada dos bebês: depressão pós-parto. Porém, se ela realmente estiver passando por maus tratos com o marido, chamamos a polícia.
Miguel estreitou o olhar em desconfiança.
A recepcionista entregou-lhe os documentos e Miguel os pegou de volta.
— Muito obrigada, Sr. Franco — A jovem recepcionista agradeceu. — Sua esposa está no quarto 318.
Miguel assentiu e agradeceu, mas não pôde evitar que surgisse um sentimento de culpa por não estar com a sua esposa, segurando sua mão na hora do parto.
— A enfermeira o acompanhará até lá — A recepcionista disse indicando a enfermeira mais jovem que antes estava conversando com outra mais velha, mas que agora não se encontrava mais ali.
A jovem enfermeira sorriu educadamente para ele.
— Boa tarde, Sr. Franco. Por favor, queira me acompanhar.
Miguel seguiu a enfermeira. Mas em vez de ela ir na direção do elevador, andou até onde estavam todos os bebês. Miguel queria ver Natália, mas sentiu seu coração pulsar ao pensar em ver o filho pela primeira vez.
— Aqui ficam as incubadoras. — A jovem enfermeira indicou. — Seu bebê é adorável.
Mesmo com o humor ainda irritadiço, Miguel conseguiu esboçar um leve sorriso. Queria logo ver seu bebê.
Ele olhou em volta, vendo bebês de todos os tamanhos, meninas e meninos saudáveis, outros mais frágeis. Contudo, seus olhos se fixaram nos meninos. Qual seria o seu?
— Não demorou muito para nascer e a Sra. Franco não sofreu muito para dar a luz. Para falar a verdade, ela até mesmo desmaiou no final do parto.
Miguel a encarou com a expressão interrogativa.
— Desmaiou? — ele indagou um tanto incômodo. — O que houve com ela?
A enfermeira deu-lhe um sorriso tranquilizador.
— Não foi nada demais, não se preocupe — ela o confortou, a voz suave. — Ela apenas se aliviou das dores das contrações, e por isso o desmaio.
Miguel engoliu em seco ao sentir um mal estar vindo de dentro. Não era nada físico, mas emocional. Queria estar ao lado dela, como prometera antes, segurar sua mão, dizer-lhe palavras de motivação e conforto. Tê-la deixado nas mãos dos enfermeiros e fazer o que tinha em mente, talvez não tenha sido uma boa ideia. Ainda porque quase nada havia saído como o planejado. Agora Natália estava sozinha por sua causa. Mas logo a encontraria e pediria perdão por suas recentes atitudes. Não estava nem um pouco bem, ele sabia disso, mas Natália não deveria ficar envolvida em seus problemas, ainda mais com a chegada do bebê.
Miguel assentiu pensativo.
— Entendo. — Ele tornou a olhar para a cabine onde se encontravam pequeninos e frágeis bebês dentro de encubadoras. — Então, qual dos meninos é o meu filho?
A enfermeira esboçou um grande sorriso.
— Não, não é um menino — disse ela. — Nasceu uma linda menina. Aquela ali.
Miguel franziu o cenho sem entender e olhou na direção onde a jovem enfermeira apontou: uma menina mais saudável que muitos outros bebês que ali haviam, envolta em alguns retalhos e brincando com algum brinquedo imaginário no ar.
Qualquer pai se sentiria orgulhoso e apaixonado por sua criança. Qualquer pai veria aquela cena e se comoveria por ter dado a vida a um ser tão frágil e inocente. Qualquer pai estaria orgulhoso de sua esposa e colocaria o mundo a seus pés, confortando-a e protegendo-a.
Miguel não pôde evitar que seus olhos se perdessem na escuridão.
Ele olhou para aquela menina, sua própria filha, e não sentiu absolutamente nada, apenas indiferença. E não era apenas indiferença que estava sentindo, mas uma forte e profunda raiva.
Nada saía como ele queria. Miguel tinha medo de que um dia fosse enlouquecer, mas a verdade é que ele já havia enlouquecido e sabia que não teria volta, nem mesmo controle de suas ações dali para frente — sejam elas quais fossem.
♤
Natália suspirou deitada no travesseiro.
Era entediante e monótono estar internada naquele lugar, queria estar de volta em casa, apesar daquele ser seu primeiro dia na maternidade. Teria que aguentar mais algumas semanas à frente até conseguir alta do hospital. Por enquanto, o que mais queria era ter seu bebê, sua filha, aninhada em seus braços e notar com quem a menina mais se parecia, se era com ela ou com Miguel.
Miguel...
Ela ainda não havia esquecido o que dissera para a enfermeira, nem tampouco as exigências do marido. É claro que agora, pensando de forma mais racional, ela achava ter exagerado um pouco. Miguel queria um filho homem, mas isso não significava ele ter que abandoná-la com a criança só porque Natália não havia lhe dado o que ele tanto queria. Pensar naquilo beirava o absurdo.
Miguel podia não estar bem, mas ele jamais faria algo para magoá-la, ele não era assim. Ele apenas precisava de um tempo e ela daria a ele. E no fundo, ela sabia que lá na frente ele voltaria a ser o que era, o homem maravilhoso que conhecera e sempre amaria.
A porta se abriu e dela surgiu outra enfermeira; essa era mais jovem.
— Sra. Franco, como está? — A enfermeira perguntou de modo cortês.
Natália tentou devolver-lhe o mesmo sorriso educado, mas estava fraca demais.
— A minha filha... Eu vou poder vê-la? — Perguntou num fio de voz.
— Só mais tarde, senhora. Ou amanhã cedo — a enfermeira respondeu.
Natália suspirou triste. Queria muito ver a sua menininha.
— Mas o seu marido chegou e está aqui para vê-la.
Natália ergueu a cabeça, alarmando-se um pouco com a notícia.
Miguel estava lá, mas ela não sabia ao certo se queria vê-lo ou não. Tudo estava sendo muito confuso. Mesmo assim, seu coração começou a ficar acelerado pela expectativa de vê-lo novamente.
Miguel entrou sem nem mesmo ser anunciado e olhou para ela.
Não era um olhar de amor ou aquele mesmo olhar vazio e perdido de outrora. Era o mesmo tipo de olhar que ele havia dado para seu ex-superior do Instituto, um olhar de raiva intensa.
Natália sentiu-se encolher e todo o seu corpo tremer, embora a temperatura do ambiente estivesse amena.
Provavelmente ele já sabia.
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