quarta-feira, 16 de novembro de 2022

AOP (parte 1) - capítulo 21



Natália sentiu seu coração pulsar de modo acelerado e lhe faltar o ar aos pulmões.

Novamente, aquele não era Miguel, mas uma casca do homem que amava.

A enfermeira, que estava alheia ao clima tenso entre o casal, continuou a sorrir educadamente e abriu a porta.

— Vou deixá-los a sós. Qualquer coisa que precisarem, podem me chamar que estarei por perto — Disse e se retirou.

Miguel nem ao menos dirigiu sua atenção a enfermeira ao entrar no quarto.  Os olhos sombrios estavam fixos em Natália. O clima dentro do quarto, mesmo depois da enfermeira ter saído, estava tenso e sombrio. Natália sentia-se temerosa e aflita com a postura do marido, mas ela nada podia fazer, pois Miguel já havia descoberto.

— Miguel... — Ela falou numa voz fraca.

Miguel continuou onde estava e continuou a fitá-la da mesma forma. Natália engoliu em seco. Aquele homem não parecia ser o seu marido. Por que as coisas tiveram que mudar tanto?

— Por favor, fale comigo — Ela pediu.

Após um momento de longo silêncio, Miguel abriu a boca e deu mais um passo à frente.

— Me pergunto, afinal, o que eu falaria a você? — ele indagou, a voz grave. — Eu não tenho nada para falar com você, Natália.

Natália continuou a olhar para o marido e sentiu seus olhos marejarem antes de abaixar a cabeça.

— Mas uma coisa conseguiu despertar minha atenção — Ele disse dando mais um passo em direção a ela. — Uma menina, não é?

Natália voltou a olhar para ele e notou que Miguel estreitou os olhos e travou o maxilar, parecendo estar prestes a explodir de raiva. Os lábios de Natália tremeram.

O que ela poderia responder? E como conseguiria evitar aquilo tudo? Havia suplicado para a primeira enfermeira tentar resolver a situação e logicamente suas palavras foram dadas como absurdas. Mas mesmo que estivesse quase cedendo ao desespero, já não poderia se ver sem a sua menininha. Amava sua filha antes mesmo de ela nascer.

— Me perdoe, Miguel... — Foi tudo o que ela pôde dizer.

Miguel continuou a fitando intensamente.

— Eu não quero o seu maldito perdão — ele disse de modo rude. — Se você soubesse o ódio que estou sentindo...

Natália olhou para baixo numa tentativa de se desviar do olhar sombrio de Miguel, mas de nada adiantou, pois ele andou em sua direção e abaixou-se com o rosto próximo ao dela. De modo impaciente, ele pegou-lhe o queixo e a fez olhar para ele.

— Olhe para mim — Ele rosnou. — Eu pensei que você não fosse me contrariar, mas eu me enganei.

Natália sentiu-se perdida diante daqueles olhos verde-claros. Antes o que via lá era um olhar de amor, agora era de ódio.

— Mas... — Ela soluçou. — Eu não tenho culpa, Miguel. Não tinha como eu saber. Como eu poderia controlar isso?

Miguel esboçou um sorriso sinistro, mas também deixando demonstrar todo o seu desespero e frustração. Ele soltou o queixo de Natália e se recompôs à postura de antes.

— Você não tem ideia do que quero fazer — Disse, a voz sinistra. — Você não tem ideia do que vou fazer com você.

— Miguel, por favor... — Natália suplicou.

Ela nunca pensou que algum dia fosse ter medo do próprio marido, mas agora a situação era diferente. Miguel estava lá, mas, ao mesmo tempo, não estava. Tudo o que ela podia fazer seria implorar a Deus para que seu marido voltasse a ser o que era ou que aquilo tudo não passasse de um pesadelo.

— Se eu fosse você, não falaria mais nada — Ele ameaçou, o mesmo semblante sombrio e sinistro.

Miguel saiu de perto dela e abriu a porta do quarto.

— Para onde você vai? — Natália perguntou aflita.

Ele nem mesmo olhou para ela.

— Vou resolver essa situação agora mesmo — ele disse e se retirou.

Natália pulou de susto com a forte batida da porta e sentiu seu coração apertar.

Ela estava com muito medo de toda aquela situação, mas agora não era só por ela, mas também pela filha deles. Miguel estava completamente transfigurado, parecendo ser uma outra pessoa, e uma parte de si lhe dizia que ele tentaria fazer algo em relação à criança.

Lágrimas, antes escondidas, agora caíram em sua face e o rosto de Natália transfigurou-se pela dor e tristeza. A dor emocional estava sendo mil vezes maior do que a incômoda dor física que estava sentindo. Aquela angústia parecia não ter fim e agora as coisas estavam chegando a um patamar absurdo e perturbador. Quando vira o rosto surpreso e preocupado de Miguel ao vê-la prestes a dar a luz, seu coração encheu-se de esperança de que o homem que amava pudesse voltar. Mas agora tudo estava perdido e fora de controle.

Natália soluçou alto várias vezes, a face molhada ocultada pelas mãos.

Que Deus ouvisse suas preces e fizesse tudo aquilo não passar de um terrível sonho.


Era um sonho, não era?

Tudo o que havia acontecido até ali fora um pesadelo, como pedira em suas preces. Não era?

Natália abriu os olhos. Ela havia dormido após tanto chorar. Seu corpo estava fraco e ela estava sentindo-se sem forças para qualquer coisa.

Ela olhou em volta.

Aquele era o quarto de hospital em que estava internada após ter dado a luz à sua filha. Sua menininha que não havia visto até o momento.

Ela suspirou frustrada e preocupada.

Estar naquele lugar significava que tudo havia sido um pesadelo? Talvez estivesse lá para dar a luz, mas Miguel permanecia o mesmo de sempre. Não era? Ele continuaria sendo o mesmo de sempre, o homem amável que ela tanto admirava e amava. Nada daquela tortura psicológica de antes havia acontecido. Por Deus, que aquilo tudo fosse apenas fruto de sua imaginação.

A porta se abriu e mais uma vez a jovem enfermeira entrou.

— A minha filha — Natália adiantou-se em pedir, a voz tão suave e fraca. — Vou poder ficar com ela agora?

Sim, havia tido uma menina e Miguel ficaria muito contente, assim como ele também estaria se ela tivesse dado a luz à um menino.

— Eu vim aqui para lhe dizer exatamente isso, Sra. Franco. A senhora poderá ter alta a partir de hoje e vai poder ficar com a sua filha — disse a jovem enfermeira.

Natália franziu o cenho sem entender.

— O que? — Perguntou confusa. — Estou boa para ir para casa?

— O seu marido, o Sr. Franco, nos pediu para que a senhora pudesse ter alta e ir para casa e o Dr. Mauro concordou, contanto que a senhora fique em descanso e observação por pelo menos duas semanas — a enfermeira respondeu.

Natália assentiu pensativa.

Então, havia sido mesmo um pesadelo? Miguel não parecia querer ter distância dela, mas a queria por perto. Não apenas ela, mas também a filha deles. Agora só lhe restava entender até que ponto aquilo tudo havia sido pesadelo ou realidade. Mas apenas em saber que Miguel permanecia o mesmo já a fazia sentir-se melhor.

— Vou poder ficar de repouso em casa? — Natália perguntou esperançosa.

A enfermeira sorriu educada.

— Sim, senhora — respondeu. — Estou aqui para ajudá-la a se aprontar. Antes, terei que retirar estes tubos, mas já aviso que irá doer um pouco.

Natália não se importou. Seu corpo estava dolorido e mais um pouco de dor não faria muita diferença, ainda mais naquele momento em que sentia a alegria invadindo o seu coração por seu amado marido estar de volta.


Natália usava um vestido diferente, branco e leve com desenhos de rosas enfeitados por todo o tecido e seu cabelo estava preso num coque. O céu estava escuro pela noite e Miguel a ajudou a andar até o carro enquanto ela caminhava com dificuldade, carregando sua linda menina nos braços. Ela era tão linda e se parecia com o pai.

Natália fitou o marido.

Miguel parecia sério desde o momento em que o vira depois de ter deixado o quarto do hospital. Ele estava quieto demais e ela lembrou-se de se perguntar silenciosamente até que ponto tudo aquilo havia sido um pesadelo ou realidade. Certamente, o episódio horrível da demissão, de fato, tinha sido verídico; por isso ele parecia estar tão distante.

Miguel a ajudou a entrar no banco do passageiro e depois tomou seu lugar no assento do motorista. Natália aninhou a filha nos braços e sorriu.

Nem tudo parecia bem, mas sua vida não havia virado de cabeça para baixo como havia pensado.


Natália franziu o cenho, confusa, perguntando-se o que estava havendo com o marido.

Miguel havia descido do carro, mas ao invés de abrir a porta para que Natália pudesse descer, ele permaneceu estacado no mesmo lugar, olhando para o nada, como se estivesse num transe. Mas antes que Natália pudesse chamá-lo, Miguel voltou-se para onde Natália estava e destrancou a porta, ajudando ela a sair com a criança e entrar em casa.

Por mais que parte do que acontecera até ali fosse apenas um sonho ruim, Miguel parecia tão quieto em seus pensamentos, para não dizer estranho. Se ele havia sido demitido, ela sabia o quão doloroso estava sendo para ele. Mas agora a família havia aumentado e as coisas iam se ajeitar dali para frente.

De modo cuidadoso, Miguel pegou a menina dos braços de Natália e a colocou dentro do berço que ele e Natália haviam comprado para o filho deles. A criança já estava dormindo e soltou um leve gemido depois de ter sido colocada no pequeno colchão pelo pai.

Natália observou a cena e achou um pouco estranho Miguel não ter esboçado nenhum sorriso ou olhar de amor para ela ou para a filha até o momento. Mesmo assim, permaneceu de pé, parada, olhando para o homem que amava. Miguel voltou a sua atenção a Natália e deu uns passos em direção a ela, também parando à sua frente.

Natália esperou que ele dissesse algo, devido ao seu olhar intenso, que ele cuidasse dela ou até mesmo lhe desse um beijo. Entretanto, antes que pensasse ou dissesse qualquer coisa, Natália mais sentiu do que viu as costas da mão de Miguel bater em seu rosto, jogando-a com força na cama. Natália gritou ao ser atingida e tentou apoiar-se de bruços, completamente desorientada.

Ela não estava entendendo. O que estava acontecendo? Afinal, parte de tudo aquilo não havia sido um pesadelo?

Natália olhou por cima do ombro, assustada, e percebeu que Miguel estava tirando o cinto da calça que estava usando, juntando a ponta e a fivela para fazer o que pretendia. Ela arqueou surpresa e horrorizada antes de sentir a primeira cortada nas pernas.

Natália gritou com o impacto do cinto em sua pele. Miguel jamais havia tocado num fio de seu cabelo e agora seu rosto e suas pernas ardiam pela dor, além das dores que estava sentindo no corpo após o parto.

Seus olhos marejaram, não só pela dor física, mas também pela profunda tristeza em seu interior. Então as lágrimas finalmente saíram e Natália caiu em prantos, agarrada ao travesseiro enquanto Miguel marcava furiosamente o seu corpo. Ela nada falava, nem ele. Natália apenas gritou e chorou copiosamente ao sentir suas pernas arderem cada vez mais com o impacto da surra.

Miguel grunhia a cada avanço do cinto sobre ela. Ele não falou ou gritou qualquer coisa, mas todo o ódio que sentia estava sendo refletido naquele terrível ato. Natália apenas chorava enquanto ele marcava o seu corpo. O que ela poderia fazer para se defender? Miguel era muito mais forte do que ela e Natália estava fraca demais após o parto. Toda a dor em seu corpo estava sendo tão grande que, por um momento, Natália perdeu completamente os sentidos, faltando-lhe o ar e a voz. E então, ela afundou-se na escuridão.


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